domingo, 18 de junho de 2017

O monasticismo católico e a restauração da fé, da cultura e das ciências

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O homem das letras desses primeiros séculos medievais era quase sempre um clérigo para quem o estudo dos conhecimentos naturais era uma pequena parte da escolaridade.

Esses estudiosos viviam numa atmosfera que dava prioridade à fé e geralmente tinham a mente mais voltada para a salvação das almas do que para o questionamento de detalhes da natureza.

Aqueles que desejavam investigar o mundo natural tinham suas opções limitadas pelo esquecimento do idioma grego.

Muitos dos estudos tinham que ser feitos com informações obtidas de fontes não científicas, eram frequentemente textos com informações incompletas e que traziam sérios problemas de interpretação.

Desse modo, por exemplo, manuais romanos de inspeção do solo eram lidos porque neles estavam incluídos elementos da geometria.

A vida quase sempre insegura e economicamente difícil dessa primeira parte do período medieval mantinha o homem voltado para as dificuldades do dia-a-dia.

O estudo da natureza era buscado mais por motivos práticos do que como uma investigação abstrata: a necessidade de cuidar dos doentes levou ao estudo da medicina e de textos antigos sobre remédios, o desejo de determinar a hora correta para rezar levou os monjes a estudar o movimento das estrelas, a necessidade de computar a data da páscoa os levou a estudar e ensinar os movimentos do Sol e da Lua e rudimentos da matemática.

Não era incomum o mesmo texto discutir tanto os detalhes técnicos quanto o sentido simbólico dos fenômenos naturais.

Embaixo: video
7. Os monges na construção da civilização ocidental


Veja toda a série de aulas: CLIQUE AQUI


continua no próximo post: Importância de Carlos Magno na promoção da educação e da cultura



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domingo, 11 de junho de 2017

Raízes profundas da Idade Média emergem no presente francês

Para obter votos o futuro presidente Macron foi se fotografar na festa de Santa Joana d'Arc em Orleans
Para obter votos o futuro presidente Macron
foi se fotografar na festa de Santa Joana d'Arc em Orleans
Luis Dufaur
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Pode parecer estranho, mas não é. No segundo turno da eleição presidencial francesa, em 7 de maio de 2017, os dois candidatos apostaram corrida para ver quem se identificava mais com a heroína medieval Santa Joana d’Arc, registrou a “Folha de S. Paulo”.

Nenhum deles é especialmente devoto, nem muito praticante, provavelmente só queriam o voto do eleitor.

Mas o que há na cabeça dos franceses para que ainda hoje o candidato se tornar presidente de uma República formalmente laica e agnóstica ele necessite mostrar-se também ligado ao passado sacral católico da França?

O jornal progressista e socialista parisiense “La Croix” foi à procura de eminências do pensamento francês para achar uma explicação do fenômeno que, para ele, parece uma aberração.

François Huguenin, autor de As grandes figuras católicas da França (“Les grandes figures catholiques de la France”, ed. Perrin) respondeu assim:

“Existe uma trama comum entre o cristianismo e a fundação da França. É impossível separar os fios da tapeçaria sem desmanchar tudo. O catolicismo é a matriz da França”.

Segundo seu ponto de vista, desde Clóvis, o primeiro rei franco que se fez batizar, “todos os nossos governantes estão submetidos a uma transcendência, uma verticalidade. Eles têm consciência permanentemente de que há um Deus que os transcende”.

No livro Deus escolheu a França (“Dieu choisit la France”, ed. Presses de la Renaissance), o professor auxiliar de História Camille Pascal concorda.

O singular é que isso acontece no fundo das cabeças de muitos presidentes, até mesmo socialistas, que da língua para fora não querem saber de religião.

A fidelidade ao Papa foi nota característica da França medieval. São Luis foi se encontrar com o Papa Inocêncio IV em Lyon que lhe pediu auxilio. Louis-Jean-Francois Lagrenee (1724-1805)
A fidelidade ao Papa foi nota característica da França medieval.
São Luis foi ver em Lyon o Papa Inocêncio IV que lhe pediu auxilio.
Louis-Jean-Francois Lagrenee (1724-1805)
Rémi Brague, historiador de filosofia medieval, foi aprofundar-se no catarismo, heresia do sul da França que suscitou contra si uma verdadeira Cruzada que a extinguiu no século XIV.

Segundo Brague, o catarismo fracassou porque recusava o ato de fidelidade feudal ao suserano, algo que o francês não podia aceitar.

Recusar a fidelidade do vassalo ao senhor e vice-versa trazia o “risco de destruição da ordem feudal”.

