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domingo, 16 de novembro de 2014

Reordena o Reino de Jerusalém
São Luís, estadista da Cristandade 8

São Luís na Cruzada
São Luís na Cruzada
continuação do post anterior: As Cruzadas


A rainha Margarida de Provence salvou Damietta com um punhado de cavaleiros e reuniu o imenso resgate de 400.000 bizantinos de ouro, libertando assim o rei, a maioria dos cavaleiros e grande parte do exército prisioneiro.

São Luís trasladou-se a São João d’Acre, onde consultou os barões do Reino sobre permanecer ou não na Terra Santa.

A rainha-mãe Branca de Castela havia informado que o rei da Inglaterra tramava invadir a França e que o reino corria grande perigo.

Segundo Joinville, São Luís explicou:

“Eu não tenho paz nem trégua com o rei da Inglaterra. Mas o povo de Terra Santa quer impedir-me de partir. Eles dizem que se eu for embora, sua terra estará perdida e será destruída e que eles preferem sair comigo. Eu vos rogo pensar nisto e responder-me em oito dias”.

Os nobres, incluídos os dois irmãos do rei e os grandes senhores, julgaram que o estado do exército exigia voltar para a França, a fim de se reorganizarem.

Estátua de São Luis. Fundo: rua medieval de Jaffa.
Estátua de São Luis. Fundo: rua medieval de Jaffa.
O conde de Jaffa, senhor feudal na Terra Santa, defendeu a ideia de ficar, apoiado por Joinville. São Luís decidiu:

“Eu vim para proteger o Reino de Jerusalém e não para perdê-lo. Que os que desejarem ficar comigo falem corajosamente”.

Luís IX autorizou os outros a partir. E ficou quatro anos tentando pôr fim às desavenças entre os príncipes cristãos do diminuído Reino de Jerusalém.

O monarca fortificou os pontos estratégicos e ele próprio carregou pedras para construir castelos. Segundo o historiador Bordonove, São Luís assumiu a missão de um rei de Jerusalém sem ter o título.

Na sua mente, o objetivo de reconquistar a Terra Santa não havia mudado. Ele retornou à França em 1254, quando morreu sua mãe.

Na hora de regressar, quis ser o último a subir no navio. Seu irmão queixou-se pelo atraso. O rei respondeu:

“Conde de Anjou, se eu vos sou pesado, desembaraçai-vos de mim; mas nunca abandonarei meu povo”.

O espírito medieval exigia do grande chefe ser o primeiro a avançar e o último a se retirar.

“Jerusalém!  Nós iremos até Jerusalém!”

Para Luís IX, o fracasso da Cruzada foi um castigo pelos seus pecados, de seus nobres e do povo da França em geral.

O Reino deveria requintar a justiça de sua ordem hierárquica e sacral com piedade e humildade.

A França inteira e ele próprio deveriam se oferecer a Deus. Porém, languidesciam na Europa o heroísmo religioso, a generosidade de alma e a inteira entrega a Nosso Senhor Jesus Cristo.

O rei não encontrou apoios proporcionados e sua saúde fraquejava. Mas, apoiado na promessa divina, zarpou de Aigues-Mortes rumo à África em 2 de julho de 1270.

São Luis mandou construir Aigues Mortes como base e porto para as Cruzadas
São Luis mandou construir Aigues Mortes como base e porto para as Cruzadas
Pisando terra moura, ele “ordenou a seu capelão que lançasse a proclamação de guerra da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Luís, rei de França, seu sargento”, contra a Tunísia, como narra Henri Pourrat.

O verão daquele ano foi abrasador e os poços de água estavam contaminados. O exército foi atingido pelo tifo, inclusive o rei, que havia entregado ao delfim Felipe seu testamento espiritual.

Redigido antes de partir, constituía uma obra sublime de união da Religião e da política, da Fé e da monarquia, de Cristo e da França.

A morte de São Luís
A morte de São Luís
“Meu bom filho, a primeira coisa que eu te ensino é engajar teu coração no amor de Deus. Sustenta os bons costumes do reino e destrói os malvados. Trabalha para que todos os vilões pecadores sejam varridos da Terra e, especialmente, faz tudo que te for possível para abater heresias e blasfêmias”.(9)

Seus mais próximos ouviram-no murmurar com insistência: “Jerusalém! Nós iremos até Jerusalém!” Foi seu último desejo.

Deitado sobre um leito de cinzas em forma de cruz, com as mãos cruzadas sobre o peito e o olhar posto no Céu, entrou no Paraíso e na História no dia 25 de agosto de 1270, aos 56 anos de idade.

