domingo, 28 de agosto de 2016

Como falava um Papa medieval: Beato Urbano II aos bispos

O Beato Papa Urbano II falando no concílio de Clermont-Ferrand
O Beato Papa Urbano II falando no concílio de Clermont-Ferrand
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Urbano II aos bispos reunidos no concílio de Clermont-Ferrand, França, 1095:

“Meus mais amados irmãos:

“Impulsionado pela necessidade, eu, Urbano, com a permissão de Deus, chefe, bispo e prelado de todo o mundo, vim para estas partes como um embaixador, com uma advertência divina para vocês, servos de Deus.

“Eu esperava encontrá-los tão fiéis e tão zelosos no serviço de Deus quanto eu tinha suposto que fossem.

“Mas, se há em vós quaisquer deformidades ou tortuosidades contrárias as lei de Deus, com a ajuda divina, eu farei o meu melhor para removê-las.

“Porque Deus tem lhes posto como mordomos sobre suas famílias para servi-Lo.

“Feliz de fato você será se Ele o considerar fiel em sua serventia.

“Vocês são chamados pastores, cuidem para não agir como mercenários.

“Sejam verdadeiros pastores, com seus cajados sempre às mãos.

“Não durmam, mas guardem de todos os lados o rebanho confiado a vós.

“Pois se através de seu descuido ou negligência um lobo levar uma de suas ovelhas, você certamente perderá vossa recompensa que está com Deus.

Beato Urbano II
Beato Urbano II
“E depois de ter sido duramente açoitado com remorso por seus erros, você será ferozmente destruído no inferno, a abadia da morte.

“Pois, de acordo com o evangelho, “você é o sal da terra” [Mateus 5:13].

“Mas se você ficar aquém de seu dever, pode-se perguntar como poderá ser salgado.

“Quão grande é a necessidade de salgar! É de fato necessário que você corrija com o sal da sabedoria este povo insensato, que é tão dedicado aos prazeres deste mundo, para que o Senhor, quando desejar falar com eles, não os encontre putrificados por seus pecados, sem sal nem fedorentos.

“Pois se Ele encontrar neles vermes, isto é, pecados, é porque você tem sido negligente em seus deveres.

“Ele irá ordená-los inúteis para seres jogados no abismo das coisas impuras.

“E porque você não pode restaurar a sua grande perda, Ele certamente irá condená-lo e privá-lo de sua amorosa presença.

“Mas o homem que aplicar este sal deve ser prudente, providente, modesto, erudito, pacífico, vigilante, piedoso, justo, equilibrado e puro.

“Pois como pode o ignorante ensinar aos outros? Como pode o desregrado tornar os outros modestos? E como pode o impuro tornar os outros puros?

“Se alguém odeia a paz, como ele pode tornar outros pacíficos? Ou se alguém sujou as mãos com infâmia, como ele pode limpar as impurezas do outro? Lemos também que se o cego guiar o cego, ambos cairão na vala [Mateus: 15:14].

“Assim, primeiro, corrija-se a si mesmo, livrando-se da culpa. Você pode ser capaz de corrigir àqueles que estão sujeitos a você.

“Se você deseja ser amigo de Deus, faça de bom grado as coisas que você sabe que O agradarão.

“Especialmente, você deve deixar todos os assuntos que dizem respeito à Igreja serem controlados pela lei da igreja.

“E tome cuidado para que a simonia não crie raízes entre vós, com receio de que tanto quem compra como quem vende [funções da igreja] seja açoitado com os flagelos do Senhor através de ruas estreitas e levados para o lugar da destruição e confusão.

“Mantenha a igreja e o clero em todo o seu valor, totalmente livre do poder secular.

O beato Papa Urbano II entrando em Toulouse.
O beato Papa Urbano II entrando em Toulouse.
“Verifique se os dízimos que pertencem a Deus são fielmente pagos a partir de todos os produtos da terra.

“Não deixe que sejam vendidos ou retidos.

“Se alguém capturar um bispo, que ele seja tratado como um fora da lei.

“Se alguém sequestrar ou roubar monges ou clérigos, ou freiras, ou seus agentes, ou peregrinos, ou comerciantes, que sejam anátemas [ou seja, malditos].

“Deixe que ladrões e incendiários e todos os seus cúmplices sejam expulsos da igreja e anatematizados.

“Se um homem que não dá uma parte de seus bens como esmola é punido com a condenação do inferno, como deve ser punido quem rouba bens de outro?

“Porque assim ocorreu com o homem rico no evangelho [Lucas 16:19], ele não foi punido porque ele havia roubado os bens de outro, mas porque ele não tinha usado bem as coisas que eram dele”.

(Fonte: Texto de Fulquério de Chartres, ou Fulcher de Chartres (1059 –1127), cronista da Primeira Cruzada que teria presenciado o sermão no Concílio de Clermont. Apud BONGARS. Gesta Dei per Francos, 1, 382 f. In: THATCHER, Oliver J.; MCNEAL, Edgar Holmes. A Source Book for Medieval History. New York: Scribners, 1905. p. 513-17. Disponível em: Medieval Sourcebook. Tradução de Caroline L. M. Pereira)




AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 21 de agosto de 2016

Pacifismo hedonista e materialista contra espírito de Cruzada
Apologia da Cruzada IV

A Igreja nunca professou o pacifismo
Roberto de Mattei
(1948 - )
professor de História,
especializado nas ideias
religiosas e políticas no
pós-Concilio Vaticano II.




continuação do post anterior: A Igreja não pode abandonar as Cruzadas sem se trair



A Igreja nunca professou o pacifismo.

O combate cristão, que é acima de tudo, uma atitude espiritual, mas que inclui a possibilidade da legítima defesa, a guerra justa e até mesmo “a guerra santa”, pertence a mais pura tradição católica.


Quem professa o pacifismo e o ecumenismo até o último ponto esquece que há males mais profundos que os físicos e materiais, e confunde as consequências desastrosas da guerra no plano físico, com suas causas, que são morais e provêm da violação da ordem. Numa palavra, esquecem que o pecado que só pode ser derrotado pela Cruz.

Santa Joana d'Arco
O mundo moderno que está imerso no hedonismo e perdeu a fé julga só ser um mal, e um mal absoluto, os danos físicos, esquecendo que o mal e a dor que acompanham inevitavelmente a vida humana com frequência a elevam.

O espírito das Cruzadas e de Lepanto nos envia uma mensagem de fortaleza cristã que consiste na disposição de sacrificar os bens da terra, em aras de bens maiores, como a justiça, a verdade e o futuro de nossa civilização.

Hoje, o inimigo que ameaça a Igreja e o Ocidente é a atitude mental de quem acredita que acabou o tempo de Lepanto e das Cruzadas.

Esse inimigo contrapõe ao espírito de combate uma visão do mundo segundo a qual nada há de verdadeiro e de absoluto, e que tudo é relativo às épocas, aos lugares e às circunstâncias.

É este o relativismo que foi denunciado por João Paulo II na Encíclica “Veritatis Splendor” e “Evangelium Vitae” quando fala da “confusão entre o bem e o mal, que torna impossível construir e manter a ordem moral dos indivíduos e das comunidades” (SV 93).

A batalha contra o relativismo em defesa das raízes cristãs da sociedade para a qual hoje nos convidam João Paulo II e Bento XVI, é uma batalha em defesa de nossa memória histórica.

Sem memória histórica não há identidade no presente, porque é sobre a memória que se baseia a identidade dos indivíduos e dos povos.

Santo Estevão, rei da Hungria
Mas, as raízes cristãs não pertencem só à memória ou à história: elas estão vivas, porque o Crucifixo que as resume não é somente um símbolo histórico e cultural, mas é uma fonte atual e perene da verdade e da vida, do sofrimento e da luta.

A Igreja tem inimigos ainda que nós tendamos a esquecê-lo porque perdemos a concepção militante da vida cristã, fundada na Cruz, que sempre caracterizou o cristianismo.

A perda desse espírito militante é o resultado do hedonismo e do relativismo em que estão imersos, infelizmente, muitos homens de igreja.

