domingo, 29 de maio de 2016

Santo Odon e as origens do mosteiro de Cluny

Devoção de um monge cluniacense a Nossa Senhora. Segundo alguns seria o próprio Santo Odon. Bibliothèque National de France, MSS. ms.latin 17716, fol 23
Devoção de um monge cluniacense a Nossa Senhora.
Segundo alguns seria o próprio Santo Odon.
Bibliothèque National de France, MSS. ms.latin 17716, fol 23
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



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Antes de prosseguirmos no estudo das causas do grande sucesso de Cluny, convém recordarmos rapidamente o histórico de sua fundação.

A legislação monástica promulgada para todo o Império por Carlos Magno e Luís o Piedoso exigia que todos os mosteiros adotassem a regra de São Bento. Assim sendo, a partir do século IX houve só mosteiros beneditinos no Ocidente.

Mas, de acordo com a regra de São Bento, esses mosteiros eram autônomos, sem nenhuma vinculação jurídica entre si.

Não houve propriamente uma Ordem religiosa. Percebendo os perigos dessa extrema descentralização, São Bento de Aniane, o conselheiro monástico de Carlos Magno e de Luís o Piedoso, tentou dar uma direção única às abadias do Império, mas sua obra não sobreviveu à sua morte.

Ora, as lutas entre os descendentes de Carlos Magno, tendo enfraquecido o Império, permitiram que novas invasões bárbaras – normandos, eslavos, etc. – penetrassem a fundo no Ocidente.

Essas invasões levaram a desordem e a destruição por onde passaram, e todas as grandes instituições carolíngias sofreram as consequências disso.

De todas elas, foi talvez o monaquismo a mais atingida. Os mosteiros, desamparados, foram pilhados, outros viram se obrigados a permitir, em troca de uma proteção, a ingerência desmedida dos senhores temporais em seus assuntos internos, e todos caíram num relaxamento que conduziu à inobservância da Regra e à consequente dissolução dos costumes.

No início do século X esboçou-se uma reação contra esse estado de coisas. Alguns monges santos, como São Geraldo de Brogne na Lorena, tentaram reerguer suas abadias, levando as novamente à fiel observância da Regra.

E para que mais amplamente se estendesse a sua ação, costumavam reunir sob um abaciato único os mosteiros que, desejando reformar se, se entregavam à sua direção.

O Bem-aventurado Bernon foi um desses monges precursores da grande reforma monástica. Sobrinho do Rei da França, Luís o Gago, ele entrara no mosteiro de São Martinho de Autun.

Depois de ali permanecer por algum tempo, percebeu que, por maiores que fossem os esforços de seu abade para a reforma, eles se perdiam devido à intromissão de outras autoridades na vida interna do mosteiro.

Bernon resolveu então fundar um mosteiro numa das propriedades de sua família. Foi assim que nasceu o mosteiro de Gigny.

Guillerme I o Piedoso faz a doação das terras de Cluny.
Guillerme I o Piedoso faz a doação das terras de Cluny.
Os bons resultados obtidos em Gigny foram logo conhecidos nos arredores. O Rei da Borgonha, Rodolfo I, apreciando o trabalho de Bernon, entregou-lhe o mosteiro de Baume para ser reformado. E com base nesses dois mosteiros o Bem-aventurado pôde realizar a obra que projetara.

Nessa época, Santo Odon, que seria o primeiro dos quatro grandes abades santos de Cluny, era um jovem conselheiro que servia na corte do Conde Foulques de Anjou, vassalo do Duque de Aquitânia, Guilherme o Piedoso. Era filho único de uma nobre e rica família do Maine.

Seu pai, Abon, o tinha doado a São Martinho de Tours logo após seu nascimento, mas o fizera às escondidas de sua mulher e de sua família, nada contando a ninguém.

Vendo o menino crescer muito bem dotado, arrependeu se da doação que fizera. Mantendo o segredo, encaminhou o para o serviço do Conde de Anjou.

Santo Odon distinguiu se nessa corte e prometia ser um grande cavaleiro. Percebeu, no entanto, que não era essa a vida que Deus desejava que ele levasse. Recorreu a Nossa Senhora, pedindo que o esclarecesse e fizesse ver quais eram os desígnios de Deus sobre ele.

