domingo, 31 de agosto de 2014

Cristandade medieval: primavera da humanidade cristã

Detalhe da Igreja Militante. Andrea da Firenze (1366-7). Santa Maria Novella, Florença
Detalhe da Igreja Militante. Andrea da Firenze (1366-7).
Santa Maria Novella, Florença
A concepção do mundo que prevaleceu foi a noção de Cristandade.

Formou-se lentamente, à custa de sangue e lágrimas, e foi-se também perdendo aos poucos.

Por trezentos anos impôs a sua lei, e, evidentemente não por acaso, foi esse talvez o período mais rico, mais fecundo e, sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias.

Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera.

O que inicialmente impressiona a quem analisa o conjunto destes trezentos anos é a sua riqueza de homens e de acontecimentos.

À semelhança da seiva que jorra por todos os lados na primavera, tudo parece agora germinar e desabrochar numa abundância de folhagem sobre o solo batizado por Cristo.

Em todos os âmbitos se manifesta o fervor criativo, a exigência profunda de empreender, de encaminhar a caravana humana para o futuro.

Os mais minuciosos quadros cronológicos não seriam suficientes para captar este impulso.

domingo, 24 de agosto de 2014

A última despedida, o luto e os gisantes medievais

Jazigo definitivo de Felipe Pot, senescal e governador da Borgonha  em seu castelo de Châteauneuf-en-Auxois. O grupo original está no Louvre.
Jazigo definitivo de Felipe Pot, senescal e governador da Borgonha
em seu castelo de Châteauneuf-en-Auxois. O grupo original está no Louvre.
Quando um membro da família senhorial vinha a falecer, era exposto na grande sala do castelo, revestido com seus mais belos ornamentos, e, freqüentemente, embalsamado.

O luto era caracterizado pela cor violeta, e mais raramente pelo preto.

Mas a viúva guardava-o habitualmente de branco, à imitação das Rainhas, às quais a etiqueta prescreve esta cor, o que explica às Rainhas-mães o titulo de 'reines-blanches'.

O caixão, recoberto de damasco dourado ou de tecido vermelho, era conduzido à igreja, não sobre os ombros de servidores ou aldeões, mas sobre os dos mais próximos parentes e dos principais vassalos.

domingo, 17 de agosto de 2014

O cavaleiro medieval

Combate de Roland contra o gigante Ferragut
Combate de Roland contra o gigante Ferragut
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Na Idade Média, os conceitos de cavalaria e de nobreza em certo sentido se confundiam.

Assim, nem sempre o cavaleiro era nobre, mas muitos deles participavam dessa condição; nem todos os nobres eram cavaleiros, embora muitos o fossem.

Que característica do cavaleiro medieval o tornou célebre na História?

O traço marcante foi a Fé.

Daí a coragem que o cavaleiro revelava nas mais terríveis das lutas, as cruzadas, visando libertar o Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tais empreendimentos almejavam esse objetivo no Oriente, e, na Península Ibérica, aspiravam livrar, do jugo maometano, as populações espanhola e portuguesa.

domingo, 10 de agosto de 2014

São Teodorico de Cumbria,
outro rei-monge falecido em combate

Castelo de Sizergh no antigo território do reino de Cumbria.
continuação do post anterior: Reis monges à frente de exércitos: São Sigiberto, rei da Inglaterra

“Os bretões também tiveram em Teodorico um rei soldado e monge, valente soberano cambriano, invencível em todos os combates. Depois abdicou seu trono para se preparar para a morte pela penitência, e escondeu-se numa ilha.

“Mas no governo de seu filho, os saxões do Wessex atravessaram a Savernia, região que lhes servia de limite.

“Aos gritos de seu povo, o generoso velho deixou a solidão onde vivia há dez anos e conduziu de novo os cristãos da Cumbria em luta contra os pagãos saxões. Uma vitória estrondosa foi o preço de seu generoso devotamento.

“A vista do velho rei coberto com sua armadura, montado em seu cavalo de guerra, o pânico apoderou-se dos saxões há muito habituados a fugir dele.

“Mas, em meio à fuga, um bárbaro inimigo voltou-se bruscamente e feriu o rei mortalmente. Assim ele pereceu no meio da vitória”.

(Fonte: Charles Forbes René, conde de Montalembert, “Les Moines d'Occident”, Ed. Lecoffre, 1867, 505 páginas, 4 vol.).

domingo, 3 de agosto de 2014

Reis monges à frente de exércitos:
São Sigiberto, rei de East Anglia, na Inglaterra

Reconstituição do elmo achado em Sutton Hoo
e atribuído a Rædwald rei de East Anglia,
pai de São Sigiberto.

O historiador Charles Forbes, conde de Montalembert (1810 – 1870) no livro “Les Moines d'Occident”(Ed. Lecoffre, 1867, 505 páginas, 4 vol.) descreve um aspecto inesperado da Idade Média: a vida de alguns reis que deixaram a coroa para se tornarem monges e que as circunstancias obrigaram a empunhar de novo a espada para defender seu povo :

“Dia veio em que Sigiberto, rei da Inglaterra, que era não só um grande cristão e um grande sábio de seu tempo, mas ainda um grande guerreiro, fatigado das lutas e desgostos do seu reino terrestre, declarou querer ocupar-se do reino do Céu e combater unicamente para o Rei Eterno.

“Ele cortou os cabelos e entrou como religioso no mosteiro que doara a um amigo irlandês.

“Deu assim o primeiro exemplo, entre os anglo-saxões, de um rei que abandonava a soberania e a vida secular para entrar no claustro e, como se verá, seu exemplo não foi estéril. Mas não lhe foi concedido, como ele esperava, morrer no claustro.

“O terrível Penda, flagelo da confederação anglo-saxônica, chefe infatigável dos pagãos, cobiçava seus vizinhos cristãos do leste e do norte.