domingo, 23 de agosto de 2015

Esplendor do gótico e glória da Idade Média

Catedral de Burgos, Espanha
Catedral de Burgos, Espanha




Gótico! Quanta glória encerra esta expressão!

Quando a Renascença exumou a cultura clássica e rejeitou a civilização medieval, “gótico significava “bárbaro”, grotesco, próprio aos Godos.

Hoje, com o correr dos séculos, a pátina do tempo transformou “gótico” em sinônimo de “glória”.

Glória pelo esplendor da arte que elaborou o arco ogival e rasgou os céus com as torres de catedrais como as de Paris, Chartres e Colônia.

Glória pela civilização que extinguiu a escravidão, converteu os bárbaros, inventou as universidades e construiu os primeiros hospitais.

Catedral de Estrasburgo, França
Catedral de Estrasburgo, França
Glória pela “doce primavera da Fé”, época em que o teólogo e o arquiteto uniram seus talentos para louvar a Deus.

* * *

Se alguém, no entanto, quiser intuir num simples golpe de vista o fulgor dessa glória, basta observar as fotos de nosso post.

O jogo de luzes e sombras realça o imponderável da cena.

Do belo edifício gótico aparecem apenas algumas partes, iluminadas por intensa luz dourada.

As muralhas e as ogivas imergem no mistério.

Capela de Saint Hubert, no castelo de Amboise, Loire, França
Capela de Santo Huberto, no castelo de Amboise, Loire, França

* * *

Construída sobre rocha escarpada às margens do Loire, no jardim da França.

A capela de Santo Huberto lembra o apogeu da Idade Média, embora o castelo a que pertença, Amboise, tenha sido edificado em estilo renascentista.

Apogeu que infelizmente teve breve duração, mas que iluminou o firmamento da História assim como um corisco ilumina a abóbada celeste.

Fixa nesse instante de glória, a capela de Santo Huberto irradia ao longo dos séculos o esplendor da arte gótica!




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domingo, 16 de agosto de 2015

Conhecimentos industriais e científicos da Antiguidade cuidadosamente aproveitados






Certos tratados do mundo antigo eram conhecidos na Idade Média. Conservamos 7 manuscritos do século X do Tratado da Arte Militar de Vegécio, escritor latino do século IV; chegaram-nos ainda 19 manuscritos do século XIII e, no mínimo, uma centena dos séculos XIV e XV.

Enfim, a obra de Vitrúvio, que constitui um manancial de informações sobre a técnica romana e a arquitetura clássica era facilmente encontrada nos mosteiros e cidades da 'Europa Ocidental.

Foi copiada e recopiada inúmeras vezes, entre outras, no século VIII, pelos clérigos de Jarrow, na Inglaterra.

Sabemos que no século IX, Eginhard, que era responsável pelas construções do imperador Carlos Magno, possuía um exemplar. Os ricos mosteiros de Fulda e de Reichenau conservavam uma copia de Vitrúvio cada um.

No século XI, um outro manuscrito foi caligrafado pelos beneditinos da Abadia de Saint-Pierre de Gand. Um século mais tarde, esse famoso texto foi recopiado 12 vezes.

No século XX, restam 55 exemplares que se escalonam entre os séculos X e XV.

Em 1414, o humanista italiano Poggio “redescobriu” um manuscrito de Vitrúvio entre os tesouros da biblioteca do Mosteiro de Saint-Gall.

Nessa época, acreditava-se geralmente que a Idade Média não conhecera a existência do arquiteto romano. Os intelectuais da Renascença nada fizeram para dissipar esse erro.

Os medievalistas tiveram dificuldade (ainda hoje têm) em corrigir o erro dos humanistas dos séculos XV e XVI. O Carnet de Notes de Villard, assim como outros documentos posteriores ou contemporâneos, provam, pelo contrário, a que ponto a civilização romana era apreciada pelos homens da Idade Média.

Os desenhos de Villard que se inspiraram em estátuas e monumentos antigos são em grande número.

