- Outras formas de visualizar o blog: -

domingo, 28 de junho de 2015

A fecundidade do silêncio dos mosteiros da Idade da Luz

Monges de uma cartuxa cantando o ofício divino
Monges de uma cartuxa cantando o ofício divino




Os monges não trabalhavam nem em benefício próprio, nem mesmo pelo sucesso, mas unicamente para a glória de Deus.

Seu objetivo era o de fazer reviver, na memória de seus irmãos, os acontecimentos passados de seu tempo e de sua região; de relembrar aquilo que eles haviam testemunhado ou que lhes havia sido transmitido pela tradição.

Ora, graças à organização social da Idade Média, essa tradição tornara-se tão poderosa quanto durável.

Os monges escreviam na intimidade da paz e da liberdade do claustro, com toda candura e sinceridade na alma.

Calmos no interior da segurança, da obediência claustral e das alegrias da santa pobreza, os monges analistas ofereciam aos cristãos o fruto fecundo de seus longos estudos, que a vida no mundo completava com conhecimentos históricos.







(Autor: Montalembert, "Les Moines d'Occident" - Vol. VI, p. 234)



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 21 de junho de 2015

Função social da caçada na Idade Média

Très Riches Heures du Duc de Berry, mês de agosto
Très Riches Heures du Duc de Berry, mês de agosto



O castelo tem muralhas, ameias e torres.

Na torre de menagem, a mais alta delas e de onde mais longe se vê o inimigo que se acerca, está a flâmula com o brasão de armas da família.

Um valo de água circunda o castelo para maior garantia. Há portas levadiças suspensas por correntes e correias muito fortes para o inimigo não entrar.

Logo ao pé do castelo começa a agricultura. Os camponeses estão plantando trigo, a vinha, e muitas outras coisas.

De repente se ouve um ladrar de cachorro e um toque de clarim. Os camponeses se olham entre si e sabem que um verdadeiro espetáculo vai aparecer.

Era um dos espetáculos, mas também uma das necessidades, da sociedade católica daquele tempo.

Baixa lentamente a ponte, e sai de dentro do castelo uma cavalgada.

São vinte cavalos, às vezes mais, lindamente ajaezados, cobertos com panos muito bordados, ostentando o brasão da família.

Tschachtlan Chronik. Berna, Suíça.
Tschachtlan Chronik. Berna, Suíça.
Sobre cada um desses cavalos vai montada uma pessoa da família.

No melhor dos cavalos vai o castelão.

Ao lado dele cavalga sentada à la amazona, sua mulher, e não sentada à la homem como hoje se faz.

É a dama do castelo. Atrás deles vai a alegre cavalgada dos jovens.

Os instrumentos tocam músicas de caça bonitas e as patas dos cavalos fazem o barulho característico sobre o madeirame da torre levadiça.

É a família que está passando para caçada.

A caçada era uma diversão de um gênero especial. Porque só se caçavam animais daninhos para a agricultura ou perigosos para o homem.

Ou, os animais que alimentam o homem, e prolongam portanto a vida humana.

Tudo gira em torno do homem, seja ele o nobre ou o plebeu que trabalha o campo. Todos se beneficiam.

Livro da Caça, matilha de javalis perigosos. Gaston Phebus
Pelos toques percebe-se ao longe se foi pego ou não foi pego um javali que mete medo a todos.

O javali perigoso para a castelã quando ela vai à cidadezinha para dar esmolas, para visitar, para conversar.

Como também é perigoso para a camponesa quando ela vai à paróquia para rezar ou em alguma pequena loja fazer uma compra.

A caçada ao javali visa o bem comum.

Livro da Caça, Caçada do cervo, Gaston Phebus
Há na caçada, portanto, uma colaboração social que para um tipo frívolo parece uma mera diversão.

Há a caça muito mais dramática ao cervo.

Animal tão bonito, tão delicado, com um olhar tão doce, tão inofensivo, tão rápido, mas que não sendo perigoso para o homem, é lhe delicioso.

E assim como um homem tem o direito de colher uma flor quando ela está em sua plena expansão para levá-la à capela de sua casa ou a um vaso de sua residência, assim ele também tem o direito de matar um cervo para comê-lo.

Feita a caçada, em geral o que se matou é muito mais abundante do que as necessidades do castelo.

Então se organiza uma distribuição gratuita a todo vilarejo daquilo que foi caçado.

Livro da Caça, a refeição geral final, Gaston Phebus
Livro da Caça, a refeição geral final, Gaston Phebus
É a hora da culinária, dos cozinheiros e das cozinheiras, e é hora dos que comem. A caçada está paga.

