quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Abadia de Cluny: “alma da Idade Média”


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A abadia de Cluny, na Borgonha, França, hoje está em ruínas.

Mas ruínas que transmitem uma sublime mensagem. Porque essa abadia foi habitada pela “alma da Idade Média”.

Foi fundada em 910 pelo Bem-aventurado Bernon em terras doadas pelo Duque da Aquitânia, Guilherme o Piedoso.

Nela se sucederam quatro grandes Abades santos — Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo — durante dois longos séculos.

Celeiro de Cluny
A França comemora o aniversário 1100 aniversário da fundação da Abadia de Cluny, a mais célebre e grandiosa da Idade Média, destruída pelo furor dos adeptos da Revolução Francesa a partir de 1789.

O Centro Nacional de Monumentos reuniu, pela primeira vez cerca de 130 obras de arte, esculturas, mosaicos, jóias e alguns dos melhores manuscritos com iluminuras medievais pertencentes ou relacionados com a mítica abadia.

Prestigiosas instituições e coleções particulares prestaram seu concurso.

A organização e direção de uma exposição artística e científica foi confiada a Neil Stratford, curador-chefe emérito do Museu Britânico e membro da Academia das Inscrições e Literatura.

O Prof. Stratford explica a exibição no vídeo:




A abadia de Cluny foi arrasada pela barbárie anticristã dos seguidores da “Filosofia das Luzes”.

No século XXI, a tecnologia digital permitiu reconstituir a imagem daquela que foi a maior igreja da Cristandade medieval: Cluny III.

A denominação “Cluny III” indica que foi a terceira igreja erigida no mesmo local pelos mesmos monges. Algo freqüente na Idade Média, era de continuado progresso, aperfeiçoamento e requinte.

Veja a reconstrução digital:



No vídeo seguinte: como se vivia num mosteiro medieval, o exemplo Cluny.

1) breve histórico e descrição de Cluny: igreja, estábulos, fábricas, claustro, sala capitular, refeitório, dormitório, cozinha, padaria, hospital e hospedagem (em espanhol).

2) como viviam os monges medievais: atividades (em espanhol)..

3) o pouco que sobra hoje de Cluny (em inglês).


Planta de Cluny III


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domingo, 20 de janeiro de 2008

O velho conde que se fez ermitão

A Idade Média esteve longe de ser uma época sem falhas. O que ela teve de característico foi a procura da sublimidade nas coisas e nos gestos de alma. Receba flashes da Idade Média por Email.

Esta procura do belo moral e material foi partilhada por inúmero de almas que deram a tônica da Idade.

Aconteciam assim, em continuidade, episódios que parecem lendas, mas foram realidades históricas. O acontecido a Guy de Maience foi um caso entre muitos outros.

O velho conde Guy de Maience habitava um castelo às margens do Reno, lá adiante, perto da embocadura do rio, não longe do "mar salgado". Era um infatigável caçador, e tivera em toda sua vida apenas duas belas paixões: a batalha e a caça do bosque.

Ora, um dia em que ele perseguia um veado pela floresta a dentro, não foi pequena sua surpresa, e nem sua irritação, ao ver o animal se refugiar no pequeno quintal de uma ermida, e logo o eremita cair aos seus pés e pedir clemência pelo animal já sem fôlego:

— "Não, não! Não há clemência" — exclamou o conde.

E lançou no animal o grande dardo que tinha na mão. Mas a flecha, mal dirigida, atingiu o eremita e lhe atravessou o coração.

Os anjos desceram do céu para recolher sua alma.

Nada pôde exprimir então a dor do assassino involuntário: "Eu juro tomar o lugar deste que matei — diz ele — e viver nesta ermida até o fim de minha vida!"

E o nobre terminou seus dias como piedoso ermitão.

(Fonte: Léon Gautier, "La Chevalerie")

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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Esplendor das Universidades medievais


Não é verdade que a Idade Média tenha sido uma época de estreitamento intelectual, escreveu Jean Guiraud.

O testemunho que ela deixou de si mesma nos dá uma impressão toda contrária.

O século que precedeu a Renascença, o século XIV, foi, no dizer de M. Coville, “uma época de grande atividade intelectual”.

A Universidade de Paris exercia a profissão de fazer falar a “razão no seio da Igreja – Ratio dictans in Ecclesia”. Gerson a chamava “nosso Paraíso terrestre no qual estava a árvore da ciência do bem e do mal”.

Seus ensinamentos tinham gerado centenas de mestres seguidos por milhares de estudantes.

“A Faculdade de Artes nos dá, em 1349, 502 mestres regentes (titulares); em 1403 já havia 790, e esse número é inexato. No sínodo de Paris de 1406, Jean Petit falava de mil mestres e um assistente o interrompeu para retificar, afirmando existirem dois mil”.

Não se saberia determinar o número dos estudantes. Juvenal de Ursins diz seriamente, a propósito de um desfile em 1412:

“O desfile foi feito da Universidade de Paris até Saint-Denis; e quando os primeiros estavam em Saint-Denis, o reitor estava ainda em Saint-Mathurin, rua Saint-Jacques”.

Isto significa um cortejo de estudantes com mais de 12 quilômetros de extensão!

Universidade de Coimbra

E isto não nos deve deixar admirados porque, já no século XIII, estimava-se em 30.000 a população universitária de Paris e em 20.000 a de Bologna.

Tornando-se mais importante pelo seu renome e a multidão de seus mestres, a Universidade de Paris tinha numerosas rivais na França e na Europa inteira.

O mundo cristão apresentava uma população de estudantes tão considerável, que mesmo nossos tempos não podem superá-la em número.

Ora, durante todos os séculos da Idade Média, este povo de estudantes tinha dado provas de uma vida intelectual intensa.

“Em certas ruas, escreve M. Coville, não havia casa sem escola; de todo lado se elevavam as construções imponentes dos colégios; em toda parte ensinava-se, discutia-se.

A vida se passava em longos comentários de autores e em argumentação ou 'disputas', segundo a expressão consagrada.

“Havia as sessões solenes de argumentação na Faculdade de Artes, nos colégios da Navarra e da Sorbonne onde estes exercícios se prolongavam mesmo durante o recreio.

“É ao começo do século XIV que se reporta a instituição da sustentação dita “Sorbonnique” onde o autor devia sustentar uma tese durante doze horas.

“A Universidade nunca havia tido uma atividade intelectual tão intensa”.

Essas controvérsias, tocando as questões as mais graves, eram encorajadas pela própria Igreja.

Capela da Universidade de Coimbra

O Anjo da Escola, São Tomás de Aquino, não havia ensinado que a razão pode render conta da fé e que a teologia é uma ciência?

“Seriam necessários inúmeros volumes – nos diz Victor Le Clerc – para enumerar a multidão dos teólogos que floresceram no século XIV, teólogos esses tão numerosos e tão fecundos que se faziam notar pelo ardor de suas especulações”.

(Fonte: Jean Guiraud - “Histoire Partiale, Histoire Vraie”)

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