Foi logo acometido por uma violenta dor de cabeça, que o impedia de se desincumbir direito de suas obrigações. Durante três anos essa dor de cabeça não o abandonou.

A princípio tentou continuar na corte, cumprindo rigorosamente os seus deveres, mas logo teve de reconhecer que não poderia ali se manter.

Voltou para a casa paterna, onde Abon usou de todos os recursos possíveis para curá lo. Tudo foi inútil.

O pai teve de se render à evidência: São Martinho de Tours cobrava a doação que ele fizera. Abon contou tudo a Odon.

“Não tinha outra saída — dizia o Santo quando contava a sua vida aos Monges — senão refugiar me junto de São Martinho, receber a tonsura, e de bom grado votar me ao seu serviço, pois a ele fora doado sem o meu consentimento”.

Santo Odon aos pés de Nossa Senhora, detalhe da iluminura acima.
Santo Odon aos pés de Nossa Senhora, detalhe da iluminura acima.
A dor de cabeça cessou imediatamente. Santo Odon foi para o cabido da Igreja de São Martinho do Tours.

Durante a sua permanência entre os cônegos, leu a Regra de São Bento e ficou encantado com a vida monástica, mas não via em nenhum mosteiro que conhecia a observância dessa Regra que tanto o atraía.

Por outro lado, os cônegos de São Martinho de Tours viviam também em desordem, e não suportavam a presença de Odon, pois a vida virtuosa que este levava os incomodava.

O Santo retirou se para uma casa próxima da igreja, e ali dividia o seu tempo entre o cumprimento de suas obrigações de cônego e a vida de eremita.

Um de seus amigos na corte do Conde de Anjou desejava entrar no estado religioso, e foi procurá-lo em Tours. Depois de viverem juntos durante algum tempo, saíram os dois em peregrinação, procurando um mosteiro verdadeiramente observante da Regra.

Viajaram muito tempo e não o encontraram. Santo Odon voltou para Tours, e seu companheiro Santo Adgrim dirigiu se a Roma, a fim de pedir aos Apóstolos São Pedro e São Paulo as luzes necessárias para seguir a sua vocação.

A caminho de Roma, passou pela abadia de Baume, e não pôde conter a sua surpresa encontrando um mosteiro observante. Avisou Santo Odon, que lhe foi ao encontro, e ambos pediram ao Bem aventurado Bernon que os recebesse entre os seus monges.

Foram logo aceitos, e iniciaram em Baume a vida monástica que tanto desejavam. Santo Adgrim não chegou a fazer a profissão monástica.

Retirou se para uma caverna próxima do mosteiro e foi eremita até o fim de sua vida, morando sempre em lugares próximos dos mosteiros onde estava Santo Odon.

Este permaneceu algum tempo em Baume e depois em Gigny, apesar de violenta oposição que lhe movia o Monge Guy, sobrinho do Bem aventurado Bernon.

O Duque Guilherme da Aquitânia teve conhecimento da vida regular que havia em Baume e em Gigny.

Havia muito tempo ele desejava fundar um mosteiro em suas terras, para reparar um crime que cometera na mocidade. Mandou chamar Bernon. Ambos se encontraram num local conhecido por Cluny, onde Guilherme treinava os seus cães de caça.

Depois de expor os seus projetos, o Duque perguntou ao Abade se aceitava fundar esse mosteiro. Diante da resposta afirmativa, pediu lhe que escolhesse, ele mesmo, as terras que desejava em seus imensos domínios.

— Escolho estas — respondeu o Abade.

— Mas estas não posso dar, pois nelas tenho o melhor tempo de treinamento de meus cães de caça.

— Senhor Duque, bem sabeis que as preces dos monges vos servirão mais, diante de Deus, do que os latidos dos cães. Expulsai os cães e recebei os monges.

E o Duque nada teve para responder.

Em 910, na cidade de Bourges, Guilherme o Piedoso entregou solenemente ao Bem aventurado Bernon as terras de Cluny, na presença da Duquesa e de toda sua família.