Bento XVI fala freqüentemente de “minorias criativas”, poderíamos acrescentar “militantes”, porque a guerra hoje em curso é moral e cultural.

Nela se enfrentam a nível de princípios duas concepções do mundo.

A história, aliás, é feita pelas minorias, sobre tudo as militantes.

Pode-se militar pelo bem ou pelo mal, em um campo ou outro, mas apenas os militantes deixam sua marca nos eventos históricos.

São Luís rei embarca para a Cruzada
Na homilia de 5 de junho de 2010, em Nicósia, Bento XVI sublinhou também que “um mundo sem a Cruz seria um mundo sem esperança.”

O mesmo pode ser dito de um mundo sem espírito de Cruzada: seria um mundo sem esperança.

Isso significaria a renúncia à luta pela salvação, a renúncia da Cruz e reduzir o mundo a meras ruínas.


FIM

(Autor: Prof. Roberto de Mattei, “Il Foglio”, 08/06/2010, apud Corrispondenza Romana, 08/06/ 2010).




AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 14 de agosto de 2016

A Igreja não pode abandonar as Cruzadas sem se trair
Apologia da Cruzada III

Roberto de Mattei
(1948 - )
professor de História,
especializado nas ideias
religiosas e políticas no
pós-Concilio Vaticano II.







Por que a Igreja não pode abandonar o espírito de Cruzada? Simplesmente porque não pode negar sua história e sua doutrina.

A história das Cruzadas não é um apêndice insignificante na história da Igreja.

Pelo contrário, está intimamente unida à história do Papado.

As Cruzadas não estão ligadas a um único Papa, mas a uma sucessão ininterrupta de pontífices, muitos deles santos, principalmente o Beato Urbano II que promulgou a Primeira Cruzada, São Pio V e o Beato Inocêncio XI, que promoveram “Santas Alianças” contra os turcos em Lepanto, Budapeste e Viena nos séculos XVI e XVII.


Não é desconhecido dos historiadores que, mesmo no século XX, Pio XII estudou a possibilidade de lançar uma “Cruzada” depois da revolta anti-comunista na Hungria em 1956.

Ao testemunho dos Papas, acrescenta-se o testemunho dos santos, começando com Luís IX, o Rei Cruzado por excelência, com Joana D'Arc, também a sua maneira “cruzada” e padroeira da França, “filha primogênita da Igreja”.

Opor a estas figuras o nosso São Francisco mostra, senão má fé, pelo menos um notável desconhecimento da história.

A fonte mais confiável da viagem de Francisco é o testemunho de seu companheiro, o irmão Iluminado, que nos diz que o santo defendeu o trabalho dos cruzados e propôs a conversão ao Sultão.

E quem pode esquecer as legiões de franciscanos que se uniram ao longo dos séculos aos cruzados, liderados por São João de Capistrano (1386-1456), pregador da grande Cruzada do século XV que culminou com a libertação de Belgrado?

Ao lado do nome de São Francisco devemos colocar o de Santa Catarina de Siena, padroeira da Itália e Doutor da Igreja.

Um recente ensaio de Massimo Viglione mostrou que seu espírito era profundamente “cruzado” (“L'idea di crociata in Santa Caterina da Siena” ‒ “A idéia de Cruzada em Santa Catarina Siena”).

A ela poderíamos acrescentar outro Doutor da Igreja de sexo feminino, desta vez uma contemporânea: Santa Teresinha de Lisieux.

Numa página tocante ela se volta para Jesus, e diz querer “percorrer a terra, pregar o teu nome, e cravar em solo infiel Tua gloriosa Cruz”, reunindo numa única vocação as de apóstolo, cruzado e mártir.

“Sinto em mim ‒ escreve ‒ a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de Doutor, de mártir, em suma, eu sinto a necessidade, o desejo de realizar por Vós, Jesus, todas as obras as mais heroicas.

“Eu sinto em minha alma a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício: eu quereria morrer num campo de batalha para defender a Igreja ....”

Em 4 de agosto de 1897, no leito de morte, voltando-se para a Superiora, ela murmurou:

“Oh, não, eu não teria medo de ir à guerra.

