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domingo, 14 de dezembro de 2014

Nas almas das cancões perfeitas de Natal:
fé, coragem, ternura



É a noite de Natal. A Missa de Galo vai começar. Na igrejinha toda coberta de neve, iluminada e bem aquecida, todos entram de depressa.

Ao longe ficaram as casinhas da aldeia, a fumaça sobe das chaminés, a lareira está acesa, as suculentas, deliciosas e apetitosas iguarias da culinária alemã já estão no forno...

É a festa de Natal que segue à festa litúrgica.

O coro canta “Stille Nacht, heilige Nacht” (“Noite Feliz”) (a música está no vídeo embaixo).

“Noite tranqüila, noite silenciosa, noite santa.

“Tudo dorme, só está acordado o nobre e santíssimo Casal!

“O nobilíssimo menino de cabelos cacheados dorme em celestial tranqüilidade.”

A canção manifesta submissão de espírito, reverência e compaixão. Mas também alta cogitação.

Foi num ambiente desses que o povo da bravura e da proeza militar compôs essa canção de Natal universal: o “Stille Nacht, heilige Nacht” (“Noite Feliz”).

Uma outra canção natalina alemã conta que os dois iam juntos: Nossa Senhora, a flor de delicadeza, e o Menino, o tesouro do Universo!

E atravessaram um bosque de espinhos que havia sete anos que não florescia.

Veja vídeo
Vídeo: Noite Feliz: as almas
das canções de Natal perfeitas
Nossa Senhora sozinha, trazia o Menino Jesus amparado junto a seu coração.

Mas, enquanto Nossa Senhora atravessava o bosque, os espinhos transformavam-se em rosas perfumadas para Ela.

E Ela compreendeu: foi um gesto de amabilidade de seu Filho!

Comprazida, Ela olhou maternalmente para o Divino Infante. Ele estava dormindo, mas governava a natureza!

Eis o paradoxo do povo germânico: esse povo dos grandes exércitos impecavelmente ordenados, dos couraceiros com capacetes encimados por águias, na hora da ternura sabe cantar afetuosamente o Natal como nenhum outro.





Video: Noite Feliz: as almas das canções de Natal perfeitas





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domingo, 7 de dezembro de 2014

Catedrais góticas: mistério mais grandioso que o das pirâmides do Egito

Amiens, França


A técnica é definida pela Escolástica, da mesma forma que as artes, como “recta ratio factibilium”.

Quer dizer, a reta ordenação do trabalho, ou também, a ciência de trabalhar bem.

Hoje, o mal uso da técnica, a empurra para produzir para além do que é bom, e espalhar instrumentos que afligem a vida dos homens.

Nos tempos em que o espírito do Evangelho penetrava todas as instituições, a técnica produziu frutos que vão além do tudo o que a Humanidade conheceu previamente.

Um desses frutos inigualados foi ‒ e continuam sendo ‒ as catedrais medievais.

Até hoje especialistas tentam decifrar como fizeram os arquitetos da Idade Média para, com tão pobres instrumentos, criar obras colossais que “humilham” as técnicas modernas mais avançadas.

Os técnicos das mais variegadas especialidades da construção e também da física, da química e das matemáticas se debruçam para tentar descobrir como os medievais erigiram esses portentos arquitetônicos.

Mergulham eles nos “mistérios das catedrais”.

São muitos os que até agora não estão elucidados: desde as fórmulas químicas desaparecidas que dão aos vitrais tonalidades únicas e irreproduzíveis até os mais complexos cálculos matemáticos e astronômicos que orientaram as proporções cósmicas das Bíblias de pedra.

Beauvais, França
Como decifrar o enigma?

“As catedrais se burlam de nós há oito séculos. Elas resistiram não só às intempéries e aos ataques insidiosos do clima, mas mais ainda por vezes a provas tão violentas como os bombardeios. Como é que estas catedrais loucas aguentam em pé?”, pergunta o arquiteto, historiador e geógrafo Roland Bechmann em seu livro “As raízes das catedrais”.