Santo Odon, abade de Cluny.
Santo Odon, abade de Cluny.
Assistiram ao ato vários senhores feudais, muitos bispos e clérigos, e vários monges, entre os quais Santo Odon.

Num documento assinado por todos os presentes, o Duque da Aquitânia isentou Cluny de qualquer ingerência sua, dando aos Apóstolos São Pedro e São Paulo as terras e o mosteiro que ali se construiria, e cobrindo de anátemas todos aqueles que, seus parentes ou não, no presente ou no futuro tentassem delas se apoderar ou interviessem, sob qualquer pretexto, na vida interna do mosteiro.

O Papa, como Sucessor dos Apóstolos, deveria zelar pelo mosteiro, a ele incumbindo a defesa desse patrimônio entregue à guarda do Bem aventurado Bernon e da Santa Sé.

O próprio Duque da Aquitânia foi a Roma para obter a ratificação do documento e pagar as primeiras doze peças de ouro para manutenção da luminária da Igreja dos Apóstolos, como Cluny deveria fazer todos os anos, de acordo com o direito feudal.

Santo Odon foi para Cluny com outros monges de Baume e Gigny. Ao que parece, o que levou o Bem aventurado Bernon a enviá-lo para o novo mosteiro foi a hostilidade de Guy.

Ao morrer, em 926, Bernon deixou a este último, por testamento, alguns dos mosteiros que dirigia, entre eles Baume e Gigny, e outros a Santo Odon, entre os quais Cluny. Como Cluny era o mais pobre dos mosteiros e estava ainda em construção, o Bem aventurado Bernon tirou de Gigny o domínio de Alafracta e o entregou a Santo Odon, para com ele manter Cluny.

Guy impugnou a doação, e à força se apoderou de Alafracta. Santo Odon recorreu à Santa Sé e o Papa lhe deu ganho de causa enquanto os monges de Gigny vivessem no mosteiro de Cluny.

Santo Odon pôde então entregar se livremente à formação de seus monges e empreender a reforma monástica que estes realizariam com tanto brilho na França, na Itália e até na Espanha.

Os cluniacenses o consideravam o seu verdadeiro fundador, e foi realmente ele que introduziu no mosteiro esse espírito, essa alma que modelou a Idade Média.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




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domingo, 22 de maio de 2016

Elogio de São Gregório VII aos religiosos de Cluny

São Gregório VII. Busto em ouro e prata na catedral de Salerno.
São Gregório VII. Busto em ouro e prata na catedral de Salerno.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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D. Kassius Hallinger, autor da monumental história da reforma monástica na Alta Idade Média (Gorze–Kluny), tentou uma resposta num artigo importante publicado na “Deutsche Archiv fur Erforschung des Mittelalters”, resumido e publicado em inglês com o título “The spiritual life of Cluny in the early days”, na coleção de memórias sobre Cluny selecionadas por Noreen Hunt e reunidas no livro “Cluniac Monasticism In the Central Middle Age” (Mac Millan, 1970).

Antes de dar sua própria opinião, D. Kassius Hallinger classifica em cinco grandes grupos as várias explicações propostas.

São elas: o espírito litúrgico da Abadia, a abertura para o mundo, a fuga do mundo, a organização feudal de Cluny, e as raízes monásticas especiais que caracterizavam o mosteiro.

Pela simples enumeração se vê a oposição flagrante que há, por exemplo, entre a segunda e a terceira posições, ambas defendidas por grandes historiadores. O fato é que nenhuma delas satisfaz.

Essa divergência de opiniões é uma das maiores dificuldades para o bom conhecimento de Cluny, gerando mesmo confusões lamentáveis.

Nesse mesmo artigo de D. Kassius Hallinger há uma amostra curiosa dessa confusão. Gorze é o mosteiro mais característico da reforma monástica iniciada na Lorena ao mesmo tempo que a de Cluny.

Weigle viu no livro “Gorze Kluny” uma certa oposição entre esses dois movimentos de reforma. Ora, D. Kassius afirma num artigo que os valores monásticos de Cluny “não só moldaram um grande número de monges dos séculos X e XI, como também estenderam a sua influência além dos mosteiros e se fizeram sentir no próprio mundo secular de sua época”.