Os medievais não tinham televisão, mas viver com os olhos postos na feeria da vida do castelo, contarem uns para os outros as últimas novidades do castelo, da filha do castelão que está noiva do filho do castelão tal outro, e que o casamento quando será?, etc.

Tudo isto constituía o conjunto de novidades de que vivia a pequena população do castelo.



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 14 de junho de 2015

Hierarquia e dignidade na cozinha medieval

Tribunal de Poitiers, salle des pas perdus
Tribunal de Poitiers, salle des pas perdus



Na cozinha (imaginemos aquela cozinha de heróis, com sete fogões gigantescos, que é o único conservado até hoje do que fora o Palácio Ducal de Dijon) está sentado o cozinheiro de plantão numa poltrona, situada entre o fogão e os diversos serviços, da qual pode contemplar a cozinha inteira.

Na mão tem uma grande colher de pau “que lhe serve para duas finalidades: a primeira, experimentar as sopas e os molhos; a segunda, empurrar os serventes da cozinha para as suas obrigações e, se for necessário, bater neles mais de uma vez”.

Em raras ocasiões ‒ quando chegam as primeiras trufas ou o primeiro arenque novo ‒ apresenta-se o cozinheiro para servir pessoalmente, nesse caso levando a tocha na mão.

Para o grave cortesão que no-las descreve (La Marche) todas estas coisas são sacros mistérios, dos quais fala com respeito e com uma espécie de discurso escolástico.

“Quando eu era pajem ‒ diz La Marche ‒ era ainda demasiado jovem para entender questões de precedência e cerimonial”.

La Marche propõe a seus leitores importantes questões de hierarquia e etiqueta, para ter o gosto de resolvê-las com maduro tato:

‒ “Por que assiste o cozinheiro, e não o servente de cozinha à refeição do senhor? De que modo deve ser nomeado o cozinheiro? Quem deve representá-lo em caso de ausência: o 'hatcur' (encarregado dos assados) ou o 'potagier' (encarregado da sopa)?

‒ “A isto respondo: ‒ diz o sábio La Marche

Padeiro e aprendiz, Bodleian Library, Oxford
Padeiro e auxiliar. Bodleian Library, Oxford.
‒ Quando na corte de um príncipe deve ser nomeado um cozinheiro, devem ser chamados um depois do outro o “maître d'hôtel”, os “écuyers de cuisine” e todos aqueles que estão empregados na cozinha; e o cozinheiro deve ser nomeado por eleição solene, verificada por cada um, sob juramento. E à segunda questão: nem o “hateur” nem o “potagier” podem representá-lo, mas sim o substituto do cozinheiro, que deve ser nomeado igualmente por eleição.

‒ Por que os “panetiers” ( título honorífico que recebiam os que guardavam e serviam o pão ao rei) e os “escanções” (aquele que punha o vinho na copa e o apresentava ao rei; equivaleria ao copeiro de hoje em dia) ocupam respectivamente o primeiro e segundo lugares, antes que os trinchadores e os cozinheiros?

‒ Porque seus cargos referem-se ao pão e ao vinho, coisas santas, glorificadas pela dignidade do Sacramento”.

(Autor: Johan Huizinga, “El Otoño de la Edad Media”, Revista de Occidente, Madrid, 1965, 6ª. Edición.)



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 7 de junho de 2015

Os “Ditames do Papa” e o maior Papa da Idade Média:
São Gregório VII

São Gregório VII, restaurou e elevou a um píncaro  a respeitabilidade do Papado abalada por pontífices venais.  Busto de ouro e prata na catedral de Salerno, Itália.
São Gregório VII, restaurou e elevou a um píncaro
a respeitabilidade do Papado abalada por pontífices venais.
Busto de ouro e prata na catedral de Salerno, Itália.



No ano do Senhor de 1075 foram incluídos nos registros pontifícios, os famosos Dictatus Papae, ou Ditames do Papa. I. é, regras, avisos, ordens ou doutrinas do Papa, redigidos em forma concisa e penetrante.

Os Ditames versam sobre as relações entre a Igreja (especificamente do Papado) com o Império, e a ordem temporal em geral.

No ano da inscrição, o Papa felizmente reinante São Gregório VII livrava tremenda batalha contra as indevidas pretensões do Imperador Henrique IV.

Nessa famosa querela ‒ também conhecida como “querela das investiduras” ‒ Henrique IV teve que pedir perdão a São Gregório VII, quem o tinha excomungado.