E explica: “Em nosso país, jamais existiu uma situação na qual a política não teve alguma dimensão religiosa e vice-versa”.

Mas houve e há todo o contrário: uma ferocidade laicista anticristã que se exprime no culto fanático dos Direitos do Homem.

Mas, a esse respeito, também o anticristianismo laicista teve um nascedouro cristão, é claro que num cristianismo herético.

E explica: foi a Revolução Protestante! Ela pregou que Cristo era o único mediador, que a Bíblia era o único mestre, que só havia a fé, sem necessidade das outras virtudes.

Desse tronco nasceu o Iluminismo racionalista que sabotou os fundamentos da monarquia até derrubá-la e implantar uma República laica, ateia, que muda segundo o capricho dos homens.

O pastor Antoine Nouis, conselheiro teológico da revista protestante “Réforme”, reconhece que “a ideia de uma pluralidade de religiões num mesmo reino é no fundo uma anomalia” que tinha que dar nas guerras de religião (1562-1598).

Nicolas Le Roux, secretário geral da Associação dos Historiadores Modernistas das Universidades Francesas, explica que no modo de ver do povo francês,

“O reino era visto como um corpo, imagem do Corpo Místico da Igreja. O rei era a cabeça desse corpo político e social. Por meio do convívio social, das festas, das procissões, das missas, se atingia a salvação.

“Deixar de ir à Missa, quebrar as imagens de Nossa Senhora, cantar os salmos em francês punha em perigo essa vida em comum, a salvação de todos”.

Contra a visão católica partilhada pelo conjunto não faltaram os galicanos, que punham a França por cima do Papa de Roma.

Alain Tallon, reitor da Faculdade de História da Sorbonne, estudou o caso e concluiu que apesar dos atritos históricos, “a subordinação ao Papado era considerada indispensável para a monarquia francesa. Ainda quando se discordava do Papa, fazia-se questão absoluta de não romper com Roma”.

O laicismo do século XVIII contestou a autoridade da Igreja. Ostentou a ideia de que se pode viver fora d’Ela, ser diferente, até proclamar um outro deus, o Ser Supremo da Revolução Francesa.

Para François Huguenin, a violência revolucionária foi “um sismo comparável à ascensão de Hitler ao poder em 1933: a aparição de uma lógica de violência exacerbada pelo vazio instalado no poder”.

Le Roux: “O reino era visto como uma imagem do Corpo Místico da Igreja” Busto-relicário de Carlos Magno. Fundo: catedral de Aachen (Aquisgrão)
Le Roux: “O reino era visto como uma imagem do Corpo Místico da Igreja”
Busto-relicário de Carlos Magno. Fundo: catedral de Aachen (Aquisgrão)
E segundo Jacques-Olivier Boudon, Napoleão encarnou o revolucionário violento que subiu como mais tarde fez Hitler. Mas, uma vez no poder, Napoleão tentou chegar a uma concordata com a Igreja para “instalar a paz religiosa após o cisma constitucional de 1789.

Porém, a ferida entre “azuis” (laicos e republicanos) e “brancos” (católicos e monarquistas) ainda continua muito profunda”.

A contribuição religiosa do Islã foi nula e fonte de guerra constante. O historiador de filosofia medieval árabe e judia, Rémi Brague, fala com clareza :

“Não, o islã não contribuiu para nossa história.

“Os saqueadores árabes e berberes que vieram até Poitiers só tinham o Corão numa mão e a cimitarra na outra. Eles vieram para pilhar”.

Hoje essas tendências subterrâneas carregadas de alta tensão voltam a se chocar.

Antoine Nouis vê na “atual crispação francesa a respeito do laicismo um fruto do desenvolvimento do conflito entre o Iluminismo e a religião”.

Nicolas Le Roux ironiza: “A liberdade de consciência é uma invenção. Cada um faz o que quer na sua casa. Mas depois de fechar a porta, não cante muito alto!

“O verdadeiro problema continua sendo que os modelos de Estado católico-monárquico e laico-republicano não são capazes de coabitar. Essa é a questão que se punha no século XVI e que se põe hoje”, concluiu.





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domingo, 4 de junho de 2017

Fundo medieval emerge na França
e abala fachada laica-democrática

A sacralização da vida política francesa na Idade Média foi tão profunda que não foi possível apagá-la e até ressurge hoje
A sacralização da vida política francesa na Idade Média foi tão profunda
que não foi possível apagá-la e até ressurge hoje
Luis Dufaur
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Na última eleição presidencial na França, o catolicismo fez uma irrupção rumorosa num país que se julgava definitivamente ganho pelo laicismo anticlerical da Revolução Francesa.