“Por exemplo, na época das Cruzadas, com quanta alegria eu teria partido para combater os hereges” (“História de uma Alma”, em “Obras Completas”).



(Fonte: Prof. Roberto de Mattei, “Il Foglio”, 08/06/2010, apud Corrispondenza Romana, 08/06/ 2010).



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 7 de agosto de 2016

As Cruzadas, decorrência necessária dos Evangelhos
Apologia da Cruzada II

Roberto de Mattei
(1948 - )
professor de História,
especializado nas ideias
religiosas e políticas no
pós-Concilio Vaticano II.




continuação do post anterior: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs


A primeira Cruzada foi pregada em decorrência da meditação das palavras de Cristo: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16, 21-27).

Aquela mesma Cruz, em torno da qual se reuniam as pessoas nas catedrais, foi estampada nas vestes dos cruzados e exprimia o ato pelo qual o cristão se mostrava disposto a oferecer sua vida pelo bem sobrenatural do próximo brandindo suas armas.

O espírito das Cruzadas era, e continua a ser, o espírito do cristianismo: o amor ao mistério incompreensível da Cruz.



O professor Jonathan Riley-Smith, decano da renovação dos estudos sobre as Cruzadas, referiu-se àqueles que responderam ao apelo da primeira Cruzada, dizendo que estavam “inflamados pelo ardor da caridade” e pelo amor de Deus. Ele assim traça a motivação profunda daquela iniciativa.

Oferecer a própria vida é certamente a melhor forma de amor, e o ato mais perfeito de caridade, porque nos torna perfeitos imitadores de Jesus segundo aquelas palavras do Evangelho: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus irmãos” (Jo 15, 13).

Só o amor, resumido no sacrifício de Cristo na Cruz é capaz de derrotar a morte, que é o maior sofrimento físico, e o pecado, que é o supremo mal moral.

Esse espírito e esse estado de espírito, abundantemente documentado pelas fontes históricas, não brota como um rio lamacento do inconsciente coletivo do Ocidente, mas do livre arbítrio de indivíduos que nos luminosos séculos medievais responderam a um apelo dirigido à sua consciência.

A resposta a esse apelo pode ser considerada uma “categoria do espírito” que nunca perde validade.

A ideia de Cruzada não é apenas um evento histórico limitado à Idade Média, mas é uma constante do espírito cristão que na história conhece momentos de eclipse, mas que sob diversas formas está destinada a reflorescer.

Expurgar a ideia de Cruzada da “plataforma programática” pessoal significa banir a própria ideia do combate cristão.

O ensinamento de que a vida espiritual é uma luta está especialmente desenvolvido nas cartas de São Paulo. Em muitos lugares delas encontram-se metáforas e imagens tiradas da vida do guerreiro.

O Apóstolo explica como a vida cristã é um bonum certamen (bom combate) que deve ser batalhado “pelo bom soldado de Jesus Cristo” (II Tm. 2, 3).

“Revesti-vos da armadura de Deus ‒ diz ele ‒, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever” (Ef 6, 11ss).

E ainda: “Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus.” (Efésios 6, 14-17).

O espírito da Cruzada e do martírio têm uma origem comum na dimensão profunda da guerra espiritual. O martírio, como o sofrimento, pressupõe o combate.

A própria vida de Jesus Cristo pode ser considerada como uma batalha constante contra o conjunto das forças hostis ao reino de Deus: o pecado, o mundo e o diabo.

Que a vida do cristão seja uma luta é um dos conceitos que com maior freqüência ressoa no Novo Testamento, onde lemos:

“Suporta comigo os trabalhos, como bom soldado de Jesus Cristo. Nenhum soldado pode implicar-se em negócios da vida civil, se quer agradar ao que o alistou. Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras.” (II Tm. 2, 5).

O Evangelho, aliás, em seu genuíno sentido original, é a proclamação de uma vitória militar, neste caso a vitória de Cristo sobre o mal e os poderes das trevas.


(Autor: Prof. Roberto de Mattei, “Il Foglio”, 08/06/2010, apud Corrispondenza Romana, 08/06/ 2010).



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS