domingo, 1 de maio de 2016

O grande papel de Cluny na formação da Idade Média

A vinda de Cristo em majestade ocupava lugar central na cosmovisão de Cluny.  Berzé-la-Ville, capela dos monges, inspirada na grande igreja de Cluny III
A vinda de Cristo em majestade ocupava lugar central na cosmovisão de Cluny.
Berzé-la-Ville, capela dos monges, inspirada na grande igreja de Cluny III
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



No século XX os estudos sobre Cluny se multiplicaram.

Deles o mosteiro saiu engrandecido, e sua gloriosa história, mais bem conhecida, provoca o interesse sempre crescente dos pesquisadores, suscitando mesmo em alguns um verdadeiro entusiasmo.

O pequeno mosteiro fundado em 910 pelo Bem-aventurado Bernon em terras doadas pelo Duque da Aquitânia, Guilherme o Piedoso, teve quatro grandes Abades — Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo.

Seus longos abaciatos se estenderam por dois séculos, constatando-se com surpresa que nesse período Cluny reformou completamente a vida monástica na Europa, contribuiu de modo eficaz para a reforma da Igreja, formou a Cristandade nos seus mais variados aspectos e a conduziu aos grandes feitos da Idade Média.

Cluny conquistou rapidamente a liderança da vida religiosa do Ocidente e nela se manteve, pelo menos durante o governo dos seus quatro grandes abades, com glória e majestade.

“Com Cluny – diz um historiador –, ao longo desses dois séculos ter-se-á essa impressão de solidez e permanência na tradição que, no passado, se esperava da Santa Sé; Cluny é verdadeiramente uma nova Roma” (Delaruelle, Latreille, Palanque, “Histoire du Catholicisme en France”, vol. I, p. 251).

“Não sei — diz outro autor — que entusiasmo, que voga, que moda salutar atrai todo mundo, Papas, príncipes e monges, a Cluny, como ao porto mais seguro.”

O estrangeiro se contagia: a Espanha e a Inglaterra. Cluny torna-se o guardião oficial da regularidade monástica.

“Um mosteiro decai na observância, o Papa o entrega ao zelo cluniacense. Hugo parece ser verdadeiramente o Abade dos abades, e, com exceção do Papa, ninguém é comparável a ele na Cristandade” (D. Charles Poulet, “Histoire de l’Église de France”, t. I, p. 124).

Torre de Cluny, a única remanescente da depredação revolucionária.
Torre de Cluny, a única remanescente da depredação revolucionária.
Queremos estudar os primeiros tempos do Sacro Império Romano Alemão?

Lá encontramos os cluniacenses dirigindo a Imperatriz Adelaide e ajudando com seus conselhos espirituais e políticos os três primeiros Otons, Conrado e Santo Henrique II a trabalharem pela restauração do Império de Carlos Magno.

É a reconquista espanhola que nos interessa?

De novo os cluniacenses aparecem colaborando na luta contra os muçulmanos.

É a história do Papado que nos chama a atenção?

Os cluniacenses lá estão para retirá-lo do opróbrio em que caíra nos séculos IX e X, e, cerrando fileiras em torno de um de seus monges, São Gregório VII, colaboram com ele na luta gigantesca que esse grande Papa trava com o Imperador Henrique IV para afirmar a primazia do espiritual sobre o temporal.

São as canções de gesta que despertam o nosso interesse?

Surge Cluny, com todo o seu prestígio, compondo, incentivando, propagando essas epopeias da Cristandade.

É o feudalismo que nos atrai?

Não terá sido Cluny o criador do feudalismo católico?

Enfim, é a Cristandade, em todo o seu esplendor, que nos seduz?

Como negar que foi esse incomparável mosteiro que a modelou com a perfeição com que hoje a conhecemos pela História?

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




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domingo, 24 de abril de 2016

Uma vocação familiar para relógios nunca antes sonhados: os Dondi

O relógio astronômico da Torre dell'Orologio, Pádua, recentemente restaurado
O relógio astronômico da Torre dell'Orologio, Pádua, recentemente restaurado
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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O pai de Giovanni, Jacopo di Dondi, nascido por volta de 1293, como Richard Wallingford, ensinou Medicina e foi o inventor de um relógio que Antônio, um técnico paduano, montou na torre do palácio Capitano, em Pádua.