Janela nas ruínas de Cluny
Janela nas ruínas de Cluny
Em uma nota, refuta F. Weigle: “O êxito do movimento de reforma de que Cluny teve a liderança só pode ser explicado pelos valores monásticos de Cluny. Esse fato foi mencionado várias vezes em “Gorze Kluny”.

A despeito de tais afirmações, F. Weigle pôde falar de uma descrição contrastada com Gorze (“Deutsche Archiv”, 9, 585); ele não entendeu absolutamente o ponto principal do livro”.

Por tudo isso procuraremos, nesta série de artigos sobre Cluny, pôr um pouco de ordem em todas essas questões.

De antemão pedimos desculpas aos nossos leitores pelo grande número de citações que seremos obrigados a fazer.

É que Cluny foi tão grande, que sua história frequentemente parece inacreditável, se não é corroborada pela autoridade de especialistas, por vezes nem sequer católicos, mas que não deixam de se empolgar pelos feitos de seus monges.

Antes de terminar essa introdução, queremos reproduzir o maior dos elogios que Cluny recebeu em toda a sua história.

É de São Gregório VII, ao abrir a 7 de março de 1080 o Concílio Romano que realizava anualmente.

É bom notar que esse elogio foi pronunciado dois anos depois de o Imperador Henrique IV ter ido a Canossa pedir perdão ao Papa, episódio em que muitos procuram ver uma oposição séria entre o grande Papa e São Hugo, então Abade de Cluny:

“Sabei, meus irmãos no sacerdócio, todos que vos reunis nesta Santa Assembleia, que entre todos os nobres mosteiros fundados além dos montes para a glória de Deus onipotente e dos Bem aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, existe um que é propriedade particular de São Pedro, unido à Igreja de Roma por um pacto especial.

“Esse mosteiro é Cluny. Votado, desde a fundação, principalmente à honra e defesa da Sé Apostólica, pela graça e clemência divina e sob a direção de santos abades, chegou a uma tal grandeza e a uma tal santidade, que ultrapassa todos os mosteiros de além dos montes no serviço de Deus e no fervor espiritual.

“Nenhum outro o iguala, tanto quanto se possa julgar, embora haja um grande número de mosteiros mais antigos do que ele.

“Não houve em Cluny um só abade que não fosse santo. Monges a abades nunca faltaram a esta Santa Igreja, Mãe de todos eles.

Não dobraram o joelho diante de Baal nem diante dos ídolos de Jeroboão.

“Tomando por modelo a liberdade e a dignidade da Santa Sé de Roma, nobremente conservaram a autoridade conquistada por seus antepassados, e nunca se curvaram sob o domínio dos príncipes deste mundo, continuando a ser os defensores corajosos e submissos unicamente de São Pedro e de sua Igreja” (apud D. Usmer Berlière, “l’Ordre Monastique”, p. 219).

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”)






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domingo, 15 de maio de 2016

Elogios dos religiosos de Cluny

Ideal de Cluny: monges contemplativos em luta contra o reinado de Satanás.
Ideal de Cluny: monges contemplativos em luta contra o reinado de Satanás.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Se a totalidade dos historiadores está de acordo sobre a importância de Cluny na formação da Idade Média, o mesmo não acontece quando estudam a causa ou as causas do que poderíamos chamar o fenômeno cluniacense.

Os monges de Cluny consagravam a vida à glorificação de Deus. Viviam retirados do mundo, reclusos em seus mosteiros, cumprindo rigorosamente um Ordo minuciosíssimo, que deles exigia cinco horas diárias dedicadas ao Ofício Divino.

Eram contemplativos cuja principal obrigação era louvar a Deus perenemente. E seus mosteiros atingiram alto grau de santidade, louvado pelos próprios medievais, tão exigentes nessa matéria.

O cronista Raoul Glabre, aliás ele mesmo cluniacense, proclama: “Saibam todos que esse convento não é igualado por nenhum outro no mundo romano, principalmente para libertar as almas que caíram sob o senhorio do demônio” (apud G. Duby, “Adolescence de la Chrétienté Occidentale”, p. 135).

