domingo, 30 de janeiro de 2011

Torneio que comemorou a reedificação de Windsor (5)

Justa medieval, Cambrai
Justa medieval em Cambrai
continua no próximo post

Mas, por mais seguro que ele pudesse estar de seus escudeiros, examinou com uma atenção toda especial o modo pelo qual estava equipado o corcel; tirando a seguir sua espada, certificou-se de que a lâmina era tão boa quanto a empunhadura era bela; depois, fazendo prender do pescoço uma outra targa, subiu em sua montaria tão agilmente como o podia fazer um homem coberto de ferro.

A atenção dos espectadores era grande, pois, ainda que Messire Eustache de Ribeaumont tivesse colocado no seu desafio toda a cortesia possível, não era menos evidente que desta vez era uma verdadeira justa, e ainda que não fosse animada por nenhum ódio pessoal, a rivalidade das duas nações devia lhe dar um caráter de gravidade que não podiam ter os embates que a precederam.



Assim, Eduardo foi tomar seu lugar na liça no meio do mais profundo silencio.

Messire Eustache, vendo-o chegar, pôs sua lança em riste; Eduardo fez o mesmo; os juízes do campo bradaram com voz forte: “Deixai ir'', e os dois campões lançaram-se um contra o outro.

O cavaleiro tinha dirigido sua lança contra a viseira e o Rei a sua contra a targa, e os dois apontaram tão precisamente que o elmo de Eduardo lhe foi arrancado da cabeça, enquanto sua lança golpeara com tal força o cavaleiro que ela se quebrou a um pé do ferro, mais ou menos, e um pedaço ficou enfiado na armadura.

Por um instante pensou-se que Messire Eustache estava ferido; mas o ferro, atravessando a armadura tinha se detido na cota de malha; de sorte que, vendo pelo murmúrio que se elevara qual era o temor dos espectadores, ele próprio arrancou o ferro e saudou uma segunda vez a Rainha, como sinal de que não tinha nenhum mal.

O Rei retomou um outro elmo e outra lança e cada um tendo feito um giro e retornado a seu lugar, os marechais deram novamente o sinal. Desta vez, os campeões escolheram um alvo semelhante e golpearam-se em pleno peito.
Choque entre cavaleiros medievais, Warwick

O golpe foi tão violento que os dois cavalos levantaram as patas dianteiras mas seus donos permaneceram nas selas, semelhantes a pilares de bronze; quanto às duas lanças, romperam-se como vidro e os estilhaços saltaram até às arquibancadas onde estava o povo.

Os escudeiros aproximaram-se então com novas lanças; cada um armou-se da sua e, ganhando seu lugar, aprestou-se para uma terceira justa.

Por rápido que fosse o sinal, ele ainda se tinha feito esperar para o gosto de ambos adversários; pois, tão logo que foi dado, os cavalos se lançaram como se partilhassem os sentimentos de seus donos.

Esta vez, Messire Eustache conservou o mesmo alvo; mas Eduardo, tendo mudado o seu, sua lança atingiu tão exatamente a viseira que arrebatou o elmo do cavaleiro, enquanto a lança deste golpeava em pleno peito com uma tal rijeza que o cavalo do Rei sentou e, neste movimento, o cinto tendo-se rompido, a sela deslizou ao longo do dorso, de sorte que Eduardo se achou de pé, mas em terra.

Cavaleiro, Hedingham Castle
Cavaleiro, Hedingham Castle
Seu adversário saltou em seguida à terra, e encontrou Eduardo já desembaraçado de seus estribos. Tirou incontinenti sua espada, cobrindo a cabeça com seu escudo.

Mas Eduardo lhe fez sinal de que não continuaria o combate enquanto ele não tivesse recolocado um outro elmo. Messire Eustache obedeceu e o Rei, vendo-lhe a cabeça coberta, tirou por sua vez a espada.

Mas, antes de deixá-los recomeçar o combate, dois escudeiros conduziram os cavalos cada um por uma porteira, enquanto dois lacaios recolhiam as lanças que os combatentes deixaram cair. A liça assim desobstruiria, escudeiros e lacaios se retiraram, e os juízes do campo deram o sinal.

Eduardo era um dos mais vigorosos homens de armas de seu Reino; assim, Messire Eustache compreendeu nos primeiros golpes que ele tinha necessidade de utilizar toda sua força e destreza.

Mas ele mesmo, como se pode ver, e como afirmam as crônicas do tempo, era um dos mais valentes cavaleiros de sua época; de sorte que não se surpreendeu nem da violência nem da rapidez do ataque, e respondeu golpe por golpe com um vigor e um sangue frio que provaram a Eduardo aquilo que ele já sabia sem dúvidas que se encontrava em face de um adversário digno dele.

De resto, os espectadores nada haviam perdido por esperar, e o que se passava diante deles esta vez era bem um verdadeiro combate.

As duas espadas, nas quais se refletia o sol, pareciam dois gládios de fogo, e os golpes eram aparados e dados com uma tal rapidez, que não se percebia se eles haviam tocado o escudo, o elmo ou a couraça a não ser vendo jorrar as faíscas que deles saiam.

Elmo, Kaltenberg
Elmo, Kaltenberg
Os dois campeões atacavam sobretudo o elmo; e sob as tentativas redobradas que haviam recebido, o de messire Eustache viu cair seu panache de plumas e o de Eduardo perdeu sua coroa de pedrarias.

Por fim a espada dele abateu-se com uma tal força que, qualquer que fosse a têmpera do elmo de seu adversário, lhe teria sem dúvida fendido a cabeça se messire Eustache não a tivesse aparado com seu escudo.

A lâmina terrível cortou o escudo pela metade, como se fosse de couro, tão bem que tendo sido partida uma das agarradoiras pelo choque, messire Eustache jogou para longe de si a outra metade, que se tornara mais um embaraço que uma defesa e, tomando sua espada com as duas mãos, desferiu por sua vez um tão rude golpe sobre a cimeira do Rei que a lâmina voou em pedaços e que só a empunhadura lhe restou na mão.

O jovem cavaleiro deu então um passo atrás para pedir outra arma a seu escudeiro; mas Eduardo, levantando vivamente a viseira de seu elmo deu por sua vez um passo em frente e, tomando sua espada pela ponta apresentou a guarda a seu adversário.

‒ Messire, disse-lhe com aquela graça que ele sabia tão bem tomar nessas ocasiões, vos agradaria aceitar esta? Tenho, como Forragus, sete espadas a meu serviço e todas são de uma têmpera maravilhosa.

Seria deplorável que um braço tão hábil e vigoroso como o vosso não tivesse uma arma da qual se pudesse valer; tomai-a, pois, messire, e nós recomeçaremos o combate com mais eqüidade.

‒ Aceito, Monseigneur, respondeu Eustache de Ribeaumont, erguendo por sua vez a viseira de seu elmo, mas a Deus não compraza que eu ensaie o gume de uma tão bela arma contra aquele que m’a deu. Eu me reconheço, portanto, vencido, Sire, tanto por vossa coragem como por vossa cortesia, e esta espada me é tão preciosa que faço aqui o juramento sobre ela, e por ela, de jamais, nem em torneio nem em batalha, entregá-la a outro senão a vós.

O rei venceu a justa de aço, e Eustache de Ribeumont a justa da cortesia.

(Fonte : Alexandre Dumas, « La Comtesse de Salisbury », Calmann-Lévy, Editeur, Paris, 1878, T.I, pp.247 a 261)

Fim

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