domingo, 26 de junho de 2016

Em Cluny, história como alimento para as almas

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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continuação do post anterior: Zelo pela tradição na arquitetura de Cluny



Nas pesquisas arqueológicas que estão sendo feitas em Cluny, um dos critérios básicos que orientam os estudiosos da grande Abadia é o respeito à tradição que os cluniacenses sempre observaram em suas obras.

O empenho que tinham esses monges em serem os continuadores de seus maiores simplifica muitas vezes o trabalho dos pesquisadores.

Quando as ruínas em que trabalham não lhes fornecem elementos suficientes para uma reconstituição, recorrem eles ao passado, procurando uma abadia ou igreja de anteriores épocas que tenha sido conservada até hoje, para conseguirem, por comparação, completar os dados que puderam coligir nos restos do monumento que estão reconstituindo.

Em tudo, os cluniacenses tinham como guia a tradição. Eles eram eminentemente conservadores no verdadeiro sentido da palavra — isto é, estudavam, conservavam e desenvolviam o que o passado realizara de bom, belo e verdadeiro, sem prejuízo de inovações prudentes e fecundas — para que a humanidade não se desviasse do reto caminho em seu progresso para a eternidade.

Esse cuidado com a tradição exigia deles um bom conhecimento da História, estudada à luz da doutrina católica, para poderem discernir nos acontecimentos passados a mão de Deus, que conduz a humanidade, da obra dos homens que tentam opor se à Providência Divina.

Esse estudo, assim feito, não só lhes permitia construir o presente com segurança, como alimentava a própria vida espiritual dos monges.

E, de fato, vê se em listas de volumes retirados da biblioteca de Cluny, para a hora destinada pela Regra à leitura espiritual, vários livros históricos, tanto consideravam os cluniacenses a História como um alimento da vida de suas almas.

Por outro lado, eles deviam também deixar registrados os acontecimentos que se passavam sob seus olhos. Daí o cuidado que tiveram os abades, desde Santo Odon, com os arquivos da Abadia.

Mais eloquente ainda é a deliberação de Santo Odilon, mandando Raoul Glabre escrever a crônica de seu tempo, para que a posteridade conhecesse a “gesta Dei” no mundo durante a época em que viviam.

Devemos ter sempre presente esse respeito pela tradição, se quisermos conhecer bem o pensamento que presidia à formação dos monges de Cluny.

Tanto mais que ele é sempre o mesmo, sem solução de continuidade, por parte dos abades e de todos os religiosos durante os chamados tempos heroicos da Abadia, que podemos limitar aos anos do governo de Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo.

Não quer isso dizer que esse pensamento tenha ficado imóvel durante todo esse período.

Pelo contrário, ele foi sendo explicitado sempre mais, pelas sucessivas gerações de monges que não só o desenvolveram, como o aplicaram na vida que levavam no mosteiro e fora dele.

E como esses quatro abades são os arquétipos da vida monástica que instituíram, é analisando seu pensamento que poderemos melhor conhecer o pensamento de Cluny.

Homens extraordinários, com qualidades humanas excepcionais e sobrenaturalizados pela “metanóia” exigida pelo voto de reforma dos costumes, que a Regra de São Bento lhes pedia ao entrarem no mosteiro, souberam eles pô las ao serviço do ideal cluniacense que conceberam.

Cada um deles deu a sua contribuição para a formação desse pensamento comum destinado a construir, ao longo de duzentos anos, essa Cluny primitiva, a verdadeira Cluny, tão admirada por quem quer que conheça a sua história.

Infelizmente, os escritos que se conhecem desses quatro santos abades são raros, o que dificulta muito o trabalho dos historiadores. Aliás, a pobreza de documentos de que se ressente a História medieval é notória, e muito explicável.

Além de serem deficientes os meios materiais de que dispunham os medievais para deixarem obras escritas para a posteridade, a Revolução encarregou se de destruir boa parte do que poderia ter chegado até nós.