O grande Papa estava no castelo de Canossa, na Toscana. Henrique IV passou três dias do lado de fora, na neve, vestido de penitente até receber o perdão. De ali vem a expressão “ir a Canossa”.

Como São Gregório VII temia, o arrependimento de Henrique IV não era sincero. Voltou à Alemanha, montou um exército e assaltou Roma.

São Gregório VII foi assim obrigado a se refugiar no sul da Itália, morrendo em Gaeta, não muito depois.

Suas últimas palavras foram: “Amei a justiça e detestei a iniqüidade, por isso morro no exílio”.

Entrementes, os príncipes alemães defensores do Papado, acabaram liquidando a revolta do imperador excomungado e deposto.

Henrique IV pede perdão a São Gregório VII em Canosa
O imperador Enrique IV pede perdão a São Gregório VII no castelo de Canossa
São Gregório VII, embora na tumba, foi o grande vencedor.

Os Ditames refletem tão bem os ensinamentos desse glorioso pontífice que a ele foram atribuídos. Porém os especialistas discutem a redação, sem chegarem ainda a uma conclusão.

A disputa acadêmica é sobre datas e não sobre a doutrina, que é a de São Gregório VII, para muitos o maior Papa da Idade Média.

Em época de arrogante laicismo revolucionário os Dictatus Pape ganharam nova atualidade.



DICTATVS PAPAE, bula de São Gregório VII


1 ‒ Que a Igreja Romana foi fundada somente por Deus.

2 ‒ Que somente o Pontífice Romano pode ser chamado de universal com pleno direito.

3 ‒ Que somente o Pontífice pode depor e restabelecer bispos.

4 ‒ Que os legados do Pontífice, ainda que de grau inferior, em um concílio estão acima de todos os bispos, e pode contra estes pronunciar sentença de deposição.

5 ‒ Que o Papa pode depor os ausentes.

6 ‒ Que não se deve ter comunhão ou permanecer na mesma casa com aqueles que tenham sidos excomungados.

São Gregório VII, altar, catedral de Salerno
Urna com os restos de São Gregório VII, altar na catedral de Salerno, Itália.
7 ‒ Que só a ele é lícito promulgar novas leis de acordo com as necessidades dos tempos, reunir novas congregações, converter uma abadia em casa canônica e vice-versa, dividir uma diocese rica ou unir pobres.

8 ‒ Que somente ele possui as insígnias imperiais.

9 ‒ Que todos os príncipes devem beijar os pés do Papa.

10 ‒ Que o seu nome deve ser recitado em toda igreja.

11 ‒ Que o seu título é único no mundo.

12 ‒ Que é lícito depor o imperador.

13 ‒ Que a ele é lícito segundo as necessidades transladar os bispos de uma sede para outra.

14 ‒ Que ele tem o poder de ordenar um clérigo de qualquer igreja para o lugar que queira.

15 ‒ Que o que foi ordenado por ele pode governar a igreja de outro, mas não fazer a guerra; não pode receber de outro bispo um grau superior.

Facsímile dos "Ditames do Papa
Facsimile dos "Ditames do Papa"
16 ‒ Que nenhum sínodo pode ser chamado de geral se não for guiado por ele.

17 ‒ Que nenhum artigo ou livro pode ser chamado de canônico sem sua autorização.

18 ‒ Que nada pode revogar sua palavra, só ele pode fazê-lo.

19 ‒ Que nada pode julgá-lo.

20 ‒ Que nada pode condenar quem apela a Sede Apostólica.

21 ‒ Que as causas de maior importância, de qualquer igreja, devem ser submetida ao seu juizo.

22 ‒ Que a Igreja Romana não erra e não errará jamais, isto está de acordo com as sagradas escrituras.

23 ‒ Que o Pontífice Romano, se houve sido ordenado em uma eleição canônica,está indubitavelmente santificado pelos mérito do Bem Aventurado Pedro como nos testemunha Santo Ennódio, bispo de Pávia, com o consentimento de muitos Santos Padres, como se encontra escrito nos decretos do bem aventurado Papa Símaco.

24 ‒ Que de baixo de sua ordem e com sua permissão é lícito aos súditos fazer acusações.

25 ‒ Que pode depor e restabelecer os bispos mesmo fora de reuniões de sínodo.

26 ‒ Que não deve ser considerado católico quem não está de acordo com a Igreja Romana.

27 ‒ Que o Pontífice pode absolver os súditos de juramento de fidelidade a iníquos.

(Fonte: Gallego Blanco, E., Relaciones entre la Iglesia y el Estado en la Edad Media, Biblioteca de Política y Sociología de Occidente, 1973, Madrid, pp. 174-176)




AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS