domingo, 26 de setembro de 2021

A Luz de Cristo e o charme da Idade Média

Jesus Cristo, San Paolo fuori le mura, Roma

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Na cerimônia da madrugada da Ressurreição, no jardim tirava-se fogo do atrito da pedra e acendia-se o círio pascal.

Porque assim como Nosso Senhor Jesus Cristo deu vida a seu próprio cadáver, assim da fricção de matérias inertes como as pedras nasce uma chama viva para acender o círio pascal.

Então, na noite, no crepúsculo, nas trevas, é acesa uma luz: é Nosso Senhor Jesus Cristo que ressuscita!

Acende-se o círio pascal e o padre entra com uma vela acesa na igreja e canta três vezes Lumen Christi. As velas vão se acendendo e daí a pouco a igreja está toda iluminada pelo círio pascal.

Essa expressão Lumen Christi ficou-me como imensamente bonita e nobre, querendo dizer mil coisas.

O que é que vem a ser especificamente a Luz de Cristo, ou Lumen Christi?

A expressão Lumen Christi, tomada ao pé da letra, literalmente, é adequada. É uma certa luz que há em Nosso Senhor Jesus Cristo, e que é a luz de toda Sua pessoa.

Ostensório reservado para a adoração do Santíssimo Sacramento. Catedral de Sevilha, Espanha.
Ostensório reservado para a adoração do Santíssimo Sacramento.
Catedral de Sevilha, Espanha.
Portanto, é a luz de sua natureza divina que transparece através de sua natureza humana. Sua natureza humana tem uma luz própria por causa de sua suma perfeição e retidão.

Tudo quanto Ele disse e fez, pelo fato de ter sido dito e feito por Ele brilha sempre e de modo esplendoroso.

Por causa disso não se pode deixar de ler sem emoção o Evangelho. Tudo aquilo tem Lumen Christi.

A Igreja também, a seu modo, tem um reluzimento.

A Igreja é uma instituição sobrenatural composta por uma Hierarquia e por uma plebe fiel em que todos são homens.

O reluzimento d’Ela em seu ensino, governo, modo de ser, manifestações litúrgicas, etc., como vem de Nosso Senhor Jesus Cristo, também pode ser chamado Lumen Christi.

Por exemplo, não poderia haver coisa mais bonita do que o bispo que entrava na igreja para uma cerimônia solene.

Eu me lembro que me aconteceu até de carregar o pálio para o bispo nessas ocasiões.

Na igreja de Santa Cecília o bispo chegava de automóvel, em particular, atrás da sacristia. Ele entrava, paramentava-se na sacristia.

O pálio, carregado pelas pessoas mais notáveis da paróquia, esperava na saída da sacristia, na porta do fundo.

E o bispo ia a pé pela rua então com todos os sinos tocando, o órgão em todos os registros, o coro cantando, etc. De fora da igreja se ouvia a festa dentro da igreja.

O bispo entrava e o coro cantava alguma música, por exemplo Ex Sacerdos Magnus, e o bispo com mitra alta, com luvas bordadas de ouro, báculo e dando a bênção ao povo, solenemente.

E o povo se ajoelhando enquanto o bispo passava.

Isto, em certos momentos, irradiava para nossa alma uma impressão que eu chamaria Lumen Christi.

Ato de obediencia dos cardeais ao novo Papa
Os Cardeais prestam reconhecimento e reverência ao Papa que acaba de ser eleito.
Muito maior ainda era o Papa entrando na Basílica de São Pedro. Pio XII, por exemplo, eu vi isto, entrando na Basílica de São Pedro, ainda na Sedia Gestatória, com todo o cortejo.

Os prelados orientais com aquelas mitras. Eu me lembro de um prelado negro, com um véu cor de rosa, leve, bordado com umas pedrinhas, de cada lado uma cruz com pedrinhas verdes; quando o Papa passou perto dele e abençoou, ele tomou uma cruzinha e agradeceu a bênção do Papa fazendo o sinal da cruz.