A difusão de seus erros só seria possível com a sistemática destruição de tudo que revelasse a grandeza dessa era gloriosa que foi a Idade Média. Cluny, particularmente, sofreu muito com as pilhagens, devastações, incêndios de igrejas e mosteiros, com que o ódio revolucionário perseguiu sua memória.

Existem, entretanto, algumas obras de Santo Odon, e outras, em menor número, de Santo Odilon e São Hugo. Curiosamente, não chegou até nós nada escrito por São Maïeul. Entretanto, os historiadores souberam aproveitar esse material existente e dar dele uma boa visão de conjunto, o que nos permitirá tentar um estudo do pensamento cluniacense.

O verdadeiro fundador de Cluny, o abade que deu o espírito à Abadia, foi Santo Odon. Antes de se empenhar nessa obra, ele meditou profundamente sobre a formação a dar a seus monges, sobre a História do mundo e sobre o estado em que este se encontrava na sua época.

Era uma época de trevas, da mais completa decadência. Desmoronara o Império católico de Carlos Magno, ruíam as instituições, e a corrupção de costumes invadira todas as camadas da sociedade, atingindo até a vida religiosa e a própria Santa Sé.

São Pedro, a quem estava consagrada a grande igreja abacial de Cluny, a maior da Idade Média
São Pedro, a quem estava consagrada a grande igreja abacial de Cluny,
a maior da Idade Média
Ora, Santo Odon queria que os seus monges fossem o sal da terra, que regeneraria os homens, as instituições e toda a sociedade, tirando a do caos em que se encontrava. Meditou com todo o cuidado as causas dessa decadência e escolheu os remédios necessários e suficientes para renovar o mundo.

As conclusões a que chegou, ele as expôs numa obra, a “Occupatio”, escrita em versos, que é fundamental para compreendermos o pensamento de Cluny. Infelizmente, não conhecemos seu texto (do qual A. Svoboda publicou uma edição crítica em 1900), mas tantos são os trabalhos publicados sobre ela, que as suas linhas fundamentais estão bem definidas para nós.

Santo Odon identificava sua época como o limiar dos últimos tempos.

E a “Occupatio” é estudo teológico da História desde a criação e a queda dos anjos até esse limiar dos últimos tempos, o que lhe permitiu conceber como deveria ser o monge cluniacense para combater eficazmente os males da humanidade nos tempos em que vivia, e para construir esses últimos tempos que viriam.

A importância desse estudo é enorme. Suas conclusões não valem só para os monges que o autor desejava formar.

Pelo menos em suas linhas gerais, são válidas para qualquer homem. Dom Kassius Hallinger observa com muita razão que Santo Odon ensina o leitor a “evitar os caminhos extraordinários de sua própria fantasia e, ainda mais, a encontrar a segurança no identificar-se com os acontecimentos históricos concretos” (K. Hallinger, “The Spiritual Life of Cluny”, editado por Noreen Hunt em seu “Cluniac Monasticism in the Central Middle Age”, p. 33).

É essa obra fundamental que nos servirá de ponto de partida para o estudo que pretendemos fazer.


(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 

FIM




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domingo, 19 de junho de 2016

Zelo pela tradição na arquitetura de Cluny

Capitel da antiga Ecclesia Maior de Cluny
Capitel da antiga Ecclesia Maior de Cluny
Luis Dufaur
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Procurando sistematizar um pouco a imensa riqueza de aspectos pelos quais podemos abordar o estudo dos princípios que guiaram os cluniacenses em sua obra gigantesca, escolhemos para nos servir de referência o zelo pela tradição, que esses monges deixaram impresso indelevelmente em tudo que realizaram.

Na escolha dos meios para atingirem os fins que desejavam, era a tradição o farol que os guiava. Estudavam o passado com os olhos voltados para o futuro, para construírem o presente, a fim de que este fosse o mais forte elo entre aquelas duas épocas e imprimisse à humanidade de seu tempo o maior progresso possível.

Este zelo pela tradição é incontestável. Ninguém o põe em dúvida. Poderíamos escolher qualquer atividade humana para mostrar como a tradição presidiu às obras que realizaram esses discípulos de São Bento. Escolhemos a arquitetura.

