domingo, 11 de junho de 2017

Raízes profundas da Idade Média emergem no presente francês

Para obter votos o futuro presidente Macron foi se fotografar na festa de Santa Joana d'Arc em Orleans
Para obter votos o futuro presidente Macron
foi se fotografar na festa de Santa Joana d'Arc em Orleans
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Pode parecer estranho, mas não é. No segundo turno da eleição presidencial francesa, em 7 de maio de 2017, os dois candidatos apostaram corrida para ver quem se identificava mais com a heroína medieval Santa Joana d’Arc, registrou a “Folha de S. Paulo”.

Nenhum deles é especialmente devoto, nem muito praticante, provavelmente só queriam o voto do eleitor.

Mas o que há na cabeça dos franceses para que ainda hoje o candidato se tornar presidente de uma República formalmente laica e agnóstica ele necessite mostrar-se também ligado ao passado sacral católico da França?

O jornal progressista e socialista parisiense “La Croix” foi à procura de eminências do pensamento francês para achar uma explicação do fenômeno que, para ele, parece uma aberração.

François Huguenin, autor de As grandes figuras católicas da França (“Les grandes figures catholiques de la France”, ed. Perrin) respondeu assim:

“Existe uma trama comum entre o cristianismo e a fundação da França. É impossível separar os fios da tapeçaria sem desmanchar tudo. O catolicismo é a matriz da França”.



Segundo seu ponto de vista, desde Clóvis, o primeiro rei franco que se fez batizar, “todos os nossos governantes estão submetidos a uma transcendência, uma verticalidade. Eles têm consciência permanentemente de que há um Deus que os transcende”.

No livro Deus escolheu a França (“Dieu choisit la France”, ed. Presses de la Renaissance), o professor auxiliar de História Camille Pascal concorda.

O singular é que isso acontece no fundo das cabeças de muitos presidentes, até mesmo socialistas, que da língua para fora não querem saber de religião.

A fidelidade ao Papa foi nota característica da França medieval. São Luis foi se encontrar com o Papa Inocêncio IV em Lyon que lhe pediu auxilio. Louis-Jean-Francois Lagrenee (1724-1805)
A fidelidade ao Papa foi nota característica da França medieval.
São Luis foi ver em Lyon o Papa Inocêncio IV que lhe pediu auxilio.
Louis-Jean-Francois Lagrenee (1724-1805)
Rémi Brague, historiador de filosofia medieval, foi aprofundar-se no catarismo, heresia do sul da França que suscitou contra si uma verdadeira Cruzada que a extinguiu no século XIV.

Segundo Brague, o catarismo fracassou porque recusava o ato de fidelidade feudal ao suserano, algo que o francês não podia aceitar.

Recusar a fidelidade do vassalo ao senhor e vice-versa trazia o “risco de destruição da ordem feudal”.

E explica: “Em nosso país, jamais existiu uma situação na qual a política não teve alguma dimensão religiosa e vice-versa”.

Mas houve e há todo o contrário: uma ferocidade laicista anticristã que se exprime no culto fanático dos Direitos do Homem.

Mas, a esse respeito, também o anticristianismo laicista teve um nascedouro cristão, é claro que num cristianismo herético.

E explica: foi a Revolução Protestante! Ela pregou que Cristo era o único mediador, que a Bíblia era o único mestre, que só havia a fé, sem necessidade das outras virtudes.

Desse tronco nasceu o Iluminismo racionalista que sabotou os fundamentos da monarquia até derrubá-la e implantar uma República laica, ateia, que muda segundo o capricho dos homens.

O pastor Antoine Nouis, conselheiro teológico da revista protestante “Réforme”, reconhece que “a ideia de uma pluralidade de religiões num mesmo reino é no fundo uma anomalia” que tinha que dar nas guerras de religião (1562-1598).

Nicolas Le Roux, secretário geral da Associação dos Historiadores Modernistas das Universidades Francesas, explica que no modo de ver do povo francês,

“O reino era visto como um corpo, imagem do Corpo Místico da Igreja. O rei era a cabeça desse corpo político e social. Por meio do convívio social, das festas, das procissões, das missas, se atingia a salvação.

“Deixar de ir à Missa, quebrar as imagens de Nossa Senhora, cantar os salmos em francês punha em perigo essa vida em comum, a salvação de todos”.

Contra a visão católica partilhada pelo conjunto não faltaram os galicanos, que punham a França por cima do Papa de Roma.

Alain Tallon, reitor da Faculdade de História da Sorbonne, estudou o caso e concluiu que apesar dos atritos históricos, “a subordinação ao Papado era considerada indispensável para a monarquia francesa. Ainda quando se discordava do Papa, fazia-se questão absoluta de não romper com Roma”.

O laicismo do século XVIII contestou a autoridade da Igreja. Ostentou a ideia de que se pode viver fora d’Ela, ser diferente, até proclamar um outro deus, o Ser Supremo da Revolução Francesa.

Para François Huguenin, a violência revolucionária foi “um sismo comparável à ascensão de Hitler ao poder em 1933: a aparição de uma lógica de violência exacerbada pelo vazio instalado no poder”.

Le Roux: “O reino era visto como uma imagem do Corpo Místico da Igreja” Busto-relicário de Carlos Magno. Fundo: catedral de Aachen (Aquisgrão)
Le Roux: “O reino era visto como uma imagem do Corpo Místico da Igreja”
Busto-relicário de Carlos Magno. Fundo: catedral de Aachen (Aquisgrão)
E segundo Jacques-Olivier Boudon, Napoleão encarnou o revolucionário violento que subiu como mais tarde fez Hitler. Mas, uma vez no poder, Napoleão tentou chegar a uma concordata com a Igreja para “instalar a paz religiosa após o cisma constitucional de 1789.

Porém, a ferida entre “azuis” (laicos e republicanos) e “brancos” (católicos e monarquistas) ainda continua muito profunda”.

A contribuição religiosa do Islã foi nula e fonte de guerra constante. O historiador de filosofia medieval árabe e judia, Rémi Brague, fala com clareza :

“Não, o islã não contribuiu para nossa história.

“Os saqueadores árabes e berberes que vieram até Poitiers só tinham o Corão numa mão e a cimitarra na outra. Eles vieram para pilhar”.

Hoje essas tendências subterrâneas carregadas de alta tensão voltam a se chocar.

Antoine Nouis vê na “atual crispação francesa a respeito do laicismo um fruto do desenvolvimento do conflito entre o Iluminismo e a religião”.

Nicolas Le Roux ironiza: “A liberdade de consciência é uma invenção. Cada um faz o que quer na sua casa. Mas depois de fechar a porta, não cante muito alto!

“O verdadeiro problema continua sendo que os modelos de Estado católico-monárquico e laico-republicano não são capazes de coabitar. Essa é a questão que se punha no século XVI e que se põe hoje”, concluiu.





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