Por exemplo, duas cabeças barbudas e coroadas de folhas, personagens vestidos de clâmide [manto dos antigos gregos], ostentando o barrete frígio, e um nu enigmático que brande um vaso de flores. Este último desenho é sombreado em tom castanho escuro. Todos são claramente de inspiração clássica.

Um croqui representando um monumento antigo ocupa toda uma folha e tem a seguinte legenda: “Vi outrora o túmulo de um muçulmano. Eis como era”.

Copia do tratado de Vitrúvio, por volta de 1390.
Wolbert H.M. Vroom Collection, Amsterdam
O Tratado de Arquitetura de Vitrúvio teve uma influência inegável sobre os temas estudados por Villard.

Tal como os outros arquitetos do mundo antigo, Vitrúvio era um homem das artes mecânicas, isto é, não tinha recebido qualquer formação acadêmica, a qual somente era acessível aos ricos.

Vivamente magoado com a inferioridade da condição social dos arquitetos, procurou obter para ele e seus colegas a consideração e o respeito de que deveriam gozar suas atividades de arquiteto.

Vitrúvio queria que a cultura do arquiteto fosse enciclopédica. O próprio Vitrúvio nunca atingiu esse ideal. Seu latim não era dos melhores. Entretanto, graças à extensão de seus conhecimentos e também às suas ambições intelectuais, conhecemos numerosos aspectos da tecnologia helênica e romana.

Villard foi a sobrepor figuras geométricas aos seus croquis de homens e animais. Esses desenhos são frequentemente reproduzidos pelos editores modernos e certos historiadores de Arte quiseram ver em Villard de Honnecourt o precursor dos cubistas, o que ele não foi.


(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).




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domingo, 9 de agosto de 2015

Energia industrial para invenções e “gadgets”
em plena era medieval

Catapulta, reconstituição moderna
Catapulta, reconstituição moderna



continuação do post anterior: A Idade Média à procura do Movimento Perpétuo
para resolver o problema da energia




Autor da primeira representação conhecida da serra hidráulica, Villard dá-nos uma nova prova da importância que a Idade Média atribuía à energia utilizada para fins industriais.

Sob um croqui, ele anota: “Por este meio faz-se uma serra serrar por si mesma”.

Essa serra é também a primeira máquina automática a dois tempos: “Ao movimento circular das rodas, criando um movimento alternado capaz de serrar, soma-se a regulagem auto- mática da madeira à serra”.

Sob o desenho dessa serra automática encontra-se o mais antigo esquema de um movimento de relojoaria. Esse mecanismo está ligado por um eixo à estátua de um anjo colocado no telhado de uma grande igreja.

Uma estátua dessas existia em Chartres, antes da sua destruição pelo fogo em 1836. O mecanismo fazia girar a estátua lentamente, acompanhando o curso do Sol no céu.

Villard explica que, “por esse meio pode-se fazer com que um anjo mantenha sempre o seu dedo apontado para o Sol”.

E em outra altura: “O desenho representa uma armação que sustenta um eixo vertical e um fuso horizontal sobre o qual assenta uma roda. Uma corda lastrada com um peso e enrolada em redor de uma polia passa horizontalmente e enrola-se duas vezes em torno do eixo vertical.

Relógio de sol medieval na fachada da catedral de Chartres, o autômato desapareceu num incêndio.
Relógio de sol na fachada da catedral de Chartres,
o autômato desapareceu num incêndio.
“A corda é dirigida para o fuso horizontal e aí se enrola 3 vezes, antes de passar em redor de uma segunda polia. Um segundo peso, inferior ao precedente, está suspenso na ponta da corda. A queda do peso mais pesado deflagra um movimento que faz girar o eixo vertical e o fuso horizontal” (The Sketchbook of Villard de Honnecourt, ed. R. Willis, Londres, 1859, p. 161).

Ainda antes do final do século XIII, os engenheiros medievais teriam aperfeiçoado o mecanismo de escapo e construído o relógio de pesos, destinado a desempenhar um papel tão importante na história das técnicas do mundo ocidental.