Já no século passado, Eugène Emmanuel Viollet le Duc, estudando a arquitetura dos mosteiros de Cluny, mostrou a existência de uma arquitetura própria cluniacense, que levou à perfeição o estilo românico.

Sua tese foi duramente criticada e até mesmo ridicularizada por alguns. Neste século, a “Medieval Academy of America” enviou a Cluny uma missão arqueológica para estudar as construções da célebre Abadia.

Seus trabalhos continuam ainda hoje, e, graças sobretudo a Kenneth John Conant, que os lidera, conseguiu levantar dos escombros que restam a reconstituição arqueológica de todos os edifícios lá construídos pelos cluniacenses.

Viollet le Duc foi reabilitado pela missão norte-americana. Dele diz Conant que

“foi o primeiro nos tempos modernos a ter a intuição do que tinha sido Cluny. Distinguindo se entre os mais qualificados arquitetos que conheceram o fundo e a técnica da arquitetura da Idade Média na França, estava bem preparado para compreender os cluniacenses, cujo espírito falava nos seus monumentos com uma eloqüência particular” (K. J. Conant, “Cluny – Les Églises et la Maison du Chef d’Ordre”, Mâcon, 1968).

Mais adiante, depois de mostrar a tradição sempre presente nas construções cluniacenses, volta a tratar do assunto:

“Vê-se, além disso, o que havia de arbitrário nos contraditores de Viollet-le-Duc, que não compreenderam em que sentido houve, realmente, uma escola cluniacense. Como a igreja abacial de Cluny foi a obra-prima do estilo cluniacense, a mais bela, a mais rica e, na época, a maior do mundo (com poucos metros a menos, como dissemos, do que a atual Basílica de São Pedro do Vaticano), vamos ainda citar uma breve descrição desse templo, que deixa bem patente como os cluniacenses marcavam de tradição suas construções:

“O próprio edifício, por seu estilo, por seus elementos, relembrava perfeitamente a extensão imperial da Congregação de Cluny. Um monge vindo de qualquer lugar encontrava ali alguma coisa que lhe recordava a arte da região de onde viera. Cluny agregava mosteiros de toda parte e colhia também em toda parte elementos para a sua arte.

Rosácea da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
Rosácea da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
“Algumas notas farão compreender a natureza dessa síntese sutil. O plano em cruz arquiepiscopal exprimia um edifício que era uma combinação muito hábil do plano central da basílica romana de duplo transepto com o plano basilical ordinário.

“A ele se acrescentava um deambulatório com capelas formando raios. O aspecto interior, se bem que fosse uma das mais altas naves abobadadas até então construídas, fazia prevalecer a longa linha horizontal amada pelos meridionais, enquanto que as torres levantadas sobre os transeptos forneciam as massas para a interpretação e as linhas montantes tão caras aos bizantinos e aos setentrionais.

“A decoração era feita com pinturas de inspiração bizantina e esculturas – centenas de capitéis esculturados, um pórtico notável – que são os marcos da reconquista da arte de fazer esculturas em pedra.

“ Numerosos capitéis relembram muito o coríntio antigo, mas muitos deles tinham o estilo novo que a arquitetura soubera dar a todo o edifício.

“A arte que produziu esse edifício era visivelmente uma arte especial e de elite. Só uma tal congregação e um tal abade [São Hugo] poderiam executar um tal projeto. Temos o direito, creio, de qualificar de escola cluniacense a obra dessa plêiade de Cluny.

“Esse maravilhoso florão não é, na verdade, arquitetura românica da Borgonha. De um lado ultrapassa as fronteiras da Borgonha; de outro, tirando se Cluny da Borgonha, fica uma arquitetura regional, borguinhona.

“A arquitetura de Cluny é uma soma da arquitetura românica e de suas fontes de inspiração, obra especial feita em Cluny, pelo instituto beneditino de Cluny, sob a presidência de um abade de Cluny e por monges de Cluny.