Carlos de Anjou, seu irmão, infligiu uma dissuasiva derrota aos sarracenos; o sultão de Túnis aceitou um tratado favorável aos cristãos e a Cruzada encerrou-se.

O corpo do monarca foi trasladado para a Sicília, onde reinava Carlos, e inumado na catedral de Monreale, perto de Palermo.

Seus ossos foram levados para a Catedral de Notre-Dame em Paris, e sua disputa como relíquias foi tão grande, que eles se acham hoje dispersos nos mais variados locais da França.

Continua no próximo post



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domingo, 9 de novembro de 2014

As Cruzadas
São Luís, estadista da Cristandade 7

São Luis embarca para a Cruzada
São Luis embarca para a Cruzada

continuação do post anterior: Árbitro da Cristandade


São Luís tinha certeza de que Deus queria dele a libertação de Jerusalém. E repetia que desejava salvar as almas dos muçulmanos, convertendo-os.

Joinville, contudo, para quem a salvação desses ímpios passava pelo extermínio, espantava-se ouvindo as intenções de tão grande chefe de armas.

Em 1240, para se livrar das potências marítimas italianas cuja politicagem prejudicara as Cruzadas anteriores, São Luís IX ordenou a construção de uma imensa fortaleza e um porto no Mediterrâneo.

Abriu-se uma estrada entre os pântanos, canalizaram-se fios de água, erigiram-se muralhas e torres de defesa e armazenamento.

A população local, que até então morava em palafitas, sentiu-se protegida com o surgimento da cidade de Aigues-Mortes, verdadeira maravilha arquitetônica a partir da qual o santo monarca embarcou para as Cruzadas — tanto para a sétima, em 25 de agosto de 1248, que durou seis anos, quanto para a oitava, em 1270.

Na VII Cruzada o rei desembarcou diante de Damietta, fortaleza que controlava o acesso ao Cairo, sede do Sultão, chefe máximo dos islamitas no Egito.

São Luís desenhou o plano de ataque. Os cavaleiros mais experimentados desceriam primeiro e estabeleceriam uma cabeça de ponte para repelir os contra-ataques mouros. O grosso do exército desembarcaria depois.

Porém, muitas naves não compareceram no dia combinado, desviadas pelos ventos. O Santo ordenou o ataque antes de os muçulmanos concentrarem mais tropas.

A frota real e a dos grandes senhores impressionavam pelo seu esplendor. Assim que a ponta de lança da cavalaria atingiu a terra, foi assediada por grande número de mouros, velozes e hábeis.

A confusão na praia foi geral. São Luís então pulou na água — como descreve Joinville —, todo armado, magnífico, com capacete luzidio e armadura de ouro; e pisou em terra junto com seus homens mais fiéis.

O pânico tomou conta dos islâmicos, que abandonaram a imponente fortaleza. O santo temeu uma emboscada e enviou observadores ao castelo que confirmaram a deserção geral.

São Luís ataca Damietta
São Luís ataca Damietta
Em Damietta, São Luís aguardou a parte do exército que faltava, enviou patrulhas de reconhecimento e pagou informantes para obter dados sobre a estrada até o Cairo e o estado de ânimo dos adversários. Cairo era mais populosa que qualquer cidade da Europa.

O único obstáculo no caminho era a fortaleza da Mansurah. Para atacá-la, era preciso atravessar um braço do rio Nilo que não tinha pontes. Um beduíno denunciou um passo, que a cavalaria atravessou, sendo que metade dos cavalos ia nadando e a metade deles tocava no fundo.

A ordem real era de fincarem pé enquanto o resto do exército cruzava o rio. Os muçulmanos hostilizavam a cavalaria, e fugiam quando esta reagia. O conde de Artois, irmão do rei, perdeu a paciência e foi atrás dos seguidores de Alá, que entraram na fortaleza deixando as portas abertas.

Quando o conde penetrou com os seus, as portas se fecharam: era uma arapuca. A ponta de lança da milícia real, composta de nobres e cavaleiros das Ordens Militares, foi massacrada por desobediência a São Luís.

O rei, que estava doente e comandava na retaguarda, percebeu a magnitude do desastre. Após diversos embates, os cruzados foram desarticulados e o santo caiu prisioneiro.

São Luís prisioneiro no Egito
São Luís prisioneiro no Egito
Os muçulmanos exigiram um alto resgate e a entrega da cidade de Damietta em troca da liberdade do monarca.