Depois vinham os gerais das ordens religiosas e povo apontava: “lá vai o Geral dos jesuítas”. O coro cantando.

Já antes de entrar o Papa, quando ele saia dos apartamentos dele, começavam a tocar as 200 ou 300 cornetas de prata de Michelangelo.

O Papa entrava na Sedia Gestatória e a Basílica inteira se levantava de entusiasmo. Era uma coisa do outro mundo de entusiasmo!

E a gente olhava assim para a Basílica, e lá de dentro, escrito em mosaico: “Tu est Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam, et portae inferi non praevaletunt”. (“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”)

Papa Pio XII na Sedia gestatoria, Praça de São Pedro
O Papa Pio XII na Sedia Gestatória
Era uma espécie de confirmação histórica e verdadeira de que a promessa se cumpriu. Muita gente pensava em São Pedro crucificado sarcasticamente de cabeça para baixo e nos ossos dele ingloriamente sepultados ali embaixo.

Os que enterraram São Pedro acharam que as portas de inferno tinham prevalecido.

Em cima, na nave da imensa basílica, ao cabo de 20 séculos, quando a vida terrena de Nosso Senhor já está longe, tudo quanto é da vida terrena d’Ele envelheceu e virou poeira, aquela vitória estupenda!

E em todas as línguas todo mundo cantando: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

Aquilo dava uma impressão de força sacral, nobre, que descia do Céu, que não era uma força da natureza, mas uma força da ordem, uma força esplendorosa da virtude, do bem, uma coisa sacrossanta.

Isto era, num alto grau de intensidade, o Lumen Christi.

A Luz de Cristo brilha até nas mais longínquas obras da Igreja. Capela de Nossa Senhora da Conceição, engenho Bento Velho, Vitória de Santo Antão, Pernambuco
A Luz de Cristo brilha até nas mais longínquas obras da Igreja.
Capela de Nossa Senhora da Conceição, engenho Bento Velho,
Vitória de Santo Antão, Pernambuco
Quando era menino, o interior do Brasil era menos habitado, a gente viajava de trem e passava por longas vastidões, com vilarejos pequenininhos, de vez em quando alguma cidade, etc.

Naquela natureza quase inculta, de repente no alto da montanha, uma igrejinha com uma cruz.

A presença daquela igrejinha conferia à harmonia daquela natureza abandonada, uma nota e uma presença suave, sobrenatural, digna, delicada, amena, convidando ao recolhimento no meio daquelas vastidões quase não habitadas.

Era quase um ósculo e uma bênção de Deus àquela natureza virginal, que ainda não tinha sido maculada pela presença do pecado dos homens.

Uma verdadeira maravilha!

Era uma coisa pequena, mas no meu modo de sentir, era uma outra afirmação do Lumen Christi, da luz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim como há um Lumen Christi que se manifesta na Igreja, a Cristandade também tem o seu lumen próprio.

Nas origens da Europa católica a Luz de Cristo atingiu uma plenitude
Nas origens da Europa católica a Luz de Cristo atingiu uma plenitude
Este lumen da Igreja e do espírito religioso e ortodoxo dos católicos, enquanto refletindo na ordem temporal constitui a Cristandade.

Este lumen também pode ser chamado, com a devida analogia, de Lumen Christi.

Europa é a parte mais culturalizada e mais carregada de tradições do mundo.

Nela, essa Luz de Cristo brilhou como em nenhum outro lugar do mundo.

E ela atingiu uma como que plenitude, durante a Era Medieval.

A Civilização Cristã traz consigo a plenitude histórica do Lumen Christi.

Por assim dizer, o solo europeu ficou ensopado das bênçãos do precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, seleção de anotações em datas diversas, sem revisão do autor).



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domingo, 19 de setembro de 2021

A gruta de São Bento: ponto de partida da Cristandade medieval

Subiaco, panorama desde a Santa Gruta

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Onde e quando nasceu a Cristandade medieval? Quem foi o fundador?

A resposta é paradoxal. Foi numa gruta. E o fundador foi um ermitão isolado.

Um jovem nobre romano que fugiu da imoralidade e da decadência de Roma.

