domingo, 12 de junho de 2011

Idade Média: ingenuidade ou entendimento superior das coisas?

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O famoso escritor e educador do século XIX Charles de Montalembert, Par da França, deixou luminosas páginas relativas à Idade Média e as deturpações dessa era histórica por parte dos autores liberais com os quais, alias, partilhava muitas idéias. Eis uma dessas páginas, por exemplo:

Na Idade Média os homens de ciência estudavam a natureza com o cuidado escrupuloso que os católicos deveriam colocar no estudo das obras de Deus.

Não faziam dela um corpo sem vida superior, nela procuravam sempre relações misteriosas com os deveres e crenças do homem remido pelo seu Salvador; viam nos costumes dos animais, nos fenômenos das plantas, no canto dos pássaros ou nas propriedades das pedras preciosas, outros tantos símbolos de verdades consagradas pela fé.

As pedantes nomenclaturas não tinham ainda invadido e conspurcado o mundo reconquistado para o Verdadeiro Deus pela Igreja.

Ia-se, na noite de Natal, anunciar às árvores das florestas a chegada do Salvador. “Aperiatur terra et germinet Salvatorem”. A terra, em retribuição deveria produzir rosas onde o homem derramasse sangue, e lírio onde caíssem lágrimas...

Quando morria uma santa, as flores das redondezas viam-se na obrigação de murcharem todas, ou a menos inclinarem-se quando da passagem do féretro.

Quando à noite o pobre elevava os olhos para o céu, não era a via-láctea de Juno que ele via, mas o caminho que guiava os seus irmãos peregrinos a Compostela, ou o caminho que os bem-aventurados tomavam para ir ao Céu...

As flores, estas, sobretudo, ofereciam um mundo povoado das mais encantadoras imagens, numa linguagem muda que exprimia os mais ternos e vivos sentimentos.

O povo católico, em combinação com os doutores, dava a esses doces objetos de sua atenção quotidiana os nomes dos entes queridos, isto é, dos apóstolos, dos santos favoritos, das santas cuja inocência e pureza pareciam refletir-se na beleza pura das flores.

Maria Santíssima, essa Flor das flores, essa Rosa sem espinho, esse Lírio sem mancha, tinha uma incontável legião de flores embelezadas e encarecidas aos olhos do povo por seu doce nome.

Era como se fossem relíquias suas, esparsas por toda parte, e sempre renovadas.

Os grandes sábios de nossos dias preferiram substituir à sua lembrança a de Venus.

Citemos apenas um exemplo do grosseiro materialismo que caracteriza as nomenclaturas de hoje: Quem não conhece a encantadora florzinha, conhecida geralmente na França, por “olhos da Santa Virgem”?

O pedantismo moderno preferiu substituir essa expressão por “Myosotis scorpioides”, que ao pé da letra significa “orelha de rato com ar de escorpião”. Eis o que se chama progresso científico!

(Fonte: Charles Forbes René, conde de Montalembert (18.3.1810 Londres ‒ 13.3.1870 Paris), “Introduction à l'histoire de Sainte Elisabeth de Hongrie”, Pierre Téquin, libraire, editeur, 27ª edição, 1922, Tomo I, pág. 156).



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