Invenções, progresso, ciência e técnicas medievais

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs


Alguns grandes nomes da ciência medieval


Santo Alberto Magno, St Dominic, Londres
Alberto Magno (1193-1280), o Doutor Universal, foi o principal representante da tradição filosófica dos dominicanos.

Além disso, é um dos trinta e três Santos da Igreja Católica com o título de Doutor da Igreja.

Tornou-se famoso por seu vasto conhecimento e por sua defesa da coexistência pacífica da ciência com a religião.

Alberto foi essencial em introduzir a ciência grega e árabe nas universidades medievais, mas nunca hesitou em duvidar de Aristóteles.

Em uma de suas frases famosas, afirmou: a ciência não consiste em ratificar o que outros disseram, mas em buscar as causas dos fenômenos. Tomás de Aquino foi seu aluno.

Robert Grosseteste (1168-1253), Bispo de Lincoln, foi a figura central do movimento intelectual inglês na primeira metade do século XIII e é considerado o fundador do pensamento científico em Oxford.

Tinha grande interesse no mundo natural e escreveu textos sobre temas como som, astronomia, geometria e óptica.

Dom Robert Grosseteste, bispo de Lincoln,
(1168-1253). vitral de Saint Paul, Westernmost
Afirmava que experimentos deveriam ser usados para verificar uma teoria, testando suas consequências; também foi relevante o seu trabalho experimental na área da óptica. Roger Bacon foi um de seus alunos mais renomados.

Roger Bacon (1214-1294), o Doutor Admirável, ingressou para a Ordem dos Franciscanos por volta de 1240, onde, influenciado por Grosseteste, dedicou-se a estudos nos quais introduziu a observação da natureza e a experimentação como fundamentos do conhecimento natural.

Bacon propagou o conceito de “leis da natureza“ e contribuiu com estudos em áreas como a mecânica, a geografia e principalmente a ótica.

As pesquisas em ótica de Grosseteste e Bacon estabeleceram a disciplina como um campo de estudo na universidade medieval e formaram a base para uma duradoura tradição de pesquisa na área.

Tradição que chegou até o início do século XVII, quando Kepler fundou a ótica moderna.

Tomás de Aquino (1227-1274), também conhecido como o Doutor Angélico, foi um frade dominicano e teólogo italiano.

Tal qual seu professor Alberto Magno, é santo Católico e doutor desta mesma Igreja.

Seus interesses não se restringiam à filosofia; também interessou-se pelo estudo de química, tendo publicado uma importante obra química chamada “Aurora Consurgens”.

Entretanto, a verdadeira contribuição de São Tomás para a ciência do período foi ter sido o maior responsável pela integração definitiva do aristotelismo com a tradição escolástica anterior.

Frei João Duns Scot OFM
João Duns Scot (1266-1308), o Doutor Sutil, foi membro da Ordem Franciscana, filósofo e teólogo.

Formado no ambiente acadêmico da Universidade de Oxford, onde ainda pairava a aura de Robert Grosseteste e Roger Bacon, teve uma posição alternativa à de São Tomás de Aquino no enfoque da relação entre a Razão e a Fé.

Para Scot, as verdades da fé não poderiam ser compreendidas pela razão. A filosofia, assim, deveria deixar de ser uma serva da teologia e adquirir autonomia.

Duns Scot foi mentor de outro grande nome da filosofia medieval: William de Ockham.

Jean Buridan (1300-1358) foi um filósofo e padre francês. Embora tenha sido um dos mais famosos e influentes filósofos da Idade Média tardia, ele é hoje um dos nomes menos conhecidos pelo público não-especialista.

Uma de suas contribuições mais significativas foi desenvolver e popularizar da teoria do Ímpeto, que explicava o movimeto de projéteis e objetos em queda livre.

Essa teoria pavimentou o caminho para a dinâmica de Galileu e para o famoso princípio da Inércia, de Isaac Newton.

William de Ockham (1285-1350), o Doutor Invencível, foi um frade franciscano, teórico da lógica e teólogo inglês. Occam defendia o princípio da parcimônia (a natureza é por si mesma econômica), que já podia ser visto no trabalho de Duns Scott, seu professor.

Nicolás d'Oresme
William foi o criador da doutrina conhecida como Navalha de Ockham: se há várias explicações igualmente válidas para um fato, então devemos escolher a mais simples. 

Isso tornou-se parte básica do que viria a ser conhecido como método científico e um dos pilares do reducionismo em ciência.

Occam morreu vítima da peste negra. Jean Buridan e Nicole Oresme foram seus seguidores.

Nicolás d'Oresme (c.1323-1382) foi um gênio intelectual e talvez o pensador mais original do século XIV. Teólogo dedicado e Bispo de Lisieux, foi um dos principais propagadores das ciências modernas.

Além de suas contribuições estritamente científicas, Oresme combateu fortemente a astrologia e especulou sobre a possibilidade de haver outros mundos habitados no espaço.

Ele foi o último grande intelectual europeu a ter crescido antes do surgimento da peste negra, evento que teve impacto bastante negativo na inovação intelectual no período final da Idade Média.

A lista não é exaustiva. Outros nomes relevantes da ciência européia no período medieval incluem:

Beato Hermannus Contractus
-- Beda, o Venerável (672-735), monge e historiador

-- Beato Hermannus Contractus (1013–1054), matemático, astrónomo, teórico da música e compositor,

-- Jordanus de Nemore (por volta de 1200), frade dominicano e matemático, escreveu tratados sobre a ciência dos pesos; os algoritmos nos tratados de aritmética prática; aritmética pura; álgebra; geometria e projeçao estereográfica,

-- Theodoric de Freiberg (1250-1310), físico, autor de um tratado clave para o estudo do arco-irís e a difração da luz e a formação das cores

-- Thomas Bradwardine (1290–1349), matemático, físico e arcebispo de Cantuária, e

-- Nicolau de Cusa (1401-1464), cardeal, teólogo e filósofo marca o afastamento do pensamento medieval aristotélico-tomista e abre as portas para o Humanismo.

A lista foca os nomes da ciência na Europa de língua latina: não inclui, por exemplo, a ciência desenvolvida nos territórios sob domínio Árabe.

A "Idade das Trevas" deveria ser chamada de "Idade do Brilho", ela sob vários pontos de vista foi mais brilhante que a nossa época, diz Professor Anthony Esolen, do Providence College:







Na Idade Média nasceu a ciência logicamente sistematizada


A Geometria, The British Library

Ainda perduram os ecos do laicismo anticristão visceralmente difamador da Idade Média pelo fato de ter sido uma época modelada pela Igreja Católica.

Professores e enciclopedias objetivas e atualizadas abandonaram essas visões laicista anticristãs e anti-medievais.

Um exemplo é a própria Wikipedia que, no verbete Ciência Medieval, fornece ricas e ponderadas informações sobre a Era Medieval, e que reproduzimos a continuação.

Caos pós-queda de Roma

A Europa Ocidental entrou na Idade Média em grandes dificuldades que minaram a produção intelectual do continente.

Os tempos eram confusos e havia-se perdido o acesso aos tratados científicos da antiguidade clássica (em grego), ficando apenas as compilações resumidas e até deturpadas que os romanos tinham traduzido para o latim.

Entretanto, com o início do chamado Renascimento do Século XII, renovou-se o interesse pela investigação da natureza.

A ciência que se desenvolveu nesse período áureo da filosofia escolástica dava ênfase à lógica e advogava o empirismo, entendendo a natureza como um sistema coerente de leis que poderiam ser explicadas pela razão.

Foi com essa visão que sábios medievais se lançaram em busca de explicações para os fenômenos do universo e conseguiram avanços importantes em áreas como a metodologia científica e a física.

Decadência cultural e científica no Império Romano

Costuma-se dizer que os romanos eram um povo de orientação prática. Apesar de maravilhados com as descobertas do passado grego, não chegaram a formar novas instituições que buscassem especificamente entender o universo ou o mundo natural.

Ruínas do foro romano
Os verdadeiros centros de produção de conhecimento do Império Romano localizavam-se no seu lado oriental, de cultura grega. Eles tinham sido fundados antes do domínio romano e já não mantinham a mesma força criativa de períodos anteriores.

Devido ao fato da classe rica do Império ser bilíngue, em latim e em grego, não se sentia a necessidade de traduzir os tratados científico-filosóficos produzidos pela civilização grega.

Entretanto, era comum encontrar compilações resumidas das principais correntes do pensamento grego na língua latina. Esses resumos eram lidos e discutidos nos espaços públicos da agitada vida social romana.

Durante o processo de desestruturação do Império Romano do Ocidente, o ocidente europeu foi perdendo contato com o oriente e a língua grega acabou por ser esquecida.

Desse modo, a Europa Ocidental perdeu o acesso aos tratados originais dos filósofos clássicos, ficando apenas com as versões truncadas desse conhecimento que haviam sido anteriormente traduzidas.

É como se nos dias de hoje perdêssemos quase todos os trabalhos científicos e sobrasse apenas parte dos textos de revistas destinadas ao consumo popular.

A Igreja salvou do caos o que restava da cultura antiga

Abadia de Lagrasse, França
O Império Romano do Ocidente, embora unido pela língua latina, ainda englobava um grande número de culturas diferentes que haviam sido assimiladas de uma maneira incompleta pela cultura romana.

Debilitado pelas migrações e invasões de tribos bárbaras, pela desintegração política de Roma no século V e isolado do resto do mundo pela expansão do Islão no século VII, o Ocidente Europeu chegou a ser pouco mais que uma colcha de retalhos de populações rurais e povos semi-nômades.

A instabilidade política e o definhar da vida urbana golpearam duramente a vida cultural do continente.

A Igreja Católica, como única instituição que não se desintegrou nesse processo, manteve o que restou de força intelectual, especialmente através da vida monástica.





Sem a Igreja Católica
não teria havido ciência e progresso autênticos


Nas abadias, monges desenvolveram as ciências naturais
A alegada hostilidade da Igreja Católica à ciência não resiste a qualquer análise.

A verdade é que, sem a Igreja, não teria havido ciências sistemáticas e dinâmicas, diz o Prof. Thomas E. Woods "Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental".

De fato, a idéia de um mundo ordenado, racional — indispensável para o progresso da ciência — está ausente nas civilizações pagãs.

Árabes, babilônios, chineses, egípcios, gregos, indianos e maias não geraram a ciência, porque não acreditavam num Deus transcendente que ordenou a criação com leis físicas coerentes.

Os caldeus acumularam dados astronômicos e desenvolveram rudimentos da álgebra, mas jamais constituíram algo que se pudesse chamar de ciência. Os chineses "nunca formaram o conceito de um celeste legislador que impôs leis à natureza inanimada".

O paganismo bloqueou a ciência. Culto na China.

Resultado: descobriram a bússola, mas não sabiam para o que servia e a usavam em adivinhações.

A Grécia antiga confundia os elementos com deuses perversos e caprichosos.


O Islã recusava a existência de leis físicas invariáveis, porque coarctariam a vontade absoluta de Alá. Essas crendices todas tornam impossível a ciência.

O historiador da ciência Edward Grant indaga: "O que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais, de uma maneira que nenhuma outra civilização o fizera anteriormente? A resposta, estou convencido, encontra-se num espírito de investigação generalizado e profundamente estabelecido como conseqüência da ênfase na razão, que começou na Idade Média”.

Série da EWTN apresentada por Thomas E. Woods, autor do livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental". AULA 2. Legendada em Português.








Na Idade Média, a Europa encheu-se
de escritores, artistas, monumentos e invenções


Quanto ao ensino primário, também estava largamente difundido na Idade Média.

Em muitas regiões da Europa, havia escolas primárias gratuitas, funcionando ao lado de cada igreja paroquial, de forma a ministrar a instrução elementar a todos os indivíduos de todas as classes sociais.

As escolas primárias, como as superiores, estavam, na Idade Média, sob a alta orientação do Clero e da Igreja, que mantinha a unidade de pensamento do mundo cristão e portanto sua unidade política e a unidade de sua cultura, por meio da autoridade espiritual que cabe à Igreja Católica.

Os últimos séculos da Idade Média se caracterizaram por um extraordinário florescimento das letras e das artes. Apareceram, então, artistas e intelectuais que podem ombrear com os maiores que a humanidade tenha conhecido em qualquer tempo.

Sem me referir novamente a São Tomás de Aquino, o maior filósofo de todos os tempos, nem a São Boaventura, Santo Anselmo, Alberto Magno Duns Scott e muitos outros, cujos nomes convém que retenham desde já, vamos ao terreno literário.

Neste terreno, os três principais nomes são italianos. Dante (1265-1321) autor da "Divina Comédia" que faz dele um dos maiores poetas de todos os tempos, Petrarca (1304-1374) cujas canções e sonetos lhe valeram merecidamente a imortalidade, e Boccácio, (1313-1375), autor do "Decameron", célebre coleção de histórias, são três escritores em nada inferiores aos maiores que o mundo tenha produzido. Froissart, Joinville, Villehardouin, Pérez del Pulgar e outros, também foram escritores medievais de valor.

Os nomes de muito dos artistas medievais não nos são conhecidos. As maravilhosas catedrais da Idade Média, entre as quais se destacam especialmente a de Reims, Chartres, Paris, Colônia, Westminster, etc., estão cheias de obras de arte do maior valor, principalmente de estátuas dignas de figurar entre as mais famosas do mundo.

Infelizmente, porém, eles não deixaram seu nome à posteridade, porque trabalhavam sem a preocupação de granjear a celebridade.

As obras de arquitetura da Idade Média são dignas de figurar entre as mais famosas do mundo, e suas proporções excederam de muito às dos grandes monumentos gregos ou romanos.

Assim, a famosa Catedral de Notre Dame de Paris, obra de Maurice de Sully, tem dimensões incomparavelmente maiores do que as do Parthenon de Atenas.

Entre os nomes mais famosos nas artes da Idade Média, pode ser mencionado Claus Sluter, de origem alemã ou holandesa, que trabalhou na corte dos duques de Borgonha (1389-1405) onde, entre outras coisas famosas, esculpiu o célebre "Poço de Moisés".

A Idade Média conheceu invenções verdadeiramente notáveis. Três dentre elas merecem especial menção: a bússola, a pólvora e a imprensa.

Não há muita certeza a respeito do modo pelo qual a Europa medieval chegou ao conhecimento desses importantes fatores de civilização. É certo que os chineses os conheceram desde muito cedo.

Em todo o caso, se não se afirmar que os europeus os descobriram sem se servirem para isto do conhecimento do que se fazia na China ‒ o que se poderia ter dado por meio dos árabes ‒ é certo ao menos que os Europeus aperfeiçoaram notavelmente tanto a bússola, quanto a pólvora e a imprensa, de sorte a lhes darem uma utilidade extraordinária, desconhecida aos chineses.

Foram os medievais, os primeiros a tirar todo o proveito, para a navegação, das agulhas imantadas que se dirigem sempre para o Norte. Com pleno aproveitamento dessa propriedade, nasceu a bússola.

Foram os medievais, que conseguiram ‒ e infelizmente não trouxeram com isto grande vantagem à civilização ‒ utilizar a pólvora, não apenas como fogo de artifício à moda dos chineses, mas como eficientíssimo meio de combate.

Foram ainda os medievais, que conseguiram inventar a imprensa. A imprensa em madeira ‒ xilografia ‒ já era conhecida na Europa desde o XII século, mas seu desenvolvimento maior datou do século XV, quando Gutenberg, natural da Mogúncia, inventou os caracteres móveis de metal.

Também foi na Idade Média, no X século, que começou a ser utilizado o papel na Europa, em lugar do pergaminho.

Quanto à pólvora, discute-se se é a Alberto Magno, a Rogerius Bacon ou a Bertholdo Schwartz, que cabe a glória de ter inventado ou introduzido na Europa a pólvora de canhão, não se sabendo também, ao certo, se foi somente durante a guerra dos cem anos, ou já antes disto, que a pólvora começou a ser utilizada durante os combates.

É conveniente que os senhores notem uma característica importante destas invenções: elas, por si só, pouco significam. O que elas têm de interessante é que tornaram possíveis imensos progressos dos quais elas eram instrumentos quase indispensáveis.

Veja-se, por exemplo, a bússola. As grandes navegações de que resultaram o descobrimento da América e o contato com a ­sia, não teriam sido possíveis se não existisse a bússola.

O mesmo se deu com o papel e a imprensa: a geral divulgação das letras não seria tão fácil se não tivessem sido inventadas de antemão a imprensa e o papel.

O mesmo, ainda, se deu com a pólvora. Toda a formidável evolução da estratégia militar, veio substituir os antiquados e imensos castelos da Idade Média pelas que achou-se ser moderníssimas e subterrâneas “linhas Maginot”, não seria possível sem a invenção da pólvora que, na realidade, preparou todas as transformações que as artes bélicas têm sofrido. Isto, sem falar nos grandes proveitos industriais que a utilização da pólvora permite.

Essas invenções são bem características da Idade Média que, no terreno do progresso, foi sobretudo um período de elaboração e preparação fecundas.

Sem essa elaboração e as invenções preliminares a que ela deu lugar durante a própria Idade Média, o progresso material do mundo não teria sido, nem tão magnífico nem tão rápido, e certamente não teria atingido o esplendor a que chegou.

(Fonte: Curso “História da Civilização”, preleção do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira (Resumo ditado para exame). Colégio Universitário anexo à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, por volta de 1940.)





Os hospitais: frutos da caridade
desconhecidos antes da Idade Média


Hospital de Beaune, França
Hospital de Beaune, França

As ordens militares, fundadas durante as Cruzadas, criaram hospitais por toda a Europa.

A Ordem dos Cavaleiros de São João (ou Hospitalários, que deu origem à Ordem de Malta) criou um hospital em Jerusalém por volta de 1113.

João de Würzburg, sacerdote alemão, ficou pasmo com o que viu ali.

"A casa — escreveu ele — alimenta tantos indivíduos fora dela quanto dentro, e dá um tão grande número de esmolas aos pobres, seja os que chegam até a porta, seja os que ficam do lado de fora, que certamente o total das despesas não pode ser contado, nem sequer pelos administradores e dispensários da casa".

Teodorico de Würzburg, outro peregrino alemão, maravilhou-se porque "indo através do palácio, nós não podemos de maneira alguma fazer uma idéia do número de pessoas que ali se recuperam. Nós vimos um milhar de leitos. Nenhum rei, ou nenhum tirano, seria suficientemente poderoso para manter diariamente o grande número de pessoas alimentadas nessa casa".