Sim, da Roma que em poucos anos haveria de ser afogada no sangue e no fogo.

Foi o grande São Bento, o Patriarca de Ocidente, a grande alma que deu o ponto de partida da imensa ordem medieval, justa e sacral.

São Bento acabou fundando a Ordem Beneditina, que subsiste até hoje nos seus vários ramos e famílias espirituais. Em torno dos mosteiros beneditinos foram se aglutinando os restos do naufrágio do Império Romano e, também, bandos de bárbaros apenas aculturados.

Subiaco, interior do mosteiro medieval
Subiaco hoje.
As abadias beneditinas ensinaram a ordem àqueles cacos de grupos humanos. E sob o bafejo da graça deram à luz a fascinante Ordem Medieval.

Mas como é o local onde tudo começou? A gruta erma onde São Bento sozinho iniciou sua epopeia espiritual?

O local existe. Chama-se Subiaco. Fica não longe de Roma. A gruta está preservada.

Na gruta de Belém, o Salvador veio ao mundo. Na Gruta de Subiaco, a Cristandade deu seus primeiros vagidos na alma do grande Bento de Núrsia.

A alma de São Bento foi como um incêndio de zelo pela causa de Deus.

Carlos Magno e tantos outros heróis e santos medievais foram como que faíscas desse grande incêndio.

Vejamos como é Subiaco, e prescindindo um pouco das belíssimas construções, imaginemos o grande santo rezando sozinho, ouvindo o uivo das feras e comendo o pão que um corvo todo dia lhe trazia.


* * *

As fotos apresentam-nos uma visão atual do lugar da famosa gruta na qual viveu São Bento durante anos na solidão.

São Bento foge da corrupção de Roma
Esse local tão abençoado foi o ponto de partida da Civilização Cristã, enquanto esta floresceu na Europa Ocidental.

No século V, a Europa encontrava-se na seguinte situação mista: como os bárbaros tinham ocupado o Império Romano do Ocidente, restos de civilização coexistiam com bárbaros em grande quantidade, resultando disso um caos, o qual era preciso extinguir.

A Igreja trabalhava empenhadamente nesse sentido e agindo em função da graça.

E a graça soprando por todos os lados, produzindo flores de cá, de lá e de acolá, algo estava por acontecer de imensamente grande e belo, como desfecho dessa semeadura parcialmente bem recebida por toda parte.

E o desfecho de tal conjunto de fatores consistiu no aparecimento de um jovem de família senatorial romana, família nobre do patriciado. Bento, suscitado para realizar uma obra especial, entregou-se totalmente a essa grandiosa vocação.

Gruta de SubiacoMas, para realizar sua missão, ele não poderia permanecer naquele misto de barbárie e de cultura romana decadente em que se encontrava a Europa.

Retirou-se então à solidão.

E para quê? Para santificar-se.

Escolheu para isso um lugar completamente ermo, onde não houvesse nada que perturbasse sua entrega total a Nosso Senhor.

E ali entregou-se à devoção, à meditação, à penitência, a fim de que a graça se assenhoreasse cada vez mais de sua alma.

Podemos imaginá-lo ainda jovem, não pensando nos seus dotes, não pensando como seria comovedor considerar o isolamento desse moço com tantos antecedentes, naquela gruta ou naquele castelo de grutas, naquele silvestre palácio de grutas em que ele se embrenhou.

São Bento recebe a conversão do rei pagão Totila
São Bento recebe a conversão do rei pagão Totila
Cada gruta dava abertura para outra gruta, como num palácio um salão dá abertura para outro salão.

Nesse ambiente ele jamais pensava em si, mas somente em seu Criador.

* * *

Subiaco é o nome dessa abençoada gruta. Imaginemos São Bento sozinho naquele local.

Dizer que ele se encerrou na gruta, é muito bonito.

Entretanto, imaginemo-lo convivendo com essas ásperas pedras, ríspidas em todo o sentido da palavra, sem nenhuma beleza física.

Tudo é solidão. Mas evoca de algum modo o Céu.

