domingo, 28 de novembro de 2010

Igreja e Civilização Cristã ‒ A Cristandade (3)

Se o mundo adotasse a Civilização Cristã resolveria todos os problemas?

Se todos os homens praticassem a Lei de Deus se resolveriam rapidamente todos os problemas políticos, econômicos, sociais, que nos atormentam.

Não se pode esperar uma solução enquanto os homens viverem na inobservância habitual da Lei de Deus.


A sociedade humana realizou alguma vez este ideal de perfeição?

Sem dúvida. Dí-lo o imortal Leão XIII: operada a Redenção e fundada a Igreja,

"como que despertando de antiga, longa e mortal letargia, o homem percebeu a luz da verdade, que tinha procurado e desejado em vão durante tantos séculos; reconheceu sobretudo que tinha nascido para bens muito mais altos e muito mais magníficos do que os bens frágeis e perecíveis que são atingidos pelos sentidos, e em torno dos quais tinha até então circunscrito seus pensamentos e suas preocupações. Compreendeu ele que toda a constituição da vida humana, a lei suprema, o fim a que tudo se deve sujeitar, é que, vindos de Deus, um dia devamos retornar a Ele.

"Desta fonte, sobre este fundamento, viu-se renascer a consciência da dignidade humana; o sentimento de que a fraternidade social é necessária fez então pulsar os corações; em conseqüência, os direitos e deveres atingiram sua perfeição, ou se fixaram integralmente, e, ao mesmo tempo, em diversos pontos, se expandiram virtudes tais, como a filosofia dos antigos sequer pôde jamais imaginar. Por isto, os desígnios dos homens, a conduta da vida, os costumes tomaram outro rumo. E, quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe, quando sua virtude penetrou até os veios íntimos da sociedade, dissipando as trevas e os vícios da antigüidade, então se operou aquela transformação que, na era da Civilização Cristã, mudou inteiramente a face da terra". (Leão XIII Encíclica "Tametsi futura prospiscientibus", I-XI-1900).

Casimiro III, o Grande, rei da Polônia

O que é a civilização?

Civilização é o estado de uma sociedade humana que possui uma cultura, e que criou, segundo os princípios básicos desta cultura, todo um conjunto de costumes, de leis, de instituições, de sistemas literários e artísticos próprios.



O que é uma civilização católica?

Uma civilização é católica, se for a resultante fiel de uma cultura católica e se, pois, o espírito da Igreja, for o próprio princípio normativo e vital de seus costumes, leis instituições, e sistemas literários e artísticos.



O que é então a Civilização Cristã e a cultura cristã?

A civilização cristã é uma luminosa realidade feita de uma ordem e uma perfeição antes sobrenatural e celeste do que natural e terrestre, produto da cultura cristã, a qual por sua vez é filha da Igreja Católica.



O que é a cultura católica?

A cultura católica é o cultivo da inteligência, da vontade e da sensibilidade segundo as normas da moral ensinada pela Igreja.

Ela se identifica com a própria perfeição da alma.

Se ela existir na generalidade dos membros de uma sociedade humana, ela será um fato social e coletivo.

E constituirá um elemento — o mais importante — da própria perfeição social.


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Surto de medievalismo em São Paulo

Vilipendiada ao extremo pelo iluminismo, recuperada pela histografia moderna, a Idade Média tem um inesperado renascer na consideração de muitos paulistanos.

O “medieval reenactment" ‒ reencenaçao de um evento histórico medieval ‒ já largamente espalhado nos EUA encontra entusiastas na mais moderna capital brasileira. Artesoes fabricam armaduras, armas, roupas, pratos enquanto artistas reexumam partituras medievais.

Em São Paulo há “guildas” (antigas corporações de oficio) integradas por admiradores da vida medieval como a “Guilda dos Armoreiros” (fotos).

“Fazemos uma densa pesquisa em livros, documentos e catálogos de museus internacionais” explicou à imprensa o estudante de História Tarcísio Lakatos Polito.