Aperfeiçoou igualmente um método que permitia a extração de sal de mananciais quentes que existiam perto de Pádua. O sal obtido pareceu suspeito e Jacopo foi obrigado a redigir “um breve tratado de quatro capítulos para se defender contra os seus detratores e seus rivais invejosos da invenção”. (Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, vol. III, Columbia Univ. Press, 1934, p. 392)

O tratado devia ser convincente, pois a 20 de agosto de 1355 Jacopo di Dondi obteve do Príncipe de Carrara o monopólio exclusivo da extração de sal e sua venda isenta de taxas. O interesse que Jacopo dedicava aos astros levou-o a corrigir as tabelas astronômicas em uso.

Em 1424, Prosdocimo de Baldomandi comprovou que “as tabelas de movimentos planetários que Jacopo di Dondi, de Pádua, extraiu das tabelas afonsinas são mais simples e mais cômodas de usar, e que estão verificadas e corrigidas tão bem ou melhor que as próprias tabelas afonsinas” (“Mechanical Universe”, p. 19).

Jacopo era viúvo. Viveu em Pádua, na casa de seu filho Giovanni, desde 1348 até sua morte em 1359. É verossímil que pai e filho trabalhassem juntos nos planos do relógio astronômico, embora o tratado de Giovanni não mencione em parte alguma o papel de seu pai.

Esse extenso tratado de mais de 130.000 palavras explica em detalhe por que motivo construiu o relógio, como o construiu, como dispor os quadrantes e como decifrá-los, de que modo o conservar em estado de funcionamento e como corrigi-lo.

As explicações de Dondi são muito precisas. Ele especifica qual deve ser a espessura das placas de metal, o comprimento dos pregos e a colocação dos orifícios. Quando quase todos os relógios da época eram em ferro forjado, este é em cobre e bronze.

Detalhe do relógio astronômico na igreja de Santa Maria em Rostock, Alemanha, feito em 1472 por Hans Düringer.
Detalhe do relógio astronômico na igreja de Santa Maria em Rostock, Alemanha,
feito em 1472 por Hans Düringer.
Os modelos que se encontram atualmente no Instituto Smithsoniano e no Museu de Ciências são reproduções exatas da obra-prima de Dondi. Tão exatas que, apesar do distanciamento num passado de mais de seis séculos, a habilidade e a inteligência do italiano do século XIV apresentam-se-nos quase tão ricamente complexas quanto as engrenagens de uma máquina de calcular contemporânea.

Dondi desenhou em primeiro lugar a armação heptagonal do relógio. Em sua parte superior, estavam instalados os quadrantes do Sol, da Lua e dos cinco planetas conhecidos no século XIV: Vênus, Mercúrio, Saturno, Júpiter e Marte.

Na parte inferior, havia um quadrante dividido em 24 horas, um calendário indicando as festas fixas e as festas móveis da Igreja e as linhas dos nós.

Em seguida, Dondi desenhou o movimento horário do relógio. É o desenho mais antigo que se conhece de um movimento de relojoaria automático.

Lamentavelmente, Dondi fornece poucas indicações explícitas. “Se o estudante que lê o meu manuscrito não compreende por si mesmo o meu relógio, perderá tempo se continuar a estudar o meu texto”. (Some Outstanding Clocks ..., p. 141).

Os Segredos de uma Máquina Maravilhosa

Não obstante, ele pormenorizou o conjunto de peças da engrenagem: “Rotação do círculo horário em 24 horas: 144 dentes, pinhão de 12 portador de uma roda de 12 dentes, engrenando numa roda de 24 dentes sobre um tambor.

“Portanto, o tambor tem 10 rotações em 24 horas; a roda grande de 120 dentes em prise com um pinhão de doze, portador de uma segunda roda de 80 dentes que tem, por conseguinte, 100 rotações por dia.

“A segunda roda engrena um pinhão de 10, portador de uma roda de escapo de 27 dentes que faz, portanto, 800 rotações por dia, provocando cada rotação 54 oscilações do volante, ou seja, 43.000 oscilações por dia, logo, uma batida de 2 em 2 segundos. Essa batida é a batida-padrão”.

O pêndulo de Dondi tem um volante circular em vez do pêndulo em liga metálica (foliot à regule), Nessa época, na Itália, o dia estava dividido em 24 horas, contadas a partir do pôr-do-sol. Dondi construiu, por conseguinte, um quadrante munido de tabelas gravadas e divididas dos dois lados em meses e dias.