Na mesma lâmina do Carnet, no canto situado em baixo e à esquerda, Villard representou uma águia recheada de cordas e polias.

Diz o texto: “Por este meio pode-se fazer girar a cabeça da águia para o diácono durante a leitura do Evangelho”. Esse mecanismo engenhoso nada mais é senão um brinquedo automático ou, para empregar uma palavra em moda, um gadget.

Villard, segundo parece, adorava os gadgets, pelo menos tanto quanto as gerações de americanos nascidos depois da Segunda Guerra Mundial, e concebeu ainda dois mecanismos extremamente curiosos: um é o esquenta-mãos, o outro uma taça:

“Para se fazer um esquenta-mãos, faz-se primeiro uma espécie de bola de cobre, como uma batata, composta de duas metades que se encaixam uma na outra. No interior dessa bola de cobre deverá haver 6 arcos, igualmente em cobre, cada um deles montado sobre 2 pivôs.

“No centro, encontra-se um pequeno braseiro e mais 2 pivôs. Os pivôs serão alternados de modo que o braseiro se mantenha sempre em posição vertical.

“As brasas incandescentes nunca poderão escapar, se forem atentamente seguidas as instruções do desenho. Este mecanismo é bom para um bispo.

“Ele pode assistir sem hesitação à grande missa; enquanto o tiver em suas mãos, não sentirá frio algum durante o tempo em que houver fogo.

“O mecanismo está construído de maneira tal que, gire de que lado girar, o pequeno braseiro estará sempre direito”.

Esse mecanismo, descrito por Villard com tanta precisão, foi adotado para manter horizontais as bússolas marítimas e verticais os barômetros.

O outro objeto é um cálice conhecido pelo nome de taça de Tântalo: um pássaro está pousado no cimo de uma pequena torre, no interior de uma taça de vinho.

O pássaro parece beber quando se despeja vinho na taça. O mecanismo é explicado com a ajuda do desenho.

Mas o desenho, pouco exato, é enganador, porquanto mostra o bico do pássaro demasiado alto em relação à borda da taça.

Esse pássaro mecânico é um brinquedo já conhecido do mundo antigo. Está descrito no Problema XII de A Pneumática de Heron de Alexandria, que viveu no primeiro século da nossa era.

O galo canta ainda três vezes por dia na catedral de Estrasburgo.
O galo canta ainda três vezes por dia na catedral de Estrasburgo.
Os textos que dele nos chegaram são traduções em latim de manuscritos árabes.

A cópia incorreta do mecanismo que Villard fez mostra que ele nunca teve essa taça entre as mãos. Contentou-se em dar livre curso à sua imaginação, servindo-se de um texto latino.

Villard, como outros arquitetos de seu tempo, foi também engenheiro, construtor de máquinas de guerra.

Em seu Carnet, dedicou uma página aos desenhos pormenorizados de uma potente catapulta.

Infelizmente, falta uma página. Mas a página restante está inteiramente coberta com o desenho desse engenho militar.

A legenda explica: “Quem quiser construir o poderoso engenho a que se dá o nome de bodoque, deverá prestar muita atenção ao seguinte.

“Eis a plataforma, tal como assenta em terra. Na parte da frente, as duas molas e a corda frouxa, com a qual se leva novamente a verga, como se pode ver na outra página.

“Há um grande peso a transportar, porque o contrapeso é muito pesado, sendo constituído por uma arca cheia de terra. Ela tem de comprimento dez toesas grandes, nove pés de largo e doze de fundo. Pensai no impulso da flecha e tomai cuidado, pois ela deve ser colocada contra a travessa da frente”.

Villard também teria sido um construtor de pontes e esboçou um mecanismo muito complexo que permitia serrar madeira debaixo de água.

“Por meio deste engenho, serra-se os pilotis na água para assentar uma plataforma sobre eles”.