“Concebida em 1088 e terminada em 1109, Cluny tem o direito de ocupar o primeiro lugar como a maior obra desse grande período, com um edifício ricamente dotado pelo passado, em progresso sobre o seu tempo e antecipando ousadamente o futuro (“Dictionnaire d’Histoire et de Géographie Ecclésiastique”, verbete Bénédictin – Ordre, por Ph. Schmitz, cols. 1161 a 1162 do vol. VII).
Ábside da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
Ábside da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
Essa descrição põe em relevo como Cluny procurava a beleza no passado para que suas realizações fossem cada vez mais belas. E é a beleza outro aspecto característico de Cluny, o que bem exprimia Santo Odon dizendo que “a arte é a antecâmara do Céu”.

O historiador Guy de Valous vai mais além:

“Em Cluny a vida espiritual tem necessidade da beleza para desabrochar; é um dos traços dominantes da tradição cluniacense, tanto na arte espiritual como nas artes plásticas, na formação das almas como na do mosteiro.

“Os monges não eram estetas, eram artistas peritos em ir ao encontro de Deus por caminhos de suma beleza, e precisamos nos lembrar de que eles não separavam o bom do belo” (Guy de Valous, “Le Monachisme Clunisien des Origines au Xve. Siècle”, vol. 1, Introduction, p. IV).

Ao encerrarmos este artigo, não podemos deixar de transcrever as palavras finais do citado livro de K. J. Conant. Ele foi publicado em 1968 pela “Medieval Academy of America”, em francês e inglês. Contém tudo o que se conhece até hoje sobre a Igreja e a Abadia de Cluny.

Como se sabe, o vandalismo da Revolução Francesa iniciou a destruição sistemática da Abadia. No tempo de Napoleão, a Igreja de São Pedro, a maravilha da arquitetura de Cluny, foi dinamitada. A Restauração não impediu que a destruição prosseguisse.

Até 1823 o arrasamento continuou, deixando intactas apenas algumas pedras. Foi a partir delas que a reconstrução arqueológica pôde ser feita. Depois de expor os resultados obtidos, Conant termina com as seguintes palavras:

“Mas se a beleza pode perecer, sua lembrança sobrevive.

“Na medida em que nos foi possível, trouxemos a uma nova vida a Cluny de outrora. Não teríamos estado à altura da tarefa se, no decurso de nosso trabalho, a beleza material e espiritual que deu forma a essas pedras não tivesse voltado algumas vezes de seu exílio, para nos unir intimamente ao espírito cluniacense” (Op. cit., p. 134).

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




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domingo, 12 de junho de 2016

A decadência de Cluny

Croquis da nave central de Cluny antes da demolição revolucionária. Jean-Baptiste Lallemand, 1771-1780.
Croquis da nave central de Cluny antes da demolição revolucionária.
Jean-Baptiste Lallemand, 1771-1780.
Luis Dufaur
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Quando se fala de Cluny, entende se esse período de tal forma grandioso, que ofusca todo o resto da história cluniacense.

Não é que Cluny tenha deixado de ser grande. Pelo contrário, por muito mais tempo ainda, não só na Idade Média, mas mesmo no início da Idade Moderna, a Abadia conservou o seu prestígio.

Foi pouco a pouco que ela decaiu. O brilho que manteve ainda depois desses dois séculos deixa se ver nitidamente pela condição social de muitos de seus abades: vários príncipes da casa de Lorena e muitos grandes nobres da França e da Inglaterra.

No fim do século XVI, porém, a Abadia já não era senão uma sombra do que fora. O abaciato caíra sob o fatal regime da comenda.

Mas era tão glorioso o passado de Cluny, que ainda nessas tristes condições Richelieu e Mazarino quiseram ser seus abades, porque o título de Abade de Cluny acrescentava alguma coisa ao prestígio desses homens postos no pináculo de todas as grandezas humanas.

domingo, 5 de junho de 2016

Abades santos governam Cluny quase 200 anos

São Mayeul, abade de Cluny.
São Mayeul, abade de Cluny.
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Santo Odon e as origens do mosteiro de Cluny



A fim de evitar confusões, é conveniente explicar desde já que a palavra cluny tem, em geral, dois significados. Um deles diz respeito à Abadia de Cluny, fundada em 910 pelo Bem aventurado Bernon, e que desapareceu na Revolução Francesa, quando seus últimos monges pereceram nas mãos dos revolucionários.