Hospital para peregrinos, León, Castela, Espanha
Raymond du Puy, prior dos Cavaleiros Hospitalários, incitou os monges-guerreiros a fazerem sacrifícios heróicos por "nossos senhores, os pobres".

"Quando os pobres chegam — diz o artigo 16 do decreto de du Puy — devem ser assim acolhidos: que recebam o Santo Sacramento, após terem primeiro confessado seus pecados ao sacerdote, e depois sejam levados à cama, como se fosse um Senhor".

O decreto de du Puy virou um marco no desenvolvimento dos hospitais .

O Hospital de Jerusalém inspirou uma rede de hospitais similares na Europa.

No século XII eles pareciam mais com hospitais modernos do que com os antigos hospícios.

O de São João de Jerusalém impressionava pelo profissionalismo, organização e disciplina. Cada dia o doente devia ser visitado duas vezes pelos médicos, ser lavado e tomar duas refeições.

Hospital para peregrinos, hoje Parador Nacional San Marcos, León, Espanha.
Os responsáveis não podiam comer antes que os pacientes. Uma equipe de mulheres cumpria outras tarefas e garantia vestimentas e roupa de cama limpas.

O protestante Henrique VIII fechou os mosteiros e confiscou suas propriedades, na Inglaterra, sob a falsa acusação de que eram fonte de escândalo e imoralidade.

Desapareceu então a caridade para com os necessitados.

A redistribuição das terras abaciais trouxe "a ruína para incontáveis milhares dos mais pobres dos camponeses; a quebra de pequenas comunidades, que eram o seu mundo, e a verdadeira miséria passou a ser seu futuro". O desespero popular atiçou os motins populares de 1536.

Idêntico ou pior mal fez a Revolução Francesa. Em 1789, o governo revolucionário confiscou as propriedades da Igreja. Em 1847, mais de meio século depois, a França tinha 47% a menos de hospitais do que no ano do confisco.

Embaixo: video
A CARIDADE CATÓLICA. Aula 8ª do curso sobre 'A Igreja construtora da Civilização'pelo Prof. Thomas E. Woods

Para ver todo o curso CLIQUE AQUI















Universidades e catedrais francesas: farois da cultura medieval


Quando os cristãos saíram das catacumbas, após o Edito de Milão (313), ocuparam antigos templos pagãos e os consagraram ao culto verdadeiro.

Aproveitaram também prédios civis como as imponentes basílicas, onde outrora desenvolviam-se atividades judiciais, comerciais, bancárias e feiras no inverno.

As basílicas romanas eram imponentes, solenes e espaçosas. Mas, o conceito que presidiu sua construção em nada se assemelha ao conceito de catedral elaborado na França.

A “filha primogênita da Igreja” ideou a catedral como resumo do Universo todo ele ordenado em função da glória do Criador e de sua Santíssima Mãe, Nossa Senhora.

Elas foram chamadas de “Bíblia dos pobres”, explica um dos maiores autoridades em catedrais góticas, o professor Émile Mâle . Nelas, a “sancta plebs Dei” ‒ a santa plebe de Deus ‒ aprendia com seus olhos quase tudo o que sabia sobre a fé.

As estátuas distribuídas segundo um plano escolástico simbolizavam a maravilhosa ordem que, por meio do gênio de Santo Tomás de Aquino, reinava no mundo do pensamento.

Assim, por meio da arte os mais altos conceitos da teologia penetravam nas mentes mais humildes.

Os grandes temas representados na estatuária ou nos vitrais de catedrais como as de Paris, Chartres ou Reims encontram-se admiravelmente desenvolvidos em Burgos, Toledo, Siena, Orvieto, Bamberg, Friburg ou Cracóvia. Mas, em poucas eles estão tão bem expressos como na França. Em toda Europa ‒ observa Emile Mâle ‒ não há um só conjunto de obras de arte dogmática comparável ao da catedral de Chartres.

Nos canteiros de abadias e catedrais góticas a “filha primogênita da Igreja” gerou os vitrais. Tratava-se de livros escritos com luz que iluminavam as mentes com a linguagem das imagens, resumiam todo o saber humano, eram um espelho da vida, um apanhado do passado, do presente e do futuro.

Os primeiros vitrais do século X foram meras aberturas para permitir a entrada de luz e preenchidas com cristais coloridos.

O gótico, porém, quis liberar imensos muros para instalar colossais vitrais. Só a catedral de Metz tem hoje 6.496 m2 de vitrais!

Os vitrais encerram múltiplos significados e simbolismos, inclusive místicos. O principal deles é que o universo é uma imagem do Criador.

A graça divina ilumina a inteligência e lhe faz ver o lado das coisas que espelha melhor a Deus.

No vitral a luz do sol (símbolo da graça) torna a realidade compreensível, bela e admirável e facilita subir até a fonte de tudo, o sol, quer dizer, Deus, com grande e nobre prazer estético.

Na catedral de Chartres, o vitral mais famoso é o de Notre Dame de La Belle Verrière. (ao lado)

Mas, há muitas outras jóias como o vitral da Árvore de Jessé (genealogia de Jesus Cristo), o da vida de Santo Eustáquio, ou o dos feitos de Carlos Magno.

Outro conjunto supremo é o da Sainte-Chapelle em Paris. Entrando nela logo à direita lê-se de baixo para cima o Gênese, a história da Criação. As janelas seguintes resumem o Antigo Testamento até chegar no altar mor.

Ali lemos no vitral a Vida, Paixão e Morte de Cristo. Continuando o giro, encontramos os Atos dos Apóstolos e a vida dos Santos.

Por fim, fechando a volta, acima da entrada resplandece a rosácea do Apocalipse, portanto o anúncio do fim do mundo. É um percurso do início ao fim da História da humanidade.

As igrejas olhavam para o Oriente, de onde Cristo há de vir na sua segunda vinda. Então, quando o sol nascia iluminava o vitral da vida de Cristo centro da História, mas quando se punha fazia brilhar a rosácea do fim da História, com Cristo gladífero que virá julgar os vivos e os mortos.


Nos vitrais, as crianças aprendiam o catecismo, a História Sagrada e a vida dos Santos. Os adultos encontravam a descrição da ordem das ciências, das técnicas e profissões.

Os doutores tiravam inspiração para suas eruditas disputas.

Os simples fiéis sofredores recebiam afago, sorriso, compreensão, novo ânimo e apoio sobrenatural.





Invenção “sui generis” de um monge e Papa: o zero


Monumento ao Papa Silvestre II, Aurillac, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Ocidente latino apresenta um certo número de sábios que recolheram e propagaram as ciências matemáticas tais como as haviam elaborado os antigos gregos e os hindus, e as aperfeiçoaram os árabes.

Dentre eles foi célebre Gerbert, monge da abadia de Aurillac na França que, depois de ter aprendido em Barcelona com mestres árabes, tornou-se primeiramente professor em Reims, onde ensinou as ciências exatas; depois arcebispo de Reims e de Ravena; e por fim, papa sob o nome de Silvestre II (946–1003).

Ele compôs uma aritmética (regula de abaco computi), um tratado da divisão e uma geometria.

Atribui-se-lhe uma invenção que nos pareceria hoje muito simples e que, entretanto, transformou o estudo dos matemáticos proporcionando-lhes os maiores progressos: o zero.

Esta cifra que a Antigüidade clássica não conhecia, simplificou os cálculos e tornou facílimas as operações aritméticas. No século XI, o emprego do zero era já universal.

(Fonte: Jean Guiraud, “Histoire Partiale, Histoire Vraie”)





Idade Média: era de grandes descobertas geográficas


Lenda irlandesa conta que São Brendano
e seus monges chegaram a América.
Colombo queria encontrar a "terra de S. Brendano".

No domínio da exploração e dos conhecimentos geográficos, a atividade não foi menor.

É um erro, mais do que uma injustiça, fazer remontar apenas ao Renascimento a época das grandes viagens.

A descoberta da América fez esquecer que a curiosidade dos geógrafos e exploradores da Idade Média em relação ao Oriente não havia sido menor do que a dos seus sucessores em relação ao Ocidente.

Desde os primórdios do século XII, Benjamim de Toledo tinha ido até às Índias. Cerca de cem anos mais tarde, Odéric de Pordenone atingia o Tibete.

As viagens de Marco Polo, bem como outras menos conhecidas — as de Jean du Plan-Carpin, Guillaume de Rubruquis, André de Longjumeau, Jean de Béthencourt — bastam para dar idéia da atividade desenvolvida nessa época para a descoberta da Terra.

A Ásia e a África eram então infinitamente mais bem conhecidas do que o foram a seguir.

São Luís estabeleceu relações com o khan dos mongóis e também com o Velho da Montanha, o terrível senhor da seita dos assassinos.

A viagem de Marco Polo (1254 – 1324) ficou célebre.
Desde 1329 era estabelecido em Colombo, no sul da Índia, um bispado que recebeu por titular o dominicano Jourdain Cathala de Séverac.

As cruzadas haviam sido, para o mundo ocidental, ocasião de estabelecer e manter contato com o Oriente Próximo, mas na realidade as relações nunca haviam cessado completamente, alimentadas como eram pelos peregrinos e pelos mercadores.

Em direção à África, as explorações estenderam-se até à Abissínia e às margens do Níger, que foi alcançado no princípio do século XV por Anselmo Ysalguier, um burguês de Toulouse.

Seria certo que a América não foi visitada já desde essa época, se não mesmo “descoberta”?

É um fato certo que os vikings tinham atravessado o Atlântico Norte e estabelecido relações regulares com a Groenlândia.

Capela medieval na Groenlandia (reconstrução histórica)
Aí se estabeleceram islandeses, aí se instituiu um bispado, e em 1327 os groenlandeses respondiam ao apelo do papa João XXII à cruzada, enviando-lhe como participação nas despesas um carregamento de peles de focas e de dentes de morsas.

Não é impossível que a partir dessa época tenham explorado uma parte do Canadá e remontado o São Lourenço, onde Jacques Cartier haveria de descobrir com estupor, alguns séculos mais tarde, que os índios faziam o sinal da cruz e declaravam que o tinham aprendido dos seus antepassados.

Nada disto é tão espantoso, se considerarmos que por intermédio dos árabes a Idade Média se encontrava em relações pelo menos indiretas com a Índia e a China, e se beneficiava igualmente dos seus conhecimentos astronômicos e geográficos.

Um planisfério datado de 1413, traçado por Mecia de Viladestet e conservado na Biblioteca Nacional, dá a nomenclatura e a situação exata das estradas e dos oásis saarianos, em toda a extensão do deserto e até Tombuctu.

Nesse imenso espaço, que até meados do século XIX iria permanecer em branco nos nossos mapas, um viajante da Idade Média podia preparar com precisão o seu itinerário e saber quais iriam ser as etapas do seu percurso do Atlas ao Níger.

Contato e comércio com culturas e regiões longínquas
Outras tantas causas atuaram diretamente sobre as relações da Europa com o Oriente, e por ricochete sobre as ciências geográficas: os desastres da Guerra dos Cem Anos, o cisma do Oriente, e mais tarde a ruptura com o Islã e as invasões turcas.

É preciso acrescentar que, ao contrário do que se crê, os sábios do Renascimento manifestam um espírito retrógrado em relação aos seus antecessores, ao transferirem a base dos seus estudos para as obras da Antiguidade. (A este respeito, ver o artigo muito pertinente e muito documentado de R.P. Lecler, La Géographie des humanistes, no primeiro número da revista Construire (1940).)

Aristóteles e Ptolomeu tinham sido largamente ultrapassados neste domínio, e privar-se das lições da experiência para regressar às suas teorias era privar-se de todo um conjunto de aquisições pouco a pouco reconquistadas pela época moderna, prestando justiça, ainda neste ponto, à ciência medieval.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)





Historiadores recusam os mitos anti-católicos e anti-medievais


Castelo de Sully-sur-Loire, França
O prof. Thomas Woods escreveu:

“Durante os últimos cinqüenta anos, virtualmente todos os historiadores da ciência [...] vêm concluindo que a Revolução Científica se deve à Igreja” (p. 4). 

Não é só devido ao ensino, mas pelo fato de a Igreja ter gerado cientistas como o Padre Nicolau Steno, pai da geologia;
Padre Atanásio Kircher, pai da egiptologia.

Capa da obra do Prof. T. E. Woods
Padre Giambattista Riccioli, que mediu a velocidade de aceleração da gravidade terrestre;
Padre Roger Boscovich, pai da moderna teoria atômica, etc;


Réginald Grégoire, Léo Moulin e Raymond Oursel mostraram que os monges deram  

“ao conjunto da Europa [...] uma rede de fábricas-modelo, centros de criação de gado, centros de escolarização, de fervor espiritual, de arte de viver, [...] de disponibilidade para a ação social — numa palavra, [...] uma civilização avançada emergiu das ondas caóticas da barbárie que os circundava.
Sem dúvida nenhuma, São Bento
foi o Pai da Europa.
Os beneditinos, seus filhos, foram os pais da civilização européia”
(p. 5).


Video: Destrutores hodiernos do cristianismo, especialmente na União Européia







Os mosteiros levaram a agricultura a patamar nunca visto




Para Henry Goddell, presidente do Massachusetts Agricultural College, os monges salvaram a agricultura durante 1.500 anos.

Eles procuravam locais longínquos e inacessíveis para viver na solidão.

Lá, secavam brejos e limpavam florestas, de maneira que a área ficava apta a ser habitada.
Novas cidades nasciam em volta dos conventos.

O terreno em torno da abadia de Thorney, na Inglaterra, era um labirinto de córregos escuros, charcos largos, pântanos que transbordavam periodicamente, árvores caídas, áreas vegetais podres, infestados de animais perigosos e nuvens de insetos.

Abadia de Thorney
A natureza abandonada a si própria, sem a mão ordenadora e protetora do homem, encontrava-se no caos.

Cinco séculos depois, William de Malmesbury (1096-1143) descreveu assim o mesmo local:

"É uma figura do Paraíso, onde o requinte e a pureza do Céu parecem já se refletir. [...] Nenhuma polegada de terra, até onde o olho alcança, permanece inculta. A terra é ocultada pelas árvores frutíferas; as vinhas se estendem sobre a terra ou se apóiam em treliças. A natureza e a arte rivalizam uma com a outra, uma fornecendo tudo o que a outra não produz. Oh profunda e prazenteira solidão! Foste dada por Deus aos monges para que sua vida mortal possa levá-los diariamente mais perto do Céu!”

Mais tarde o protestantismo reduziu Thorney a ruínas, mas estas ainda emocionam os turistas.

Aonde chegavam, os monges introduziam grãos, indústrias, métodos de produção que o povo nunca tinha visto.

Selecionavam raças de animais e sementes, criavam bebidas alcoólicas e não, xaropes, remédios,  colhiam mel e frutos, requintavam os produtos da natureza local.

Na Suécia, criaram o comércio de milho; em Parma, o fabrico de queijo; na Irlanda, criações de salmão; por toda parte plantavam os melhores vinhedos. Até inventaram a cerveja como a conhecemos hoje e a champagne!

Abadia de Beauport
Represavam a água para os dias de seca. Os mosteiros de Saint-Laurent e Saint-Martin canalizavam água destinada a Paris.

Na Lombardia, ensinaram aos camponeses a irrigação que os fez tão ricos. Cada mosteiro foi uma escola para explorar os recursos da região.

Seria muito difícil encontrar um grupo, em qualquer parte do mundo, cujas contribuições tivessem sido tão variadas, tão significativas e tão indispensáveis como a dos monges do Ocidente na época de miséria e desespero que se seguiu à queda do Império Romano, defende o historiador Thomas Woods. (veja as aulas deste professor americano legendadas em português. CLIQUE AQUI)

Quem mais na História pode ostentar semelhante feito? –– pergunta Woods.

Realmente, por mais que se procure, não se encontra.










Descobertas grandes e surpreendentes


No início do século VII, o monge Eilmer voou mais de 180 metros com uma espécie de asa delta.

Posteriormente o padre jesuíta Francesco Lana-Terzi estudou o vôo de modo sistemático e descreveu a geometria e a física de uma nave voadora.

Elmer, monge de Malmesbury
num vitral com sua asa delta
Os monges eram habilidosos relojoeiros.

O primeiro relógio mecânico de que se tem registro foi feito pelo futuro papa Silvestre II para a cidade de Magdeburg, na Alemanha por volta do ano 996.

No século XIV, Peter Lightfoot, monge de Glastonbury, construiu um dos mais antigos relógios ainda existentes.

Richard de Wallingfor, abade de Saint Albans, além de ser um dos iniciadores da trigonometria, desenhou um grande relógio astronômico para o mosteiro, que predizia com precisão os eclipses lunares.

Relógios comparáveis só apareceriam dois séculos depois.

Gerry McDonnell, arqueometalurgista da Universidade de Bradford, na Inglaterra, encontrou nas ruínas da abadia de Rievaulx, as provas de um grau de avanço tecnológico capaz de produzir as grandes máquinas do século XVIII.

Os religiosos medievais tinham conseguido fornos capazes de produzir aço de alta resistência.

Rievaulx foi fechada pelo heresiarca Henrique VIII em 1530, e por isso o aproveitamento dessas descobertas ficou atrasado de dois séculos e meio.

Abadia de Rievaulx: seu avanço tecnológico teria permitido construir
na Idade Média as grandes máquinas que só apareceram 250 anos depois
Em Arbroath (Escócia) os abades instalaram um sino flutuante num recife perigoso, que as ondas agitadas faziam soar para alertar os navegantes.

O recife ficou conhecido como "Bell Rock" (Recife do Sino). Hoje um farol e um museu lembram o fato.

Por toda parte os frades construíam ou reparavam pontes, estradas e outras obras indispensáveis para a infra-estrutura medieval.

E isto sem nenhuma despesa para o erário público.

Oh época feliz, em que os cidadãos não viviam esmagados por impostos para obras que acabam sendo mal feitas, quando são feitas!






Castelos, abadias e aldeias integradas com a natureza.
Exemplo dos queijos e cervejas de Chimay


Mosteiro de Scourmont


Uma equipe da Globo Rural foi até a Bélgica para contar a história de um queijo delicioso, produzido por monges de uma abadia gótica que também fabrica cervejas.

O mosteiro de Scourmont fica em Chimay, no sul do país, uma cidadezinha tranquila com ruas estreitas e fachadas antigas.