Todos os candidatos — inclusive o comunista-anarquista Mélenchon — acenaram para esta ou aquela passagem, ainda que remota, por alguma corrente do catolicismo, ou contato com ela.

O que houve? Cientistas sociais e políticos, jornais, acadêmicos, líderes partidários atilados se puseram na ingente tarefa de tentar descodificar o enigma.

Um deles foi Alain Tallon, reitor da Unité de Formation et de Recherche – UFR (outrora mais claramente “Faculdade”) de História da Universidade da Sorbonne, especialista em história religiosa, entrevistado pelo quotidiano parisiense “La Croix”.

Tallon partiu de uma evidência que não era “politicamente correta”: “A dimensão religiosa, e mais especialmente a questão do cristianismo, é essencial em nossa história.

“A própria laicização da sociedade francesa não conseguiu apagar totalmente o fato religioso. (...) A França, ao contrário de seus vizinhos alemães, italianos e espanhóis, foi um país uniformemente católico”, acrescentou, antes de pôr o dedo na chaga:

“Outra peculiaridade: a Revolução Francesa foi feita contra uma França católica. Nós vivemos ainda sob os efeitos desse divórcio entre a França republicana e a França católica”.

O professor Tallon foi sagaz, tentando embaralhar a oposição: o oposto de ‘republicana’ (realidade temporal) não é bem ‘católica’ (realidade religiosa espiritual).

Ele estava se referindo às posições ‘república versus monarquia’ e ‘laicismo versus catolicismo’.

Ou mais concisa e palpavelmente, à posição entre ‘republicano enquanto ateu’ versus ‘monarquista enquanto católico’. Mas isto na França é tema de explosividade atômica.

O jornalista tentou procurar outra via menos perigosa. E levou para um assunto, na verdade, não muito menos coruscante.

Prof. Tallon: a sacralidade da monarquia francesa não teve equivalente
Prof. Tallon: a sacralidade da monarquia francesa não teve equivalente
O professor Tallon foi claro: “Na França, a política sempre tirou, e largamente, seu vocabulário e seus ritos da religião”, leia-se do catolicismo.

E acrescentou: “Isso é verdade desde a Idade Média. A sacralidade da monarquia francesa não teve equivalente na Europa. Os franceses inventaram o rei taumaturgo. [NdT: que faz milagres. Após a sagração dos reis, eles saíam à praça e tocavam os doentes ‘escrofulosos’, dizendo: ‘o rei te toca, Deus te cura’ e muitos saíam dizendo-se curados!].

“Enquanto isso, a monarquia espanhola é profundamente laica desde a Idade Média: o rei não é ungido”.

Na França, os reis eram ungidos com óleo bento numa cerimônia eclesiástica na catedral de Reims. Em virtude dessa unção eles passavam a diáconos da Igreja, com um mundo de privilégios eclesiais e um rango menor no clero.

Esse costume é tão forte que até hoje os presidentes da República são considerados cônegos da catedral de São João de Latrão, com estala reservada. O ex-presidente Sarkozy chegou a ocupar essa sede canônica em sua primeira visita a Roma.

O jornalista, certamente menos letrado que o reitor da Faculdade de História de Paris, procurou outra pista. E acabou ouvindo verdades que arrepiam ao laicismo democrático, igualitário e vulgar inaugurado em 1789.

O reitor Tallon sublinhou que em país algum houve a sacralização do poder como na França. “E essa sacralização sobreviveu após a monarquia, inclusive sob Bonaparte e, em certo sentido, sob Charles de Gaulle”.

Todos esses chefes de Estado tentaram dar ares de monarca ungido pela Igreja. Napoleão se fez coroar pelo Papa Pio VII (de modo muito contestável) e Charles de Gaulle assumiu um ar pessoal de monarca, obviamente sem coroa alguma.

No subconsciente popular, Carlos Magno ainda é o modelo de governante
No subconsciente popular, Carlos Magno ainda é o modelo de governante
“O modelo de Carlos Magno — prosseguiu o professor — fez sonhar todos os soberanos franceses.

“Foi por isso que Henrique IV quis se reconciliar com Roma, em vez de criar uma Igreja nacional como fizera o modelo inglês. (...)

“Ele também compreendeu que se tratava do único meio para ele se tornar rei da França.

“Um rei da França protestante era uma coisa impossível, política ou ideologicamente.

“A sacralização da monarquia atingira tal ponto, que um rei calvinista não teria sido sagrado, não teria curado as escrófulas. Era algo inconcebível. Ele teria rompido com Roma e com o universalismo católico.