Para produzir uma armadura, eles podem demorar meses ou anos, porém o ofício já se auto-sustenta.

Ateliês recriam roupas de época e os clientes podem pagar até R$ 10 mil. Olivier Georges Decroix, chef de cozinha do Consulado-Geral da França, estuda a culinária da Baixa Idade Média e prepara receitas medievais com faisões, javalis, patos, gansos e pães.

E não só para medievalistas, mas também para “ocasiões especiais do consulado”, explicou ele. O grupo Les Folies revive a música da Idade Média tocando gaitas de fole, tambores, flautas e rabeca em eventos medievalistas.

domingo, 21 de novembro de 2010

Papel de Cluny na formação da Idade Média ‒ 2


continuação do post anterior

Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:


O êxito de Cluny foi assegurado antes de mais nada pela elevada espiritualidade que se cultivava lá, mas também por algumas outras condições que favoreceram seu desenvolvimento.

Ao contrário do que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e as comunidades dependentes dele foram reconhecidas como isentas da jurisdição dos bispos locais e submetidas diretamente à do Pontífice Romano.

Isso comportava um vínculo especial com a Sé de Pedro, e graças precisamente à proteção e ao ânimo dos pontífices, os ideais de pureza e de fidelidade, que a reforma cluniacense pretendia buscar, puderam difundir-se rapidamente.

Além disso, os abades eram eleitos sem interferência alguma por parte das autoridades civis, ao contrário do que acontecia em outros lugares.

Pessoas verdadeiramente dignas se sucederam na guia de Cluny e das numerosas comunidades monásticas dependentes: o abade Odon de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses, e outras grandes personalidades, como Aimar, Mayolo, Odilon e sobretudo Hugo o Grande, que levaram a cabo seu serviço durante longos períodos, assegurando estabilidade à reforma empreendida e à sua difusão. Além de Odon, são venerados como santos Mayolo, Odilon y Hugo.

A reforma cluniacense teve efeitos positivos não somente na purificação e no despertar da vida monástica, mas também na vida da Igreja universal.



De fato, a aspiração à perfeição evangélica representou um estímulo para combater dois graves males que afligiam a Igreja daquela época: a simonia, isto é, a compra de cargos pastorais, e a imoralidade de clero leigo.

Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se converteram em bispos, alguns deles inclusive papas, foram protagonistas desta imponente ação de renovação espiritual.

E os frutos não faltaram: o celibato dos sacerdotes voltou a ser estimado e vivido e, na assunção dos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.

Foram também significativos os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Em uma época em que somente as instituições eclesiásticas assistiam os indigentes, praticou-se com empenho a caridade.

Em todas as casas, uma pessoa se dedicava a hospedar os transeuntes e os peregrinos necessitados, os sacerdotes e os religiosos em viagem, e sobretudo os pobres que vinham pedir alimento e teto por algum dia.

Veja vídeo
Cluny
no seu 1100º aniversário
Não menos importantes foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as chamadas “tréguas de Deus” e a “paz de Deus”.

Em uma época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com as “tréguas de Deus” se asseguravam longos períodos de não-beligerância, por ocasião de determinadas festas religiosas e de alguns períodos da semana. Com a “paz de Deus”, pedia-se, sob pena de uma censura canônica, o respeito pelas pessoas inermes e pelos lugares sagrados.

Na consciência dos povos da Europa, incrementava-se assim esse processo de longa gestação, que teria levado a reconhecer, de modo cada vez mais claro, dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz.

Além disso, como acontecia para as demais fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, colocadas diligentemente a frutificar, contribuíram para o desenvolvimento da economia.

Junto ao trabalho manual, não faltaram tampouco algumas típicas atividades culturais do monaquismo medieval, como as escolas para crianças, a criação de bibliotecas, os scriptoria para a transcrição dos livros.

Dessa forma, há mil anos, quando estava em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, difundida em vastas regiões do continente europeu, ofereceu sua contribuição importante e preciosa.