Enquanto a rainha Margarida providenciava esse dinheiro em Damietta, São Luís permaneceu numa prisão onde ocorreram fatos singulares.

O sultão Almoadam ficara ébrio de orgulho com a vitória, mas os mamelucos, que constituíam sua guarda pessoal, resolveram assassiná-lo no final do banquete da vitória.

Almoadam foi ferido, fugiu até o alto de uma torre, de onde caiu oferecendo em prantos o seu próprio trono em troca da vida. Octai, chefe dos mamelucos e os seus, traspassaram-no com inúmeros golpes.

Logo a seguir, Octai foi até a tenda de São Luís com a mão ensanguentada, dizendo:

“Almoadam já não existe. Que me darás por ter-te libertado de um inimigo que premeditava a tua ruína e a nossa?”

São Luís nada respondeu. O infiel apontou-lhe a espada, e exclamou irado:

“Não sabes que eu sou senhor de tua pessoa? Faze-me cavaleiro, ou serás morto!” São Luís respondeu: “Faze-te cristão, e te farei cavaleiro”. Octai abaixou a espada e retirou-se sem lhe fazer mal.(8)

Continua no próximo post



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domingo, 2 de novembro de 2014

Árbitro da Cristandade
São Luís, estadista da Cristandade 6

São Luís estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.  Fundo: rosácea de Notre Dame.
São Luís estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.
Fundo: rosácea de Notre Dame.
continuação do post anterior: “Ressurreição” e Cruzada

A partir 1241 pioraram as notícias provenientes da Europa Oriental e da Terra Santa. A invasão dos mongóis atingiu a Polônia, a Hungria e a Romênia, após devastar a Rússia e a Ucrânia.

O chefe mongol Subedei mirava o coração da Europa, mas após esmagar o rei da Hungria em Mohi, voltou às pressas para a Ásia por razões não esclarecidas.

A corajosa rainha Branca ficou muito temerosa, mas São Luís parecia ser o único a intuir que a invasão não prosperaria.
“Quando viu a Europa ameaçada pelos tártaros — conta Pourrat —, São Luís disse: ‘Tende coragem minha mãe; ou nós os colocamos nas portas do inferno ou eles nos abrirão as portas do Céu’”.

O santo foi arguto estrategista e homem de fé: ou ele os venceria e eles iriam para o inferno enquanto pagãos horrivelmente criminosos, ou ele morreria e iria para o Céu. Nada se perderia lutando contra eles.

Uma das situações mais tempestuosas para arbitrar se deu na Bretanha, um ducado enfeudado à França mas quase independente dos pontos de vista de governo, cultural, étnico e linguístico.

Lá, Pierre de Dreux, parente de São Luís, tornou-se Duque. Audaz chefe de guerra, mas turbulento senhor feudal, Pierre ganhou o apelido de “Mauclerc” (mau clérigo) por suas exações à Igreja.

Seus atritos com os bispos bretões lhe valeram diversas excomunhões. Os Papas pouco conseguiram junto a este homem que dividiu a nobreza com conflitos de toda ordem.

Após inúmeras desordens, São Luís entrou militarmente na Bretanha e o despojou do ducado por felonia. “Mauclerc” insurgiu-se, mas o exército real, apoiado por boa parte da nobreza bretã, extinguiu a revolta.

Pierre de Dreux se submeteu ao jovem rei em Paris, em 1234. São Luís não o humilhou, mas dispôs que a Bretanha ficaria na posse do filho dele, João, o qual, por sua vez, juraria vassalagem ao rei da França juntamente com os nobres rebeldes.

O santo monarca concedeu a Pierre de Dreux o pequeno feudo de Braine. Assim, “Mauclerc” tornou-se “Braine” e acompanhou o rei na Cruzada ao Egito, onde foi gravemente ferido e morreu ao voltar, recebendo digna sepultura na necrópole familiar de Dreux.

Árbitro entre Papas e Imperador

São Luis em encontro com o Papa Inocêncio IV, em Lyon, 1248.
Louis-Jean-Francois Lagrenee (1724 – 1805)
Muito mais complicada era a secular luta entre o máximo poder temporal da Cristandade — o Imperador do Sacro Império — e o supremo poder espiritual, e indiretamente temporal, dos Papas.

O Imperador Frederico II Hohenstaufen investiu contra os pontífices Gregório IX e Inocêncio IV, tendo sido excomungado duas vezes. Gregório IX qualificou-o de “Anticristo”.

Inocêncio IV, um ano apenas após sua eleição, fugiu da Itália perseguido por ele. Nobres partidários de um e de outro estavam em situação de guerra civil e religiosa na Alemanha e na Itália.

