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domingo, 3 de maio de 2015

Função e simbolismos da música

Partitura iluminada de Iste Sanctus. Music Library MS0797
Partitura iluminada de Iste Sanctus. Music Library MS0797




Os pensadores medievais insistiam em que há dois modos de degustar a música.

Uma é a forma vulgar que fica no sensível, no prazer imediato da orelha afagada pelos sons doces.

A outra forma é intelectual: ela eleva a beleza sonora até o mundo das proporções inteligíveis, até o próprio Deus.

Na primeira forma os compositores se comprazem na simples audição e compõem segundo seu capricho.

Na segunda forma, compõem segundo as regras.

Os primeiros são como bêbados que voltam para casa sem conhecer o caminho.

Os outros são sábios que sabem o que fazem e como o fazem.

Para os sábios, a música é uma atividade intelectual e contemplativa. Ouvindo-a com inteligência penetra-se no mundo dos mistérios sublimes, das regras da harmonia, dos números eternos.

Anjos músicos. Hans Memling,
Anjos músicos. Hans Memling,
Assim faziam os Antigos, ensina Casiodoro, mas os cristãos sobem mais alto e chegam até a unidade, i. é, até a fonte de todas as harmonias, o Criador de todas as belezas, a Felicidade absoluta.

Então, a música se dilata num êxtase místico.

A catedral de pedra é símbolo do mundo invisível, ela lembra a sociedade perfeita do Céu. Assim também é a música.

A cítara nos lembra a Sagrada Escritura: sua caixa é o símbolo da história, suas cordas esticadas fazem aparecer o sentido místico dos acontecimentos.

O duplo tetracórdio é símbolo de Cristo.

O primeiro tetracórdio representa sua Humanidade santíssima: pelos sons graves nos fala de sua vida oculta, pelos sons agudos nos fala de sua Paixão e Morte.

Antífona Franciscus. Morte de São Francisco de Assis. MS 1.
Antífona Franciscus. Morte de São Francisco de Assis. MS 1.
O segundo tetracórdio é a imagem da harmonia divina realizada na Ressurreição e na glória eterna.

A sinfonia é a imagem do Universo unificado em Deus.

Guilherme de Auvergne vê nas notas mais altas a harmonia das criaturas mais sublimes. Para ele os sons graves são signo dos seres materiais.

Todo concerto é o símbolo da harmonia cósmica, da fabulosa unidade do universo estruturado com hierarquia e proporção.

(Fonte: excertos de Edgar de Bruyne, “Études d’esthétique médiévale”, tomo 2, Albin Michel, Paris).



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domingo, 26 de abril de 2015

A Cavalaria e a ciência aliadas com a Fé

Reis e cavaleiros na catedral de York, Inglaterra
Reis e cavaleiros na catedral de York, Inglaterra




Tal é o fundamento de todas estas ideias: a nobreza é chamada a proteger e purificar o mundo por meio do cumprimento do ideal cavalheiresco.

A vida reta e a reta virtude da nobreza são os meios de salvação para os maus tempos: o bem e a paz da Igreja e da Monarquia, o império da justiça, dependem dela.

Duas coisas há - isso se diz na vida de Boucicaut, um dos mais puros representantes do ideal cavalheiresco da última Idade Média - postas no mundo como dois pilares pela vontade de Deus, para sustentar a ordem das leis divinas e humanas; sem elas, o mundo seria só confusão; tais coisas são a cavalaria e a ciência, “chevalerie et science, que moult bien conviennent ensemble”.

“Science, Foy et Chevalerie” são os três lírios do “Chapel des Fleurs de Lys” de Philippe de Vitri. Representam três estados.

A nobreza é chamada a proteger e amparar os outros dois.

Foulques V de Anjou (1091-1143) rei de Jerusalém.
Estátua em Angers, França.
A equiparação da nobreza e da ciência, que se revela também na inclinação a reconhecer no titulo de Doutor os mesmos direitos que no titulo de Cavaleiro, atestam o alto valor moral do ideal cavalheiresco.

Há nele a veneração de uma vontade e arrojo superiores, junto à de uma ciência e capacidade superiores.

Sente-se a necessidade de ver os homens elevados a uma potência superior, e trata-se de dar a esta necessidade a expressão de duas formas fixas e equivalentes de consagrar-se a uma tarefa vital superior.

Mas destas duas formas tinha o ideal cavalheiresco uma influência muito mais geral e poderosa, porque nele se uniam com o elemento ético tantos elementos estéticos que tornava-se compreensível para todo o espírito.



(Fonte: Johan Huizinga, “El Otoño de la Edad Media”, Revista de Occidente, Madrid, 1965, 6ª. Edición.)



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domingo, 19 de abril de 2015

O equilíbrio: ponto de partida da alegria
e da calma da Idade da Luz

Muralhas da cidade de Ávila, Espanha
Muralhas da cidade de Ávila, Espanha




Nas muralhas dos castelos, ou das catedrais, ou das cidades da Idade Média, algo fala de batalhas e lutas.

Mas, ao mesmo tempo, algo fala de equilíbrio, de harmonia e, portanto, de contentamento de alma.