Exigiu a primazia dos bens do espírito; manteve elevada a tensão aos bens de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção dos valores humanos; educou para um espírito de paz.

Queridos irmãos, oremos para que todos aqueles que estão preocupados por um autêntico humanismo e pelo futuro da Europa saibam descobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso desses séculos.

Planta de Cluny por volta de 1157 d.C.



domingo, 14 de novembro de 2010

Papel de Cluny na formação da Idade Média ‒ 1


Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:


 Em 11 de novembro de 2009, durante a catequese das quartas-feiras, S.S. Bento XVI descreveu a vida e a importância para a história da Igreja do vasto complexo de abadias lideradas pela de Cluny, a “alma da Idade Média”.

Reproduzimos a continuação o essencial das palavras do Pontífice, traduzidas e difundidas pela agência Zenit.


Queridos irmãos e irmãs:

Nesta manhã, eu gostaria de falar-vos de um movimento monástico que teve grande importância nos séculos da Idade Média e que eu já havia mencionado em outras catequeses.

Trata-se da ordem de Cluny, que no começo do século XII, momento de sua máxima expansão, contava com quase 1.200 mosteiros: um número verdadeiramente impressionante!

Em Cluny, precisamente há 1.100 anos, em 910, fundou-se um mosteiro colocado sob a guia do abade Bernon, depois da doação de Guilherme o Piedoso, duque de Aquitânia.

Nesse momento, o monaquismo ocidental, que floresceu alguns anos antes com São Bento, havia decaído muito por diversas causas: as condições políticas e sociais instáveis, devido às contínuas invasões e devastações de povos não integrados no tecido europeu, a pobreza difundida e sobretudo a dependência das abadias dos senhores locais, que controlavam tudo o que pertencia aos territórios de sua competência.

Neste contexto, Cluny representou a alma de uma profunda renovação da vida monástica, para reconduzi-la à sua inspiração original.

Em Cluny, restaurou-se a observância da Regra de São Bento, com algumas adaptações já introduzidas por outros reformadores. Sobretudo, quis-se garantir o lugar fundamental que a liturgia deve ocupar na vida cristã.

Os monges cluniacenses se dedicaram com amor e grande cuidado à celebração das Horas litúrgicas, ao canto dos Salmos, a procissões tão devotas quanto solenes e, sobretudo, à celebração da Santa Missa.

Veja vídeo
Cluny hoje,
no 1100º aniversário
Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais, como, por exemplo, no começo de novembro, a comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há pouco; incrementaram o culto a Nossa Senhora.

Reservou-se muita importância à liturgia, porque os monges de Cluny estavam convencidos de que esta era participação na liturgia do céu. E os monges se sentiam responsáveis por interceder diante do altar de Deus pelos vivos e pelos defuntos, dado que muitíssimos fiéis lhes pediam com insistência que rezassem por eles.


EXEMPLOS DE VIDA DOS ABADES SANTOS DE CLUNY


No demais, foi precisamente por este motivo que Guilherme o Piedoso quis o nascimento da abadia de Cluny. No antigo documento, que testemunha sua fundação, lemos:

“Estabeleço com este dom que em Cluny seja construído um mosteiro de regulares em honra dos santos apóstolos Pedro e Paulo e que nele se recolham monges que vivem segundo a regra de São Bento (...); que lá se frequente um venerável refúgio de oração com votos e súplicas, e se busque e se implore com todo desejo e íntimo ardor a vida celeste, e se dirijam ao Senhor assiduamente orações, invocações e súplicas”.

Para custodiar e alimentar este clima de oração, a regra cluniacense acentuou a importância do silêncio, a cuja disciplina os monges se submetiam de bom grado, convencidos de que a pureza das virtudes, às quais aspiravam, exigia um íntimo e constante recolhimento.

Não surpreende que rapidamente uma fama de santidade envolveu o mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas decidiram seguir seus costumes.

