domingo, 5 de abril de 2015

Cerimonial de uma ceia real na Inglaterra no início da Guerra dos Cem Anos




No 25 de setembro de 1338, às cinco horas da tarde menos um quarto, o grande salão do Palácio de Westminster ainda não estava iluminado a não ser por quatro tochas mantidas por braços de ferro selados aos ângulos das paredes e das quais o luar incerto e trêmulo tinha grande dificuldade em dissipar a escuridão provocada pela diminuição dos dias, já tão sensível ao fim do verão e começo do outono.

Entretanto essa luz era suficiente para guiar nos preparativos da ceia a criadagem do castelo que se via, no meio do lusco-fusco, apressar-se em cobrir com iguarias e vinhos, os mais apreciados daquela época, uma longa mesa escalonada em três alturas diversas, a fim de que cada um dos convivas pudesse ai sentar-se no lugar que lhe designava seu nascimento ou seu rango.

Logo que os preparativos foram concluídos, o maître d’hotel entrou gravemente por uma porta lateral, fez com vagar o turno de inspeção dos serviços para certificar-se que cada coisa estava em seu lugar; depois, feita a revisão, parou diante de um lacaio que aguardava suas ordens cerca da grande porta, e disse-lhe com a dignidade de um homem que conhece a importância de suas funções: Tudo está bem; soai a água.

Denominava-se “soar a água” (corner l’eau) o ato de dar o sinal de inicio da ceia, porque os convivas lavavam as mãos antes de sentar-se à mesa.


O lacaio aproximou de seus lábios uma pequena trompa de marfim que levava suspensa a tiracolo, e tirou dela três toques prolongados; em seguida a porta se abriu, cinqüenta lacaios entraram uns detrás dos outros, levando tochas à mão, e, dividindo-se em duas fileiras que se estendiam por toda extensão do salão, dispuseram-se ao longo da parede; cinqüenta pajens os seguiram, levando jarras e bacias de prata e colocaram-se na mesma linha que os lacaios; por fim, detrás deles, dois arautos apareceram, abriram a tapeçaria bordada de brasões que servia como porta, e apostaram-se em cada lado da entrada bradando em alta voz: faça-se lugar ao Senhor nosso Rei e à Senhora nossa Rainha da Inglaterra!'

No mesmo instante, o Rei Eduardo III apareceu, dando a mão à Senhora Philippe de Hainaut, sua esposa.

Eles eram seguidos pelos cavaleiros e damas de maior renome na Corte da Inglaterra, que era naquela época uma das mais ricas do mundo em nobreza, valentia e beleza.

Sob o umbral do salão o Rei e a Rainha separaram-se, passando cada um para um lado da mesa e ganhando a extremidade mais elevada.

Foram seguidos nesta espécie de manobra por todos os convivas que, chegados ao lugar que lhes estava designado, voltaram-se cada um para o pajem a seu serviço; este vertia água da jarra na bacia e a apresentava para lavar as mãos dos cavaleiros e das damas.

Esta cerimônia preparatória concluída, os convivas passaram aos bancos que rodeavam a mesa; os pajens recolocaram a prataria sobre as magníficas credencias de onde haviam-na tomado e voltaram para esperar, de pé e imóveis, as ordens de seus senhores.

(Fonte : Alexandre Dumas, « La Comtesse de Salisbury », Calmann-Lévy, Editeur, Paris, 1878, T.I, pp. 1 ss.)



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Um comentário:

Maria das Graças disse...

Muito interessante conhecer os costumes da Idade Média!

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