Figuremo-nos São Bento sentado naquele lugar ermo, lendo um livro e pensando.

Ele não sabia, mas, através das graças que recebia, a Cristandade europeia estava nascendo.

Muito melhor que a Europa, a Cristandade europeia estava nascendo!


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 18/11/1988. Sem revisão do autor.)



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domingo, 12 de setembro de 2021

Othon I e os problemas no Sacro Império derivados das diversidades étnicas

Othon I com o Papa João XII
Othon I com o Papa João XII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Othon I restaurador do Sacro Império



A noção do Sacro Império Romano Alemão se nos apresenta de um modo feudal. É o conglomerado de reinos que estão debaixo da dependência do imperador sagrado pelo Papa. Assim como temos o rei acima dos duques, acabamos tendo o imperador acima dos reis.

Othon era imperador e rei. Mas juridicamente e teoricamente alguém podia ser imperador sem ser rei.

Sobre este Império pairou desde logo uma ambigüidade. Essa ambigüidade deu origem a polêmicas, a discussões em que os espíritos se rebelavam muito.

Primeiro problema: o Sacro Império abrangia só os povos de nação alemã? Seu título faz pensar nisto, mas o próprio título traz uma contradição: romano. Se é romano não se pode dizer que seja da nação alemã.

Segundo problema: a abranger povos não germânicos quais eram esses povos? Eram apenas povos vizinhos que tivessem sido conquistados ou toda a cristandade estava sujeita naturalmente ao Sacro Império?

Esta questão também era discutida. E o curioso é que ela era discutida entre os povos não alemães e discutida entre os alemães. 

Entre os alemães porque havia Alemães nacionalistas que entendiam que a pertencença de elementos não germânicos dentro do Império diminuía a plena propriedade que os alemães tinham do Império e que o Império era um mecanismo alemão para a Alemanha.

Os outros se consideravam expulsos. Nos outros povos era a tendência à independência, ao nacionalismo que conhecemos.

Em Lechfeld, Othon I salvou a Cristandade dos húngaros ainda pagãos
Em Lechfeld, Othon I salvou a Cristandade dos húngaros ainda pagãos
Entretanto, o fato concreto é que foi tão grande o poder dos imperadores que eles, a partir da constituição em 962, do Sacro Império Romano Alemão, os embaixadores dos imperadores tiveram precedência sobre os embaixadores de todos os reis.

O imperador, quando se encontrava com qualquer rei tinha precedência sobre todos os reis.

Os príncipes da casa imperial tinham precedência sobre os outros príncipes. A dignidade de príncipe do Império era uma dignidade maior que a de qualquer outro príncipe.

A França, sem reconhecer juridicamente a supremacia do Sacro Império, nesse tempo, funcionava como um verdadeiro protetorado do Sacro Império.

Até a queda de Dom João•VI, certos funcionários do Sacro Império Romano Alemão tinham, em Portugal, as mesmas prerrogativas dos funcionários portugueses. Isto é expressão de uma certa jurisdição.

A ideia de Othon I era restaurar o Império de Carlos Magno que, segundo a concepção antiga, existia quase que de direito natural.

A ideia da existência de um Império Romano que se não existia, devia existir, e que a qualquer momento podia ser restaurado, era uma coisa que já vinha do tempo dos bárbaros.

De maneira que quando Othon I, com a aprovação do Papa, que era o poder competente para dispor sobre o Império, segundo a concepção vigente, declarou a coisa restaurada, reputou-se que ele estava investido em toda a dignidade de imperador.

O Sacro Império (em azul) no fim do reinado de Othon I
O Sacro Império (em azul) no fim do reinado de Othon I
Luiz, o Piedoso, quando consentiu na divisão do Império, ele conservou para si a dignidade de imperador e deu três reinos para cada filho. E depois disso houve durante algum tempo a dignidade de imperador acima dos reis. Então entendeu-se que estava perpetuada essa situação.

Othon I, coroado imperador, continuou a luta contra os pagãos. Foi ele que fundou Magdeburgo, instituiu ali um bispado, fundou o bispado de Praga.