E um imponente castelo: o dos Príncipes de Chimay, uma das mais nobres famílias belgas.

A princesa de Chimay
No Castelo dos Príncipes, no centro da cidade, mora a simpática princesa Elisabeth de Chimay.

Ela contou que alguns aposentos do castelo têm quase 800 anos de idade.

Sua capela abrigou em 1449 o famoso Santo Sudário hoje em Turim.

O Teatro dos Príncipes ainda hoje acolhe concertos de música clássica.
“Naquela época, o dono do castelo era conhecido como o Grande Príncipe. Pois bem, esse príncipe, que era antepassado do meu marido, resolveu convidar alguns monges do norte da Bélgica para fundar uma abadia.

Para isso, doou algumas terras aos religiosos, que começaram a levantar o novo mosteiro. Uma vez instalados, os monges passaram a fazer os seus produtos caseiros, que há séculos garantem a prosperidade da região” – explicou a princesa.

Castelo de Chimay
Com o estímulo e a proteção da nobreza começou a história da abadia trapista de Notre-Dame de Scourmont, em Chimay.

“Os monges tinham alimentação fraca e trabalhavam muito. Então, era preciso reforçar as refeições com produtos mais nutritivos.
Foi aí que surgiu a ideia de fabricar queijos e cervejas. Tudo era feito para o nosso próprio consumo, para compensar o esforço físico e fortalecer os músculos”, respondeu o Père Omère (Padre Homero).
O castelo de Chimay numa iluminura
Os monges antigos levavam a sério a Regra, que incluía muito jejum e abstinência de carne. No inverno e nas épocas como as da colheita – os monges viviam de seu trabalho – a observância era exemplar. Era preciso reforçar a alimentação com alimentos que não violassem a Regra.

Veja vídeo
Video de Chimay
(Globo Rural)

Os queijos e as cervejas dos monges eram tão saborosos que logo atraíram a atenção de pessoas de fora. Aos poucos, a fabricação artesanal foi dando lugar a uma atividade comercial. Mas não perdeu a identidade trapista.

Hoje em dia, os monges contam com equipamentos modernos e funcionários treinados.

A abadia fabrica três cervejas com cores e sabores diferentes. Todas são encorpadas, cremosas, levemente amargas e com teor alcoólico que varia de 7% a 9%.

A fabricação de queijos da abadia atravessou os séculos e permanece viva, como um dos símbolos da região, diz a reportagem da Globo Rural.

Na base desse trabalho estão centenas de sítios e de famílias do campo. Gente que mora no entorno de abadia e que ganha a vida produzindo leite.

Os monges trapistas fazem cervejas diversas
No começo dos anos 80, os monges de Scourmont resolveram construir um novo laticínio da abadia. O objetivo era melhorar o controle sanitário, adotar métodos mais modernos e aumentar o volume de produção. Tudo isso respeitando a história e a tradição do queijo local.

Um dos cinco queijos fabricados no laticínio é reforçado com um ingrediente especial: a cerveja de Chimay.

Na etapa final, os queijos são levados para as caves. São salas que têm temperatura e umidade controladas. Os produtos ficam em prateleiras de quatro semanas a oito meses, segundo o tipo.

O laticínio da abadia vende cerca de mil toneladas de queijo por ano. Metade fica na Bélgica e metade é exportada, principalmente para a França, o Japão e os Estados Unidos.

Alain Hotelet, responsável comercial, explicou o sabor do queijo: “Este é o queijo clássico, que foi o primeiro a ser fabricado pelos monges. Ele é muito suave e, por isso, apreciado por um público amplo. Já o segundo tipo, o grand cru, leva mais tempo na maturação. É um queijo com aroma mais marcante e um gosto mais forte”.

O queijo Chimay é muito procurado
Mais alto e alaranjado, o vieux chimay chega a ficar oito meses nas caves. É um queijo seco e ótimo para ser consumido em cubos, como aperitivo.

É um produto para quem gosta de queijos com personalidade. Bronzeado e mais robusto, o queijo na cerveja é o mais famoso e o mais vendido pelo laticínio. Os preços são moderados.

A reportagem acaba apresentando um modelo de integração harmônica do castelo, da abadia e da produção agrícola com a natureza. Essa foi uma das notas características da sociedade orgânica medieval.

Sem dúvida, o modelo medieval está nas antípodas das planificações escrúxulas do ambientalismo dirigista hodierno, que manifesta entender pouco ou nada da natureza e muito do utopismo comuno-tribalista.


Video: Chimay: castelo, abadia e aldeia bem harmonizadas com a natureza








Melhores vinhos modernos: herança das abadias medievais


Abbaye Sylva Plana, Le Songe de l'Abbé, faugères; Domaine de l'abbaye du Petit Quincy, chablis; Le Clos du Cellier aux Moines. Fundo: antiga abadia de Paray-le-Monial
Abbaye Sylva Plana, Le Songe de l'Abbé, faugères;
Domaine de l'abbaye du Petit Quincy, chablis;
Le Clos du Cellier aux Moines
Fundo: antiga abadia de Paray-le-Monial
Os vinhedos da Gália do tempo dos romanos – que inclui a França, mas partes de outros países europeus – foram plantados pelos legionários durante suas guerras de conquista no século I.

Eles tinham uma muito grande sofisticação na produção, escreveu o especialista em vinhos Marcel Larchiver em seu livro de referência “Vinhos, vinhas e vinhateiros”:

“Para os romanos, o vinho era ao mesmo tempo um objeto de comércio e de luxo, mas também um néctar divino do qual lhes parecia impossível renunciar. Por isso, o vinhedo era rodeado de todos os cuidados”.

Porém, o Império Romano veio abaixo no século V e a anarquia e os saques das hordas bárbaras destruiram a plantação.

Foi nessa época de caos, morte e destruição que se desenvolveu o apostolado da Igreja Católica.

Já desde o século IV a Igreja estimulava o desenvolvimento das vinhas. Em primeiro lugar porque o vinho era necessário para a consagração na Missa e para a Comunhão.

Os bispos fundaram importantes vinhedos, e esta obra contribuiu a fortalecer sua imagem ante o povo.

Mas vieram também os mosteiros. Na França medieval havia mais de um milhar de mosteiros masculinos entre os quais 250 abadias cistercienses e mais de 400 abadias beneditinas.

O vinho também era necessário para fortalecer os numerosos peregrinos que batiam nas portas das abadias para pedir hospedagem e alimentação gratuita após longas jornadas de caminhada.

O vinho que os medievais apreciavam também tinha efeitos benéficos para a saúde e era usado para tratar os doentes.

A abadia de Cîteaux foi fundada em 1098 e adquiriu em 1100 um terreno então desconhecido, mas onde hoje se faz o famosíssimo Vougeot. Ali, os monges plantaram uma vinha hoje universalmente cobiçada.

Abbaye de Valmagne, Coteaux du Languedoc; Domaine da abadia du Petit Quincy;  Corbières Deo Gratias, abadia de Corbières. Fundo: abadia na Aquitânia
Abbaye de Valmagne, Coteaux du Languedoc; Domaine da abadia du Petit Quincy;
Corbières Deo Gratias, abadia de Corbières. Fundo: abadia na Aquitânia
Eles coletaram, uma a uma, as pedras brancas que impediam a plantação e as usaram para fazer cercas de pedra que delimitavam a propriedade, afastavam os ladrões e concentravam o calor do sol.

Nasceu assim o Clos (fechado) de onde o nome Clos Vougeot.

Os leigos intercalavam as vinhas com árvores frutíferas para completar os lucros.

Mas, os monges interditaram absolutamente esse costume para não empobrecer a terra e evitar a sombra sobre as uvas.

Eles se empenharam em selecionar as melhores cepas, requintar o processo de vinificação e definir os melhores locais.

Nasceram assim mais de uma centena de “appellations” francesas que são de origem puramente monástico.

Os monges viajavam muito e trocavam informações sobre técnicas por via oral, por isso faltam registros sobre o assunto.

Eles ensinavam aos populares como fazer sem receber nada em troca, salva a gratidão que o povo foi manifestando a seus benfeitores.

O prestígio dos vinhedos monacais atravessou as fronteiras francesas. Um certo Dom Denise, monge italiano ingressou num mosteiro da Borgonha só para roubar o segredo do vinho.

O fruto de sua espionagem ficou registrado numa “Memória” que acabou sendo descoberta há uma década numa biblioteca de Florença.

O documento demostra que os eclesiásticos reclusos haviam desenvolvido a ponta da técnica e que seus métodos não perderam um milímetro de atualidade.

Le Clos du Cellier aux Moines; Abbaye de Valmagne, Coteaux du Languedoc;  Deo Gratias, abadia de Corbières; Abbaye Sylva Plana, Le Songe de l'Abbé.  Fundo: abadia de Royaumont, Ile de France.
Le Clos du Cellier aux Moines; Abbaye de Valmagne, Coteaux du Languedoc;
Deo Gratias, abadia de Corbières; Abbaye Sylva Plana, Le Songe de l'Abbé.
Fundo: abadia de Royaumont, Ile de France.
Acresce que as propriedades dos monges possuíam uma estabilidade de séculos, e os vinhos, portanto, herdavam séculos de requintes.

Porém, a torpeza da Revolução Francesa golpeou a própria base desta paciente construção: a propriedade.

As abadias de Cluny e Cîteaux foram arrasadas e todos os bens da Igreja foram confiscados, depredados e vendidos a vil preço.

Alguns desses vinhedos haviam sido vendidos a particulares em tempos anteriores em circunstâncias diversas.

Foi o caso de vinhedos que produzem vinhos cujo simples nome faz sonhar os entendido: por exemplo o de Romanée cedido em 1631, e o de Clos de Bèze em 1651.

Ainda hoje são produzidos vinhos abaciais na origem, graças ao empenho de sucessores dos compradores dos vinhedos monásticos durante os desmandos democráticos revolucionários.

Os dias atuais exigem objetivos de rentabilidade que nem passavam pela cabeça dos monges que aspiravam à eternidade, e esses vinhos passam airosos o teste.

Mas, o exemplo dos religiosos medievais ainda exerce boa influência.

Como diz um dos atuais proprietários, citado por “Le Figaro”: “num local como este não há opção: nós temos a obrigação de fazer o melhor”.





Monges trapistas fazem a melhor cerveja do mundo


30 garrafas de Westvleteren XII com seus copos
e a caixa (no fundo) para presente

A cerveja Westvleteren XII, produzida na Abadia de São Sixto de Westvleteren (Bélgica), há anos vem sendo eleita a melhor do mundo por milhares de especialistas.

Em conseqüência, os pedidos dessa bebida se multiplicaram, a cerveja se esgotou e muitos clientes exigiram aumento de produção.

A abadia, contudo, não pretende faze-lo. “Para nós, a vida na abadia vem primeiro, não a cervejaria” — explicou o monge Mark Bode ao jornal "De Morgen".

Na abadia, cerca de 30 monges trapistas levam uma vida de reclusão, orações e trabalho manual.

Neste ano (2013) a cerveja Westvleteren XII voltou a ser apontada como “a melhor cerveja do mundo” (“Best Beer in the World”). Confira no site Ratebeer.

A imprensa especializada se pergunta como isso pode ser possível, superando em qualidade os maiores holdings e empresas de cerveja do mundo.

Muitos pequenos fabricantes tentam imitar seus procedimentos.

Uma das maiores dificuldades dos monges de São Sixto é que a Westvleteren é tão procurada que se esgota logo.

Os monges trapistas ficam então obrigados a vender quantias limitadas por cliente.

Os monges não acostumam dar entrevistas e a mídia em geral se sente incomodada não sendo recebida.

Também os frades não fazem propaganda de suas cervejas. Acresce o fato que a cerveja monástica é vendida sem etiqueta desde 1945.

Porém, para cortar o caminho a maledicências, o monge Mark Bode ratificou à imprensa que a abadia não tem intenção de aumentar a produção malgrado a demanda.

“Nós fazemos a cerveja para viver, mas nós não vivemos para fazer cerveja”, esclareceu. O eventual lucro excedente é destinado a obras de caridade.

Os monges de São Sixto não ligam para a fama justamente conquistada pelas suas cervejas.

Os visitantes não-monásticos da abadia em geral são dissuadidos para não entrar, mas podem encontrar informação num centro sobre a abadia e as cervejas.

Os frades desejam produzir só o necessário para a comunidade poder prosseguir sua vida de oração, silencio e contemplação.

Restos ainda vivos da Idade Média, época que no ensinamento de S.S.Leão XIII, a filosofia do Evangelho impregnava as instituições e a civilização produziu frutos superiores a toda expectativa.





Ordenadas pela lógica floresceram ciências
como a mecânica, as matemáticas, a física e a astronomia


Estudo de D. Grosseteste sobre a refração da luz, século XIII
A primeira metade do século XIV viu o trabalho científico de grandes pensadores. Inspirado em Duns Scot, William de Occam entendia que a filosofia só deveria tratar de temas sobre os quais ela pudesse obter um conhecimento real.

Seus estudos em lógica levaram-no a defender o princípio hoje chamado de Navalha de Occam: se há várias explicações igualmente válidas para um fato, então devemos escolher a mais simples. Isso deveria levar a um declínio em debates infrutíferos e mover a filosofia natural em direção ao que hoje é considerado Ciência.

Nessa altura, acadêmicos como Jean Buridan e Nicole d'Oresme começaram a questionar aspectos da mecânica aristotélica.

Em particular, Buridan desenvolveu a teoria do ímpeto, que explicava o movimento de projéteis e foi o primeiro passo em direção ao moderno conceito de inércia. Buridan antecipou Isaac Newton quando escreveu:

...depois de deixar o braço do arremessador, o projétil seria movido por um ímpeto dado a ele pelo arremessador e continuaria a ser movido enquanto esse ímpeto permanecesse mais forte que a resistência. Esse movimento seria de duração infinita caso não fosse diminuído e corrompido por uma força contrária resistindo a ele, ou por algo inclinando o objeto para um movimento contrário.

Nessa mesma época, os denominados Calculatores de Merton College, de Oxford, elaboraram o Teorema da velocidade média.

Expositio in Aristotelis por Johannes Buridan
Usando uma linguagem simplificada, este teorema estabelece que um corpo em movimento uniformemente acelerado percorre, num determinado intervalo de tempo, o mesmo espaço que seria percorrido por um corpo que se deslocasse com velocidade constante e igual à velocidade média do primeiro. Mais tarde, esse teorema seria a base da “Lei da queda de corpos”, de Galileu.

Hoje sabemos que as principais propriedades cinemáticas do movimento retilíneo uniformemente variado (MRUV), que ainda são atribuídas a Galileu pelos textos de física, foram descobertas e provadas por esses acadêmicos.

Nicole d'Oresme, por sua vez, demonstrou que as razões propostas pela física Aristotélica contra o movimento do planeta Terra não eram válidas e invocou o argumento da simplicidade (da navalha de Occam) em favor da teoria de que é a Terra que se move, e não os corpos celestiais.

No geral, o argumento de Oresme a favor do movimento terrestre é mais explícito e bem mais claro do que o que foi dado séculos depois por Copérnico. Entre outras proezas, Oresme foi o descobridor da mudança de direção da luz através da refração atmosférica; embora, até hoje, o crédito por esse feito tenha sido dado à Robert Hooke.

Em 1348, a Peste Negra levou este período de intenso desenvolvimento científico a um fim repentino. A praga matou um terço da população européia. Por quase um século, novos focos da praga e outros desastres causaram contínuo decréscimo populacional. As áreas urbanas, geralmente o motor das inovações intelectuais, foram especialmente afetadas.

Cristianismo e o estudo da natureza

O pensamento de Santo Agostinho foi basilar ao orientar a visão do homem medieval sobre a relação entre a fé cristã e o estudo da natureza. Ele reconhecia a importância do conhecimento, mas entendia que a fé em Cristo vinha restaurar a condição decaída da razão humana, sendo, portanto, mais importante.

Livre de la Chasse, BNF, Paris
Agostinho afirmava que a interpretação das escrituras deveria ser feita de acordo com os conhecimentos disponíveis, em cada época, sobre o mundo natural. Escritos como sua interpretação “alegórica” do livro bíblico do gênesis vão influenciar fortemente a Igreja medieval, que terá uma visão mais interpretativa e menos literal dos textos sagrados.

Durante os tempos confusos da dissolução do Império Romano do Ocidente e dos primeiros séculos da Idade Média muito da cultura clássica se perdeu, mas o declínio cultural teria sido bem mais intenso não fosse pelo monasticismo, mais especificamente pela ação dos monges copistas.

É bem verdade que os textos em grego já não estavam mais acessíveis pelo esquecimento do idioma e que os escritos que passavam pelo trabalhoso processo de cópia manual eram selecionados de acordo com a importância dada a eles pelos religiosos.

Alcuino, abade de York
A Igreja também esteve a cargo da estrutura educacional, ou, pelo menos, supervisionando a mesma. Quando Carlos Magno chamou o monge Alcuíno para elaborar uma reforma na educação européia, a Igreja ficou responsável tanto pelas escolas monacais quanto pelas escolas catedrais.

A maioria das universidades nos séculos XII e XIII surgiram precisamente de escolas ligadas às catedrais e funcionavam sob a proteção de jurisdição eclesiástica.

Com relação à investigação da natureza, que renasceu na Idade Média Clássica, já foi mencionada a importância das ordens religiosas mendicantes. Embora Bernardo de Claraval e alguns outros religiosos tenham chegado a desencorajar o estudo das ciências por entenderem que muitos buscavam esses conhecimentos por vaidade, seus pontos de vista jamais foram adotados.

A Inquisição estava presente, mas a Igreja concedia aos professores muita elasticidade em suas doutrinas e, em muitos casos, estimulou as investigações científicas.

Nas universidades, o campo da filosofia natural dispunha de grande liberdade intelectual, desde que restringisse suas especulações ao mundo natural. Embora se esperassem retaliações e castigos caso os filósofos naturais passassem desse limite, os procedimentos disciplinares da Igreja eram voltados principalmente aos teólogos, que trabalhavam numa área bem mais perigosa.

Em geral, havia suporte religioso para a ciência natural e o reconhecimento de que esta era um importante fator no aprendizado.











Nascimento e triunfo dos altos estudos


Faculdade de Medicina de Salerno
Por volta de 1150 são fundadas as primeiras universidades medievais – Bolonha (1088), Paris (1150) e Oxford (1167) — em 1500 já seriam mais de setenta. Esse foi efetivamente o ponto de partida para o modelo actual de universidade.