Sua igreja, a célebre Igreja de São Pedro de Cluny, foi a maior do mundo até a construção da Basílica de São Pedro do Vaticano, edificada propositadamente com alguns metros a mais do que a abacial de Cluny.

Adornado de riquezas artísticas sem número, esse monumento de arte e resumo de um glorioso passado de vários séculos foi dinamitado pela prefeitura da pequena cidade de Cluny, no tempo de Napoleão.

Esse crime tão patente forçou a Revolução a inventar uma lenda que pelo menos excluísse Bonaparte desse vergonhoso episódio.

Reza essa lenda que certo dia, em que dava audiência às prefeituras de várias cidades, ao ser anunciada a delegação de Cluny, o Imperador voltou lhe as costas, dizendo que não recebia bárbaros.

domingo, 29 de maio de 2016

Santo Odon e as origens do mosteiro de Cluny

Devoção de um monge cluniacense a Nossa Senhora. Segundo alguns seria o próprio Santo Odon. Bibliothèque National de France, MSS. ms.latin 17716, fol 23
Devoção de um monge cluniacense a Nossa Senhora.
Segundo alguns seria o próprio Santo Odon.
Bibliothèque National de France, MSS. ms.latin 17716, fol 23
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Elogio de São Gregório VII aos religiosos de Cluny – 2




Antes de prosseguirmos no estudo das causas do grande sucesso de Cluny, convém recordarmos rapidamente o histórico de sua fundação.

A legislação monástica promulgada para todo o Império por Carlos Magno e Luís o Piedoso exigia que todos os mosteiros adotassem a regra de São Bento. Assim sendo, a partir do século IX houve só mosteiros beneditinos no Ocidente.

Mas, de acordo com a regra de São Bento, esses mosteiros eram autônomos, sem nenhuma vinculação jurídica entre si.

Não houve propriamente uma Ordem religiosa. Percebendo os perigos dessa extrema descentralização, São Bento de Aniane, o conselheiro monástico de Carlos Magno e de Luís o Piedoso, tentou dar uma direção única às abadias do Império, mas sua obra não sobreviveu à sua morte.

Ora, as lutas entre os descendentes de Carlos Magno, tendo enfraquecido o Império, permitiram que novas invasões bárbaras – normandos, eslavos, etc. – penetrassem a fundo no Ocidente.

Essas invasões levaram a desordem e a destruição por onde passaram, e todas as grandes instituições carolíngias sofreram as consequências disso.

domingo, 22 de maio de 2016

Elogio de São Gregório VII aos religiosos de Cluny

São Gregório VII. Busto em ouro e prata na catedral de Salerno.
São Gregório VII. Busto em ouro e prata na catedral de Salerno.
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Elogios dos religiosos de Cluny



D. Kassius Hallinger, autor da monumental história da reforma monástica na Alta Idade Média (Gorze–Kluny), tentou uma resposta num artigo importante publicado na “Deutsche Archiv fur Erforschung des Mittelalters”, resumido e publicado em inglês com o título “The spiritual life of Cluny in the early days”, na coleção de memórias sobre Cluny selecionadas por Noreen Hunt e reunidas no livro “Cluniac Monasticism In the Central Middle Age” (Mac Millan, 1970).

Antes de dar sua própria opinião, D. Kassius Hallinger classifica em cinco grandes grupos as várias explicações propostas.

São elas: o espírito litúrgico da Abadia, a abertura para o mundo, a fuga do mundo, a organização feudal de Cluny, e as raízes monásticas especiais que caracterizavam o mosteiro.

Pela simples enumeração se vê a oposição flagrante que há, por exemplo, entre a segunda e a terceira posições, ambas defendidas por grandes historiadores. O fato é que nenhuma delas satisfaz.

