domingo, 11 de setembro de 2016

Convocação de Cruzada pelo beato Papa Urbano II

A catedral de Clermont-Ferrand construída no local onde o Papa Urbano II pregou a primeira Cruzada.
A catedral de Clermont-Ferrand construída no local
onde o Papa Urbano II pregou a primeira Cruzada.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




No dia 27 de novembro de 1095, no encerramento do Concílio de Clermont-Ferrand, o bem-aventurado Papa Urbano II se dirigiu à multidão de bispos e cavaleiros, maioritariamente franceses, congregados na cidade para um fato transcendental.

Com palavras divinamente inspiradas, o Papa Urbano II hoje nos altares convocou a primeira Cruzada da História. Ele não leu um texto escrito nem ficou registrado com qualquer método moderno.

Mas, a formidável impressão causada pode se medir pela inusitada quantidade de relações de testemunhas presentes. Dentre elas se destacam as versões escritas por Roberto o monge, Guibert de Nogent, Foucher de Chartres, Guilherme de Tiro, Orderic Vital e Balderico arcebispo de Dol.

Em séculos mais próximos, historiadores de renome condensaram esses testemunhos em diversas publicações de grande autoridade.

A continuação apresentamos a condensação feita por Joseph-François Michaud (1767-1839) na sua célebre “História das Cruzadas”, que concorda grandemente com a versão da não menos célebre “História Universal da Igreja Católica” do Pe. René Rohrbacher.

Em outros posts temos reproduzidos outras versões:

Sermão do Beato Urbano II convocando a Primeira Cruzada

Bem-aventurado Papa Urbano II: a versão mais completa do Sermão da Cruzada. Conhecida como “Popolo dei franchi”.

O Patriarca de Jerusalém implora o socorro do Papa e dos Príncipes

A fama das peregrinações ao Oriente fez Pedro (o Eremita) sair de seu retiro. Ele seguiu a multidão dos cristãos à Palestina, para visitar os santos lugares. (...)



Depois de ter seguido seus irmãos ao Calvário e ao Sepulcro de Jesus Cristo, foi ter com o Patriarca de Jerusalém. Os cabelos brancos de Simeão, sua venerável figura e principalmente a perseguição que ele havia sofrido, mereceram-lhe toda a confiança de Pedro: eles choraram juntos os males dos cristãos. (...)

Pedro disse-lhe, que talvez um dia os guerreiros do Ocidente seriam os libertadores de Jerusalém.

Sim, sem dúvida, replicou o Patriarca; quando nossa aflição chegar ao auge, quando Deus se comover, ante nossas misérias, Ele moverá o coração dos Príncipes do Ocidente e os mandará em auxílio da cidade santa. (...)

O Patriarca resolveu implorar por meio de cartas o socorro do Papa e dos Príncipes da Europa. (...)

Depois dessa entrevista, Pedro ficou persuadido de que o céu mesmo o havia encarregado de vingar sua causa.

Um dia, quando estava prostrado diante do Santo Sepulcro, pareceu-lhe ouvir a voz de Jesus Cristo que lhe dizia: Pedro, levanta-te, corre a anunciar as tribulações de meu povo; é tempo de que meus servidores sejam socorridos e os lugares santos, libertados”.

Cheio do espírito dessas palavras que lhe ecoavam continuamente ao ouvido, (...) atravessa os mares, desembarca nas costas da Itália e vem lançar-se aos pés do Papa.

O Imperador de Oriente apela ao Ocidente

Urbano II rumo ao Concílio de Clermont-Ferrand e falando aos bispos.
Urbano II rumo ao Concílio de Clermont-Ferrand e falando aos bispos.
No meio dessa agitação geral, Alexis Comeno (Imperador do Oriente), ameaçado pelos turcos, mandou embaixadores ao Papa para pedir o auxílio dos latinos. (...)

Para responder aos pedidos de Alexis e aos votos dos fiéis, o soberano Pontífice convocou em Piacenza um concílio, a fim de expor os perigos da Igreja grega e da Igreja latina do Oriente. (...) mais de duzentos Bispos e Arcebispos, quatro mil eclesiásticos e trinta mil leigos obedeceram ao convite da Santa Sé. (...)

No entretanto, o Concílio de Piacenza não tomou resolução alguma sobre a guerra contra os infiéis. (...)

Outras razões explicariam o pouco efeito que produziu a pregação de Urbano no concílio de Piacenza.