Algumas dessas instituições recebiam da Igreja ou de Reis o título de Studium Generale; e eram consideradas os locais de ensino mais prestigiados da Europa, seus acadêmicos eram encorajados a partilhar documentos e dar cursos em outros institutos por todo o continente.

Tratando-se não apenas de instituições de ensino, as universidades medievais eram também locais de pesquisa e produção do saber, além de focos de vigorosos debates e muitas polêmicas. Isso também ficou claro nas crises em que estas instituições estiveram envolvidas e pelas intervenções que sofreram do poder real e eclesiástico.

A filosofia natural estudada nas faculdades de Arte dessas instituições tratava do estudo objetivo da natureza e do universo físico. Esse era um campo independente e separado da teologia; entendido como uma área de estudo essencial em si mesma, bem como um fundamento para a obtenção de outros saberes.

Influxo decisivo das ordens religiosas

Outro fator importante para o florescimento intelectual do período foi a atividade cultural das novas ordens mendicantes: especialmente os Dominicanos e os Franciscanos.

São Francisco e franciscanos, Benozzo Gozzoli
Ao contrário de ordens monásticas, voltadas para a vida contemplativa nos mosteiros, essas novas ordens eram dedicadas à convivência no mundo leigo e procuravam defender a fé cristã pela pregação e pelo uso da razão.

A integração dessas ordens nas universidades medievais proporcionava a infra-estrutura necessária para a existência de comunidades científicas e iria gerar muitos frutos para o estudo da natureza, especialmente com a renomada escola Franciscana de Oxford.

O influxo de textos gregos, as ordens mendicantes e a multiplicação das universidades iriam agir conjuntamente nesse novo mundo que se alimentava do turbilhão das cidades em crescimento.

Em 1200 já havia traduções latinas razoavelmente precisas dos principais trabalhos dos autores antigos mais cruciais para a filosofia : Aristóteles, Platão, Euclides, Ptolomeu, Arquimedes e Galeno.

Nessa altura a filosofia natural (e.g. ciência) contida nesses textos começou a ser trabalhada e desenvolvida por escolásticos notáveis como: Robert Grosseteste, Roger Bacon, Alberto Magno e Duns Scot, que trariam novas tendências para uma abordagem mais concreta e empírica, representando um prelúdio do pensamento moderno.

A Igreja Católica, alma da reta glorificação da razão

Universidade Jagellonica, Cracovia, Polônia
Grosseteste, o fundador da escola Franciscana de Oxford, foi o primeiro escolástico a entender plenamente a visão Aristotélica do caminho duplo para o pensamento científico: generalizar de observações particulares para uma lei universal; e depois fazer o caminho inverso: deduzir de leis universais para a previsão de situações particulares.

Além disso, afirmou que esses dois caminhos deveriam ser verificados - ou invalidados - através de experimentos que testassem seus princípios. Grosseteste dava grande ênfase à matemática como um meio de entender a natureza e seu método de pesquisa continha a base essencial da ciência experimental.

Roger Bacon, aluno de Grosseteste, dá atenção especial à importância da experimentação para aumentar o número de fatos conhecidos a respeito do mundo. Ele descreve o método científico como um ciclo repetido de observação, hipótese, experimentação e necessidade de verificação independente.

Bacon registrava a forma em que conduzia seus experimentos em detalhes precisos, a fim de que outros pudessem reproduzir seus experimentos e testar os resultados - essa possibilidade de verificação independente é parte fundamental do método científico contemporâneo.





A minúscula carolíngia mudou o rumo da cultura
e promoveu a alfabetização


O Sacramentário de Tyniecki adotou a minúscula carolíngia, clara, fácil de ler
O Sacramentário de Tyniecki adotou
a minúscula carolíngia, clara, fácil de ler
Nada de mais básico para a leitura do que uma escritura legível e uma boa caligrafia ou tipografia.

O leitor imagine um texto todo escrito em maiúsculas, sem espaços entre uma palavra e outra. Seria muito penoso de ler.

Era o caso da escritura dos romanos da qual provém a nossa.

Os romanos escreviam assim, como está registrado em inúmeros monumentos, como no arco de Septimio Severo em Roma por exemplo.

Devemos a facilidade de leitura da nossa escritura à Idade Média.

E sobre tudo ao imperador Carlos Magno.

Por volta do ano 780, o imperador ordenou que a Escola Palatina, que funcionava em seu palácio, passasse a usar letras minúsculas e pusesse espaços entre as palavras.

Foi assim que se tornou oficial a “Minúscula carolíngia”, antepassada direta de nossa escritura.

Carlos Magno agiu aconselhado pelo abade Alcuíno, monge beneditino de York, e que foi uma espécie de ministro de Educação muito prezado pelo imperador.

Os romanos escreviam tudo em maiúsculas e sem espaços.
Dedicatória ao imperador Septimio Severo, Roma.
O exemplo do palácio real pegou em todo o Império: escolas, livros, textos religiosos adotaram a nova forma de escrever.

Carlos Magno queria que as letras fossem arredondadas, de tamanho igual, de modo a ser o mais fácil possível de ler e de escrever.

A minúscula carolíngia substituiu a minúscula merovíngia irregular confusa e de leitura dificultosa.

Na nova letra, as maiúsculas ficaram como vieram dos romanos.

As minúsculas foram inspiradas pela escritura uncial e semi-uncial usada pelos monges da Inglaterra e Irlanda.

Alternando maiúsculas, minúsculas e espacos a leitura ficava facilitada enormemente
Alternando maiúsculas, minúsculas e espacos
a leitura ficava facilitada enormemente
A forma final foi elaborada pelo abade Alcuíno sob direta supervisão de Carlos Magno.

O mais antigo manuscrito que usa a “minúscula carolíngia” é o Evangeliário de Carlos Magno, ou de Godescalco que hoje se encontra na Biblioteca Nacional da França (NAL 1203) e que foi encomendado pelo imperador.

A minúscula foi uma grande e utilíssima novidade: homogênea, arredondada, formas claras, as mais legíveis possíveis, incluindo a separação das palavras com espaços.

A recém-nascida minúscula comportou variantes regionais e deu origem a diversos tipos de letras, das quais derivam as que o leitor está visualizando na tela de seu computador.

As abadias da França, Suíça, Alemanha, Áustria e Itália passaram a empregá-la.

Inglaterra e Irlanda a adotariam pouco depois, e o mesmo fizeram os outros países da Cristandade.

O manuscrito de Freising, primeiro escrito em língua eslava também adotou a minúscula de Carlos Magno.
O manuscrito de Freising, primeiro escrito em língua eslava
também adotou a minúscula de Carlos Magno.
Foi tão grande a expansão da letra do imperador que o manuscrito de Freising, primeiro texto redigido em língua eslava já a usava.

A facilidade de ler e escrever pesou decisivamente na conservação e transmissão das obras clássicas da Antiguidade.

Os escritos de Ovídio, Cícero, Virgílio, entre outros, copiados pelos monges ficaram acessíveis a todos.

Este formidável movimento cultural é conhecido como “Renascimento Carolíngio”.

Assim chegaram até nós, milhares de livros do mundo grego e latino, escritos com a “minúscula carolíngia”.

Pela primeira vez na história, um continente inteiro – a Europa –foi saindo do analfabetismo pela obra benfeitora dos monges das abadias católicas e do grande imperador Carlos Magno.





Convite aos fiéis a aprofundar racionalmente as verdades da fé


Castelo de Chaumont
O historiador Rodney Stark colocou o problema: na História houve apenas uma civilização que saiu do nada, para acabar sendo hegemônica: a ocidental.

Existiram, sem dúvida, outras grandes civilizações: chinesa, egípcia, caldéia, indiana, etc.

Elas todas se iniciaram num alto nível, ficaram porém estagnadas e decaíram lenta mas irreversivelmente ao longo dos milênios.

Por que não cresceram como a ocidental e cristã?

Stark indica como causa dessa diferença capital entre a civilização cristã e as outras o papel desempenhado pela Igreja Católica.

As religiões pagãs, diz ele, originaram-se de lendas fantásticas impostas sem explicação.

Só a Religião católica convida os fiéis a aprofundar racionalmente as verdades da fé.

Já no século II Tertuliano ensinava que “Deus, o Criador de todas as coisas, nada fez que não fosse pensado, disposto e ordenado pela razão”.

Clemente de Alexandria, no século III, insistia: “Não julgueis que o que nós dissemos deve ser aceito só pela fé, mas deve ser acreditado pela razão”. Santo Agostinho consagrou tal ensinamento, e Santo Tomás, com suas Summas, levou-o a um píncaro.

Índia: pagãos despejam leite, especiarias e moedas sobre ídolo

Além do mais, os mitos abstrusos do paganismo degradam seus próprios seguidores.

Basta olhar para os pagãos da Índia, que despejam sobre um ídolo leite, especiarias e moedas de ouro de que podem ter necessidade, como se vê na foto.

Os monges medievais aplicaram a lógica racional à vida quotidiana e criaram uma regra de vida.

Surgiram então prédios de uma beleza até então desconhecida; o trabalho foi dignificado e organizado; surgiram escolas de todo tipo; códigos civis e comerciais, leis internacionais, hospitais, fábricas, invenções, remédios eficazes; vinhos e licores, etc. <

A vassalagem do monge em relação ao abade e as relações das abadias entre si inspiraram a organização política feudal.

Uma força de elevação e requinte foi transmitida pela Igreja à sociedade no transcurso de gerações, e ergueu-se assim o mais formidável e esplendoroso edifício civilizador da História.





A Idade Média foi uma explosão de liberdade,
criatividade e progresso, diz catedrático de Lisboa


Catedral de Strasbourg, França
Catedral de Strasbourg, França

A Idade Média, impropriamente chamada "Idade das Trevas", foi uma das épocas de maior desenvolvimento e criatividade técnica, artística e institucional da História, escreveu o Prof. João Luís César das Neves, Professor Catedrático e Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa, no Diário de Notícias de Lisboa.

A Cristandade, explicou ele, gerou um surto de criatividade prática. Assim as realizações da Idade Média resultaram em melhorias da vida das aldeias, não em monumentos que os renascentistas poderiam admirar.

Relógio na catedral de Strasbourg
Relógio na catedral de Strasbourg
Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta: ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, relógio, carrinho de mão, etc.

A notação musical, arquitectura gótica, tintas a óleo, soneto, universidade, além das bases da ciência, a separação Igreja-Estado e a liberdade dos escravos são também criações medievais.

Ponte na cidade de Strasbourg
Ponte na cidade de Strasbourg
Em todos estes avanços, e muitos outros, têm papel decisivo mosteiros, conventos e escolas da catedral, bem como a confiança da teologia cristã no progresso, contrária à de outras culturas.

Depois a peste negra, a guerra e os déspotas iluminados, retornando à pilhagem clássica, destruíram esse florescimento e levaram os filósofos tardios a pensar ter descoberto o que os antepassados praticavam.

Nessa reconstrução perderam-se alguns elementos centrais da versão católica inicial.

Fac-símile da "Bíblia de São Luís" rei da França
Fac-símile da "Bíblia de São Luís" rei da França
Por exemplo, no século XII,

"cada vez que faziam ou reviam um orçamento era criado, com algum capital da empresa, um fundo para os pobres.

"Estes fundos aparecem registados em nome 'do nosso bom Senhor Deus' (...) quando uma empresa era liquidada, os pobres eram sempre incluídos entre os credores".





A revolução industrial da Idade Média:
os surpreendentes planos de Villard de Honnecourt


Apaixonado pelas novidades e técnicas mecânicas Villard de Honnecourt, arquétipo de engenheiro da revolução industrial da Idade Média, dá provas de maior modéstia.

Em seu Carnet de Notes, ele apresenta-se e à sua obra nos seguintes termos:

“Villard de Honnecourt vos saúda e roga a todos os que trabalham nos diversos gêneros de obras contidas neste livro que orem por sua alma e se lembrem dele; pois neste livro podem-se encontrar grandes ajudas para que os interessados se instruam nos princípios da construção em pedra e da construção de estruturas em madeira.

“Também se encontrará o método do retrato e do traço, tal como a geometria ordena e ensina”. (Álbum de Villard de Honnecourt, manuscrito publicado em fac-símile e anotado por L.-B.Lassus, Paris, 1858, p. 59).

Nascido no começo do século XIII em Honnecourt perto de Cambrai, na Picardia, a sua atividade profissional situa-se entre 1225 e 1250.

A extensão de sua obra é-nos conhecida graças ao seu Carnet de Notes, do mesmo modo que a fama do arquiteto romano Vitrúvio chegou até nós graças aos seus Dez Livros de Arquitetura.

O Carnet, conservado na Biblioteca Nacional de Paris é constituído por 33 folhas de pergaminho, manuscritas em ambas as faces. Na origem, o álbum tinha outras folhas, infelizmente perdidas.

Em sua juventude, Villard de Honnecourt trabalhou no canteiro de obras da abadia cisterciense de Vaucelles a duas horas de marcha de sua aldeia natal.

Aí desenhou o plano do coro da igreja, excepcional para uma igreja da Ordem de Cister; mudou-se em seguida para Cambrai, que era então uma das cidades mais importantes da indústria têxtil do Norte da França.

Ali traçou num pergaminho “o plano da cabeceira de Notre-Dame de Cambrai, tal como sai da terra” e “as elevações interiores, o plano da capela, as paredes e os arcobotantes” (Álbum de Villard de Honnecourt, p. 118).

Villard de Honnecourt: planta da igreja de Meaux
Villard de Honnecourt: planta da igreja de Meaux
Essas elevações foram obra de Jean d'Orbais, de quem Villard nunca viu o retrato, gravado somente no final do século XIII nas lajes do labirinto.

Entretanto, é possível que se tenha entrevistado com Jean le Loup, que dirigia os trabalhos do canteiro de Reims quando Villard aí esteve.

Sob os esboços de uma igreja de duplo deambulatório, Villard anotou que discutiu o projeto com um arquiteto chamado Pierre de Corbie. Nessa época, os arquitetos trocavam de bom grado suas ideias.

Quando estava em Reims, Villard desenhou uma fila dupla de arcobotantes.

Estes arcobotantes, uma das grandes invenções da arquitetura gótica, permitiam escorar o empuxo das abóbodas.

Esse método revolucionário possibilitou as construções altas ao mesmo tempo que se aligeiravam as paredes laterais. As igrejas góticas estavam repletas de invenções técnicas desse gênero.

Não se pode deixar de citar entre as mais notáveis o conjunto frequentemente complexo, de passagens ou corredores de serviço, incorporados vertical e horizontalmente às paredes para assegurar a manutenção e fiscalização dos trabalhos em grandes edifícios.

Esses corredores não existiam nas primeiras igrejas românicas. Em Beauvais construiu-se em cinco níveis diferentes e em Chartres havia nove poços de escada de caracol.

O esquema mostra o corte de uma grande igreja equipada de corredores em três níveis, ligados entre eles por escadas em caracol.

Essas passagens, situadas no interior ou exterior das paredes, permitiam, em caso de incêndio, chegar rapidamente ao local do sinistro.

Facilitavam igualmente a vigilância e a conservação do teto e dos vitrais. Construídas à medida que as paredes eram levantadas, permitiam não só que os pedreiros transportassem seus materiais sem estorvo, mas também a realização de economias em andaimes e escoras durante as obras.

“Elas [as passagens] deixavam livre o espaço importante ao nível do solo, oferecendo, sem escadas de mão que estorvam a circulação nem estruturas temporárias, uma via de acesso interna e segura às partes elevadas do edifício, lá onde justa- mente se impunha a armação de andaimes localizados”. (J. Fitchen, The Construction of Gothic Cathedrals, Clarendon Press, Oxford, 1964, p. 23)

Arcobotantes
Arcobotantes
Villard compreendeu a importância dessas passagens de serviço. Em seu Carnet, sob o desenho de duas elevações de Reims, explica em pormenor onde se encontram os corredores.

“Diante da cobertura das naves laterais, deve existir um caminho sobre o entabulamento e um outro sobre a cume eira dessas naves, diante dos janelões destinados aos vitrais, com parapeitos baixos, como vereis no desenho que está sob os vossos olhos.

“No coroamento dos contrafortes deverá haver florões de anjos e, por diante, arcobotantes. Diante da grande cumeeira do alto deverá haver caminhos e parapeitos sobre o entabulamento para circular quando há perigo de fogo. Também deverá haver no entabulamento calhas para escoar a água” (Álbum de Villard de Honnecourt, p. 211).

Além do interesse técnico que para ele essas construções apresentam, essas observações provam a preocupação que Villard tinha com os problemas de segurança.

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).










A movimentada vida dos engenheiros medievais


Villard de Honnecourt procurava também o meio de facilitar o transporte e içamento de cargas. Graças aos manuscritos iluminados, sabemos que os construtores de catedrais já utilizavam toda a sorte de máquinas (guinchos, polias, cabrestantes, etc.) para esse efeito.

Mas Villard foi o primeiro a desenhar um parafuso combinado com uma alavanca, ou seja, um macaco, a respeito do qual diz que “por este meio faz-se um dos mais potentes engenhos para içar os fardos”.

Villard desenhava, em primeiro lugar, por motivos técnicos, mas também porque certos elementos arquiteturais lhe agradavam. Em Reims, por exemplo, desenhou uma janela da nave “porque a preferia”, diz ele.

Executou esse desenho por volta de 1230, mas, e este é um ponto interessante, não copiou essa janela exatamente como era. Talvez inconscientemente, “ele modernizou” uma janela que devia datar de 1211.

Com efeito, ele “modernizou” outros edifícios, entre os quais, uma das torres da catedral de Laon, pela qual Villard exprimiria sua admiração.

Os bois curiosamente esculpidos no ângulo de cada torre ainda hoje podem ser vistos no local exato onde Villard fez seu desenho, há mais de 700 anos.

Em Chartres, ele fez um croqui “interpretado” da grande rosácea da fachada ocidental. Depois, recopiou o labirinto, mas invertendo-o.

Infelizmente, como a placa que dava o nome dos arquitetos provavelmente desapareceu, o desenho de Villard nada nos revela.

Ele também desenhou, transformando-o ligeiramente, um dos janelões de vitral do transepto Sul da Catedral de Lausanne, que se encontrava no trajeto seguido por Villard para ir à Hungria, aonde o tinham convidado.