O livro de Bechmann recebeu elogios das maiores autoridades acadêmicas da França. Ele tem o mérito de mexer numa polêmica silenciosa, mas aberta como uma chaga nas almas de inúmeros franceses.

Enquanto o mundo parece rumar para uma modernidade cada vez mais caótica, as catedrais góticas em seu mutismo eloquente apontam um caminho inteiramente diverso.

O comentarista Paul François Paoli, do jornal “Le Figaro”, resume esse conflito interior dos franceses:

“As catedrais góticas são as pirâmides do Ocidente e nós não acabamos ainda de compreender como é que elas puderam ser construídas numa época considerada como obscura e arcaica do ponto de vista científico”.

O historiador Jacques Le Goff saudou o livro de Bechmann como uma obra prima de interdisciplinaridade sobre “esses prodígios de pedra que continuamos admirando em Amiens, Chartres ou Paris”.

Mas, segundo Bechmann, esses prodígios dizem uma coisa aos homens do século XXI: “como vocês são pequenos!”
Chartres, França
“No fim da época gótica ‒ explica o autor ‒ havia uma igreja para cada 200 habitantes da França, e esses prédios considerados em seu conjunto podiam abrigar uma população maior que a do país inteiro. Calcula-se que em trezentos anos a França extraiu, transportou de charrete e erigiu mais pedra que o antigo Egito em toda sua história”.

Mas não é só uma questão de tamanho e volumes, não, diz Bechmann. É uma questão de ciência e grandeza de alma. E explica:

Se hoje nós devêssemos construir catedrais góticas com os meios de que eles dispunham, nós não conseguiríamos. E mesmo que nós conhecêssemos até os pormenores de seus procedimentos, nós não ousaríamos.

“Calcular a resistência de construções como eles souberam realizar exigiria a ajuda de computadores. E ainda que nós conseguíssemos, haveria todas as chances de que nós chegássemos à conclusão de que essas catedrais, segundo as normas e coeficientes de segurança que nós aplicamos hoje, não poderiam ficar em pé...”

E, entretanto, elas continuam de pé e continuam nos emocionando, acrescenta Paul F. Paoli, jornalista do “Figaro”.




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domingo, 30 de novembro de 2014

Como um Papa medieval falava para os bispos

O Beato Urbano II pregando a Cruzada. Na sua direita, os bispos. Na esquerda, os príncipes, no centro, o rei.
O Beato Urbano II pregando a Cruzada.
Na sua direita, os bispos. Na esquerda, os príncipes, no centro, o rei.
Luis Dufaur



Urbano II aos bispos reunidos no concílio de Clermont-Ferrand, França, 1095.

“Meus mais amados irmãos:

“Impulsionado pela necessidade, eu, Urbano, com a permissão de Deus, chefe, bispo e prelado de todo o mundo, vim para estas partes como um embaixador, com uma advertência divina para vocês, servos de Deus.

“Eu esperava encontrá-los tão fiéis e tão zelosos no serviço de Deus quanto eu tinha suposto que fossem.

“Mas, se há em vós quaisquer deformidades ou tortuosidades contrárias as lei de Deus, com a ajuda divina, eu farei o meu melhor para removê-las.

“Porque Deus tem lhes posto como mordomos sobre suas famílias para servi-Lo.

“Feliz de fato você será se Ele o considerar fiel em sua serventia.

“Vocês são chamados pastores, cuidem para não agir como mercenários.

“Sejam verdadeiros pastores, com seus cajados sempre às mãos.

“Não durmam, mas guardem de todos os lados o rebanho confiado a vós.

“Pois se através de seu descuido ou negligência um lobo levar uma de suas ovelhas, você certamente perderá vossa recompensa que está com Deus.