“A monarquia francesa se sente herdeira legitima de Roma porque o rei é o primeiro dos cristãos. (...)

“Nós nos sentimos investidos de uma missão pela França desde o fim da Idade Média. Essa foi a ideia constitutiva da criação da ‘nação França’.

“Desde a monarquia carolíngia o tema imperial foi sempre conjugado com Roma e o Papado. Quando houve conflitos opondo o Papa ao Imperador, a monarquia francesa sustentou o Papado.

“O episódio de Joana d’Arc foi um dos elementos. E isso continuou pela Renascença, com um rei como Francisco I se fazendo pintar em 1518 por Jean Clouet representado como São João Batista…

“Os embaixadores ingleses contam que eles foram recebidos pelo rei vestido como se fosse Cristo ! É algo completamente surpreendente…

“A ideia da nacionalidade francesa não foi constituída unicamente pela monarquia, mas também pela Igreja Católica”, concluiu.




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domingo, 28 de maio de 2017

Na Idade Média nasceu a ciência logicamente sistematizada

A Geometria, The British Library
Luis Dufaur
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Ainda perduram os ecos do laicismo anticristão visceralmente difamador da Idade Média pelo fato de ter sido uma época modelada pela Igreja Católica.

Professores e enciclopédias objetivas e atualizadas abandonaram essas visões laicista anticristãs e anti-medievais.

Um exemplo é a própria Wikipedia que, no verbete Ciência Medieval, fornece ricas e ponderadas informações sobre a Era Medieval, e que reproduzimos a continuação.

Caos pós-queda de Roma

A Europa Ocidental entrou na Idade Média em grandes dificuldades que minaram a produção intelectual do continente.

Os tempos eram confusos e havia-se perdido o acesso aos tratados científicos da antiguidade clássica (em grego), ficando apenas as compilações resumidas e até deturpadas que os romanos tinham traduzido para o latim.

Entretanto, com o início do chamado Renascimento do Século XII, renovou-se o interesse pela investigação da natureza.

A ciência que se desenvolveu nesse período áureo da filosofia escolástica dava ênfase à lógica e advogava o empirismo, entendendo a natureza como um sistema coerente de leis que poderiam ser explicadas pela razão.

Foi com essa visão que sábios medievais se lançaram em busca de explicações para os fenômenos do universo e conseguiram avanços importantes em áreas como a metodologia científica e a física.

domingo, 21 de maio de 2017

De escravos antigos a servos da gleba:
transição para o homem livre

Luis Dufaur
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Um ponto que serve para mostrar o tipo de tratamento reinante entre os diversos graus da hierarquia social é a comparação entre os escravos da Antiguidade e os servos da gleba na época medieval.

Na Antiguidade pagã o escravo não tinha qualquer direito, nem mesmo o da vida.

Podia ser morto por seu dono, que tinha direito de vida e de morte sobre ele.

Não tinha direito a constituir família.

Se alguma escrava tinha um filho, este podia ser vendido e mandado para longe da mãe, como um animal.

Ao final do Império Romano, quando este já se havia tornado cristão, foi reconhecido aos escravos o direito ao matrimônio.

Este processo fazia parte daquilo que se chamou de humanização do Direito Romano, atribuída à influência cristã.

domingo, 14 de maio de 2017

O que é o feudalismo? Origens do regime feudal

Luis Dufaur
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Para compreender a Idade Média, temos de nos representar uma sociedade que vive de modo totalmente diferente, da qual a noção de trabalho assalariado, e mesmo em parte a de dinheiro, estão ausentes ou são muito secundárias.

O fundamento das relações de homem para homem é a dupla noção de fidelidade, por um lado, e por outro a de proteção.

Assegura-se devoção a qualquer pessoa, e dela espera-se em troca a segurança.

Não se compromete a atividade em função de um trabalho preciso, de uma remuneração fixa, mas a própria pessoa, ou melhor, a sua fé, e em troca se requer subsistência e proteção, em todos os sentidos da palavra.

Tal é a essência do vínculo feudal.

Esta característica da sociedade medieval explica-se, ao considerarmos as circunstâncias que presidiram à sua formação.

A origem encontra-se nessa Europa caótica do século V ao século VIII. O Império Romano desmoronava-se sob o duplo efeito da decomposição interior e da pressão das invasões.

domingo, 7 de maio de 2017

Guarda Suíça Pontifícia:
eco da fidelidade medieval, heróica e sacral

Guarda Suiça Pontificia
Luis Dufaur
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Carlos VII rei da França, em 1453, fez aliança com o povo helvético.

O acordo foi renovado em 1474 por Luís XI, que tinha ficado admirado em Basileia pela resistência da Suíça contra um adversário vinte vezes superior.