Nesse confronto, o rei santo, que já era o mais respeitado dos príncipes cristãos, poderia ter feito prevalecer sua influência sobre o Papa e o Imperador.

Porém, ele se recusou a tal, pois queria reconciliá-los respeitando suas superioridades. A França estava prosperando tanto, que podia arcar sozinha arcar com o ônus da Cruzada.

Mas Luís queria uni-los nesta santa empresa. Gregório IX ofereceu a coroa imperial ao conde Roberto de Artois, irmão de São Luís. Contudo, o rei não aceitou, pois podia parecer usurpação e falta de respeito ao Imperador.

Em 3 de maio de 1241, arcebispos franceses que iam a um Concílio convocado por Gregório IX foram presos por Frederico II. São Luís IX pediu-lhe explicações, ao que ele respondeu secamente:

“Que vossa majestade real não se espante quando César prende no aperto e na angústia aqueles que vieram para criar angústia a César”.

São Luís IX retrucou com tanta habilidade que os arcebispos foram libertados.

Banido da Itália, Inocêncio IV instalou-se em Lyon e marcou para 1245 um Concílio que julgaria o Imperador. Este reuniu um exército em Turim, visando impedir a assembleia.

São Luís IX lhe fez saber, com tato e força: “Não toqueis no Soberano Pontífice, para não incorrerdes na cólera de Deus”.

São Luís mediador num litígio entre o rei da Inglaterra e seus barões. Georges Rouget (1783-1869), Versailles
São Luís mediador num litígio entre o rei da Inglaterra e seus barões.
Georges Rouget (1783-1869), Versailles
O Imperador entendeu: enviou ao Concílio um jurista para defendê-lo, comunicou que iria à Cruzada contra os mongóis e os sarracenos, e que indenizaria a Santa Sé.

Mas não cumpriu o prometido, voltando aos abusos. Foi então excomungado. Abandonado por boa parte de seus adeptos, pediu a intercessão de Luís IX. Este marcou um encontro sigiloso com Inocêncio IV na abadia de Cluny.

São Luís implorou ao Papa que aceitasse a proposta do imperador em troca da obrigação de ir para a Cruzada. O litígio só acabou com a morte do imperador.

No fim do caso, São Luís ficou consolidado como árbitro da Cristandade, nele confiando Papas, imperadores, episcopados e nobreza, além de corporações de ofício, de estudantes e cidades livres.(*)

Continua no próximo post



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domingo, 26 de outubro de 2014

“Ressurreição” e Cruzada
São Luís, estadista da Cristandade 5

São Luís acorda e anuncia a decisão de partir na Cruzada
São Luís acorda e anuncia a decisão de partir na Cruzada
continuação do post anterior: A Coroa de Espinhos e a Sainte-Chapelle

São Luís regressou de Taillebourg padecendo uma disenteria que se agravou rapidamente. Esta havia sido a causa da morte de seu pai, Luís VIII.

A rainha-mãe, Branca de Castela, pediu ao abade de Saint-Denis — abadia onde repousam os restos dos reis da França — para expor à veneração pública o corpo do glorioso São Dionísio, protetor do reino, bem como as relíquias de São Eleutério e São Rústico, seus companheiros de martírio. São Luís já tinha feito seu testamento, e murmurava em voz baixa:

— “Olhai para mim. Eu era o homem mais rico e mais nobre do mundo, o mais poderoso de todos pelos tesouros, pelo meu poder e pelos meus amigos, e eis que não posso obter da morte sequer uma trégua, nem uma hora à doença. De que valeu tudo isso?”

Quando ele perdeu o conhecimento, os médicos anunciaram seu fim iminente. O Palácio Real encheu-se de lamentações, suspiros e prantos. O clero recebeu ordem de preparar as exéquias.

Em certo momento, acreditou-se que o santo-herói tinha morrido. Joinville conta:

“Ele chegou a tal ponto, que uma das damas em volta quis puxar o pano por cima do rosto, dizendo que estava morto. Outra não quis. E enquanto discutiam, Nosso Senhor agiu nele e lhe devolveu a saúde.

“Tão logo pôde falar, pediu que lhe impusessem a Cruz, e assim foi feito. Então, ao ouvir dizer que ele falara, a rainha-mãe manifestou o maior júbilo que podia.

“Mas quando soube que o filho se tinha cruzado [decidido ir para a Cruzada], como ele mesmo dizia, ela ficou num estado de luto como se o tivesse visto morto”.