“E depois de ter sido duramente açoitado com remorso por seus erros, você será ferozmente destruído no inferno, a abadia da morte.

“Pois, de acordo com o evangelho, “você é o sal da terra” [Mateus 5:13].

“Mas se você ficar aquém de seu dever, pode-se perguntar como poderá ser salgado.

Beato Urbano II, Clermont-Ferrand, França. Fundo: catedral Notre Dame de l'Assomption da mesma cidade
Beato Urbano II, Clermont-Ferrand, França.
Fundo: catedral Notre Dame de l'Assomption da mesma cidade
“Quão grande é a necessidade de salgar! É de fato necessário que você corrija com o sal da sabedoria este povo insensato, que é tão dedicado aos prazeres deste mundo, para que o Senhor, quando desejar falar com eles, não os encontre putrificados por seus pecados, sem sal nem fedorentos.

“Pois se Ele encontrar neles vermes, isto é, pecados, é porque você tem sido negligente em seus deveres.

“Ele irá ordená-los inúteis para seres jogados no abismo das coisas impuras.

“E porque você não pode restaurar a sua grande perda, Ele certamente irá condená-lo e privá-lo de sua amorosa presença.

“Mas o homem que aplicar este sal deve ser prudente, providente, modesto, erudito, pacífico, vigilante, piedoso, justo, equilibrado e puro.

“Pois como pode o ignorante ensinar aos outros? Como pode o desregrado tornar os outros modestos? E como pode o impuro tornar os outros puros?

“Se alguém odeia a paz, como ele pode tornar outros pacíficos? Ou se alguém sujou as mãos com infâmia, como ele pode limpar as impurezas do outro? Lemos também que se o cego guiar o cego, ambos cairão na vala [Mateus: 15:14].

“Assim, primeiro, corrija-se a si mesmo, livrando-se da culpa. Você pode ser capaz de corrigir àqueles que estão sujeitos a você.

“Se você deseja ser amigo de Deus, faça de bom grado as coisas que você sabe que O agradarão.

“Especialmente, você deve deixar todos os assuntos que dizem respeito à Igreja serem controlados pela lei da igreja.

“E tome cuidado para que a simonia não crie raízes entre vós, com receio de que tanto quem compra como quem vende [funções da igreja] seja açoitado com os flagelos do Senhor através de ruas estreitas e levados para o lugar da destruição e confusão.

Arcepispo de Arundel prega ao povo na catedral de Canterbury. British Library MS Harley 1319 f12
Arcepispo de Arundel prega ao povo na catedral de Canterbury.
British Library MS Harley 1319 f12
“Mantenha a igreja e o clero em todo o seu valor, totalmente livre do poder secular.

“Verifique se os dízimos que pertencem a Deus são fielmente pagos a partir de todos os produtos da terra.

“Não deixe que sejam vendidos ou retidos.

“Se alguém capturar um bispo, que ele seja tratado como um fora da lei.

“Se alguém sequestrar ou roubar monges ou clérigos, ou freiras, ou seus agentes, ou peregrinos, ou comerciantes, que sejam anátemas [ou seja, malditos].

“Deixe que ladrões e incendiários e todos os seus cúmplices sejam expulsos da igreja e anatematizados.

“Se um homem que não dá uma parte de seus bens como esmola é punido com a condenação do inferno, como deve ser punido quem rouba bens de outro?

“Porque assim ocorreu com o homem rico no evangelho [Lucas 16:19], ele não foi punido porque ele havia roubado os bens de outro, mas porque ele não tinha usado bem as coisas que eram dele”.
(Fonte: Fulquério de Chartres, ou Fulcher de Chartres (1059 –1127). Apud BONGARS. Gesta Dei per Francos, 1, 382 f. In: THATCHER, Oliver J.; MCNEAL, Edgar Holmes. A Source Book for Medieval History. New York: Scribners, 1905. p. 513-17. Tradução de Caroline L. M. Pereira)


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domingo, 23 de novembro de 2014

“Uma espécie de rei eterno”(10)
São Luís, estadista da Cristandade 9

São Luís, estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.
São Luís, estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.
Luis Dufaur



continuação do post anterior: Reordena o Reino de Jerusalém


São Luís IX realizou a perfeição da França. Encarnou o país da harmonia, da bondade, da generosidade de alma e da inteira entrega a Nossa Senhora.