Essa divergência de opiniões é uma das maiores dificuldades para o bom conhecimento de Cluny, gerando mesmo confusões lamentáveis.

domingo, 15 de maio de 2016

Elogios dos religiosos de Cluny

Ideal de Cluny: monges contemplativos em luta contra o reinado de Satanás.
Ideal de Cluny: monges contemplativos em luta contra o reinado de Satanás.
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Cluny e a formação do espírito da Cavalaria



Se a totalidade dos historiadores está de acordo sobre a importância de Cluny na formação da Idade Média, o mesmo não acontece quando estudam a causa ou as causas do que poderíamos chamar o fenômeno cluniacense.

Os monges de Cluny consagravam a vida à glorificação de Deus. Viviam retirados do mundo, reclusos em seus mosteiros, cumprindo rigorosamente um Ordo minuciosíssimo, que deles exigia cinco horas diárias dedicadas ao Ofício Divino.

Eram contemplativos cuja principal obrigação era louvar a Deus perenemente. E seus mosteiros atingiram alto grau de santidade, louvado pelos próprios medievais, tão exigentes nessa matéria.

O cronista Raoul Glabre, aliás ele mesmo cluniacense, proclama: “Saibam todos que esse convento não é igualado por nenhum outro no mundo romano, principalmente para libertar as almas que caíram sob o senhorio do demônio” (apud G. Duby, “Adolescence de la Chrétienté Occidentale”, p. 135).

domingo, 8 de maio de 2016

Cluny e a formação do espírito da Cavalaria

Nossa Senhora com o Menino Jesus, imagem de Cluny hoje resgatada na basílica de Saint-Denis em Paris.
Nossa Senhora com o Menino Jesus,
imagem de Cluny hoje resgatada
na basílica de Saint-Denis em Paris.
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: O grande papel de Cluny na formação da Idade Média




Sem dúvida, Cluny tem seus opositores. Mas a Abadia foi tão grande, que ninguém ousa negar a sua grandeza e a sua participação efetiva em todos os acontecimentos marcantes da época, influindo sobre eles de um modo glorioso.

As discussões se travam em torno da maior ou menor participação que os cluniacenses neles tiveram. Como exemplo do que é discutido, vamos citar o artigo de E. Delaruelle sobre a parte que teve Cluny na formação da ideia de Cruzada.

Aproveitaremos o ensejo para transcrever o tópico inicial desse estudo, pois ele dará aos nossos leitores uma ideia do grande interesse dos pesquisadores pela história da célebre Abadia:

“Se do ponto de vista da história propriamente religiosa o papel de Cluny foi considerável no século XI, é possível que se tenha exagerado seu papel quando se trata de história política, social e literária. Há trinta anos dominou entre certos historiadores o que se poderia chamar um verdadeiro “pancluniacismo”.

“Tentou-se explicar por Cluny a vitalidade e a fecundidade dessa época. Concedeu-se a Cluny uma influência determinante na reforma gregoriana, no desenvolvimento da peregrinação de Santiago de Compostela, na redação das canções de gesta.

domingo, 24 de abril de 2016

Uma vocação familiar para relógios nunca antes sonhados: os Dondi

O relógio astronômico da Torre dell'Orologio, Pádua, recentemente restaurado
O relógio astronômico da Torre dell'Orologio, Pádua, recentemente restaurado
Luis Dufaur
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O pai de Giovanni, Jacopo di Dondi, nascido por volta de 1293, como Richard Wallingford, ensinou Medicina e foi o inventor de um relógio que Antônio, um técnico paduano, montou na torre do palácio Capitano, em Pádua.