Os povos da Itália, aos quais o soberano Pontífice se dirigia, estavam entregues ao espírito de comércio, e as preocupações mercantis não vão de acordo com o entusiasmo religioso; além disso, a Itália estava fortemente dominada por um espírito de liberdade, que produzia perturbações e levava a negligência aos interesses da religião. (...)

A conclamação do Beato Urbano II em Clermont-Ferrand

O prudente Urbano (...) para tomar um partido decisivo sobre a guerra santa e para interessar todos os povos ao seu feliz êxito, resolveu reunir um segundo sínodo, numa nação belicosa e, desde aqueles tempos remotos, acostumada a dar impulso à Europa.

O novo concílio, reunido em Clermont, no Auvergne, não foi nem menos numeroso nem menos respeitável que o de Piacenza; os santos e os doutores mais célebres vieram honrá-lo com sua presença e ilustrá-lo com seus conselhos. (...)

O concílio teve sua décima reunião na grande praça de Clermont que logo se encheu de uma multidão enorme.

Seguido por seus Cardeais, o Papa subiu a uma espécie de trono, que haviam erguido para ele; (...)

Urbano II falou nestes termos:


Urbano II em Clermont-Ferrand
Urbano II em Clermont-Ferrand
“Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente.

“Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos Reis, que transmite aos outros os preceitos de uma Fé pura, foi obrigada a servir às superstições dos pagãos.

“De como o túmulo milagroso, onde a morte não pôde conservar sua presa, esse túmulo, fonte da vida futura, sobre o qual surgiu o sol da ressurreição, foi manchado por aqueles que não devem ressuscitar, senão para ‘servir de palha ao fogo eterno’.

“A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da ­sia; (...) as hordas bárbaras dos turcos (...) ameaçam todos os países cristãos.

“Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente? (...)

“O povo digno de elogios, esse povo que o Senhor, nosso Deus, abençoou, geme e sucumbe sob o peso dos ultrajes e das exações mais vergonhosas.

“A raça dos eleitos sofre indignas perseguições; a raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos Sacerdotes.

“Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus.

“Os asilos que esperavam os viajantes pobres na estrada dos santos lugares receberam sob seu teto profanado uma nação perversa; ‘o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos’.

“Que vos direi mais? (...)

“Ai! de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades!

“Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos?

“Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo?

“Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas lágrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja ‘mais forte que a mesma morte’, contra os inimigos do povo cristão.

“Guerreiros que me escutais, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima.

Urbano II no concilio de Clermont
Urbano II no concilio de Clermont
“Chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça.

“Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender ‘a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos exércitos’.

“Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.

“Se triunfardes, as bênçãos do céu e os reinos da ­sia serão vosso prêmio; se sucumbirdes, tereis a glória de morrer nos mesmo lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não se esquecerá de que vos viu em sua santa milícia.

“Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares; soldados do Deus vivo.

“Escutai somente os gemidos de Sião; quebrai todos os liames da terra e lembrai-vos do que o Senhor disse: ‘Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; todo aquele que deixar sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua esposa, ou seus filhos, ou sua propriedade, por Meu nome, será recompensado com o cêntuplo e terá a vida eterna’.

Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações e assemelhavam-se à chama ardente descida do céu. (...)

A assembleia dos fiéis – levados por um entusiasmo que jamais a eloquência humana tinha inspirado – ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras:

Deus o quer! Esse brado (...) ecoou até nas montanhas da vizinhança. (...)

“Vedes aqui, continuou o Pontífice, a realização da promessa divina: Jesus Cristo declarou, que quando seus discípulos se reunissem em seu nome, Ele estaria no meio deles.

“Sim, o Salvador do mundo está agora em nosso meio e é Ele mesmo que vos inspira os brados que acabo de ouvir.

“Que essas palavras: Deus o quer! sejam para o futuro vosso grito de guerra e anunciem por toda a parte a presença do Deus dos exércitos. (...)

“É o próprio Jesus Cristo que sai de Seu túmulo e que vos apresenta sua Cruz.

“Ela será o sinal, erguido entre as nações, que deve reunir os filhos dispersos de Israel; levai-a em vossos ombros ou sobre o vosso peito; que ela brilhe sobre as vossas armas e sobre os vossos estandartes.

“Ela será para vós o penhor da vitória ou a palma do martírio; ela vos há-de lembrar continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que deveis morrer por Ele”.

Efeito da conclamação papal

Depois que Urbano acabou de falar, só se ouviam estes brados: Deus o quer! Deus o quer!, que era como a voz de todo o povo cristão. (...)

Os Barões e os Cavaleiros que tinham ouvido as exortações de Urbano fizeram o juramento de vingar a causa de Jesus Cristo; esqueceram-se de suas próprias questões e juraram combater juntos os inimigos da Fé cristã.

Todos os fiéis prometeram respeitar as decisões do Concílio e ornaram suas vestes com uma cruz vermelha de pano ou de seda. (...)

Os fiéis pediram a Urbano que se pusesse à sua frente, mas o Pontífice, que ainda não tinha triunfado sobre o antipapa Guiberto, e que perseguia com seus anátemas o Rei da França e o Imperador da Alemanha, não podia deixar a Europa sem comprometer o poder e a política da Santa Sé. (...)

Nomeou o Bispo de Puy, seu legado apostólico, junto do exército dos cristãos.

Prometeu a todos os cruzados a remissão de seus pecados. Suas pessoas, suas famílias, seus bens, foram postos sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos São Pedro e São Paulo.

O concílio declarou que toda a violência feita contra os soldados de Jesus Cristo seria castigada com o anátema e entregou seus decretos, em favor dos cruzados à vigilância dos Padres e dos Bispos. (...)

O Beato Adhermar, bispo de Puy (de mitra-elmo)
foi o legado pontifício à testa da Cruzada
Urbano percorreu ele mesmo várias províncias da França, para terminar sua obra tão felizmente começada. (...)

Os Bispos e os simples pastores, não paravam de benzer cruzes para os fiéis que prometiam armar-se para a libertação da Terra Santa. A Igreja conservou em seus anais as fórmulas de orações rezadas nessa cerimônia.

O padre, depois de ter invocado o auxílio de Deus, que fez o Céu e a Terra, rogava ao Senhor que abençoasse, em sua bondade paterna, a cruz dos peregrinos, como tinha outrora abençoado a vara de Aarão; rogava à misericórdia divina que não abandonasse nos perigos os que iam combater por Jesus Cristo e que lhes enviasse o anjo Rafael que outrora tinha sido o fiel companheiro de Tobias. (...)

O padre dizia, depois de ter prendido a cruz ao peito: ‘Recebe este sinal, imagem da Paixão e da Morte do Salvador do mundo, a fim de que em tua viagem nem a infelicidade nem o pecado te possam ferir e voltes mais feliz e sobretudo, melhor, para junto dos teus’. (...)

Tal o ascendente da religião ultrajada pelos infiéis, que todas as nações cristãs logo esqueceram o que era objeto de sua ambição ou de seus temores e forneceram à cruzada os soldados de que precisavam para se defenderem.

Todo o Ocidente reboava com estas palavras: ‘Aquele que não traz sua cruz e não vem comigo, não é digno de Mim’.

Que se julgue o que se deveu operar nos espíritos, quando a Igreja tocou a trombeta guerreira e apresentou como agradável a Deus o amor das conquistas, a glória de vencer, o ardor pelos perigos. (...)

O clero mesmo deu o exemplo. A maior parte dos Bispos, que tinham o título de Conde ou de Barão (...) julgou dever armar-se para a causa de Jesus Cristo.

Os autores contemporâneos contam vários milagres que contribuíram para inflamar o espírito da multidão.

Haviam-se visto estrelas destacarem-se do firmamento e caírem sobre a terra; mil fogos desconhecidos corriam pelo ar e davam à noite a claridade do dia; nuvens cor de sangue levantavam-se de repente no horizonte, e no ocidente um cometa ameaçador apareceu ao meio-dia; sua forma era a de uma espada.

Viram-se nas altas esferas do céu cidades com suas torres e defesas, armadas, prestes a combater, seguindo o estandarte da cruz.

O monge Roberto refere que, no mesmo dia em que no concílio de Clermont, se decidiu a cruzada, aquela deliberação foi proclamada além dos mares.

“Essa notícia, diz ele, tinha reerguido a coragem dos cristãos no Oriente e levado de repente o desespero aos povos da Arábia”.

Para cúmulo de prodígios, os Santos e os Reis das idades precedentes saíam de seus túmulos e vários franceses haviam visto a sombra de Carlos Magno exortando os cristãos a combater contra os infiéis.

O concílio de Clermont, que se havia reunido no mês de novembro de 1095, tinha marcado a partida dos cruzados para a festa da Assunção, do ano seguinte.

(Autor: Joseph-François Michaud (1767-1839), “Histoire des Croisades”, Paris, Furne Jouvet et Cie Éditeurs, 1877, livro I, páginas 22 em diante).



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