Muitos príncipes e papas pediram aos abades de Cluny que difundissem sua reforma, de maneira que, em pouco tempo, estendeu-se uma rede enorme de mosteiros ligados a Cluny ou com verdadeiros e próprios vínculos jurídicos, ou com uma espécie de afiliação carismática.
Planta de Cluny III, por volta de 1600


Assim, ia se desenhando uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.

continua no próximo post



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Abadia de Cluny: “alma da Idade Média” - II

São Mayeul abade
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Cluny liderou a vida religiosa medieval com glória e majestade. “Cluny é verdadeiramente uma nova Roma”, escreveu o historiador Delaruelle ("Histoire du Catholicisme en France", vol. I, p. 251).

A Basílica de São Pedro em Roma foi construída com alguns metros a mais da de Cluny para poder ser a maior da Cristandade.

“Não sei — diz D. Charles Poult — que entusiasmo, que voga, que moda salutar atrai todo mundo, Papas, príncipes e monges, a Cluny, como ao porto mais seguro.

“O estrangeiro se contagia: a Espanha e a Inglaterra. Cluny torna-se o guardião oficial da regularidade monástica. Um mosteiro decai na observância, o Papa o entrega ao zelo cluniacense.

“Hugo parece ser verdadeiramente o Abade dos abades, e, com exceção do Papa, ninguém é comparável a ele na Cristandade” ("Histoire de l’Église de France", t. I, p. 124).

Queremos estudar os primórdios do Sacro Império Romano Alemão?

Lá encontramos os cluniacenses dirigindo a Imperatriz Adelaide e ajudando com seus conselhos espirituais e políticos os três primeiros Otons, Conrado e Santo Henrique II a trabalharem pela restauração do Império de Carlos Magno.

Santo Odilon abade
A reconquista espanhola? De novo os cluniacenses aparecem colaborando na luta contra os muçulmanos.


É o Papado? Os cluniacenses lá estão para retirá lo do opróbrio em que caíra nos séculos IX e X, e, cerrando fileiras em torno de um de seus monges, São Gregório VII, colaboram com ele na luta gigantesca contra o Imperador Henrique IV para afirmar a primazia do espiritual sobre o temporal.

São as canções de gesta? Cluny, com todo o seu prestígio, compõe, incentiva e propaga essas epopéias da Cristandade.

É o feudalismo? Não terá sido Cluny o criador do feudalismo católico?

É a Cristandade, em todo o seu esplendor, que nos seduz?

Como negar que esse incomparável mosteiro a modelou com a perfeição com que hoje a conhecemos pela História?

Santo Odilon abade
Anouar Hakem defende que Cluny “preparou as guerras santas, mais ou menos como os enciclopedistas prepararam a Revolução Francesa por um trabalho de educação dos espíritos”.
Delaruelle diz que se pode sustentar que “Cluny contribuiu poderosamente para a formação do herói das cruzadas.

“Os escritores cluniacenses celebravam as virtudes do cavaleiro que põe sua espada ao serviço da Igreja”.

A Revolução Francesa não podia tolerar a presença de Cluny, "símbolo odioso" da "barbárie" medieval.

Cluny foi saqueda e devastada pela Revolução Francesa em 1790 e, como diz o post foi literalmente desfeita por Napoleão para aproveitar as pedras numa estrada.

Barbáries de liberdade, da igualdade e da fraternidade revolucionárias!!!









AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 7 de novembro de 2010

Igreja, Ordem, Paz e Idade Média ‒ A Cristandade (2)

No que consiste a ordem?

A ordem é a disposição das coisas segundo sua natureza. Assim, um relógio está em ordem quando todas as suas peças estão ordenadas segundo a natureza e o fim que lhes é próprio: apontar as horas.

Diz-se que há ordem no universo sideral porque todos os corpos celestes estão ordenados segundo sua natureza e fim.

A Idade Média tendeu para implantar essa ordem em todas as coisas.



De onde provinha a paz medieval?

A paz medieval vinha do fato que a ordem engendra a tranqüilidade. A tranqüilidade da ordem é a paz.



Basta ter tranqüilidade para ter paz?