Aperfeiçoou igualmente um método que permitia a extração de sal de mananciais quentes que existiam perto de Pádua. O sal obtido pareceu suspeito e Jacopo foi obrigado a redigir “um breve tratado de quatro capítulos para se defender contra os seus detratores e seus rivais invejosos da invenção”. (Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, vol. III, Columbia Univ. Press, 1934, p. 392)

O tratado devia ser convincente, pois a 20 de agosto de 1355 Jacopo di Dondi obteve do Príncipe de Carrara o monopólio exclusivo da extração de sal e sua venda isenta de taxas. O interesse que Jacopo dedicava aos astros levou-o a corrigir as tabelas astronômicas em uso.

domingo, 17 de abril de 2016

Um abade na ponta da tecnologia: Dom Richard Wallingford

Dom Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans trabalhando
Dom Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans trabalhando
Luis Dufaur
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Um pêndulo astronômico foi graficamente representado pela primeira vez na miniatura de um manuscrito inglês do século XIV.

Nessa miniatura o inventor Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans (que parece sofrer de uma desagradável doença de pele), aponta para seu pêndulo, com um dedo esticado.

Richard Wallingford era um homem notável, mas de temperamento difícil (foi ele quem mandou apreender, em 1331, as mós dos moinhos para pavimentar o pátio do mosteiro e humilhar os habitantes de Saint-Albans).

Ele teria adquirido na forja paterna algumas noções de ferragem e mecânica. Órfão aos 10 anos foi recolhido pelo prior que o mandou estudar em Oxford, ingressando depois no mosteiro de Saint-Albans, do qual viria a ser abade em 1326.

domingo, 10 de abril de 2016

O relógio astronômico do Ocidente nasceu na Idade Média

Relógio astronômico de Dondi, ou Astrarium, feito no ano 1364 em Pádua.
Relógio astronômico de Dondi, ou Astrarium, feito no ano 1364 em Pádua.
Luis Dufaur
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Estranha coincidência: o mais famoso relógio astronômico chinês desapareceu quatro anos depois da criação do mais importante relógio astronômico da Europa Ocidental, o de Giovanni di Dondi, que comporta um escapo mecânico de vara de palhetas, numerador e roda de encontro acionado por pesos.

Esse sistema substitui o dos relógios de água utilizados até então. Os engenheiros medievais que, no entanto, tinham sabido utilizar a energia hidráulica para fins tão numerosos quanto variados, aperceberam-se rapidamente de suas limitações na construção de relógios.

Na Europa do Norte, no inverno, a água gela e os pêndulos param. As pesquisas para encontrar uma solução mecânica remontam à segunda parte do século XIII.

Em 1271, Robert l'Anglais escrevia: “Os fabricantes de relógios procuram fazer uma roda que execute uma rotação completa para cada círculo equinocial, mas não' conseguem descobrir a solução correta”. (H. A. Lloyd, Some Outstanding Clocks over Seven Hundred: Years 1250-1950, Leonard Hill, Londres, 1958, p. 5.)

Um manuscrito redigido alguns anos depois na corte de Afonso X de Castela inclui o desenho de um relógio cujo movimento é produzido pela queda de um peso.

domingo, 6 de março de 2016

Os dez mandamentos, ou código, da Cavalaria

Igreja do Sangue de Cristo. Bruges, Bélgica.
Igreja do Sangue de Cristo.
Bruges, Bélgica.
Luis Dufaur
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Podemos dizer que não existiu um código, no sentido de um documento onde estavam escritos os mandamentos da Cavalaria.

Existiam regras, existia o ideal da Cavalaria que se espalhava entre os cavaleiros, e eles os conheciam e procuravam seguir, mas nunca foram formulados em itens e mandamentos.

Mais ou menos como com as regras de etiqueta e polidez. Elas certamente existem, tanto que as pessoas vivem e agem de acordo com elas, e os que não o fazem caem sob a sanção da sociedade, são considerados mal educados, etc.
Mas não existe um documento em que estejam escritas essas regras, como se fossem leis. Algumas pessoas procuraram formulá-las a partir da observação da realidade, mas em geral ninguém as segue por tê-las lido num manual, e sim porque foram educadas desse modo. As pessoas respiram aquilo com o ar.

A mesma coisa com o Código da Cavalaria. Existia o ideal, existiam as regras, os cavaleiros procuravam viver de acordo com elas, mas elas não estavam escritas.