Villard orgulhava-se imenso dessa viagem, que jamais esqueceu e de que fala abundantemente em seu compêndio. Fora chamado pelos monges cistercienses que desenvolviam então seus mosteiros na Hungria?

Ou teria sido convidado porque a irmã do rei, Elisabeth de Hungria, antes de sua morte em 1231, fez uma doação à Catedral de Cambrai?

Elisabeth de Hungria foi canonizada e talvez tenha sido Villard de Honnecourt quem edificou em Kosice (na Eslováquia atual) a catedral dedicada a essa santa.


Há 16 estátuas de bois em pedra nas torres da catedral de Laon.

Em 1114, durante a restauração da catedral, caiu extenuado um boi que puxava uma charrete.

Viu-se então um boi desconhecido completar a tarefa e desaparecer misteriosamente.

Em lembrança do fato maravilhoso foram instaladas 8 estátuas em cada torre.

O boi é símbolo do Evangelho de São Mateus porque põe em destaque os lados humanos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tendo chegado à Hungria em 1235, Villard multiplicou aí seus esboços, a fim de constituir uma reserva de formas e modelos. De todos esses desenhos, apenas restou um, representando o lajeado de uma igreja.

Na Idade Média, não era raro ver arquitetos-engenheiros visitarem países considerados em “vias de desenvolvimento” por comparação com a França do século XIII, um pouco como têm feito os engenheiros americanos do século XX, oferecendo sua assistência técnica às nações jovens, para ajudá-las a construírem suas centrais hidrelétricas e suas siderúrgicas.

A 30 de agosto de 1287, o arquiteto Étienne de Bonneuil assinou, na presença do Preboste de Paris, um contrato que precedia a sua viagem à Suécia:

“Nós, Renaut le Cras, Preboste de Paris, fazemos saber que Étienne Bonneuil compareceu ante nós e declarou aceitar ser o mestre-pedreiro e empreiteiro da Igreja de Upsala, na Suécia, para onde se dispõe a viajar.

Mestre de pedreiros distribui as tarefas
Mestre de pedreiros distribui as tarefas
“Reconhece ter recebido de pleno direito, para seu pagamento, a soma de 40 libras parisias das mãos dos senhores Olivier e Charles homens de leis e tabeliães em Paris, a fim de levar consigo, por conta do canteiro de obra da sobredita igreja, quatro pedreiros e quatro operários solteiros para talhar e esculpir a pedra, pensando que isso seria um benefício da dita igreja.

“Por essa soma, ele compromete-se a levar os ditos operários a esse país e a pagar todos os seus gastos.

“E se acontecer que Étienne de Bonneuil e seus companheiros de viagem pereçam no mar, numa tempestade ou de qualquer outra maneira, antes de chegarem à Suécia, ele, seus companheiros e seus herdeiros serão liberados do reembolso da sobredita quantia”. (V. Mortet e P. Deschamps, Recueil de textes relatifs à l'histoire de l'architecture et à la condition des architectes en France au Moyen Age, XlIe-XIIIe siècles, VoI. II, Paris, 1929, pp. 305-6.)

De regresso à Picardia, Villard trabalhou provavelmente na igreja colegial de Saint-Quentin e transformou o seu Carnet de Notes, até então para seu uso pessoal, em livro de canteiro de obras. Adicionou-lhe notas explicativas para elucidar certos croquis.


(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).





A Idade Média à procura do Movimento Perpétuo
para resolver o problema da energia


Horloge de la Sapience, Henri Suso, Bibliothèque royale de Belgique, ms IV 111, f 13v.
Horloge de la Sapience, Henri Suso,
Bibliothèque royale de Belgique, ms IV 111, f 13v.
Sabemos que, após a morte de Villard, duas gerações, pelo menos, utilizaram o seu álbum.

Os especialistas identificaram em certas folhas a escrita mais recente de dois comentadores anônimos do final do século XIII, denominados, por uma questão de comodidade, Magister I e Magister II.

Mas os desenhos de mecanismos são todos do punho de Villard e o mais interessante relaciona-se com o problema do movimento perpétuo.

Esse desenho reflete o interesse apaixonado com que os homens da Idade Média procuravam novas fontes de energia. Para aumentar a produção energética, eles investigaram além da energia eólia, hidráulica e das marés:
Projeto de movimento perpetuo de Villard de Honnecourt
Projeto de movimento perpetuo de Villard de Honnecourt

“O mundo inteiro acabou por ser apenas, aos olhos deles, um vasto reservatório de forças naturais que era possível captar à vontade e utilizar para satisfação das necessidades e dos desejos humanos.

“Sem a ousadia de sua imaginação e mesmo sem a fantasia de algumas de suas criações, a potência energética do mundo Ocidental jamais se poderia desenvolver” (Lynn White, Technologie médiévale et transformations sociales, Mouton, Paris-Haia, 1969, pp. 137-8.)

Pouco importa que os mecanismos do irrealizável movimento perpétuo, imaginados no século XIII, nunca tivessem funcionado.

O que importa é que tenham sido encontrados no século XIII cientistas e engenheiros para tentar construir esse movimento com fins práticos.

Villard de Honnecourt compartilha com outros contemporâneos seus da honra de ter trabalhado nesse sentido:

“Inúmeras vezes discutiram entre si os mestres para fazer girar uma roda por si mesma. Eis como é possível fazê-lo, por meio de malhetes não pares e mercúrio”.

Em 1269, Pierre de Maricourt, um dos grandes cientistas do seu século, sublinhava em sua obra sobre o magnetismo o vivo interesse dos investigadores por esse problema: “Vi muitos homens exaustos em sua investigação para inventar essa roda”.

Villard, por sua parte, pensava ter encontrado a boa solução, mas, nesse domínio, não foi um inovador, pois a noção de movimento perpétuo já era conhecida no século XII na Índia, onde florescia uma rica tradição de filosofia cíclica.

Reconstituição moderna do projeto de movimento perpetuo  de Villard de Honnecourt
Reconstituição moderna do projeto de movimento perpetuo
de Villard de Honnecourt
O emprego da bússola, já bastante generalizado no século XIII, levou Pierre de Maricourt a indagar se não se poderia obter, através do magnetismo, um movimento perpétuo semelhante ao movimento da gravidade.

Ele imaginou dois sistemas. O primeiro é o esquema de uma máquina animada de um movimento magnético perpétuo.

Eis como ele descreve o segundo:

“Um ímã esférico que, na condição de ser montado sem fricção paralela ao eixo celeste, giraria uma vez por dia. Corretamente inscrito numa carta dos céus serviria de esfera armilar automática para as observações astronômicas e os relógios, permitindo assim dispensar-se qualquer outro aparelho de medição do tempo.” (Technologie médiévale, op. cit., p. 137.)


(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).





Energia industrial para invenções e “gadgets”


Catapulta, reconstituição moderna
Catapulta, reconstituição moderna
Autor da primeira representação conhecida da serra hidráulica, Villard dá-nos uma nova prova da importância que a Idade Média atribuía à energia utilizada para fins industriais.

Sob um croqui, ele anota: “Por este meio faz-se uma serra serrar por si mesma”.

Essa serra é também a primeira máquina automática a dois tempos: “Ao movimento circular das rodas, criando um movimento alternado capaz de serrar, soma-se a regulagem auto- mática da madeira à serra”.

Sob o desenho dessa serra automática encontra-se o mais antigo esquema de um movimento de relojoaria. Esse mecanismo está ligado por um eixo à estátua de um anjo colocado no telhado de uma grande igreja.

Uma estátua dessas existia em Chartres, antes da sua destruição pelo fogo em 1836. O mecanismo fazia girar a estátua lentamente, acompanhando o curso do Sol no céu.

Villard explica que, “por esse meio pode-se fazer com que um anjo mantenha sempre o seu dedo apontado para o Sol”.

E em outra altura: “O desenho representa uma armação que sustenta um eixo vertical e um fuso horizontal sobre o qual assenta uma roda. Uma corda lastrada com um peso e enrolada em redor de uma polia passa horizontalmente e enrola-se duas vezes em torno do eixo vertical.

Relógio de sol medieval na fachada da catedral de Chartres, o autômato desapareceu num incêndio.
Relógio de sol na fachada da catedral de Chartres,
o autômato desapareceu num incêndio.
“A corda é dirigida para o fuso horizontal e aí se enrola 3 vezes, antes de passar em redor de uma segunda polia. Um segundo peso, inferior ao precedente, está suspenso na ponta da corda. A queda do peso mais pesado deflagra um movimento que faz girar o eixo vertical e o fuso horizontal” (The Sketchbook of Villard de Honnecourt, ed. R. Willis, Londres, 1859, p. 161).

Ainda antes do final do século XIII, os engenheiros medievais teriam aperfeiçoado o mecanismo de escapo e construído o relógio de pesos, destinado a desempenhar um papel tão importante na história das técnicas do mundo ocidental.

Na mesma lâmina do Carnet, no canto situado em baixo e à esquerda, Villard representou uma águia recheada de cordas e polias.

Diz o texto: “Por este meio pode-se fazer girar a cabeça da águia para o diácono durante a leitura do Evangelho”. Esse mecanismo engenhoso nada mais é senão um brinquedo automático ou, para empregar uma palavra em moda, um gadget.

Villard, segundo parece, adorava os gadgets, pelo menos tanto quanto as gerações de americanos nascidos depois da Segunda Guerra Mundial, e concebeu ainda dois mecanismos extremamente curiosos: um é o esquenta-mãos, o outro uma taça:

“Para se fazer um esquenta-mãos, faz-se primeiro uma espécie de bola de cobre, como uma batata, composta de duas metades que se encaixam uma na outra. No interior dessa bola de cobre deverá haver 6 arcos, igualmente em cobre, cada um deles montado sobre 2 pivôs.

“No centro, encontra-se um pequeno braseiro e mais 2 pivôs. Os pivôs serão alternados de modo que o braseiro se mantenha sempre em posição vertical.

“As brasas incandescentes nunca poderão escapar, se forem atentamente seguidas as instruções do desenho. Este mecanismo é bom para um bispo.

“Ele pode assistir sem hesitação à grande missa; enquanto o tiver em suas mãos, não sentirá frio algum durante o tempo em que houver fogo.

“O mecanismo está construído de maneira tal que, gire de que lado girar, o pequeno braseiro estará sempre direito”.

Esse mecanismo, descrito por Villard com tanta precisão, foi adotado para manter horizontais as bússolas marítimas e verticais os barômetros.

O outro objeto é um cálice conhecido pelo nome de taça de Tântalo: um pássaro está pousado no cimo de uma pequena torre, no interior de uma taça de vinho.

O pássaro parece beber quando se despeja vinho na taça. O mecanismo é explicado com a ajuda do desenho.

Mas o desenho, pouco exato, é enganador, porquanto mostra o bico do pássaro demasiado alto em relação à borda da taça.

Esse pássaro mecânico é um brinquedo já conhecido do mundo antigo. Está descrito no Problema XII de A Pneumática de Heron de Alexandria, que viveu no primeiro século da nossa era.

O galo canta ainda três vezes por dia na catedral de Estrasburgo.
O galo canta ainda três vezes por dia na catedral de Estrasburgo.
Os textos que dele nos chegaram são traduções em latim de manuscritos árabes.

A cópia incorreta do mecanismo que Villard fez mostra que ele nunca teve essa taça entre as mãos. Contentou-se em dar livre curso à sua imaginação, servindo-se de um texto latino.

Villard, como outros arquitetos de seu tempo, foi também engenheiro, construtor de máquinas de guerra.

Em seu Carnet, dedicou uma página aos desenhos pormenorizados de uma potente catapulta.

Infelizmente, falta uma página. Mas a página restante está inteiramente coberta com o desenho desse engenho militar.

A legenda explica: “Quem quiser construir o poderoso engenho a que se dá o nome de bodoque, deverá prestar muita atenção ao seguinte.

“Eis a plataforma, tal como assenta em terra. Na parte da frente, as duas molas e a corda frouxa, com a qual se leva novamente a verga, como se pode ver na outra página.

“Há um grande peso a transportar, porque o contrapeso é muito pesado, sendo constituído por uma arca cheia de terra. Ela tem de comprimento dez toesas grandes, nove pés de largo e doze de fundo. Pensai no impulso da flecha e tomai cuidado, pois ela deve ser colocada contra a travessa da frente”.

Villard também teria sido um construtor de pontes e esboçou um mecanismo muito complexo que permitia serrar madeira debaixo de água.

“Por meio deste engenho, serra-se os pilotis na água para assentar uma plataforma sobre eles”.

Uma lenda, sem fundamento histórico, atribui a construção de certas pontes, na França, a um grupo de homens devotos, talvez religiosos, que se deslocavam de uma cidade a outra segundo as necessidades do urbanismo local.



O relógio astronômico da catedral de Estrasburgo:




(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).





A geometria a serviço do arquiteto medieval


Folha do Caderno de Anotações de Villard de Honnecourt
Folha do Caderno de Anotações de Villard de Honnecourt
Numerosas páginas do Caderno de Anotações de Villard de Honnecourt são dedicadas a exercícios de Geometria. Numa página, um desenho representa uma cabeça de homem cercada por uma retícula.

A cabeça esta dividida em 3 partes iguais que correspondem exatamente às proporções dadas por Vitrúvio:

“O comprimento do rosto é determinado da seguinte maneira: um terço é a distancia entre a parte de baixo do queixo e a parte inferior das narinas.

“O segundo terço da mesma dimensão, vai desde a parte inferior do nariz até uma linha que passa entre as duas sobrancelhas.

“O terceiro terço vai desde as sobrancelhas até à raiz dos cabelos e compreende a testa”.

Na mesma página, Villard executou os seguintes croquis: uma parede, uma torre com ameias, a cabeça de um cavalo, quatro cabeças humanas, um galgo, uma mão esquerda, aberta, um carneiro uma águia de asas abertas e dois avestruzes entrecruzados.

Villard utiliza as figuras geométricas de duas maneiras: em certos casos, ele sobrepõe um triângulo, assim como sobrepôs um quadrado ou um retângulo, ao desenho de uma cabeça de homem e de uma cabeça de cavalo ou sobrepõe um pentágono a uma cabeça de velho reproduzida em outro lugar enquadrada num triângulo.

Villard quis provar que se pode utilizar a mesma figura geométrica para quadricular duas cabeças diferentes – e para duas cabeças quase idênticas, duas figuras geométricas inteiramente, diferentes.

Supôs-se, durante muito tempo, que esse método oferecia ao aprendiz de desenho uma solução para o problema das proporções e da perspectiva.

Os historiadores demonstraram recentemente que a retícula geométrica era sobretudo utilizada na Idade Média

“para facilitar a projeção, em perspectiva, na pedra a esculpir, na parede a decorar ou na prancha de desenho do fabricante de vitrais, de um pequeno croqui do trabalho executado em plano sobre o pergaminho”. (Paul Frankl, The Gothic. Literary Sources of Interpretations through Eight Centuries, Princeton, Nova Jersey, 1960, p, 44.).

Em outros casos, Villard utilizou as figuras e os traçados geométricos para reproduzir facilmente um desenho numa determinada escala.

Eis o seu comentário: “Começa aqui o método do traço para desenhar a figura, tal como a arte da geometria o ensina para trabalhar facilmente”.

Comentando os desenhos que representam quatro pedreiros cujos corpos formam uma cruz, três peixes com uma só cabeça com capacete, uma figura mostrando quatro homens em elevação isométrica e a cabeça de um javali, Villard escreveu:

“Nestas quatro folhas estão as figuras da arte da geometria; mas aquele que quer saber para que poderá servir cada uma delas deve prestar atenção a conhecê-las”.

Villard previu as dificuldades que seriam criadas pela interpretação correta de seus traçados. Por duas vezes, em quatro folhas consagradas aos diagramas e quadricula- dos, emprega a palavra geometria. E repete a palavra numa outra folha:

“Todas estas figuras são traçados de geometria”.

Essa folha e as duas seguintes são consagradas a esquemas geométricos destinados à utilização pelos canteiros, topógrafos e carpinteiros nos locais de obras. Na fila do alto, lê-se da esquerda para a direita:

“Como calcular o diâmetro de uma coluna que não se vê inteiramente

“Assim se encontra o ponto no meio de um campo descrito ao compasso

“Por este meio se talha o modelo de um grande arco em três pés de terra”.

A ciência da Geometria. The British Library.
A ciência da Geometria. The British Library.
Na terceira fila:

“Por este meio se faz uma ponte de madeira num curso de água de vinte pés de comprimento

“Por este meio se traça um claustro com suas galerias e seu pátio

“Por este meio se toma a largura de um curso de água sem cruzá-la

“Por este meio se toma a largura de uma janela que está distanciada”.

Na quarta fila, sempre da esquerda para a direita, lê-se:

“Por este meio se assentam os quatro cantos de um claustro sem fio de prumo nem linha

“Por este meio se divide uma pedra de maneira tal que as duas metades sejam quadradas”.

Dois desenhos dessa folha apresentam um interesse particular; referimo-nos aos dois quadriculados da terceira e quarta filas.

Dão-nos a conhecer o método empregado na época para construir um alçado a partir de um plano, servindo-se de quadrados cada vez menores, encaixados uns nos outros.

Esse método constitui, talvez, um dos segredos do ofício dos pedreiros e canteiros medievais.

Abadia de Cluny: triunfo da geometria divina na arquitetura:



(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)





Conhecimentos industriais e científicos da Antiguidade
cuidadosamente aproveitados



Certos tratados do mundo antigo eram conhecidos na Idade Média. Conservamos 7 manuscritos do século X do Tratado da Arte Militar de Vegécio, escritor latino do século IV; chegaram-nos ainda 19 manuscritos do século XIII e, no mínimo, uma centena dos séculos XIV e XV.

Enfim, a obra de Vitrúvio, que constitui um manancial de informações sobre a técnica romana e a arquitetura clássica era facilmente encontrada nos mosteiros e cidades da 'Europa Ocidental.

Foi copiada e recopiada inúmeras vezes, entre outras, no século VIII, pelos clérigos de Jarrow, na Inglaterra.

Sabemos que no século IX, Eginhard, que era responsável pelas construções do imperador Carlos Magno, possuía um exemplar. Os ricos mosteiros de Fulda e de Reichenau conservavam uma copia de Vitrúvio cada um.

