domingo, 14 de março de 2010

Os teólogos medievais sistematizaram racionalmente as provas da existência de Deus

A Idade Média sistematizou as vias para provar a existência de Deus
Nós encontramos nas Sagradas Escrituras provas divinas da existência de Deus: é Deus se revelando a Si próprio.

Os Apóstolos, Padres e Doutores da Igreja demonstraram sua existência das mais variadas e admiráveis formas, com ciência, sabedoria e eloqüência.

E isto sem falarmos da sublime luminosidade do Evangelho em que a divindade de Jesus Cristo patenteia-se, por assim dizer em cada palavra inspirada, na sua Vida e Morte, nos seus ensinamentos, conselhos e exemplos.

Entretanto, coube a grandes santos medievais a sistematização das várias vertentes, ou vias, por onde se prova a existência de Deus com evidência como que matemática .

Esta forma de provar é especialmente útil nos nossos dias. Pois há uma certa asneira moderna que gostaria reduzir a Fé a um mero sentimento subjetivo, e a piedade a uma dulçurosa experiência.

Nessa perspectiva a Igreja seria a congregação, ou beatério, de subjetivistas melosos mas perfeitamente irracionais. A realidade positiva poria de lado essas sentimentalidades, próprias de mulheres e espíritos débeis.

São Tomas de Aquino, óleo na catedral Notre Dame de Paris
Entretanto, o arcabouço lógico-filosófico medieval reduz a cinzas essas ofensivas objeções.

O raciocínio lógico e o vôo místico conjugados são uma nota distintiva do espírito da Era da Luz.

O mais grande dos teólogos medievais ‒ e de todos os tempos ‒ São Tomás de Aquino classificou as provas da existência de Deus, em cinco vias, em função das causas admitidas pela filosofia perene ‒ isto é a filosofia que não se pode negar sem cair em erro ou loucura.


PRIMEIRA VIA: O MOVIMENTO

Na “primeira via” entram as provas da existência de Deus pelo movimento. Isto é, é evidente que as coisas se movem. E se movem porque alguém ou algo as põe em movimento. Nenhum carro anda sozinho. Indagando quem causou o movimento, acabamos encontrando um motor. Quem pôs em movimento esse motor? O motorista. E quem pôs em movimento o motorista? Prosseguindo com a indagação acabamos encontrando no fim do inquérito que é necessária a existência de um motor primeiro e único. Esse é Deus.

Assim explica São Tomás na sua célebre “Suma Teológica” (I, 2,3)

“É inegável, e consta por testemunho dos sentidos, que no mundo há coisas que se movem. Pois bem: tudo o que se move é movido por outro, já que nada se move a não ser enquanto está em potência com relação aquilo para o que se move.

“Por outro lado, mover requer estar em ato, já que mover não é senão fazer passar algo da potência ao ato, e isto não o pode fazer senão o que já está em ato, do mesmo modo que o quente em ato ‒ o fogo ‒ faz com que um madeiro, que está quente só em potência, passe a estar quente em ato.

Relógio de Praga
“Ora bem: não é possível que uma mesma coisa esteja, ao mesmo tempo, em ato e em potência em relação a algo; só em relação a diversas coisas; e assim, o que é quente em ato não pode estar quente em potência para esse mesmo grau de calor, mas só para outro grau de calor mais alto, ou seja, que em potência está ao mesmo tempo frio.

“É, pois impossível que uma mesma coisa seja ao mesmo tempo e do mesmo modo motor e móvel, ou que se mova a si mesma. É preciso concluir, por conseguinte, que tudo o que se move é movido por outro. Mas se este outro é, por sua vez, movido por um terceiro, este terceiro necessitará outro que o mova a ele, e este a outro, e assim sucessivamente.

“Mas não se pode proceder indefinidamente nesta série de motores, porque então não haveria nenhum motor primeiro e, por conseguinte, não haveria motor nenhum, pois os motores intermediários não movem senão em virtude do movimento que recebem do primeiro, da mesma maneira que um bastão não se move se a mão não o impulsiona.

“É necessário, por conseguinte, chegar a um motor primeiro que não seja movido por ninguém, e este é o que todos conhecemos como Deus”.

                                                                                                                         

No mundo que nos rodeia há uma infinitude de coisas que se movem. É um fato que não precisa demonstração: basta abrir os olhos para contemplar o movimento por todos os lados.

A imensidão infindável do céu exige um motor primeiro
Ora bem: pondo de lado o movimento dos seres vivos, que, precisamente em virtude da própria vida, têm um movimento imanente que lhes permite crescer ou ir de um lado para outro sem outra influência aparente a não ser a de sua própria natureza ou a de sua própria vontade, é um fato claro e indiscutível que os seres inanimados (ou seja, todos os que pertencem ao reino mineral) não podem mover-se a si mesmos, e pelo contrário necessitam que alguém os mova.

Se ninguém move uma pedra, esta permanecerá quieta e inerte por toda a eternidade, já que ela não pode mover-se a si mesma, já que carece de vida e, por isso mesmo, está desprovida de todo o movimento imanente.



Apliquemos então este princípio tão claro e evidente ao mundo sideral e perguntemo-nos quem pôs e põe em movimento essa máquina colossal do universo estelar, que não tem em si mesma a razão do seu próprio movimento, já que se trata de seres inanimados pertencentes ao reino mineral; e por mais que queiramos multiplicar os motores intermediários, não teremos remédio senão chegar a um Motor Primeiro imóvel incomparavelmente mais potente do que o próprio universo, já que o domina com poder soberano e o governa com infinita sabedoria.

Verdadeiramente, para demonstrar a existência de Deus basta contemplar o espetáculo maravilhoso de uma noite estrelada, sabendo que esses pontinhos luminosos espalhados pela imensidade dos espaços como pó de brilhantes são sóis gigantescos que se movem a velocidades fantásticas, apesar da sua aparente imobilidade.

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6. Provas racionais da existência de Deus. A Igreja Católica: Construtora da Civilização

(A partir desta aula, as três partes estão num só arquivo)



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