As famosas muralhas de Ávila foram construídas para repelir as invasões mouras. Aquelas muralhas retas, com aquelas torres, falam de dias de tragédia.

Algum daqueles locais no alto a muralha pode ter sido o primeiro lugar de onde viram, na poeira da distância, a cavalaria de um exército árabe que chegava. Era a desventura de uma luta, de um assédio contra a cidade com os perigos que trazia consigo.

Podiam perder a cidade e serem reduzidos a escravos.

Podiam ser levados escravos, por exemplo, esposo e esposa.

Muralhas da cidade de Ávila, Espanha
Muralhas da cidade de Ávila, Espanha
A esposa vendida num mercado, o esposo noutro, perderem-se de vista completamente.

Os filhos mortos na presença deles, e sobretudo privados dos Sacramentos.

Numa civilização lasciva e imoral como a muçulmana as ocasiões de pecado eram inúmeras.

A pessoa corria o risco de morrer sem contrição e ir para o inferno. Portanto, na hora da batalha a boca do inferno se abria para aqueles heróis.

Mas, de outro lado, naquelas muralhas há equilíbrio de alma, a dignidade dos que enfrentavam tudo com Fe. E a tranqüilidade e a dignidade, numa bonita tarde, da alegria das pedras resplandecendo à luz do sol.

Coisas equilibradas!

Equilíbrio entre a esfera temporal e espiritual: bispos abençoam o rei
Equilíbrio entre a esfera temporal e espiritual: bispos abençoam o rei
O equilíbrio foi o ponto de partida da alegria da Idade Média.

Nela todas as disposições lícitas de alma se equilibravam umas com as outras e se davam a mão.

Então, a alma sentia aprumo, segurança, tranqüilidade, distância-psíquica para considerar as coisas mais belas e para subir até Nossa Senhora e até Deus.

I. é, para o ponto de partida de todas as grandes alegrias, de todos os heroísmos e de todas as santidades.

É este equilíbrio, portanto, o que mais do que tudo o católico deve procurar. Procuremos esse equilíbrio e teremos a alegria da Idade Média, da Santa Igreja Católica.


(Autor: Plinio Correa de Oliveira, 21/8/90, texto sem revisão do autor.)




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domingo, 12 de abril de 2015

O Papa Gregório IX e o estabelecimento da Inquisição

Gregório IX aprova os Decretais. Rafael, Stanza della Segnatura, Vaticano.



Como evitar o envenenamento espiritual de toda a sociedade sem consentir em injustiças contra os inocentes ou contra os próprios hereges?

Como conduzir a nau em rumo seguro, entre a indiferença desesperadora de muitos Bispos ou sua susceptibilidade à política local, e de outro lado a impetuosidade das massas populares ou dos agentes imperiais?

O grande Papa (Gregório IX) certamente considerou profundamente este problema. Como Pai da Cristandade, não desejava a morte, mas a correção de seus filhos transviados.

Gregório teve entre suas preocupações uma feliz inspiração: por que não se servir das novas ordens mendicantes?

Até mesmo Lea (historiador contrário à Inquisição) lhes reconheceu a utilidade:
“O estabelecimento destas Ordens parece uma intervenção providencial para proporcionar à Igreja de Cristo aquilo que com grande urgência necessitava. À medida que foi se tornando patente a necessidade de tribunais especiais e permanentes, todas as razões favoreciam que elas estivessem acima das invejas e inimizades locais que podem induzir ao prejuízo do inocente, e acima dos favoritismos que podem conspirar a favor da impunidade do culpado.

"Se, além dessa ausência de partidarismos locais, os juizes eram homens especialmente adestrados para a descoberta e conversão dos hereges; se tinham renunciado ao mundo por votos irrevogáveis; se não precisavam de bens materiais e eram surdos aos apelos de prazer, parecia que estavam oferecidas todas as garantias possíveis de que suas importantes obrigações seriam cumpridas dentro da mais estrita justiça.

"E que, enquanto a pureza da Fé era protegida, não haveria desnecessariamente opressões, crueldades ou perseguições ditadas por interesses particulares ou por vinganças pessoais”.
Como Lea supõe, Gregório provavelmente não tinha a intenção de estabelecer um tribunal permanente. Legislou para fazer frente a uma necessidade urgente, e os dominicanos, com seus profundos conhecimentos de teologia, pareciam estar perfeitamente aptos para auxiliar os Bispos.

Naturalmente, isso não seria do agrado de todos. Havia Prelados muito melindrosos em matéria de intervenções exteriores, mesmo de Roma. Levando isso em conta, Gregório escreveu uma diplomática carta aos Bispos do sul da França explicando a situação:

“Vendo-vos envolvidos no torvelinho de inquietações e apenas podendo respirar sob a pressão de sombrias preocupações, cremos oportuno dividir vossa carga para ser levada mais facilmente. Portanto, resolvemos enviar frades pregadores (dominicanos) contra os hereges da França e províncias adjacentes, e vos suplicamos, advertimos e exortamos a que os recebais amavelmente e os trateis bem, dando-lhes favor, conselho e ajuda para que possam cumprir seu mandato”.
Desse modo foram enviados os dominicanos, e em menor proporção os franciscanos, aos lugares onde mais abundavam os hereges. Alguns foram para a Alemanha, mas até 1367 nenhum tribunal sério e permanente ali se estabeleceu.