No século XI, um outro manuscrito foi caligrafado pelos beneditinos da Abadia de Saint-Pierre de Gand. Um século mais tarde, esse famoso texto foi recopiado 12 vezes.

No século XX, restam 55 exemplares que se escalonam entre os séculos X e XV.

Em 1414, o humanista italiano Poggio “redescobriu” um manuscrito de Vitrúvio entre os tesouros da biblioteca do Mosteiro de Saint-Gall.

Nessa época, acreditava-se geralmente que a Idade Média não conhecera a existência do arquiteto romano. Os intelectuais da Renascença nada fizeram para dissipar esse erro.

Os medievalistas tiveram dificuldade (ainda hoje têm) em corrigir o erro dos humanistas dos séculos XV e XVI. O Carnet de Notes de Villard, assim como outros documentos posteriores ou contemporâneos, provam, pelo contrário, a que ponto a civilização romana era apreciada pelos homens da Idade Média.

Os desenhos de Villard que se inspiraram em estátuas e monumentos antigos são em grande número.

Por exemplo, duas cabeças barbudas e coroadas de folhas, personagens vestidos de clâmide [manto dos antigos gregos], ostentando o barrete frígio, e um nu enigmático que brande um vaso de flores. Este último desenho é sombreado em tom castanho escuro. Todos são claramente de inspiração clássica.

Um croqui representando um monumento antigo ocupa toda uma folha e tem a seguinte legenda: “Vi outrora o túmulo de um muçulmano. Eis como era”.

Copia do tratado de Vitrúvio, por volta de 1390.
Wolbert H.M. Vroom Collection, Amsterdam
O Tratado de Arquitetura de Vitrúvio teve uma influência inegável sobre os temas estudados por Villard.

Tal como os outros arquitetos do mundo antigo, Vitrúvio era um homem das artes mecânicas, isto é, não tinha recebido qualquer formação acadêmica, a qual somente era acessível aos ricos.

Vivamente magoado com a inferioridade da condição social dos arquitetos, procurou obter para ele e seus colegas a consideração e o respeito de que deveriam gozar suas atividades de arquiteto.

Vitrúvio queria que a cultura do arquiteto fosse enciclopédica. O próprio Vitrúvio nunca atingiu esse ideal. Seu latim não era dos melhores. Entretanto, graças à extensão de seus conhecimentos e também às suas ambições intelectuais, conhecemos numerosos aspectos da tecnologia helênica e romana.

Villard foi a sobrepor figuras geométricas aos seus croquis de homens e animais. Esses desenhos são frequentemente reproduzidos pelos editores modernos e certos historiadores de Arte quiseram ver em Villard de Honnecourt o precursor dos cubistas, o que ele não foi.


(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).





Os mestres medievais autores de inventos
atribuídos a Leonardo da Vinci


Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.
Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.
Em 1459, os mestres-pedreiros de Estrasburgo, Viena e Salzburg, reunidos em Ratisbona para redigir os estatutos profissionais de suas lojas, decidiram:

“Nenhum operário, nenhum mestre, nenhum parlier, nenhum jornaleiro ensinará a quem não for do nosso ofício nem fez jamais trabalho de pedreiro como tirar a elevação [alçado] a partir do plano” (J. Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, Ed. du Seuil, Paris, 1958, p. 123.).



O parlier – forma germanizada de parleur – é, de certo modo, um contramestre encarregado de “falar” [parler] aos companheiros como representante e intérprete do arquiteto nos grandes canteiros de obras.

Em 1486, o arquiteto alemão Mathias Roriczer, em sua obra intitulada Livro da Construção Exata de Pináculos, explicou abertamente esse método, com o auxílio de desenhos que recordam os que Villard executara 250 anos antes, sem os considerar um segredo.

O princípio da duplicação dos quadrados já se encontra no Tratado de Vitrúvio. Tanto Villard como Magister II conheciam certamente esse princípio.

Vitrúvio diz-nos tê-lo descoberto ele mesmo num diálogo de Platão: o Menon. “Platão demonstrou destarte a duplicação, por meio de linhas desenhadas” (Vitrúvio, I, Introdução).

Se o Carnet de Villard de Honnecourt nos faz pensar nos Cadernos de Leonardo da Vinci, isso não ocorre por mero acaso e a aproximação nada tem de fortuita.

Separados um do outro por dois séculos e meio, Villard, homem da Idade Média, e Vinci, homem da Renascença, tinham recebido praticamente a mesma formação e a mesma cultura: a das artes mecânicas.

Ao redigirem apontamentos de trabalho, resultados de suas pesquisas pessoais, eles obravam em conformidade com os costumes de seu tempo.
Detalhe das engrenagens do relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.
Detalhe das engrenagens do relógio astronômico
da catedral de Estrasburgo.
Conhece-se a existência de mais de 150 manuscritos técnicos que datam do final do século XIV e começo do século XVI.

Da Vinci utilizou os tratados de seus antecessores e de seus contemporâneos, mas é admissível que ignorasse Villard e sua obra.

Foi recentemente provado que numerosas invenções atribuídas a Da Vinci já existiam nos escritos de engenheiros como Konrad Kyeser, nascido em 1366, Robert Valturio, nascido em 1413, e Francesco di Giorgio, nascido em 1439, escritos esses que Da Vinci conhecia todos. Anotou de seu próprio punho um texto de Giorgio.

Como Villard, ele também leu Vitrúvio, cujas obras figuravam entre os volumes de sua biblioteca. Se Villard parece ter vivido de pleno acordo com os costumes do seu meio social e o status de sua profissão, Da Vinci reagiu violentamente à falta de consideração com que os humanistas trataram o técnico que ele era.

Os iluminadores de manuscritos prestaram aos arquitetos medievais uma homenagem apropriada, ao representarem Deus, o Pai, como um arquiteto-engenheiro, medindo o universo com um compasso gigantesco.

Silenciosos mas pasmosos progressos: o Relógio Mecânico


A sociedade medieval entusiasmou-se pela mecanização e a pesquisa técnica, porque acreditava firmemente no progresso, um conceito ignorado no mundo antigo.

De um modo geral, os homens da Idade Média recusaram-se a respeitar as tradições que poderiam ter freado seu ímpeto criador, e Gilbert de Tournai escrevia:

“Jamais encontraremos a verdade se nos contentarmos com o que já está descoberto... Os que escrevem antes de nós não são senhores, mas guias. A verdade está aberta a todos, ela não foi ainda inteiramente possuída”. (Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, p. 163)

E Bernard, mestre da escola episcopal de Chartres, de 1114 a 1119, acrescentava:

“Somos anões empoleirados nos ombros de gigantes.

“Por isso, vemos mais que eles e mais longe que eles, não porque a nossa vista seja mais aguda ou nossa estatura mais elevada, mas porque eles nos carregam no ar e nos elevam a toda a sua gigantesca altura”. (J. Le Goff, Les intellectuels au Moyen Age, ed. du Seuil, Paris, 1957, p. 17 )

Relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.
Relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.
A atitude de um Gilbert de Tournai e de um Bernard de Chartres levou os homens dessa época a encararem as invenções como coisa normal e a aceitarem a ideia de que haveria sempre no futuro novas invenções.

A ambição dos inventores não conhecia limites, sua imaginação ignorava fronteiras e, no entanto, de todas as máquinas extravagantes que conceberam e por vezes realizaram, uma simboliza a sua “pesquisa” científica: o relógio.

Se a teoria de Lewis Mumford sobre a origem beneditina dos relógios mecânicos é hoje controvertida, as opiniões desse autor sobre o papel da medida do tempo no desenvolvimento da civilização continuam válidas:

“A máquina-chave da idade industrial moderna não foi a máquina a vapor, foi o relógio. Em cada fase do seu desenvolvimento, o relógio é o fato saliente e o símbolo da máquina.

“Ainda hoje, nenhuma outra máquina é tão onipresente. Assim, no começo da técnica moderna, apareceu profeticamente a primeira máquina automática precisa que, após alguns séculos de esforços, iria pôr à prova o valor dessa técnica em cada ramo da atividade industrial.

“Permitindo a determinação de quantidades exatas de energia (portanto, a padronização), a ação automática e, finalmente, o seu próprio produto, a saber, um tempo exato, o relógio foi a primeira máquina da técnica moderna.

“Conservou a preeminência em todas as épocas. Possui uma perfeição a que as outras máquinas aspiram” (L. Mumford, Technique et civilisation, ed. du Seuil, Paris, 1950, pp. 23-24.).

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).











O relógio astronômico do Ocidente
nasceu na Idade Média


Relógio astronômico de Dondi, ou Astrarium, feito no ano 1364 em Pádua.
Relógio astronômico de Dondi, ou Astrarium, feito no ano 1364 em Pádua.
Estranha coincidência: o mais famoso relógio astronômico chinês desapareceu quatro anos depois da criação do mais importante relógio astronômico da Europa Ocidental, o de Giovanni di Dondi, que comporta um escapo mecânico de vara de palhetas, numerador e roda de encontro acionado por pesos.

Esse sistema substitui o dos relógios de água utilizados até então. Os engenheiros medievais que, no entanto, tinham sabido utilizar a energia hidráulica para fins tão numerosos quanto variados, aperceberam-se rapidamente de suas limitações na construção de relógios.

Na Europa do Norte, no inverno, a água gela e os pêndulos param. As pesquisas para encontrar uma solução mecânica remontam à segunda parte do século XIII.

Em 1271, Robert l'Anglais escrevia: “Os fabricantes de relógios procuram fazer uma roda que execute uma rotação completa para cada círculo equinocial, mas não' conseguem descobrir a solução correta”. (H. A. Lloyd, Some Outstanding Clocks over Seven Hundred: Years 1250-1950, Leonard Hill, Londres, 1958, p. 5.)

Um manuscrito redigido alguns anos depois na corte de Afonso X de Castela inclui o desenho de um relógio cujo movimento é produzido pela queda de um peso.

O movimento é regulado pelo escoamento do mercúrio contido num tambor compartimentado, o qual gira em torno de um eixo horizontal.

Essa técnica, já utilizada foi tomada ao matemático e astrônomo Bhaskara que, em 1150, tinha fabricado um motor perpétuo com rodas, conhecido na Europa através dos textos árabes.

O texto de Giovanni di Dondi sugere que os pêndulos, de pesos e o escapo mecânico já eram familiares em meados do século XIV e que seus mecanismos existiam há várias dezenas de anos.

Maestro relojero. Jean Suso, "L'horloge de la Sapience", siglo XV.  BnF, français 455, folio 4
Mestre relojoeiro. Jean Suso, "L'horloge de la Sapience", século XV.
BnF, français 455, folio 4
A falta de novas provas os especialistas consideram o início do século XIV a data provável dos primeiros relógios mecânicos.

Um especialista inglês, Alan Lloyd, que reconstruiu na década de 1960 um modelo exato do pêndulo de Dondi, pensa que o pêndulo mecânico foi inventado entre 1277 e 1300. (H. A. Lloyd, Some Outstanding Clocks over Seven Hundred Years 1259-1950, Leonard Hill, Londres, 1958, p.5)

O texto de Robert l'Anglais parece corroborar essa data. É possível que Barthélemy, o Relojoeiro, tenha construído um relógio mecânico na Catedral de São Paulo em Londres, por volta de 1286, e que tenha existido em Canterbury um relógio semelhante, em 1292.

Em Paris o primeiro relógio público foi construído em 1300 por Píerre Pípelart, e sabemos que custou 6 libras turnesas. Esse modelo, que funciona, pertence ao Instituto Smithsoniano de Washington. O Museu das Ciências de Londres adquiriu um segundo modelo.

No Canto X do Paraíso, na Divina Comédia, escrita antes de 1321, Dante faz entrar o relógio mecânico na literatura. No canto intitulado “Canto do Quarto Céu” ele menciona poeticamente um relógio, suas engrenagens e até seu toque:

“Como um relógio quando nos chama à hora em que a esposa de Deus se levanta para cantar as matinas em honra de seu esposo, a fim de obter seu amor, e cujas rodinhas puxam e empurram outras, fazendo soar tim-tim numa nota tão doce que o espírito bem disposto se enche de amor”. (Dante, O Paraíso, X, v. 139-144)

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)





Um abade na ponta da tecnologia:
Dom Richard Wallingford


Dom Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans trabalhando
Dom Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans trabalhando
Um pêndulo astronômico foi graficamente representado pela primeira vez na miniatura de um manuscrito inglês do século XIV.

Nessa miniatura o inventor Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans (que parece sofrer de uma desagradável doença de pele), aponta para seu pêndulo, com um dedo esticado.

Richard Wallingford era um homem notável, mas de temperamento difícil (foi ele quem mandou apreender, em 1331, as mós dos moinhos para pavimentar o pátio do mosteiro e humilhar os habitantes de Saint-Albans).

Ele teria adquirido na forja paterna algumas noções de ferragem e mecânica. Órfão aos 10 anos foi recolhido pelo prior que o mandou estudar em Oxford, ingressando depois no mosteiro de Saint-Albans, do qual viria a ser abade em 1326.

Além de seu custoso e complicado relógio, Wallingford concebeu novos métodos de trigonometria que lhe valeram o título de “pai da trigonometria inglesa”.

Também inventou dois instrumentos astronômicos o Albion e o Rectangulus. O Albion, semelhante ao equatório planetário, servia para determinar a posição dos planetas. Para os homens da Idade Média, foi um dos instrumentos mais importantes de cálculo astronômico.

Quanto ao Rectangulus, numerosos tratados e fragmentos de textos chegados até nós fazem a sua descrição.

“O Rectangulus era um instrumento formado por um grupo de quatro réguas de couro articuladas no topo de um eixo vertical com a ajuda de uma rótula orientável.

“A régua inferior tem gravada uma escala numérica. A régua superior tem as miras. Prende-se-lhe um fio de prumo que desce até à escala numérica da régua inferior. As réguas II e III são móveis e podem ser ajustadas de modo a formar um ângulo determinado com a régua inferior, a qual deve permanecer na horizontal”. (R. T. Gunter, Early Science in Oxford, vol. II, Oxford, 1923, p. 32).

O abade Richard of Wallingford aponta para seu relógio.
O abade Richard of Wallingford aponta para seu relógio.
As explicações deixadas por Wallingford são minuciosamente precisas, ao ponto de permitirem a reconstrução de um Rectangulus tal como era há 600 anos.

O seu tratado divide-se em duas seções: a construção e o emprego do instrumento. Certos desenhos são verdadeiros croquis de engenheiro.

Um deles mostra “uma régua graduada baseada na divisão por seis, em vez da divisão por cinco”. (Early Science in Oxford, p. 32.)

A paixão de Wallingford pela pesquisa e as invenções valeu-lhe a hostilidade dos seus próprios monges e até uma reprimenda do Rei Eduardo III.

O cronista de Saint-Albans, Thomas Walsingham, descreveu de forma pitoresca a oposição com que Wallingford se deparou desde que quis construir o seu relógio.

Os seus projetos, como os dos inventores de todos os tempos, foram considerados extravagantes, inúteis e dispendiosos.

“Richard executou na igreja um trabalho magnífico, um relógio que exigiu muito dinheiro e muito trabalho. A malevolência de seus irmãos monges, que consideravam esse pêndulo o cúmulo da loucura, não o fez abandonar a tarefa.

“Ele tinha, entretanto, a desculpa de ter decidido construir o relógio com pouca despesa, pois a igreja necessitava de reparações evidentes e admitidas por todos.

“Na ausência de Richard, os frades intrometeram-se, os operários tomaram-se exigentes e o trabalho começou com um orçamento importante. Mas teria parecido estranho que não se terminasse o que fora começado.

“Quando o mui ilustre Rei Eduardo III veio a Saint-Albans e visitou a abadia para aí rezar, notou os suntuosos trabalhos do relógio, enquanto que a reconstrução da igreja, danificada ao tempo do Abade Hugo, não avançava.

“O Rei censurou discretamente Wallingford por negligenciar as reparações e gastar tanto dinheiro na construção de uma máquina tão inútil quanto um relógio.

“Richard respondeu mui respeitosamente que, depois dele, seria fácil encontrar um número suficiente de abades e operários para reconstruir os edifícios do mosteiro, mas que, após sua morte, nenhum sucessor poderia terminar esse trabalho.

“Ele falava verdade pois que, nessa arte, nada apareceu de semelhante e ninguém inventou coisa alguma do mesmo gênero durante sua vida”. (Citado em S. Bedini e F. Maddison, “Mechanical Universe. The Astrarium of Giovanni di Dondi”, Transactions of the American. Philosophical Society, vol. 56, outubro de 1966, pp. 6-7).

Réplica do relógio de Dom Wallingford, catedral de St Albans, Inglaterra.
Réplica do relógio de Dom Wallingford, catedral de St Albans, Inglaterra.
John Leland, visitando a abadia em 1540, admirou o relógio que acreditou sem igual em toda a Europa:

“Pode-se observar nele o curso do Sol e da Lua, das estrelas fixas e até os movimentos das marés”. Fala também do tratado de Wallingford em que se descreve “esse admirável mecanismo”.

Esse tratado foi desconhecido até 1965, data em que o Dr. J. D. North chamou a atenção dos medievalistas para um manuscrito da biblioteca de Oxford que parecia ser o famoso tratado.

“O texto inclui quatro ou cinco ilustrações. Três delas mostram conjuntos de engrenagens ou projetos de transmissões mecânicas. Uma outra mostra o corte transversal de um quadrante, os ponteiros e o globo lunar de um relógio astronômico complexo.

“O texto explica as engrenagens do movimento dos corpos celestes, os cálculos desses movimentos com a ajuda de tabelas que são fornecidas, e o número de dentes de uma roda de engrenagem. O texto explica também como fazer funcionar a campainha de um relógio”.

Apesar da perfeição do relógio de Wallingford, o de Giovanni di Dondi conheceu maior renome.

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)





Uma vocação familiar para relógios nunca antes sonhados:
os Dondi


O relógio astronômico da Torre dell'Orologio, Pádua, recentemente restaurado
O relógio astronômico da Torre dell'Orologio, Pádua, recentemente restaurado
O pai de Giovanni, Jacopo di Dondi, nascido por volta de 1293, como Richard Wallingford, ensinou Medicina e foi o inventor de um relógio que Antônio, um técnico paduano, montou na torre do palácio Capitano, em Pádua.