Vitral da catedral Notre Dame representando a São Luís
Vitral da catedral Notre Dame
representando a São Luís
São Luís IX explicou que Nosso Senhor o havia tirado dentre os mortos para que adotasse a Cruz, montasse um exército e reconquistasse Jerusalém, que gemia desde 1187 sob a tirania muçulmana.

As rainhas Branca e Margarida, os conselheiros reais e as altas autoridades eclesiásticas tentaram de tudo para dissuadi-lo. Mas em vão.

Ele tinha certeza de que fora salvo das fauces da morte para cumprir essa missão, e não por uma simples misericórdia de Deus. Do antigo reino de Jerusalém só ficava São João d’Acre e mais alguns portos periclitantes.

O espírito sobrenatural da Cruzada estava morto. São Luís IX o ressuscitaria com o fervor dos tempos de Godofredo de Bouillon e seus companheiros de expedição.

Reformador sábio e prudente

Prevendo uma ausência longa ou definitiva, Luís IX quis, antes de se lançar na Cruzada, apalpar o estado do reino, dar proteção aos mais fracos e conciliar os poderosos.

Em 1247, inspetores percorreram o reino como outrora os missi dominici de Carlos Magno. Dominicanos e franciscanos, Ordens que viviam um momento de fervor e seriedade, iam em duplas anotando as queixas dos pobres nos campos e nas cidades, sem tomarem contato com os bailios (governadores de província, ao mesmo tempo juízes, chefes militares e coletores de impostos).

O inquérito permitiu a São Luís modificar o Conselho Real, trocar três-quartos dos bailios e definir os limites precisos de seus poderes.

Também moderou os poderes judiciários da alta nobreza, fazendo com que todo o reino pudesse apelar ao rei como juiz supremo.

O escudo de ouro de São Luís
O escudo de ouro de São Luís
São Luís também estabeleceu regulamentos relativos aos costumes das corporações de ofício — os “sindicatos” da época — concedendo-lhes autonomia e estabilidade.

Reorganizou a Prefeitura de Paris e criou uma moeda: o escudo de ouro e o grand denier de prata para facilitar o comércio, pôr fim às fraudes e moralizar a atividade econômica.

Um governante hodierno que mexesse tanto nos costumes do país seria antipatizado, mas o carisma real e a luz da santidade do monarca brilharam nessas reformas e ele foi abençoado pelo povo.

O escudo de ouro foi a primeira moeda, no sentido moderno, emitida por um rei. Nela estava cunhado o escudo — de onde o nome — com o brasão fleurdelisé do santo rei.

O escudo de São Luís foi padrão até a Idade Moderna, sendo reeditado pelos seus sucessores e imitado por bispos, príncipes e senhores que emitiam moeda, e até mesmo pelos Papas, porque era digno de fé e isento de fraude.

A moeda foi conservada por muitos como uma medalha religiosa! Assim, houve um plebiscito mudo aprovando a confiança dos franceses em seu rei.

Continua no próximo post: Árbritro da Cristandade



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 19 de outubro de 2014

A Coroa de Espinhos e a Sainte-Chapelle
São Luís, estadista da Cristandade 4

São Luis: estátua da capela inferior da Sainte Chapelle. Fundo: capela superior. Coroa de Espinhos no relicário atual.
São Luis: estátua da capela inferior da Sainte Chapelle.
Fundo: capela superior. Coroa de Espinhos no relicário atual.
continuação do post anterior: O banquete de Saumur

Enquanto punha ordem na França e preparava a Cruzada, São Luís executou um projeto que marca a França até hoje.

Em 1239, o Império de Bizâncio consignou a Coroa de Espinhos a banqueiros venezianos como penhor de uma dívida de 135.000 libras tournois.(5)

A quantia equivalia à metade das entradas do reino francês em um ano! Porém, se comparada com os orçamentos multibilionários dos governos atuais, parece exígua: aproximadamente R$ 84.620.700,00.

São Luís assumiu a dívida, com a condição de a relíquia ficar sob a guarda da casa real francesa, em uma negociação que poderia ser comparada a empréstimos atuais envolvendo o FMI e bancos multinacionais.

Assinados os acordos e apurada a autenticidade da relíquia, ela foi levada à França por religiosos dominicanos.

No dia 10 de agosto de 1239, o santo monarca, seu irmão o príncipe Roberto I de Artois e o Arcebispo de Sens receberam a Santa Coroa, conferiram seus registros de autenticidade e entraram em cortejo na cidade de Villeneuve-l'Archevêque, na França.