Luís XI alistou suíços como instrutores para o exército francês. O rei da Espanha fez a mesma coisa.

Os suíços foram descritos por Guicciardini como “o nervo e a esperança de um exército”. Em 1495 o rei francês teve a vida salva graças à firmeza inabalável de sua infantaria suíça.

Os guardas suíços continuavam, entretanto, submissos às autoridades de seus cantões natais, verdadeiros proprietários destas tropas que se reservavam o direito de recolhê-las quando bem entendessem.

Os regimentos suíços eram corpos armados totalmente independentes. Tinham suas próprias regras, seus juízes e seus chefes. As ordens eram dadas na sua língua, o alemão, oficiais e soldados permaneciam suíços até o fim sob as leis de seus cantões. O regimento era sua pátria.

domingo, 30 de abril de 2017

Sem a Igreja Católica
não teria havido ciência e progresso autênticos

Nas abadias, monges desenvolveram as ciências naturais
Luis Dufaur
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A alegada hostilidade da Igreja Católica à ciência não resiste a qualquer análise.

A verdade é que, sem a Igreja, não teria havido ciências sistemáticas e dinâmicas, diz o Prof. Thomas E. Woods "Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental".

De fato, a ideia de um mundo ordenado, racional — indispensável para o progresso da ciência — está ausente nas civilizações pagãs.

Árabes, babilônios, chineses, egípcios, gregos, indianos e maias não geraram a ciência, porque não acreditavam num Deus transcendente que ordenou a criação com leis físicas coerentes.

Os caldeus acumularam dados astronômicos e desenvolveram rudimentos da álgebra, mas jamais constituíram algo que se pudesse chamar de ciência. Os chineses "nunca formaram o conceito de um celeste legislador que impôs leis à natureza inanimada".

domingo, 23 de abril de 2017

Idade das Trevas? Ou Idade da Luz da Fé e da razão irmanadas?

Esfera astral e relógio planetário, catedral de Estrasburgo, França
Luis Dufaur
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Noções preconceituosas sobre a Idade Média já foram amplamente propagadas, inclusive por motivações políticas, e ainda hoje permanecem mitos no imaginário popular.

Isso também é verdadeiro quando se trata das noções da ciência no período: ele é muitas vezes referido pejorativamente como idade das trevas, sugerindo que nele não teria havido nenhuma criação filosófica ou científica autônoma.

Embora nenhum historiador sério utilize mais a expressão “Idade das Trevas” para sugerir atraso cultural, ainda hoje, mesmo nas escolas, são ensinadas noções equivocadas como a idéia falsa de que os estudiosos medievais acreditavam que a terra fosse plana.

O historiador Ronald Numbers, que é referência no campo da história da ciência, aponta alguns dos equívocos mais comuns do leigo em relação ao período.

Em primeiro lugar, como já mencionado, é errado imaginar que na idade média as pessoas educadas acreditavam que a Terra era plana: elas sabiam muito bem que a Terra é redonda como uma bola. Em segundo lugar é também comum o mito de que a igreja teria proibido autópsias e dissecações no período.

De maneira mais geral, as afirmações muito comuns de que o crescimento do Cristianismo teria “acabado com a ciência da antiguidade” ou que a igreja medieval teria “suprimido o crescimento das ciências naturais” não têm suporte nos estudos históricos contemporâneos, ainda que sejam repetidas por muitos como se fossem verdades históricas.

domingo, 16 de abril de 2017

O povo medieval: verdadeiro legislador

Os costumes geralmente praticados viravam leis sagradas
Os costumes geralmente praticados viravam leis sagradas
Luis Dufaur
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Na Idade Média o povo legislava mediante leis consuetudinárias.

Consuetudo é uma palavra latina que significa costume. A lei consuetudinária não era feita por legisladores encerrados num Parlamento.

Ela era a codificação dos costumes que todas as categorias sociais tinham elaborado.

Essas leis eram guardadas na mente dos populares. Os anciões eram seus guardiões mais zelosos.

Quando a necessidade impunha elas eram transcritas em pergaminhos. Estes eram guardados como tesouros.

As leis consuetudinárias eram verdadeiros compêndios de sabedoria popular.

Nem o rei, nem o nobre, nem os eclesiásticos podiam ir contra o costume, desde que não violasse a Lei de Deus e os demais costumes já existentes.

Na vida quotidiana de um povo que aspirava à perfeição o bom costume aceito pelo conjunto virava lei. Violar essa lei, ainda no período que não estava transcrita, era uma coisa que soava a coisa de insensato.