E Jacques de Voragine, corroborando Raoul Glabre, conta a célebre visão do Abade São Hugo, a quem na véspera do Natal a Ssma. Virgem apareceu, com seu Filho nos braços, dizendo:

“Eis que virá o dia em que vão ser renovados os oráculos dos profetas. Onde está o inimigo que até agora prevalecia contra os homens?”.

Ao ouvir estas palavras, relativas aos monges de Cluny, o demônio saiu do fundo da terra para desmentir a afirmação de Nossa Senhora, mas sua iniquidade nada conseguiu, porque de nada lhe adiantou percorrer todo o mosteiro: nenhum monge se deixou enganar, nenhum se desviou dos seus deveres na capela, no refeitório, no dormitório ou na sala do capítulo”.

Jacques de Voragine completa a visão citando a versão do monge Pedro de Cluny, segundo a qual o Menino teria perguntado à sua Mãe: “Onde está agora o poder do demônio?”.

Ao que o maligno teria respondido: “Não pude, com efeito, penetrar na capela, onde se cantam os teus louvores, mas o capítulo, o dormitório, o refeitório estão abertos!”.

“Ora, eis que a porta do capítulo era demasiado estreita para ele entrar, a do dormitório demasiado baixa, a do refeitório obstruída por inúmeros obstáculos — tais eram a caridade dos monges, a atenção à leitura diária e a sobriedade no comer e no beber” (Jacques de Voragine, “La Legende Dorée”, Garnier Flammarion, Paris, vol. I, p. 59).

Completaremos esses elogios com mais um documento medieval, citado por H.E.J. Cowdrey:

“Cluny era a fonte a que todo o mundo praticamente recorria, como a um santuário da Religião, para o revigoramento espiritual de suas obras.

Nossa Senhora libera o cônego Teófilo que vendeu sua alma ao diabo.
Nossa Senhora libera o cônego Teófilo que vendeu sua alma ao diabo.
Notre Dame de Paris, pórtico lateral.
“Os cluniacenses sustentaram um combate espiritual constante para subjugarem a carne ao espírito; na verdade, como diz o Apóstolo, para viverem como Cristo e para morrerem a fim de vencerem.

“Mas vários deles foram chamados, e mesmo obrigados a contribuir para a construção, quer como Papas ou cardeais, quer como bispos, abades ou pastores.

“Quando o bálsamo de suas virtudes espirituais se difundiu amplamente, toda a terra, como se fosse uma só casa, ficou impregnada de seu perfume, e o fervor da religião monástica, que pouco a pouco aumentara, se inflamou com o zelo exemplar desses homens” (“Vita Sancti Morandi Confessoris”, apud H.E.J. Cowdrey, “The Cluniacs and the Gregorian Reform”, Oxford, 1970, p. 163).

Mas os cluniacenses influíram efetivamente em toda a vida medieval.

Ora, como é que, vivendo entregues completamente à oração, esses mesmos homens, quando saíam do mosteiro, resolviam rápida e brilhantemente as questões mais delicadas, influíam poderosamente em toda a vida temporal, cobriam o mundo de obras de arte incomparáveis.

E, como se nada tivessem feito, voltavam depois para suas celas e nelas retomavam a contemplação sem a menor dificuldade, conservando se sempre prontos a voltar a atividades prodigiosas, com a mesma paz de alma que mantinham no mosteiro?

Como e quando se preparavam eles para essa atuação?

A essa pergunta nenhuma resposta satisfatória foi dada até hoje pelos historiadores. Nenhum deles consegue atinar com o segredo que animava esses monges tão ativos e ao mesmo tempo tão contemplativos, sempre serenos e sem nenhuma agitação, ativos na contemplação e contemplativos na ação.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




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domingo, 8 de maio de 2016

Cluny e a formação do espírito da Cavalaria

Nossa Senhora com o Menino Jesus, imagem de Cluny hoje resgatada na basílica de Saint-Denis em Paris.
Nossa Senhora com o Menino Jesus,
imagem de Cluny hoje resgatada
na basílica de Saint-Denis em Paris.
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: O grande papel de Cluny na formação da Idade Média




Sem dúvida, Cluny tem seus opositores. Mas a Abadia foi tão grande, que ninguém ousa negar a sua grandeza e a sua participação efetiva em todos os acontecimentos marcantes da época, influindo sobre eles de um modo glorioso.