Em relação aos eslavos teve a política de conversão pela força, não muito legítima, mas muito eficiente, seguida por Carlos Magno.

Apesar disto, há um fato lamentável. As relações entre os imperadores e os papas tendiam a envenenar-se facilmente.

Em 963, depois de desentendimentos sérios, ele invade a Itália e depõe o Papa João XII, que ele considerava muito independente e cria um anti-papa chamado Leão VIII que ficou exercendo as funções de 963 a 965. Os romanos não satisfeitos com aquilo, em 964 elegem Bento V Papa. Othon o depõe e restaura Leão VIII.

Depois disto ele se desgosta de Leão VIII e levanta outro papa, João XIII. Este João•XIII parece que foi um Papa legítimo e governou de 965 a 972.

Outra démêlé muito forte dele foi com os bizantinos. Os bizantinos eram portadores da coroa imperial e eles não podiam se contentar com o fato de que a dignidade imperial do Ocidente fosse usada por gente nova, semi-bárbara, como eram os germanos. Quando viram restaurada a dignidade imperial, protestaram.
O túmulo de Othon I, hoje, em Magdeburgo, Alemanha
O túmulo de Othon I, hoje, em Magdeburgo, Alemanha

Mas a coisa se aclimatou bem, porque Othon, vendo o desdém dos bizantinos por ele, aborreceu-se e atacou a Itália do Sul. Ele precisava proteger a Itália do Sul contra a investida árabe e ele queria se vingar do desdém dos bizantinos.

Nesta situação, os bizantinos, sentindo que não podiam defender a Itália do Sul, reconheceram o Império e houve o casamento de um filho de Othon com uma princesa bizantina em 972, na igreja de São Pedro, em Roma.

Em 973, Othon I morreu de modo repentino e foi sepultado em Magdeburgo.

Durante seu reinado houve um grande florescimento das Letras, uma espécie de “renascença carolíngia”.




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domingo, 5 de setembro de 2021

Othon I restaurador do Sacro Império

Coroa imperial de Carlos Magno, usada por Othon I
Coroa imperial de Carlos Magno, usada por Othon I
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Othon I, o Grande, restaurador da obra de Carlos Magno



Othon I, segundo os contemporâneos, era um homem grande, de estatura impressionante, de olhos sempre em movimento. Seus olhos estavam constantemente observando todas as coisas.

Logo que subiu ao trono ele encontrou revoltados contra ele e lhe disputando a coroa, o irmão mais velho e o irmão mais moço.

Para resolver a briga, reuniram-se os representantes nobres de toda a nação alemã e decidiram, por eleição, que Othon deveria ser o imperador.

A coroação e unção dele como imperador se deu em Aix-la-Chapelle no ano de 938.

Ele teve guerras em todas as direções. Atacou a França mas não conseguiu conquistá-la. Celebrou a paz com os franceses.

Ao mesmo tempo, ele moveu guerra à Dinamarca e à Polônia nesse tempo pagãs.

O centro do reino de Lotário tinha se deslocado para a Itália e era disputado avidamente por dois carolíngios, Lotário e Besengário. O primeiro morreu e o segundo ficou oprimindo a viúva dele.

Então a viúva de Lotário mandou pedir a Othon que transpusesse os Alpes e fosse em seu socorro na Itália. Ele desceu, libertou a viúva opressa casou-se com ela, ficou rei da Itália e impôs tributo a Besengário. Por esta forma, estendeu seu reino e ficou com seu território consideravelmente ampliado.

Besengário revidou promovendo uma revolta do filho de Othon na Alemanha. O filho era duque da Baviera.

Então ele renunciou a alguns territórios seus em favor da Baviera e lá deixou seu filho. Deu algumas terras a Besengário exigindo que o reconhecesse como rei da Itália e aquietou um pouco essa revolta.

Isto feito, novos inimigos, os húngaros, vinham apontando no horizonte.