Aperfeiçoou igualmente um método que permitia a extração de sal de mananciais quentes que existiam perto de Pádua. O sal obtido pareceu suspeito e Jacopo foi obrigado a redigir “um breve tratado de quatro capítulos para se defender contra os seus detratores e seus rivais invejosos da invenção”. (Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, vol. III, Columbia Univ. Press, 1934, p. 392)

O tratado devia ser convincente, pois a 20 de agosto de 1355 Jacopo di Dondi obteve do Príncipe de Carrara o monopólio exclusivo da extração de sal e sua venda isenta de taxas. O interesse que Jacopo dedicava aos astros levou-o a corrigir as tabelas astronômicas em uso.

Em 1424, Prosdocimo de Baldomandi comprovou que “as tabelas de movimentos planetários que Jacopo di Dondi, de Pádua, extraiu das tabelas afonsinas são mais simples e mais cômodas de usar, e que estão verificadas e corrigidas tão bem ou melhor que as próprias tabelas afonsinas” (“Mechanical Universe”, p. 19).

Jacopo era viúvo. Viveu em Pádua, na casa de seu filho Giovanni, desde 1348 até sua morte em 1359. É verossímil que pai e filho trabalhassem juntos nos planos do relógio astronômico, embora o tratado de Giovanni não mencione em parte alguma o papel de seu pai.

Esse extenso tratado de mais de 130.000 palavras explica em detalhe por que motivo construiu o relógio, como o construiu, como dispor os quadrantes e como decifrá-los, de que modo o conservar em estado de funcionamento e como corrigi-lo.

As explicações de Dondi são muito precisas. Ele especifica qual deve ser a espessura das placas de metal, o comprimento dos pregos e a colocação dos orifícios. Quando quase todos os relógios da época eram em ferro forjado, este é em cobre e bronze.

Detalhe do relógio astronômico na igreja de Santa Maria em Rostock, Alemanha, feito em 1472 por Hans Düringer.
Detalhe do relógio astronômico na igreja de Santa Maria em Rostock, Alemanha,
feito em 1472 por Hans Düringer.
Os modelos que se encontram atualmente no Instituto Smithsoniano e no Museu de Ciências são reproduções exatas da obra-prima de Dondi. Tão exatas que, apesar do distanciamento num passado de mais de seis séculos, a habilidade e a inteligência do italiano do século XIV apresentam-se-nos quase tão ricamente complexas quanto as engrenagens de uma máquina de calcular contemporânea.

Dondi desenhou em primeiro lugar a armação heptagonal do relógio. Em sua parte superior, estavam instalados os quadrantes do Sol, da Lua e dos cinco planetas conhecidos no século XIV: Vênus, Mercúrio, Saturno, Júpiter e Marte.

Na parte inferior, havia um quadrante dividido em 24 horas, um calendário indicando as festas fixas e as festas móveis da Igreja e as linhas dos nós.

Em seguida, Dondi desenhou o movimento horário do relógio. É o desenho mais antigo que se conhece de um movimento de relojoaria automático.

Lamentavelmente, Dondi fornece poucas indicações explícitas. “Se o estudante que lê o meu manuscrito não compreende por si mesmo o meu relógio, perderá tempo se continuar a estudar o meu texto”. (Some Outstanding Clocks ..., p. 141).

Os Segredos de uma Máquina Maravilhosa

Não obstante, ele pormenorizou o conjunto de peças da engrenagem: “Rotação do círculo horário em 24 horas: 144 dentes, pinhão de 12 portador de uma roda de 12 dentes, engrenando numa roda de 24 dentes sobre um tambor.

“Portanto, o tambor tem 10 rotações em 24 horas; a roda grande de 120 dentes em prise com um pinhão de doze, portador de uma segunda roda de 80 dentes que tem, por conseguinte, 100 rotações por dia.

“A segunda roda engrena um pinhão de 10, portador de uma roda de escapo de 27 dentes que faz, portanto, 800 rotações por dia, provocando cada rotação 54 oscilações do volante, ou seja, 43.000 oscilações por dia, logo, uma batida de 2 em 2 segundos. Essa batida é a batida-padrão”.

O pêndulo de Dondi tem um volante circular em vez do pêndulo em liga metálica (foliot à regule), Nessa época, na Itália, o dia estava dividido em 24 horas, contadas a partir do pôr-do-sol. Dondi construiu, por conseguinte, um quadrante munido de tabelas gravadas e divididas dos dois lados em meses e dias.

Dessa forma, podia-se determinar o nascer e pôr-do-sol para cada dia do ano. Dondi, porém, adotou uma outra contagem; ele fez o seu ciclo de 24 horas começar ao meio-dia, achando que esse momento era mais seguro que o pôr-do-sol para servir de ponto de partida de seus cálculos astronômicos.

O quadrante das horas girava no sentido inverso ao dos ponteiros de um relógio atual; portanto, a leitura da hora fazia-se na borda inferior esquerda de cada graduação horária.

Para fazer com que o quadrante anual indicasse as 6 festas fixas, ele realizou um grande anel circular. Na borda superior, talhou 365 dentes para os 365 dias do ano.

No exterior do anel, gravou a duração de cada dia em horas e minutos a letra dominical, a data do mês e o nome do santo a festejar. A data do dia aparecia numa abertura feita na placa do quadrante.

O calendário das festas móveis exigia engrenagens de uma complexidade inaudita e só em 1842, 500 anos mais tarde o relojoeiro Jean-Baptlste Sosime Schwilgué conseguiu construir um outro, o do terceiro relógio astronômico de Estrasburgo.

Em 1582, a introdução do calendário gregoriano tornara a construção de calendários astronômicos ainda mais complicada.

Há cinco festas móveis, das quais a Páscoa é a mais importante porque, uma vez determinada a sua data, as datas das outras festas encontram-se automaticamente.

Para obter a data da Páscoa, Dondi construíra 3 correntes. A corrente superior tinha 28 elos, correspondentes aos 28 anos de um ciclo solar.

A segunda corrente tinha 19 elos correspondentes ao ciclo lunar e a corrente inferior tinha 15 elos correspondentes a um período de tempo utilizado no Direito Romano.

O calendário das festas fixas estava colocado sob o quadrante de Vênus e o calendário perpétuo sob o de Mercúrio.

Relógio astronômico numa rua de Rouen, França.
Relógio numa rua de Rouen, França.
Leonardo da Vinci copiou certamente os quadrantes de Vênus e de Marte da natureza, pois o seu desenho faz aparecer detalhes que não se encontram no desenho do tratado de Dondi.

Os quadrantes de Mercúrio e da Lua eram os que tinham os mecanismos mais complexos. Comportavam rodas ovais, executadas de acordo com os planos de Dondi.

Uma dessas rodas tinha os dentes talhados para dentro. É, sem dúvida, a primeira aplicação de tal técnica.

“No quadrante de Mercúrio, além da correção dos anos bissextos, encontra-se a indicação de uma segunda correção a efetuar-se 144 anos mais tarde, avançando a roda M de um dente. O argumento de Mercúrio tem um atraso anual de 42'5”, portanto, é preciso avançar o quadrante de 2/3 cada ano, com uma correção residual de 1º de todos os 29 anos”.

O desenho do quadrante da Lua mostra uma roda dentada oval correspondente à órbita elíptica desse planeta. Esse movimento é tão complicado que será necessário esperar até meados do século XVIII para que o inglês Thomas Mudge consiga, entre 1755 e 1760, construir um relógio astronômico com calendário lunar.

As engrenagens dos relógios de Su Song (1020–1101 d.C.) e de Jacopo Dondi dell Orologio (1293–1359), eram de uma tal complexidade que, após a morte de seus inventores, foi muito difícil encontrar artesãos capazes de repará-los, a despeito das instruções muito pormenorizadas que eles tinham tido o cuidado de deixar a respeito da construção, conservação e reparação dessas maravilhosas máquinas.

Sabemos, entretanto, que um certo Guilherme de Zelândia, instalado em Carpentras, logrou reparar o relógio de Dondi. Mas em 1529-1530, quando Carlos V viu o relógio em Pádua, ele não funcionava; e, depois dessa data, nunca mais voltou a ser mencionado.

Seria necessário esperar 1561 para que se pudesse construir um semelhante. A construção de instrumentos tão fascinantes quanto o relógio de Dondi põe o problema das relações que existem entre as “artes liberais” e as “artes mecânicas”, isto é, entre a ciência e a tecnologia. (H. A. Lloyd, Old Clocks, Ernest Benn e Dover Puhlications; Londres e Nova York, 1970, pp. 198-9)

Se as artes liberais não desempenham papel algum na construção de máquinas produtoras de energia hidráulica, desempenham um, e importante, na construção dos mecanismos e engrenagens de relojoaria.

Para realizar esses aparelhos complicados e precisos, cientistas e técnicos tiveram de colaborar estreitamente na mesma tarefa. Essa colaboração entre a ciência e a tecnologia é um fato raro e será preciso aguardar a segunda metade do século XIX para que ela se torne um fato consumado.

A conjunção desses talentos foi saudada com respeito e admiração. O relógio de Dondi era célebre em toda a Europa.

Relógio astronômico na catedral de Lund, Suécia
Relógio astronômico na catedral de Lund, Suécia
Por volta de 1385, Philippe de Maísière, um amigo pessoal do inventor, escrevia que “o relógio é uma tal maravilha que os astrônomos mais solenes vêm de regiões muito longínquas para admirá-lo com o mais profundo respeito”. (Songe du viel pelerin, por G. W. Coopland, Cambridge Univ. Press, 1969, VoI. I, p. 606).

Petrarca, que também foi amigo de Dondi, legou-lhe 50 ducados para a compra de um anel de ouro que deveria usar em lembrança dele. Petrarca fala de “mestre Giovanni di Dondi, filósofo nato e muito naturalmente o príncipe dos astrônomos.

Chamam-lhe 'Dell Orologio' em virtude do maravilhoso planetário que ele construiu e que os ignorantes tomam por um relógio ...” (Citado em Bedini e Maddison, “Mechanical Universe ...”, pp. 15-16).

Com efeito, ao contrário do relógio de Su Song, preciosamente escondido dos olhares profanos, o relógio de Dondi podia ser admirado e desenhado pelos astrônomos, engenheiros ou mesmo simples amadores.

Ele serviu durante muito tempo de protótipo à construção de outros relógios astronômicos das grandes cidades da Europa, sobretudo na Itália e Alemanha do Sul, onde ornaram as paredes de edifícios públicos e as torres de igrejas.

O seu prestígio era evidente. A partir da segunda metade do século XIV, são numerosos os pêndulos e relógios. Alguns chegaram até nós, quando não em perfeito estado, pelo menos em peças soltas.

Em nossos dias, dois pêndulos conservam-se ainda em perfeito estado: o de Wells que data de 1392, e o da catedral de Salisbury, que continua a dar horas desde 1386. (O pêndulo de Wells a que se refere o texto encontra-se na torre da catedral gótica da cidade. N. do T.)

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)





Monges inventores de tecnologias logo comunicadas a todos



Os monges cistercienses ficaram famosos pela sua sofisticação tecnológica.

Uma grande rede de comunicações ligava os mosteiros, e entre eles as informações circulavam rapidamente.

Isso explica que equipamentos similares aparecessem simultaneamente em abadias, por vezes a milhares de milhas umas das outras.

No século XII o mosteiro de Clairvaux, na França, copiou 742 vezes um relatório sobre o aproveitamento da energia hidráulica, para que chegasse a todas as casas cistercienses do Velho Continente.

Relógio na Praça do Mercado de Praga
Eis uma significativa carta da época:

"Entrando na abadia sob o muro de clausura, que como um porteiro a deixa passar, a correnteza se joga impetuosamente no moinho, onde um jogo de movimentos a multiplica antes de moer o trigo sob o peso de moendas de pedra; depois o sacode para separar a farinha do joio. Assim que chega no próximo prédio, a água que enche as bacias se rende às chamas, que a esquentam para preparar cerveja para os monges".  

O relato continua expondo a lavagem mecânica da lã, a tintura dos panos e o tingimento dos couros (p. 34-35).

Todos os mosteiros dos cistercienses tinham uma fábrica modelo, com freqüência tão grande quanto a igreja. Eles foram os líderes da produção de aço na Champagne.

Usavam resíduos dos fornos como fertilizantes, pela concentração de fosfatos.

Jean Gimpel alude a uma autêntica revolução industrial na Idade Média, pois esta "introduziu a maquinaria na Europa numa medida que nenhuma civilização previamente conheceu" (p. 35).

E Thomas Woods completa: "Esses mosteiros foram as unidades econômicas mais produtivas que jamais existiram na Europa, e talvez no mundo, até aquela época" (p. 33).


A finalidade dos monges era imprimir no mundo a imagem do sublime Criador.

Por isso, viam como uma vitória que outros implementassem logo as invenções que expandiam o Reino de Deus na Terra.

Stark cita a admiração dos viajantes vendo os quase dois mil moinhos que realizavam toda espécie de tarefas nas margens do Sena, nas proximidades de Paris.





Idade Média: ingenuidade ou entendimento superior das coisas?



O famoso escritor e educador do século XIX Charles de Montalembert, Par da França, deixou luminosas páginas relativas à Idade Média e as deturpações dessa era histórica por parte dos autores liberais com os quais, alias, partilhava muitas idéias. Eis uma dessas páginas, por exemplo:

Na Idade Média os homens de ciência estudavam a natureza com o cuidado escrupuloso que os católicos deveriam colocar no estudo das obras de Deus.

Não faziam dela um corpo sem vida superior, nela procuravam sempre relações misteriosas com os deveres e crenças do homem remido pelo seu Salvador; viam nos costumes dos animais, nos fenômenos das plantas, no canto dos pássaros ou nas propriedades das pedras preciosas, outros tantos símbolos de verdades consagradas pela fé.

As pedantes nomenclaturas não tinham ainda invadido e conspurcado o mundo reconquistado para o Verdadeiro Deus pela Igreja.

Ia-se, na noite de Natal, anunciar às árvores das florestas a chegada do Salvador. “Aperiatur terra et germinet Salvatorem”. A terra, em retribuição deveria produzir rosas onde o homem derramasse sangue, e lírio onde caíssem lágrimas...

Quando morria uma santa, as flores das redondezas viam-se na obrigação de murcharem todas, ou a menos inclinarem-se quando da passagem do féretro.

Quando à noite o pobre elevava os olhos para o céu, não era a via-láctea de Juno que ele via, mas o caminho que guiava os seus irmãos peregrinos a Compostela, ou o caminho que os bem-aventurados tomavam para ir ao Céu...

As flores, estas, sobretudo, ofereciam um mundo povoado das mais encantadoras imagens, numa linguagem muda que exprimia os mais ternos e vivos sentimentos.

O povo católico, em combinação com os doutores, dava a esses doces objetos de sua atenção quotidiana os nomes dos entes queridos, isto é, dos apóstolos, dos santos favoritos, das santas cuja inocência e pureza pareciam refletir-se na beleza pura das flores.

Maria Santíssima, essa Flor das flores, essa Rosa sem espinho, esse Lírio sem mancha, tinha uma incontável legião de flores embelezadas e encarecidas aos olhos do povo por seu doce nome.

Era como se fossem relíquias suas, esparsas por toda parte, e sempre renovadas.

Os grandes sábios de nossos dias preferiram substituir à sua lembrança a de Venus.

Citemos apenas um exemplo do grosseiro materialismo que caracteriza as nomenclaturas de hoje: Quem não conhece a encantadora florzinha, conhecida geralmente na França, por “olhos da Santa Virgem”?

O pedantismo moderno preferiu substituir essa expressão por “Myosotis scorpioides”, que ao pé da letra significa “orelha de rato com ar de escorpião”. Eis o que se chama progresso científico!

(Fonte: Charles Forbes René, conde de Montalembert (18.3.1810 Londres ‒ 13.3.1870 Paris), “Introduction à l'histoire de Sainte Elisabeth de Hongrie”, Pierre Téquin, libraire, editeur, 27ª edição, 1922, Tomo I, pág. 156).










O monasticismo católico e a restauração da fé,
da cultura e das ciências


O homem das letras desses primeiros séculos medievais era quase sempre um clérigo para quem o estudo dos conhecimentos naturais era uma pequena parte da escolaridade.

Esses estudiosos viviam numa atmosfera que dava prioridade à fé e geralmente tinham a mente mais voltada para a salvação das almas do que para o questionamento de detalhes da natureza.

Aqueles que desejavam investigar o mundo natural tinham suas opções limitadas pelo esquecimento do idioma grego.

Muitos dos estudos tinham que ser feitos com informações obtidas de fontes não científicas, eram freqüentemente textos com informações incompletas e que traziam sérios problemas de interpretação.

Desse modo, por exemplo, manuais romanos de inspeção do solo eram lidos porque neles estavam incluídos elementos da geometria.

A vida quase sempre insegura e economicamente difícil dessa primeira parte do período medieval mantinha o homem voltado para as dificuldades do dia-a-dia.

O estudo da natureza era buscado mais por motivos práticos do que como uma investigação abstrata: a necessidade de cuidar dos doentes levou ao estudo da medicina e de textos antigos sobre remédios, o desejo de determinar a hora correta para rezar levou os monjes a estudar o movimento das estrelas, a necessidade de computar a data da páscoa os levou a estudar e ensinar os movimentos do Sol e da Lua e rudimentos da matemática.

Não era incomum o mesmo texto discutir tanto os detalhes técnicos quanto o sentido simbólico dos fenômenos naturais.

Embaixo: video
7. Os monges na construção da civilização ocidental

Veja toda a série de aulas: CLIQUE AQUI







A Idade Média achava que a Terra era plana?


Deus Criador, geometra, Codex Vindobonensis 2554
Na revista de número 01 da coleção sobre História da ciência da Scientific American, Rudolf Simek desmonta, com muitos documentos, a idéia que, principalmente muitos ateus têm hoje, de que na Idade Média, com base na Bíblia, se acreditava que a Terra era plana:

“A idéia de que antes da Renascença a Terra era considerada plana, ainda persiste. No entanto, a esfericidade do Planeta já era admitida na época medieval”

“[...] Em 1492, quando Martin Behaim fabricou o primeiro globo terrestre e o chamou de Erdapfel (“maçã terrestre”), ele se remeteu à tradição medieval. [...]

O manual de astronomia mais conhecido nas universidades medievais era o Liber de Sphaera (“Tratado sobre a esfera”), escrito pelo inglês Jean de Sacrobosco, na primeira metade do século XIII.

O autor tratava das bases da geometria e da astronomia, apresentando provas evidentes da esfericidade da Terra e de outros corpos celestes. [...]

