domingo, 30 de janeiro de 2011

Torneio que comemorou a reedificação de Windsor (5)

Justa medieval, Cambrai
Justa medieval em Cambrai
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Mas, por mais seguro que ele pudesse estar de seus escudeiros, examinou com uma atenção toda especial o modo pelo qual estava equipado o corcel; tirando a seguir sua espada, certificou-se de que a lâmina era tão boa quanto a empunhadura era bela; depois, fazendo prender do pescoço uma outra targa, subiu em sua montaria tão agilmente como o podia fazer um homem coberto de ferro.

A atenção dos espectadores era grande, pois, ainda que Messire Eustache de Ribeaumont tivesse colocado no seu desafio toda a cortesia possível, não era menos evidente que desta vez era uma verdadeira justa, e ainda que não fosse animada por nenhum ódio pessoal, a rivalidade das duas nações devia lhe dar um caráter de gravidade que não podiam ter os embates que a precederam.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Torneio que comemorou a reedificação de Windsor (4)

Choque na lide epoca medieval, Kaltenbergcontinuação do post anterior

Desta vez, o Conde de Derby apontou ainda sua lança contra a targa de seu adversário, enquanto Eduardo, voltando a seu primeiro objetivo, havia, como no início, tomado o elmo do Conde como ponto de mira.

Ambos, nesta circunstância, deram uma nova prova de sua destreza e força, porque pela violência do golpe que recebeu seu dono, o cavalo de Eduardo parou em seco e dobrou os joelhos traseiros, enquanto que a lança do Rei atingiu tão exatamente o meio do elmo que, rompendo as amarras que o seguravam ao pescoço, arrancou o capacete do Conde de Derby.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Torneio que comemorou a reedificação de Windsor (3)

Torneio medieval, Warwickcontinuação do post anterior

Os marechais haviam longamente insistido para que sob nenhum pretexto os campeões pudessem usar outras armas que não as chamadas armas corteses. Visto que o Rei deveria ser um dos 'defensores', era de se temer que algum ódio pessoal ou alguma traição se esgueirasse na liça.

Eduardo havia então respondido que ele não era um cavaleiro de parada, mas um homem de guerra e que se ele tinha um inimigo, sentir-se-ia muito à vontade em lhe oferecer esta ocasião de chegar até ele.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Torneio que comemorou a reedificação de Windsor (2)

Torneio Idade Media, Kaltenbergcontinuação do post anterior

Ao meio-dia, vinte e quatro trombetas saíram tocando do castelo, no meio de aclamações da multidão, a quem anunciavam por fim o espetáculo tão impacientemente esperado por ela desde a manhã.

As trombetas eram seguidas de sessenta corcéis equipados para a justa e montados por escudeiros de honra, portando gonfalões que mostravam os brasões de seus amos.

Depois dos escudeiros vinham o Rei e a Rainha, ornados com suas vestes reais, tendo na cabeça a coroa e o cetro à mão e entre ambos, sobre um belo corcel cujas crinas douradas pendiam até o chão, o jovem Príncipe de Gales, o futuro herói de Crécy e Poitiers, que iria fazer no torneio seu aprendizado de guerra.

Detrás deles cavalgavam, “pêle-mêle”, duzentos ou trezentos cavaleiros cobertos de armas brilhantes, com escudos desenhados com brasões ou divisas, de viseira erguida ou abaixada, caso quisessem ser reconhecidos ou guardar o incógnito.

Enfim, o desfile terminava com uma multidão incontável de pajens e lacaios, uns sustentando no punho falcões encapuzados, os outros conduzindo cães que no pescoço portavam bandeirolas com as armas de seus donos.

Esta magnífica assembléia atravessou toda a cidade ao passo e em boa ordem, para chegar ao Castelo de Windsor, situado a vinte milhas de Londres. Apesar desta distancia, uma parte da população a acompanhou, correndo através dos campos, enquanto o cortejo seguia a estrada.