Ele parece presente na Sainte-Chapelle e em outros lugares que cantam a glória de Nosso Senhor e de Sua Mãe Santíssima.

Foi um santo segundo a alma da França, como São Fernando III de Castela, seu primo-irmão, foi o santo que a Espanha aguardava, ou Santo Henrique imperador foi o anelado da Alemanha.

Ele contribuiu para fazer da Idade Média uma Jerusalém terrestre, imagem da celeste.

Na Alemanha, quando alguém perguntava: “Como você vai?” e o outro ia muito bem, dizia: “Eu vou como vai o bom Deus na França”.

Pois, sob o santo estadista, a França imprimiu na Europa o equilíbrio ideal entre os senhores feudais, a realeza e o povo, entre o Papa e o Imperador, entre os soberanos vizinhos.

O governante sem sabedoria perde seu povo e o rei sábio o salva. Sem sabedoria, o poder civil ou eclesiástico se transforma em instrumento de perdição.

Por isso, Dom Guéranger, o grande abade de Solesmes, formulou um elogio lapidar do santo: “A Sabedoria eterna desceu um dia de seu trono no Céu e pousou sobre São Luís”.

FIM
Estátua de São Luís na basílica de Montmartre, Paris Fundo Eskimo Nebula, NGC 2392, Hubble Space Telescope
Estátua de São Luís na basílica de Montmartre, Paris
Fundo Eskimo Nebula, NGC 2392, Hubble Space Telescope
Notas:


(*) São Luís tornou-se então o árbitro da Cristandade, por suplência e em caráter excepcional, exercendo a função própria ao Imperador — no caso o ímpio Frederico II, que se tornara inepto para exercê-la; e também exercendo o papel de mediador entre o Imperador e os Papas Gregório IX e Inocêncio IV, pois sua autoridade moral superava às dos supremos titulares tanto do plano temporal quando do espiritual.
1) Dom Prosper Guéranger O.S.B., L’anné liturgique, http://www.abbaye-saint-benoit.ch/gueranger/anneliturgique/pentecote/pentecote05/003.htm.
2) Georges Bordonove, Saint Louis, conferencia pronunciada em Paris, em 16-12-92 na Fundação Dosne-Thiers.
3) Henri Pourrat, Les Saints de France, Editions Contemporaines Boivin, 1951.
4) Henri Pourrat, Id. ibid.
5) Na época de São Luís, a libra tournois era cunhada pela abadia de Tours, que lhe dava o nome. Continha 6,74 gramas de ouro, ou 80,88 gramas de prata. Em reais, a libra tournois de ouro valeria: 6,74 gramas X R$ 93,00 = R$ 626,82. Cfr.: http://fr.wikipedia.org/wiki/Livre_tournois; http://ourohoje.com/.
6) Cathédrale Notre-Dame de Paris, La Couronne d’Épines, Association Maurice de Sully, Montligeon, 2014, pp. 29 e ss.
7) Id. ibid.
8) René Grousset, Histoire des Croisades et du Royaume Franc de Jerusalem, Plon, Paris 1936, vol. III, p. 489; J. F. Michaud, História das Cruzadas, Editora das Américas, São Paulo, Vol. V, pp. 87/88.
9) Georges Bordonove, Saint Louis, col. Les rois qui ont fait la France, Ed. Pygmalion, Paris, 1984, p. 314.
10) Georges Bordonove, Saint Louis, id. ibid., p.319.



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