Eles não agiam assim porque elas estavam escritas, mas porque tinham sido educados assim.

Alguns historiadores procuraram formular posteriormente essas regras verificando como é que os cavaleiros agiam, e a partir daí deduzindo as normas que eles seguiam instintivamente, reduzindo-as a preceitos definidos.

Um dos que fez este trabalho foi Léon Gautier, um dos melhores autores em matéria de Cavalaria. Ele formulou o Código da Cavalaria em 10 regras:

1. Crerás em tudo o que ensina a Igreja e observarás todos os seus Mandamentos;

2. Protegerás a Igreja;

3. Respeitarás todas as fraquezas e te constituirás seu defensor;

4. Amarás o país em que nasceste;

5. Não recuarás diante do inimigo;

6. Moverás aos infiéis uma guerra sem trégua e sem mercê;

domingo, 28 de fevereiro de 2016

A degradação do cavaleiro

Degradação de um cavaleiro
Degradação de um cavaleiro
Luis Dufaur
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Se um cavaleiro violasse as leis da Cavalaria, manchasse a sua honra ou faltasse ao seu juramento, era então degradado.

A cerimônia da degradação era terrível. O cavaleiro indigno era conduzido à praça principal da cidade por um cortejo de cavaleiros vestidos de luto.

De vez em quando o cortejo parava, e um arauto proclamava em alta voz o crime cometido. No local da cerimônia o cavaleiro era posto sobre um cavalo de madeira, e eram retiradas então todas as peças de sua armadura, uma por uma. Isto era feito sob o escárnio e desprezo dos assistentes.

O cavaleiro estava armado como para o combate. Num estrado, o condenado primeiro era despojado da espada, escudo, elmo e cota de malha.

Atiradas à sua frente, essas armas eram marteladas com um ferro até estarem completamente inutilizadas. Ninguém poderia jamais servir-se de armas que tivessem sido de um mau cavaleiro.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O cerimonial litúrgico da investidura do cavaleiro

Juramento durante a cerimônia de 'adoubement'.
Juramento durante a cerimônia de 'adoubement'.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A perfeição do cerimonial de ingresso na cavalaria foi atingida com o adoubement litúrgico, que é um sacramental. Era feito de acordo com uma rubrica do Pontifical Romano, que contém a cerimônia da criação do novo cavaleiro logo depois da cerimônia da bênção e coroação do rei.

Como a Igreja é amiga da tradição, até hoje os Pontificais Romanos imprimem essa rubrica, exatamente como no século X, quando surgiu a maior parte dessas orações.

Começava a cerimônia com a vigília de armas. O rapaz passava a noite na igreja, diante do Santíssimo Sacramento, ajoelhado ou de pé. Não podia sentar-se.

Ali ele rezava, pedindo a graça de que necessitava para cumprir a altíssima missão que lhe ia ser confiada. Na manhã seguinte, na catedral, vinha o bispo, com todo o esplendor e respeito de que se cercava um bispo na Idade Média, e celebrava o pontifical com todo o esplendor da liturgia romana.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Como era a cerimônia de entrada na Cavalaria?

Ricardo III, rei da Inglaterra, faz cavaleiro a Enrique de Monmouth, futuro Enrique V, Jean Creton, 1405.
Ricardo III, rei da Inglaterra, faz cavaleiro a Enrique de Monmouth,
futuro Enrique V, Jean Creton, 1405.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A cerimônia de investidura, também chamada “ordenação do cavaleiro”, geralmente realizava-se em uma igreja. Podia ser também em um castelo feudal, ou até mesmo em pleno campo de batalha.

O Infante D. Henrique, por exemplo, foi armado cavaleiro no campo de luta, após haver demonstrado extraordinária bravura na conquista de Ceuta.

Na véspera o candidato jejuava, confessava-se e passava a noite em oração — a “vigília das armas”. Na manhã seguinte realizava-se a cerimônia. A ordenação do cavaleiro chegou a ser considerada como se fosse um oitavo sacramento. De fato, a Igreja chegou a considerá-la um sacramental.