Combatente medieval, KaltenbergO Rei havia previsto esta concorrência e, fora do espaço das tendas reservadas para os cavaleiros, havia feito construir uma espécie de acampamento onde podiam bem se alojar dez mil pessoas. Cada um estava pois seguro de achar um alojamento segundo sua condição: os senhores no castelo, os cavaleiros nas tendas, o povo ao relento.

Chegou-se a Windsor com noite fechada, mas o castelo estava tão bem iluminado que parecia um solar de fadas.

De seu lado, as tendas estavam dispostas como as casas de uma rua; somente entre elas ardiam tochas colossais que difundiam uma luminosidade comparável à do dia, enquanto nas cozinhas, dispostas de trecho em trecho, via-se um sem número de assadores e de serventes ocupados em detalhes que não eram desprovidos de encantos para paladares que tinham cavalgado desde o meio-dia.

Cada um procedeu à sua instalação, depois ao jantar. Até duas horas da madrugada a noite foi cheia de tumulto e de exclamações alegres.

Por volta daquela hora, o barulho diminuiu gradualmente nas tendas e no acampamento, enquanto as janelas do castelo apagavam-se umas após as outras.

E tudo entrou no repouso e na escuridão. Mas esta trégua nas alegrias não foi de longa duração.

Ao despontar do dia, cada um foi acordando e preparando o espírito; primeiro o povo, que não só devia ser o menos bem localizado, mas ainda receava não ter suficiente lugar.

Sem tomar tempo para desjejuar, cada um foi levando nos bolsos a provisão da jornada. Toda esta multidão escoou então pelas porteiras e espalhou-se como uma torrente no espaço raso que se lhe havia destinado entre a liça e as arquibancadas. Seus temores eram fundados.

Apenas a metade das pessoas que vieram de Londres puderam encontrar lugar; mas nem por isso renunciaram ao espetáculo. Tão logo se certificaram de que não havia mais meio de penetrar no cercado, e que as barreiras continham tudo que elas podiam contar, disseminaram-se pela campina, procurando todos os pontos elevados de onde era possível dominar o espetáculo.

Anacronismo creativo, Rep. ChecaÀs onze horas as trombetas anunciaram que a Rainha saía do castelo. Dizemos a Rainha somente, porque como Eduardo era o 'defensor' dessa jornada, ele já estava na sua tenda.

Madame Philippe (a Rainha) tinha à direita Gauthier de Mauny e à esquerda Guillaume de Montaigu, que deveriam ser os heróis dos dias seguintes. A Condessa de Salisbury vinha logo atrás, conduzida pelo Duque de Lancaster e pelo Príncipe Jean de Hainaut.

A nobre sociedade tomou lugar nas galerias que para esse efeito estavam preparadas e que em um instante tornaram-se semelhantes a um tapete de veludo maravilhosamente bordado com pérolas e diamantes.

Justa medieval, WarwickA liça era um grande retângulo, cercado por paliçadas; nos dois extremos abriam-se as porteiras que deviam dar passagem, uma aos campeães, a outra aos 'defensores'.

No extremo oriental, sobre uma plataforma bastante elevada para que dominasse a liça, havia-se montado a tenda de Eduardo, que era toda de veludo vermelho bordado de ouro. Em cima dela flutuava o pavilhão real, cujos quartéis primeiro e terceiro tinham os leopardos da Inglaterra e no segundo e quarto as flores de lys da França.

Por fim, de ambos lados da porta estavam suspensos o escudo da paz e a ‘targa de guerra’ (targa: parte da armadura usada sobre o peito. Nas liças foi convencionado que o cavaleiro que tocasse a targa de guerra do ‘defensor’ o desafiava para um combate real; enquanto que se tocasse o escudo, o desafiava para um combate de cortesia) do 'defensor'; e dependendo de se os campeães faziam tocar por seus escudeiros ou tocavam eles mesmos um ou outra, solicitavam com isso a simples justa ou desejavam o combate de morte.