As discussões se travam em torno da maior ou menor participação que os cluniacenses neles tiveram. Como exemplo do que é discutido, vamos citar o artigo de E. Delaruelle sobre a parte que teve Cluny na formação da ideia de Cruzada.

Aproveitaremos o ensejo para transcrever o tópico inicial desse estudo, pois ele dará aos nossos leitores uma ideia do grande interesse dos pesquisadores pela história da célebre Abadia:

“Se do ponto de vista da história propriamente religiosa o papel de Cluny foi considerável no século XI, é possível que se tenha exagerado seu papel quando se trata de história política, social e literária. Há trinta anos dominou entre certos historiadores o que se poderia chamar um verdadeiro “pancluniacismo”.

“Tentou-se explicar por Cluny a vitalidade e a fecundidade dessa época. Concedeu-se a Cluny uma influência determinante na reforma gregoriana, no desenvolvimento da peregrinação de Santiago de Compostela, na redação das canções de gesta.

“Assim como se vê uma Igreja, sobretudo espiritual até essa época, organizar se então como sociedade jurídica e política, e um Papa santo como Gregório VII tornar-se um “Kriegsmann” e um “Finanzmann”, assim se veria a instituição monástica, sob a pressão das circunstâncias e para responder a apelos diversos, imiscuir-se cada vez mais no mundo” (Delaruelle, “L’idée de Croisade dans la littérature clunisienne du XIe. siècle et l’Abbaye de Moissac”, “Annales du Midi”, n° 75, Toulouse, 1963, pp. 419 420).

Passando à questão que nos interessa – isto é, mostrar que as discussões sobre o papel de Cluny em cada grande feito da Alta Idade Média não negam a sua grande contribuição, mas giram em torno de se precisar melhor a influência que neles teve o grande mosteiro.

Cluny teve influência determinante no ideal do guerreiro cristão. Estátua de Godofredo de Bouillon. Fundo: uma ruela de Jerusalém.
Cluny teve influência determinante no ideal do guerreiro cristão.
Estátua de Godofredo de Bouillon. Fundo: uma ruela de Jerusalém.
Cabe mencionar que, nesse artigo, Delaruelle considera excessiva a posição tomada por Anouar Hakem, o qual defende a tese de ter sido Cluny que “preparou as guerras santas, mais ou menos como os enciclopedistas prepararam a Revolução Francesa por um trabalho de educação dos espíritos”.

Embora essa opinião, “talvez atenuada”, seja também a de outros especialistas no assunto, como Chalendon, Boissonade e Joseph Bédier, Delaruelle a combate, mas acrescenta logo que se pode sustentar que “Cluny contribuiu poderosamente para a formação do tipo de “miles” cristão, esse personagem novo na História, herói das próximas cruzadas.

Em lugar de se agastarem com a “militia saecularis” “militia, malitia” – como acontecia com os monges anteriores, os escritores cluniacenses, ao contrário, celebravam as virtudes do cavaleiro que põe sua espada ao serviço da Igreja, e mesmo apreciaram suas qualidades esportivas ou mundanas.

Aos exemplos que citei em outro lugar, poder se ia acrescentar aqui o “Tibellus”, que glorifica o pai de Maïeul, e a “Deploratio” de Jotsald” (ibidem, p., 422).

Delaruelle, portanto, julgando embora exagerada a opinião de Anouar Hakem, não nega que Cluny contribuiu poderosamente para a formação do cavaleiro católico combativo, característico da Idade Média, que pôs sua espada ao serviço da Igreja, sempre pronto a servi la e disposto a verter o seu sangue em todas as epopeias que envolvessem a causa católica.

Poderíamos multiplicar exemplos semelhantes, mas a exiguidade do espaço não o permite. Cremos, no entanto, que este exemplo é suficiente para mostrar aos nossos leitores como não há entre os historiadores a menor dúvida sobre o grande papel de Cluny na formação da Idade Média.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




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