Não. Não é qualquer tranqüilidade que merece ser chamada paz mas apenas a que resulta da ordem.

Por exemplo, a paz de consciência é a tranqüilidade da consciência reta: não pode confundir-se com o letargo da consciência embotada.



O que era a harmonia medieval?

Existe harmonia quando as relações entre dois seres são conformes à natureza e o fim de cada qual. A harmonia é o operar das coisas umas em relação às outras, segundo a ordem. Essa harmonia impregnou toda a Idade Média.



Qual é a relação entre ordem social e perfeição espiritual?

Quando um ser está inteiramente disposto segundo sua natureza, está em estado de perfeição.

Assim uma pessoa com grande capacidade de estudo, posta em uma Universidade em que haja todos os meios para estudar, está posta em condições perfeitas.

A trajetória dos astros é perfeita, porque corresponde inteiramente à natureza e ao fim de cada qual. A Idade Média visou pôr nessa perfeição em tudo. Por isso gerou muitos santos.



Qual é a condição essencial da ordem e da paz?

A posse da verdade religiosa é a condição essencial da ordem, da harmonia, da paz e da perfeição.



A vida foi difícil na Idade Média?

Sim. A fidelidade à Lei exige sacrifícios por vezes heróicos dos próprios católicos que vivem no seio da Igreja banhados pela superabundância da graça e de todos os meios de santificação. Foi o caso da Idade Média.



Se os indivíduos praticam a Lei de Deus, o que acontece na sociedade?

Isto equivale a perguntar o que acontece num relógio em que cada peça trabalha na perfeição. Dá as horas perfeitamente. Uma sociedade em que todos os fossem bons católicos, seria como a sociedade traçada por Santo Agostinho:

"imaginemos um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo, governadores, maridos, esposos, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã! E ousem (os pagãos) ainda dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado! Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado, quando fielmente observada" (Epíst. CXXXVIII al. 5 ad Marcellinum, cap. II, n. 15).



Qual é o ideal de uma sociedade cristã?

Santo Agostinho, falando da Igreja Católica, exclama:

"Conduzes e instruis as crianças com ternura, os jovens com vigor, os anciãos com calma, como comporta a idade não só do corpo mas da alma. Submetes as esposas a seus maridos, por uma casta e fiel obediência, não para saciar a paixão, mas para propagar a espé¬cie e constituir a sociedade doméstica. Conferes autoridade aos mari¬dos sobre as esposas, não para que abusem da fragilidade do seu sexo, mas para que sigam as leis de um sincero amor. Subordinas os filhos aos pais por uma terna autoridade. Unes não só em sociedade, mas em uma como que fraternidade os cidadãos aos cidadãos, as nações às nações, e os homens entre si, pela recordação de seus pri¬mei¬ros pais. Ensinas aos reis a velar pelos povos, e prescreves aos povos que obedeçam os reis. Ensinas com solicitude a quem se deve a honra, a quem o afeto, a quem o respeito, a quem o temor, a quem o consolo, a quem a advertência, a quem o encorajamento, a quem a correção, a quem a reprimenda, a quem o castigo; e fazes saber de que modo, se nem todas as coisas a todos se devem, a todos de deve a caridade e a ninguém a injustiça". (De Moribus Ecclesiae, cap. XXX, n. 63).

Seria impossível descrever melhor o ideal de uma sociedade intei¬ra¬mente cristã. Poderia em uma sociedade a ordem, a paz, a harmonia, a perfeição ser levada a limite mais alto?


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Igreja e o Reino de Cristo na Terra ‒ A Cristandade (1)

O que a Idade Média teve de original, malgrado os defeitos humanos atuantes em todas as épocas históricas, é que foi por excelência a era da “Cristandade”. Isto é realizou o Reino de Cristo nesta terra, em toda a medida permitida pelas circunstâncias da época.

Cristandade: até hoje o termo e a realidade esplendorosa que ele exprime causam polêmica.

