domingo, 3 de outubro de 2010

O simbolismo do leão: Jesus Cristo; e da leoa: Nossa Senhora (2)


continuação do post anterior

O demônio enganou o homem; Deus venceu o homem, que não o reconheceu, e depois ao diabo, mediante sua adequada virtude. Se o demônio tivesse sabido que aquele homem mortal era Deus, não o havia conduzido à crucificação.

Assim Deus obrou habilmente, sem que o demônio se dessa conta; Deus se ocultou de nosso inimigo, que não soube que Deus era aquele homem até que o comprovou. Deus se ocultou tanto que os anjos do céu que estavam no Paraíso não o reconheceram. Por isso, quando voltou o Filho de Deus em majestade para o lugar de onde havia partido quando se encarnou por nós, perguntaram aos anjos que estavam com ele:

“‒ Quem é esse rei de glória que regressa com o triunfo?”

Os que estavam com Deus deram a seguinte resposta:

“‒ Este é o rei de glória que regressa com o triunfo.”

E os anjos que estavam no céu também perguntaram:

“‒ Por que carrega roupas de cor vermelha?”



Os anjos e Nosso Senhor responderam:

“‒ Pelo martírio que temos sofrido na terra para conquistar vossas almas.”

E assim entendemos, através das pegadas do leão, que Deus quis ocultar-se para enganar o demônio.

O leão teme o galo branco e o ruído dos carros em movimento, e tal é sua índole que dorme com os olhos abertos. E isso haveis de entender nas figuras que vês.

O galo branco significa os homens de vida virtuosa que anunciaram sua morte antes que Deus falecesse. Ele muito a temia, pois era homem, e o texto sagrado demonstra que o próprio Deus disse:

“‒ Pai, perdoa-Me pela morte que devo sofrer: que Tua vontade não se detenha por mim.”

Assim mostrou ser homem em sua morte. Tal e como o homem é alma e corpo, Cristo é Deus e homem. E sabeis que Deus disse a São Pedro o seguinte: que lhe negaria três vezes antes que o galo cantasse. Em sua honra, o galo canta todas as horas, dia e noite, e nós, igualmente, cantamos a prima, a terça e meio-dia, e rezamos dia e noite para o Nosso Criador.

León, British Library, Royal MS 12 C xix, Folio 6r
Por isso, cantam os freires da matinas ao alvorecer: então Deus foi julgado, golpeado e atado; e ao sair o Sol os clérigos cantam a prima, pois então Deus ressuscitou e nos arrancou da morte. E cantamos a terça, quando é a hora da terça, pois então Deus foi castigado e elevado na cruz.

E às doze, os clérigos cantam a hora do meio-dia: então se produziu a escuridão, quando foi morto na cruz; o Sol se escureceu e não deu luz devido à autêntica luz da dor que Deus sofreu devido à Sua humanidade, não à Sua divindade.

E falamos tudo isso lendo a Paixão; recorde-a, pois tem um profundo sentido. Cantamos as nonas, porque a essa hora o espírito se retirou, tremeu a terra e se quebraram rochas de diversas formas. Recorde-o, pois tem um profundo sentido. E se cantam as vésperas ao entardecer, porque então Seu corpo autêntico foi encerrado no sepulcro.

Assim, ficam cumpridas as vésperas, que significa que Deus cumpriu tudo ao vencer o demônio; então veio silencium, que chamamos silêncio. Começa o repouso, e então nos calamos e os diabos se movem, que sempre atuam de noite, quando deixamos de rezar eles se põem a deambular: pela noite, os demônios, que chamamos de negros, têm o poder de obrar, pois são filhos de Neron [N. T.: Satanás].

Por isso, quando chega o dia, eles fogem da luz e nós, com a claridade, louvamos o Criador, nos levantamos com o dia e recitamos nossas preces. Ouvi, graças ao magistério, o que significa o carro.

O carro designa, na verdade, os quatro filhos de Deus: Marcos, Mateus, sem dúvida, Lucas e São João, e o ruído significa a morte do Filho de Maria que eles anunciaram ao mundo, em virtude da qual as gentes ficavam redimidas: Jesus, por ser homem, tinha medo.

Nossa Senhora é a leoa, mãe do Leão de Judá.
Nossa Senhora dos Reis, Sevilha.
E sabeis outra atitude do leão: ele é de tal índole que dorme com os olhos abertos.

Sabeis que isto representa o Filho da Virgem Maria, enquanto velava em Sua morte, quando destruiu a morte mediante a morte, chamou o demônio à morte e disse que seria sua morte, sua destruição e nosso descanso. E em Sua morte velou, quando encarcerou o demônio; mediante Sua morte, venceu a Satanás, nosso inimigo. E mercê à morte do Senhor, nos foi dado repouso, e assim entendemos o sonho do leão.

Figuradamente, o leão também tem outra propriedade: no dia em que vê um homem a primeira vez, se põe a tremer; e podeis comprovar isso mirando essas ilustrações.

O temor do leão mostra razoavelmente que Deus se humilhou ao encarnar-Se em um homem, pois teve divindade primeiro que humanidade, assim como o homem é alma e corpo, do mesmo modo foi Deus e homem. E isso é suficiente a esse respeito. Escutai outra questão.

Sabeis que a leoa trás ao mundo seu filhote morto, e quando o tem, chega o leão, que tantas voltas dá em seu redor, rugindo, que no terceiro dia o filhote ressuscita. E esta propriedade mostra o sentido seguinte.

Sabeis que a leoa representa a Virgem Maria e o leãozinho a Cristo, que morreu pelos homens. Durante três dias jazeu na terra para conquistar nossas almas, segundo sua natureza humana, não segundo a divina. Igualmente obrou Jonas, que permaneceu dentro do peixe.


Entendemos pelo rugido do leão a virtude de Deus; mercê a ela, Cristo ressuscitou, arrancado do Inferno. Tal é o significado que não deveis esquecer. Na verdade, isto diz sobre a autoridade do leão.”

Fonte: Philippe de Thaün. Le Bestiaire (ed. E. Walberg), H. Möller, Paris-Lund, 1900. In: MALAXEVERRÍA, Ignacio. Bestiario Medieval. Madrid: Ediciones Siruela, 2000. Esse é o mais antigo bestiário francês, escrito em versos de seis sílabas (3.194 versos), e segue com bastante fidelidade o texto latino do Physiologus (séc. III-V d.C.). Seu autor, de origem anglo-normanda, dedica sua obra a Aelis de Louvain, segunda esposa de Henrique I da Inglaterra (1100-1135), no manuscrito conservado em Londres; em outro exemplar, guardado em Oxford, a dedicatória é para Eleonor, esposa de Henrique II (1154-1189). Os manuscritos, ilustrados ou com vazios reservados para as iluminuras, contém prólogos em latim e indicações para o artista. Os 38 capítulos deste bestiário, editado por Walberg, estudam os quadrúpedes, as aves e as pedras (um pequeno lapidário), sucessivamente, e Philippe se refere a suas fontes como Physiologus, bestiaire, un livre de grammaire, Ysidre (Isidoro) e escripture. 


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