Othon I e sua esposa Adelaide, catedral de Meissen
Othon I e sua esposa Adelaide, catedral de Meissen
Os húngaros eram terríveis. No ano 955, somente, é que ele conseguiu, depois de muita luta, acabar com os húngaros. Desta maneira ele estava constantemente em dificuldades por causa da política externa.

Nos ducados étnicos uma porção de duques eram contrários a ele. Othon percebeu que para resolver o caso tinha de depô-los a todos e substituí-los com parentes seus.

Mas era uma tarefa difícil. Primeiro, porque não é fácil tirar-se um duque étnico de um ducado. Segundo, porque os parentes que ele colocou ofereceram muito pouca estabilidade. Estavam sempre se revoltando contra ele.

Foi exatamente o que sucedeu aos parentes do Othon. Não devemos pensar que ele colocava em cada ducado um homem fiel e esse homem aí ficava. Os súditos não gostavam do homem porque ele não era daquele grupo étnico e os homens não agradeciam a Othon como deviam agradecer.

Othon I
A Francônia ele deu a um filho que tinha o nome de Conrado, o Rubro. A Suábia ele acabou tirando a Ludolfo, que era rebelde e deu-o a um genro de Henrique, duque da Baviera. Depois ele também tirou a Baviera de Ludolfo.

Nos flancos dos ducados ele instituiu uma coisa curiosa. Havia os grandes ducados e ele então instituiu, perto dos ducados, os palatinados.

Os palatinados eram territórios que ficavam entre os ducados, mas que constituíam uma espécie de pontos encravados. 
E esses territórios dependiam diretamente dele, eram altamente fortificados e eram as chaves estratégicas para a entrada nos ducados.

De maneira que quando algum ducado fizesse guerra com ele, as tropas dos palatinados marchavam contra o ducado antes mesmo dele ter entrado com suas tropas em ação.

Esse era o mesmo processo com que os imperadores da antiga Pérsia mantinham a unidade do Império. Como o Império era muito extenso eles abriram vias de comunicação magníficas passando todas por pontos estratégicos.

Nesses pontos eles colocaram fortalezas formidáveis em guarnições imponentes. Eles diziam que era para não irritar as cidades.

Mas de fato era impossível a revolta contra eles, porque os pontos de comunicação estavam ocupados. Qualquer revolta que houvesse eles interceptavam e depois debelavam.

Ao mesmo tempo ele era um homem de muito bom gosto e por causa disso compreendeu que se pode muito bem ser, com espírito, com inteligência, com elegância, ao mesmo tempo príncipe espiritual e temporal.

Não ter a situação isolante de muito bispo de hoje que não governa nenhuma terra a não ser espiritualmente. Começou então a instituir principados eclesiásticos.

A parte do rei da Germânia na nomeação dos bispos era muito grande. Ele podia portanto, com seus descendentes colocar em feudos eclesiásticos bispos fiéis a ele e por esta forma ainda agarrar por outro lado o Império.
Trono de Carlos Magno em Aachen, onde foi coroado Othon I

Portanto, sem extinguir os ducados, criando elementos compensadores que evitassem que os ducados extinguissem a própria realeza.

Era uma tendência para instituir o equilíbrio sem destruir o feudalismo. Uma política muito sábia.

Quando Othon se encontrou no ápice de seu poder, ele quis também pensou na sucessão.

O estratagema foi: quando o rei tinha o herdeiro do trono já maduro, ele o fazia eleger como co-rei, de maneira que ficava assegurada a sucessão e a eletividade passava a ser apenas um símbolo.

No ano 961 seu filho Othon, que veio a ser Othon II, foi eleito também rei da Germânia, sagrado em Aix-la-Chapelle.

Othon I, no ano de 962, foi a Roma. E ali ele se fez coroar imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Então, neste momento, ele cingia três coroas: a coroa de ferro, que era a coroa de rei da Itália, a famosa coroa da Lombardia; a coroa de prata que era a coroa da Alemanha; e a coroa de ouro que era a coroa de imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Este Império abrangia um território muito considerável, o maior território da Europa.


continua no próximo post: Othon I e os problemas no Sacro Império derivados das diversidades étnicas