Biblia, Toledo
Se a esfericidade da Terra ‒ e todas as suas conseqüências ‒ era uma idéia tão corrente na Idade Média, como foi possível chegar ao mito, que ainda persiste, que pretende que o homem medieval acreditava numa Terra plana? [...]

A partir do século XVII, essas idéias foram consideradas ‒ por engano ‒ como típicas do pensamento monástico medieval.

As correntes anticlericais da época das Luzes contribuíram para a propagação dessas interpretações errôneas, que visavam desmerecer uma Idade Média influenciada pela Igreja, pouco afeita às questões das ciências naturais e com uma visão de mundo limitada. [...]”





Idade das Trevas?
Ou Idade da Luz da Fé e da razão irmanadas?


Esfera astral e relogio planetario, catedral de Estrasbourgo
Noções preconceituosas sobre a Idade Média já foram amplamente propagadas, inclusive por motivações políticas, e ainda hoje permanecem mitos no imaginário popular.

Isso também é verdadeiro quando se trata das noções da ciência no período: ele é muitas vezes referido pejorativamente como idade das trevas, sugerindo que nele não teria havido nenhuma criação filosófica ou científica autônoma.

Embora nenhum historiador sério utilize mais a expressão “Idade das Trevas” para sugerir atraso cultural, ainda hoje, mesmo nas escolas, são ensinadas noções equivocadas como a idéia falsa de que os estudiosos medievais acreditavam que a terra fosse plana.

O historiador Ronald Numbers, que é referência no campo da história da ciência, aponta alguns dos equívocos mais comuns do leigo em relação ao período.

Em primeiro lugar, como já mencionado, é errado imaginar que na idade média as pessoas educadas acreditavam que a Terra era plana: elas sabiam muito bem que a Terra é redonda como uma bola. Em segundo lugar é também comum o mito de que a igreja teria proibido autópsias e dissecações no período.

De maneira mais geral, as afirmações muito comuns de que o crescimento do Cristianismo teria “acabado com a ciência da antiguidade” ou que a igreja medieval teria “suprimido o crescimento das ciências naturais” não têm suporte nos estudos históricos contemporâneos, ainda que sejam repetidas por muitos como se fossem verdades históricas.

O legado científico medieval

Depois de superado o abalo de desastres como a Peste Negra, na parte final da Idade Média, o Ocidente pôde demonstrar um crescimento científico ainda mais exuberante no período subseqüente.

As sete artes liberais, 'Hortus deliciarum' de Herrad von Landsberg (1180)
Os avanços na óptica, obtidos durante a Idade Média, logo iriam gerar aparelhos como o microscópio e o telescópio. Esses dois instrumentos juntamente com a prensa móvel, (fruto medieval), são vistos por muitos como os equipamentos mais importantes já criados para o avanço do conhecimento humano. É preciso também ressaltar os avanços na física:

O tardio movimento científico medieval concentrou-se na ciência física (...). Foi um trabalho que deveria ter continuidade nos séculos seguintes, na época que veio a se chamar de Renascença e no período que é muitas vezes denominado de Revolução científica.

E é nas ciências físicas que vemos mais claramente a emergência da ciência moderna, baseada, em grande parte, nas atitudes inquiridoras dos sábios do fim da Idade Média.

Mas, foram provavelmente o nascimento e desenvolvimento das universidades, juntamente com as primeiras sementes do que se tornaria a metodologia científica contemporânea, as heranças mais importantes do período.

Muito em breve aquela civilização que herdara um império em frangalhos iria revolucionar o entendimento do homem acerca de seu lugar no mundo e no universo.

Por mais que os homens do renascimento e de momentos históricos subseqüentes às vezes fizessem questão de esquecer, muito disso foi possibilitado pelas conquistas medievais.

(Fonte: Wikipedia, verbete Ciência Medieval)





O sistema universitário medieval:
o oposto do conhecimento fragmentário hodierno


Universidade de Cambridge, Inglaterra
A criação das universidades medievais foi poderosamente estimulada pelos Papas e pelos Reis.

Especialmente os Papas trabalharam com afinco nessa obra, e grande número de universidades ainda hoje existentes foi fundado por decretos pontifícios.

As universidades deram à cultura medieval a magnífica unidade que a caracterizou.

Em lugar de termos, como hoje, uma cultura fragmentária, em que muitos juristas elaboram suas concepções com bases filosóficas que eles repudiam no terreno de suas convicções íntimas ou pessoais, em lugar de termos princípios reputados verídicos em Direito e falsos em Medicina, poderíamos ter uma cultura única e uniforme, se uma filosofia comum reunisse os sufrágios de todas as inteligências, como a filosofia escolástica, na Idade Média, reuniu os espíritos.


Série da EWTN apresentada por Thomas E. Woods, autor do livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental".

AULA 5: O Sistema Universitário. Legendado em Português.





"Caso Galileu": manipulação revolucionária
para abalar a hierarquia medieval das ciências


Universidade de Cambridge, Inglaterra
Os últimos séculos da Idade Média se caracterizaram por um extraordinário florescimento das letras e das artes.

Apareceram, então, artistas e intelectuais que podem ombrear com os maiores que a humanidade tenha conhecido em qualquer tempo.

Porém, nos séculos XV e XVI, a influência do Humanismo e da Renascença prepararam o Protestantismo. Iniciou-se, então, uma Revolução contra a Igreja.

Nesse contexto estourou o “caso Galileu” para tentar desmoralizar a autoridade da Igreja.

A continuação, o Prof. Thomas Woods desmitifica e esclarece com profundo conhecimento da matéria o lado de montagem propagandística anti-católica do caso.

Série da EWTN apresentada por Thomas E. Woods, autor do livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental".


AULA 4: O CASO GALILEU. Legendado em Português.













Sob o Catolicismo as ciências progrediram
mais que em qualquer outra civilização


O século que precedeu a Renascença, o século XIV, foi, no dizer de M. Coville, “uma época de grande atividade intelectual”.

A Universidade de Paris exercia a profissão de fazer falar a “razão no seio da Igreja – Ratio dictans in Ecclesia”.

Gerson a chamava “nosso Paraíso terrestre no qual estava a árvore da ciência do bem e do mal”.

Seus ensinamentos tinham gerado centenas de mestres seguidos por milhares de estudantes.

“A Faculdade de Artes nos dá, em 1349, 502 mestres regentes (titulares); em 1403 já havia 790, e esse número é inexato. No sínodo de Paris de 1406, Jean Petit falava de mil mestres e um assistente o interrompeu para retificar, afirmando existirem dois mil”.

Não se saberia determinar o número dos estudantes. Juvenal de Ursins diz seriamente, a propósito de um desfile em 1412:

“O desfile foi feito da Universidade de Paris até Saint-Denis; e quando os primeiros estavam em Saint-Denis, o reitor estava ainda em Saint-Mathurin, rua Saint-Jacques”.

Isto significa um cortejo de estudantes com mais de 12 quilômetros de extensão!

O historiador da ciência Edward Grant indaga:

"O que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais, de uma maneira que nenhuma outra civilização o fizera anteriormente? A resposta, estou convencido, encontra-se num espírito de investigação generalizado e profundamente estabelecido como conseqüência da ênfase na razão, que começou na Idade Média” (p. 66).

Série da EWTN apresentada por Thomas E. Woods, autor do livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental".

AULA 3. Legendado em Português.






Invenções e instituições criadas na época medieval


Mestre relogeiro. Jean Suso, "L'horloge de la Sapience", século XV.
BnF, français 455, folio 4
Se há algo de espantar na Idade Média é a vertiginosa multiplicação de novas instituições e realizações materiais.

Uma das mais incríveis para os antigos foi a criação dos hospitais. Hoje nós achamos que é a coisa mais natural do mundo.

Tão natural que, se não existissem, os homens clamariam em altas vozes pela sua criação.

Mas nada de semelhante existiu na Antiguidade e nem mesmo nas civilizações pagãs mais requintadas.

O doente ficava entregue a si mesmo, a curas caseiras e, para os mais ricos, o recurso a médicos que mais pareciam com aprendizes ou pais de superstição.

Um início de racionalização da medicina aconteceu na Grécia. Mas faltava de todo a caridade cristã, única capaz de levar homens e mulheres a sacrificar suas vidas pelos doentes.

Foi este sacrifício que fizeram as Ordens religiosas masculinas e femininas que assumiram os cuidados dos doentes e o desenvolvimento da medicina.

De início, os cuidados eram fornecidos gratuitamente nas abadias. Mas só em Jerusalém, por obra dos cavaleiros hospitalários, nasceu o primeiro hospital moderno. Aliás, o nome hospital vem do nome dessa ordem de cavalaria.

Copiando o modelo do Hospital de Jerusalém, pulularam na Europa medieval os hospitais gratuitos em quantidade incontável.

Hôtel-Dieu (Hospital) de Beaune, França
Hôtel-Dieu (Hospital) de Beaune, França
O “Hôtel-Dieu” (hospital) de Beaune é o que se conserva em melhor estado e, embora já não funcione como hospital, é visitado por incontáveis turistas todos os anos.

Quem iria visitar um hospital moderno de hoje quando tiver 500 ou 600 anos de velho? Provavelmente o próprio governo o derrubaria muito antes disso.

Mas, no exemplo de Beaune, se trata de um hospital lindíssimo! A construção e a manutenção eram feitas completamente pelo clero.

Mas os hospitais e o desenvolvimento da saúde pública pela Igreja foram só um elemento.

Poucas coisas são mais falsas do que a afirmação do que na Idade Média o clero e a nobreza sugavam o povo.

A nobreza lutava e morria pelo povo contra os inimigos externos, contra os bandidos e baderneiros de toda espécie.

O clero rezava pelo povo, instruía-o, curava-o nas suas doenças, mantinha escolas para o povo.

Essas classes que mais se sacrificavam eram as que evidentemente gozavam de honras especiais. E o povo, que recebia todos esses benefícios gratuitamente, dedicava-se a trabalhar e ganhar dinheiro. É natural que contribuísse com o que tinha: dinheiro e bens materiais.

São Paulo representado com óculos.
Bible historiale século XIV, BnF, Français 7, folio 220 v
Dizem que a Idade Média teria sido uma época de atraso. Hoje os historiadores já não acreditam nessa velheira.

A técnica teve na Idade Média um desenvolvimento extraordinário!

Um dos elementos de desenvolvimento foi o moinho, a vento ou a água, que utilizou novas formas de energia para poupar o trabalho do homem.

A mecânica teve na Idade Média um formidável desenvolvimento.

Os relógios fornecem um exemplo insuperado.

Os relógios mecânicos apareceram na Idade Média e deram origem a verdadeiras maravilhas de medição, de arte e de sorriso.

A rigor, todo homem que usa relógio deveria ser julgado um “medievalizante”, pois ostenta uma invenção medieval.

E quem come pão feito com farinha de um moinho, deveria também ser qualificado de “medievalizante” porque ele come pão moído numa invenção medieval.

Na ilustração ao lado vemos um dos inúmeros relógios da Idade Média. Eles não tinham ainda relógio portátil, faziam relógios grandes. A indústria não tinha feito ainda relógios pequenos.

Relógio de Praga, República Checa
Relógio de Praga, República Checa
Então, em todas as torres, em certas esquinas, havia relógio para o povo saber que horas eram.

Há relógios maravilhosos de certas cidades que, quando dão horas, 24 figuras mecânicas se movem; os Apóstolos passam pelos quadrantes, os sinos tocam. Reúnem-se aí turistas do mundo inteiro para ver esses relógios funcionarem.

Hoje os maiores especialistas penam para decifrar os estudos técnicos que serviram para construir as catedrais.

Novos métodos de desenho foram criados, baseados em novas concepções da geometria inspiradas das Sagradas Escrituras.

Uma das indústrias mais praticadas na Idade Média foi trazida do Oriente: é a criação do bicho de seda e, depois, a indústria da seda. Duas operárias trabalhando a seda se vestiam parecido a damas de uma Corte.

Outra invenção medieval para tecer que facilitou muito o trabalho humano foi a roca. A mecânica foi facilitando a vida do homem durante a Idade Média.

Adoração dos Reis Magos, Fra Angelico e Filippo Lippi
Adoração dos Reis Magos, Fra Angelico e Filippo Lippi
A pintura teve na Idade Média grande progresso. Um dos pintores mais delicados da humanidade foi Fra Angélico, um dos pináculos da Idade Média.

Na pintura vemos a Adoração dos Reis Magos. Um rei adora o Menino Jesus e apresenta os presentes, enquanto os outros comentam a beleza da cena à espera de chegar a vez deles para oferecerem os seus presentes também.

Os pastores e o povo judeu ficam contemplando.

A pintura de Fra Angélico é um dos índices maiores da espiritualidade e da delicadeza de alma medieval, que floresceu nesse século dito tão bruto pelos seus detratores.

No quadro de Fra Angélico, o Menino Jesus aparece inteiramente como um menino, mas o olhar tem o discernimento e o julgamento de um homem adulto. A Sabedoria Eterna, Incriada e Encarnada transparece no olhar d’Ele.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 22.04.73. Sem revisão do autor.)





A revolução industrial medieval:
os começos da engenharia moderna


Uma certa “lenda negra” visceralmente anti-medieval acostumava apresentar a Idade Média como uma era de retrocesso técnico.

Essa visualização anti-histórica movida por um fundo anti-cristão não resiste mais à crítica científica.

O Professor Raul Bernardo Vidal Pessolani, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal Fluminens ‒ UFF, vem de publicar a respeito esclarecedora apresentação de Power Point.

A apresentação dispensa comentários e a reproduzimos a continuação:

PowerPoint: A Revolução Industrial Medieval e os começos da Engenharia



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Mito errado: Na Idade Média a ciência ficou estagnada,
e não houve progresso técnico




REFUTAÇÃO: A Idade Média conheceu um florescimento científico e técnico muito acentuado.


DOCUMENTAÇÃO

1–Conhecimentos técnicos em geral

• O manual “Schedula diversarum artium” (século XI), do monge Teófilo Presbítero, consigna importantes inventos e conhecimentos técnicos nos ramos de preparação de tintas, pintura, trabalhos de metal, produção de cristal, vitrais, construção de órgãos, trabalhos em marfim, com pedras preciosas e pérolas.

• O “Hortus deliciarum”, da abadessa Herrad de Landsberg (1160), traz numerosas descrições de todo o aparelhamento técnico que possibilitou a construção das magníficas catedrais.

Saiba como a Igreja promoveu a ciência logicamente sistematizada e como floresceram ciências como a mecânica, as matemáticas, a física e a astronomia

Alguns dos progressos da época: Moinhos de vento; rodas hidráulicas; fundição de sinos; relógios; relógios com figuras móveis; roca e carretilha para fiação; carvão de pedra e sua utilização em forjas; exploração do carvão na Inglaterra e no Ruhr (Alemanha); serraria automática movida a água corrente (Cfr. Gerd Betz, “Historia de la Civilización Occidental”, p. 150).


2–Descobertas químicas durante a Idade Média
Antes do ano 1000 já se fabricava o álcool destilado do vinho. Nos séculos XII e XIII descobriu-se: amoníaco, ácido nítrico, ácido sulfúrico, alúmen.

Estes elementos acarretaram grandes progressos na produção de extratos alcoólicos, tinturas, corantes, no polimento, na produção de cristais em cores (Cfr. Friedrich Heer, “Historia de la Civilización Occidental”, p. 183).

Veja descobertas medievais surpreendeentes

“A razão desta evolução da técnica reside na tendência a uma atividade relacionada com a natureza e condicionada pela piedade religiosa, com a conseqüente afirmação do trabalho corporal e o desaparecimento das antigas formas de escravidão” (Friedrich Heer, op. cit., p. 115).

Veja sobre a tecnologia e o copyright na Idade Média.

3–Outras inovações importantes

“O trabalho animal, até então mal aproveitado, é levado ao máximo desenvolvimento por meio de uma série de inventos.

Por exemplo, o uso de coleiras nas guarnições para os cavalos, que multiplica por quatro a força de tração dos animais” (Friedrich Heer, op. cit., p. 115). Veja mais.

“Desde a época de Carlos Magno, vão ganhando terreno as construções de pedra: a maior revolução técnica na arquitetura, cuja importância se faz sentir durante um milênio” (Friedrich Heer, op. cit., p. 112).

“No tempo de São Francisco, “a atividade mercantil estava promovendo a prosperidade da Europa e desenvolvendo em todos os sentidos a capacidade das cidades” (Christopher Brooke, professor de História Medieval na Universidade de Liverpool, “Estructura de la Sociedad Medieval”, in “La Baja Edad Media”, ed. Labor, Barcelona, 1968, p. 39).


“Nos anos 1000 começa a difundir-se o uso do moinho de grãos movido por água corrente e construído pelos senhores, melhoramento considerável que economiza grande parte do tempo que se empregava em moer o trigo entre pedras” (Georges Duby, “Historia de la Civilización Francesa”, p. 15).

4–Transformação agrícola que mudou a face da Europa

“A expansão agrícola dos séculos XI e XII parece ter sido o único grande rejuvenescimento do conjunto das práticas camponesas que atingiu os campos franceses, desde a época neolítica até a ‘revolução agrícola’ dos tempos modernos” (Georges Duby, op. cit., p. 63).

“O cultivo da vinha na França, Áustria e região do Reno e Mosela deve muitíssimo aos monges.

“Até o século XIX e quase até nossos dias, muitas propriedades rurais foram exploradas segundo os princípios estabelecidos pelos monges medievais” (Gerd Bertz, in “Historia de la Civilización Occidental”, p. 143).

“Os campos da abadia de Cluny, situados na vanguarda do progresso, em meados do século XII, davam uma colheita seis vezes maior do que os grãos semeados nos melhores terrenos ...

“Foi uma renovação fundamental, que mudou profundamente todas as maneiras de viver, posto que graças a ela o camponês tirava de uma terra menos extensa, em igual tempo, com menos esforço, mais alimentos” (Georges Duby, op. cit., p. 66).

“Entre o ano 1000 e as proximidades do século XII esse prodigioso esforço, esses inumeráveis golpes de machados e enxadas dados por gerações de pioneiros, esses diques contra inundações, todas as queimas dos matagais, todas essas plantações de novas vinhas, deram aos campos da França uma nova fisionomia — a que conhecemos” (Georges Duby, op. cit., p. 70).






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