Uma lenda, sem fundamento histórico, atribui a construção de certas pontes, na França, a um grupo de homens devotos, talvez religiosos, que se deslocavam de uma cidade a outra segundo as necessidades do urbanismo local.



O relógio astronômico da catedral de Estrasburgo:




(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).

continua no próximo post: Conhecimentos industriais e científicos da Antiguidade cuidadosamente aproveitados



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domingo, 2 de agosto de 2015

A Idade Média à procura do Movimento Perpétuo
para resolver o problema da energia

Horloge de la Sapience, Henri Suso, Bibliothèque royale de Belgique, ms IV 111, f 13v.
Horloge de la Sapience, Henri Suso,
Bibliothèque royale de Belgique, ms IV 111, f 13v.


continuação do post anterior: A movimentada vida dos engenheiros medievais



Sabemos que, após a morte de Villard, duas gerações, pelo menos, utilizaram o seu álbum.

Os especialistas identificaram em certas folhas a escrita mais recente de dois comentadores anônimos do final do século XIII, denominados, por uma questão de comodidade, Magister I e Magister II.

Mas os desenhos de mecanismos são todos do punho de Villard e o mais interessante relaciona-se com o problema do movimento perpétuo.

Esse desenho reflete o interesse apaixonado com que os homens da Idade Média procuravam novas fontes de energia. Para aumentar a produção energética, eles investigaram além da energia eólia, hidráulica e das marés:
Projeto de movimento perpetuo de Villard de Honnecourt
Projeto de movimento perpetuo de Villard de Honnecourt

“O mundo inteiro acabou por ser apenas, aos olhos deles, um vasto reservatório de forças naturais que era possível captar à vontade e utilizar para satisfação das necessidades e dos desejos humanos.

“Sem a ousadia de sua imaginação e mesmo sem a fantasia de algumas de suas criações, a potência energética do mundo Ocidental jamais se poderia desenvolver” (Lynn White, Technologie médiévale et transformations sociales, Mouton, Paris-Haia, 1969, pp. 137-8.)

Pouco importa que os mecanismos do irrealizável movimento perpétuo, imaginados no século XIII, nunca tivessem funcionado.

O que importa é que tenham sido encontrados no século XIII cientistas e engenheiros para tentar construir esse movimento com fins práticos.

Villard de Honnecourt compartilha com outros contemporâneos seus da honra de ter trabalhado nesse sentido:

“Inúmeras vezes discutiram entre si os mestres para fazer girar uma roda por si mesma. Eis como é possível fazê-lo, por meio de malhetes não pares e mercúrio”.

Em 1269, Pierre de Maricourt, um dos grandes cientistas do seu século, sublinhava em sua obra sobre o magnetismo o vivo interesse dos investigadores por esse problema: “Vi muitos homens exaustos em sua investigação para inventar essa roda”.

Villard, por sua parte, pensava ter encontrado a boa solução, mas, nesse domínio, não foi um inovador, pois a noção de movimento perpétuo já era conhecida no século XII na Índia, onde florescia uma rica tradição de filosofia cíclica.

Reconstituição moderna do projeto de movimento perpetuo  de Villard de Honnecourt
Reconstituição moderna do projeto de movimento perpetuo
de Villard de Honnecourt
O emprego da bússola, já bastante generalizado no século XIII, levou Pierre de Maricourt a indagar se não se poderia obter, através do magnetismo, um movimento perpétuo semelhante ao movimento da gravidade.

Ele imaginou dois sistemas. O primeiro é o esquema de uma máquina animada de um movimento magnético perpétuo.

Eis como ele descreve o segundo:

“Um ímã esférico que, na condição de ser montado sem fricção paralela ao eixo celeste, giraria uma vez por dia. Corretamente inscrito numa carta dos céus serviria de esfera armilar automática para as observações astronômicas e os relógios, permitindo assim dispensar-se qualquer outro aparelho de medição do tempo.” (Technologie médiévale, op. cit., p. 137.)


(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).

continua no próximo post: Energia industrial para invenções e “gadgets” em plena era medieval



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