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domingo, 2 de janeiro de 2011

Torneio que comemorou a reedificação de Windsor (1)

Cavaleiros, Warwick
Coisa curiosa, os medievais tinham uma vida quotidiana extraordinariamente entretida. Tal vez por isso mesmo, interessavam-se pouco por deixá-la descrita em pergaminhos. Quem iria a ler o que via com seus próprios olhos no dia-a-dia?

Foi preciso que autores de séculos posteriores tentassem reconstituir aquela vida animadíssima da era medieval.

Entre esses, esteve o escritor francês Alexandre Dumas. Romancista de fértil imaginação, ele quis descrever uma justa medieval com fidelidade histórica de pormenores. Para isso foi tirar da celebre crônica de Jean Froissard os dados históricos, como ele mesmo deixa claro em várias partes de sua obra.

Eis o resultado:

WindsorO Rei Eduardo III fez reedificar o Castelo de Windsor, fundado outrora pelo Rei Artur. Ele devia comemorar a reedificação com um torneio e festas.

Enviou em conseqüência arautos à Escócia, França e Alemanha para proclamar que, amigo ou inimigo, cada um, contanto que fosse cavaleiro, podia vir, pela honra, quebrar lanças na justa d'armas de Windsor.

Semelhante convite, da parte de um tão grande Príncipe, como se compreende bem, comoveu toda a Cavalaria. Assim, da Escócia, da França e da Alemanha viam-se chegar, como representação de toda a nobreza do mundo, os mais bravos campeões daquela época.


Alguns já se tinham encontrado nos campos de batalha e sabiam o conceito que deviam formar uns dos outros; mas a maior parte não se conhecia senão pela reputação, e ansiava por se conhecer.

À medida que chegavam, iam se inscrever com os juízes do campo, ora com seu nome, ora sob o pseudônimo que queriam usar; e, no dia seguinte, recebiam de Eduardo III um presente proporcionado à sua nascença ou ao rango que pareciam ter.

De resto, o torneio devia durar três dias, tendo como 'defensores' (‘defensor’ era um dos anfitriões, que desafiava todos os que, em luta cortês ou luta real, quisessem terçar armas com ele), no primeiro dia o próprio Eduardo; no segundo, Gauthier de Mauny, que havia deixado a Bretanha para não perder uma tal festividade; e, no terceiro dia, Guillaume de Montaigu, a quem o Rei, de acordo com sua promessa, acabava de armar cavaleiro, e que devia quebrar lá sua primeira lança. Os três 'defensores' deviam aceitar o combate à lança, espada ou machado; só o punhal estava proibido.

Na véspera da festa de São Jorge (Padroeiro da Inglaterra e da Cavalaria), dia fixado para a abertura das comemorações, a cidade de Londres despertou com o ressoar das trombetas e dos clarins.

Cavaleiro medieval, torneio WarwickOs cavaleiros, que haviam acorrido de diferentes partes do mundo para esta grande cidade, deviam dirigir-se às tendas que o Rei lhes havia feito preparar na planície de Windsor; porque não se podia pensar em hospedar no castelo uma tal multidão de pessoas.

Em conseqüência, desde as oito horas da manhã, todas as ruas que conduziam do Castelo de Londres, ou seja da Praça Santa Catarina à estrada, estavam ornadas com tapeçarias e juncadas de folhas.

De ambos lados, a uns cinco ou seis pés de distância em relação às casas, cordas encobertas por guirlandas de flores, formavam espécies de calçadas nas quais devia circular o povo, enquanto que a parte mais elevada do pavimento permaneceria livre e aberta para os cavaleiros.

Ademais, não havia árvore que não tivesse frutas frescas, não havia janela que não fosse ocupada por pirâmides de cabeças, nenhum terraço que não oferecesse sua seara de espectadores apertados como espigas e ondulantes como elas ao menor ruído que parecia anunciar a aproximação do cortejo.

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