São Domingos preside auto-da-fé
São Domingos preside auto-da-fé da Inquisição.
Pedro Berruguete (1450-1504), Museu del Prado. Madri
Alberico, um dominicano, foi enviado para a Lombardia com o título de “Inquisitor hereticae pravitatis” (Inquisidor contra a perfídia dos hereges).

Um de seus sucessores morreu nas mãos das hordas. Outro, São Pedro de Verona, também dominicano, filho de pais maniqueus e fundador da Inquisição de Florença, foi assassinado pelos hereges na estrada de Como a Milão, em 1252.

Ser inquisidor era perigoso, pois os hereges freqüentemente possuíam influências, poder, fanatismo e desespero.

Nenhum jovem dominicano aspirava, por prazer, tirar os hereges de suas tocas. Tal era o caso especial do sul da França, onde os cátaros que sobreviveram à Cruzada, lutaram longa e tenazmente contra os novos tribunais monásticos.

Alguns hereges saquearam um convento dominicano em 1234. Oito anos depois o inquisidor Arnaud e vários frades pregadores foram assassinados. Então, os dominicanos rogaram ao Papa (Inocência IV) que os dispensasse de sua missão.

A isto se recusou o Pontífice. Uma força armada de católicos destruiu a resistência dos cátaros, tomando de assalto Montségur, onde se tinham refugiado os assassinos dos dominicanos, e queimou sem julgamento prévio 200 hereges, como os levitas de Moisés mataram os idólatras.

Depois deste fato, a Inquisição foi aceita pelas autoridades seculares. Gregório IX enviou inquisidores à Espanha em 1238. Um deles foi envenenado pelos hereges.

Nas instruções a seus emissários o Papa estabeleceu a diferença entre a Inquisição medieval e as investigações dos Bispos e anteriores tentativas de tratar do problema da heresia. Os monges deveriam ir às cidades onde havia a infecção herética e proclamar publicamente que todos os que fossem culpados de delitos contra a Fé deveriam se apresentar e abjurar de seus erros.

Os que assim o fizessem, seriam perdoados. Deveria ser empreendida uma pesquisa. Se duas testemunhas afirmassem que um indivíduo era herege, deveria ser julgado. Naturalmente, os monges atuariam sempre em colaboração com o Bispo, e com seu prévio consentimento. Nada se indicava então sobre o uso da tortura; não foi utilizada a não ser vinte anos mais tarde.

São Domingos queima livro pestilenciais, Glória da Idade Média
São Domingos e o milagre de Fanjeaux:
livros heréticos cátaros e livros católicos foram jogados nas chamas.
Essas recusaram três vezes queimar os católicos mas devoraram os cátaros.
Pedro Berruguete (1450 - 1504). Museu del Prado, Madri.
Aparentemente, Gregório não tinha a intenção de fundar uma instituição nova. Apenas utilizava as Ordens religiosas para ajudar os Bispos no cumprimento de uma obrigação que sempre tiveram. O Bispo Donais, profundo conhecedor de documentos originais da primeira Inquisição, é de opinião de que (o Papa Gregório IX) também tentava se antecipar às intromissões de Frederico II, o qual já começara a queimar seus inimigos políticos sob o pretexto de defender a Fé.

Gregório estabeleceu que fossem teólogos peritos, e não políticos ou soldados, aqueles que julgassem os que eram católicos verdadeiros e os que não o eram. Uma vez decidido este ponto, a Igreja ficava livre de reconciliar ou excomungar o herege, e (neste último caso) se o Estado o considerasse perigoso, poderia aplicar-lhe a pena costumeira por alta traição.

Como Moisés na Antiguidade, Gregório desejou proteger do erro os filhos de Deus. Como Moisés, ordenou que se fizesse com toda diligência uma investigação ou inquisição, e exigiu ao menos o depoimento de duas testemunhas. Insistiu, como Moisés, para que os crimes contra Deus não ficassem impunes. Até aqui o paralelo é exato, mas não vai além.

Moisés, sob a antiga Revelação, e em tempos primitivos, não cuidou em distinguir o penitente do empedernido, o enganado do enganador: o culpado era lapidado até à morte. O desejo principal de Gregório era atrair novamente os hereges transviados à graça de Deus. Somente caso insistisse em continuar sendo inimigo de Deus (e inimigo, portanto, da sociedade) deveria ser expulso da igreja, e abandonado à parcimoniosa misericórdia do Estado.

Foi preciso tempo e não pouco esforço para conseguir o funcionamento da nova organização de modo a se realizarem os desejos do Papa.

Hoje está reconhecido que os Juizes (da Inquisição) eram muito superiores a seus contemporâneos dos tribunais seculares.


Autor: William Thomas Walsh, “Personajes de la Inquisición”, Espasa-Calpe, S.A., Madrid, 1948, pp. 71 a 74.
 


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