Tal vez ninguém a definiu melhor que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no hoje histórico artigo “A Cruzada do século XX”.

Atendendo a uma intenção didática, achamos melhor apresentar o conteúdo desse ensaio na forma de perguntas e respostas em sucessivos posts.

A finalidade da Igreja vai além da Terra?

Sim. A Igreja Católica foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar entre os homens os benefícios da Redenção.

Sua finalidade se identifica, pois, com a da própria Redenção: expiar os pecados dos homens pelos méritos infinitamente preciosos do Homem-Deus; restituir assim a Deus a glória extrínseca que o pecado Lhe havia roubado; e abrir aos homens as portas do Céu.

Esta finalidade se realiza toda no plano sobrenatural, e com ordem à vida eterna. Ela transcende absolutamente tudo quanto é meramente natural, terreno, perecível.

Foi o que N. S. Jesus Cristo afirmou, quando disse a Pôncio Pilatos "meu Reino não é deste mundo" (João, 18-36).



A Igreja quer o Reino de Cristo neste mundo?

Sim. Há nos desígnios da Providência uma relação íntima entre a vida terrena e a vida eterna. A vida terrena é o caminho, a vida eterna é o fim.

O Reino de Cristo não é deste mundo, mas é neste mundo que está o caminho pelo qual chegaremos até ele. Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu.



Como chegamos ao Céu?

Tornando-nos plenamente semelhantes a Deus, somos capazes de O amar plenamente, e de atrair sobre nós a plenitude de Seu amor. Ficamos, assim, preparados para a contemplação de Deus face a face, e para aquele eterno ato de amor, plenamente feliz, para o qual somos chamados no Céu.



O que é que é a vida terrena, então?

A vida terrena é, pois, um noviciado em que preparamos nossa alma para seu verdadeiro destino, que é ver a Deus face a face, e amá-lO por toda a eternidade.



Se nós formos bons, por quê nos importarmos com a ordem temporal?

Se nossa alma é boa, todas as nossas ações devem ser boas necessariamente, pois que a árvore boa não pode produzir senão bons frutos (Mat.7,17-18).

Assim, é absolutamente necessário, para que conquistemos o Céu, não só que em nosso interior amemos o bem e detestemos o mal, mas que por nossas ações pratiquemos o bem e evitemos o mal no estado que vivemos. Assim devemos agir na ordem temporal.



O Reino de Deus se realiza nesta Terra?

Sim. O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo, mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo.

Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército... vivendo a própria vida militar.



Qual é o sentido da festa de Cristo Rei?

É a festa de Cristo enquanto Rei Celeste cujo governo já se exerce neste mundo. É Rei quem possui de direito a autoridade suprema e plena. O Rei legisla, dirige e julga.



Quando se efetiva a Realeza de Cristo Rei?

Sua realeza se torna efetiva quando os súditos reconhecem seus direitos, e obedecem a suas leis.

Ora, Jesus Cristo possui sobre nós todos os direitos. Ele promulgou leis, dirige o mundo e julgará os homens.



Qual nossa parte na construção do Reino de Cristo?

Cabe-nos tornar efetivo o Reino de Cristo obedecendo a suas leis.



O Reino de Cristo é um fato social?

O Reinado de Cristo se exerce sobre as almas. Então, a alma de cada um de nós é uma parcela do campo de jurisdição de Cristo Rei.

O Reinado de Cristo será um fato social se as sociedades humanas Lhe prestarem obediência.



Como se realiza o Reino de Cristo nesta Terra?

O Reino de Cristo se torna efetivo na terra, individual e socialmente, quando os homens no íntimo de sua alma como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a Lei de Cristo.



O Reino de Cristo nesta Terra é eterno?

Não. Por mais concreta, brilhante e tangível que seja a realidade terrena do Reino de Cristo — no século XIII, por exemplo — é preciso não esquecer que este Reino não é senão preparação e proêmio. Na sua plenitude, o Reino de Deus se realizará no Céu: "O meu Reino não é deste mundo...". (João, 18-36).


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)