Dessa forma, podia-se determinar o nascer e pôr-do-sol para cada dia do ano. Dondi, porém, adotou uma outra contagem; ele fez o seu ciclo de 24 horas começar ao meio-dia, achando que esse momento era mais seguro que o pôr-do-sol para servir de ponto de partida de seus cálculos astronômicos.

O quadrante das horas girava no sentido inverso ao dos ponteiros de um relógio atual; portanto, a leitura da hora fazia-se na borda inferior esquerda de cada graduação horária.

Para fazer com que o quadrante anual indicasse as 6 festas fixas, ele realizou um grande anel circular. Na borda superior, talhou 365 dentes para os 365 dias do ano.

No exterior do anel, gravou a duração de cada dia em horas e minutos a letra dominical, a data do mês e o nome do santo a festejar. A data do dia aparecia numa abertura feita na placa do quadrante.

O calendário das festas móveis exigia engrenagens de uma complexidade inaudita e só em 1842, 500 anos mais tarde o relojoeiro Jean-Baptlste Sosime Schwilgué conseguiu construir um outro, o do terceiro relógio astronômico de Estrasburgo.

Em 1582, a introdução do calendário gregoriano tornara a construção de calendários astronômicos ainda mais complicada.

Há cinco festas móveis, das quais a Páscoa é a mais importante porque, uma vez determinada a sua data, as datas das outras festas encontram-se automaticamente.

Para obter a data da Páscoa, Dondi construíra 3 correntes. A corrente superior tinha 28 elos, correspondentes aos 28 anos de um ciclo solar.

A segunda corrente tinha 19 elos correspondentes ao ciclo lunar e a corrente inferior tinha 15 elos correspondentes a um período de tempo utilizado no Direito Romano.

O calendário das festas fixas estava colocado sob o quadrante de Vênus e o calendário perpétuo sob o de Mercúrio.

Relógio astronômico numa rua de Rouen, França.
Relógio numa rua de Rouen, França.
Leonardo da Vinci copiou certamente os quadrantes de Vênus e de Marte da natureza, pois o seu desenho faz aparecer detalhes que não se encontram no desenho do tratado de Dondi.

Os quadrantes de Mercúrio e da Lua eram os que tinham os mecanismos mais complexos. Comportavam rodas ovais, executadas de acordo com os planos de Dondi.

Uma dessas rodas tinha os dentes talhados para dentro. É, sem dúvida, a primeira aplicação de tal técnica.

“No quadrante de Mercúrio, além da correção dos anos bissextos, encontra-se a indicação de uma segunda correção a efetuar-se 144 anos mais tarde, avançando a roda M de um dente. O argumento de Mercúrio tem um atraso anual de 42'5”, portanto, é preciso avançar o quadrante de 2/3 cada ano, com uma correção residual de 1º de todos os 29 anos”.

O desenho do quadrante da Lua mostra uma roda dentada oval correspondente à órbita elíptica desse planeta. Esse movimento é tão complicado que será necessário esperar até meados do século XVIII para que o inglês Thomas Mudge consiga, entre 1755 e 1760, construir um relógio astronômico com calendário lunar.

As engrenagens dos relógios de Su Song (1020–1101 d.C.) e de Jacopo Dondi dell Orologio (1293–1359), eram de uma tal complexidade que, após a morte de seus inventores, foi muito difícil encontrar artesãos capazes de repará-los, a despeito das instruções muito pormenorizadas que eles tinham tido o cuidado de deixar a respeito da construção, conservação e reparação dessas maravilhosas máquinas.

Sabemos, entretanto, que um certo Guilherme de Zelândia, instalado em Carpentras, logrou reparar o relógio de Dondi. Mas em 1529-1530, quando Carlos V viu o relógio em Pádua, ele não funcionava; e, depois dessa data, nunca mais voltou a ser mencionado.

Seria necessário esperar 1561 para que se pudesse construir um semelhante. A construção de instrumentos tão fascinantes quanto o relógio de Dondi põe o problema das relações que existem entre as “artes liberais” e as “artes mecânicas”, isto é, entre a ciência e a tecnologia. (H. A. Lloyd, Old Clocks, Ernest Benn e Dover Puhlications; Londres e Nova York, 1970, pp. 198-9)

Se as artes liberais não desempenham papel algum na construção de máquinas produtoras de energia hidráulica, desempenham um, e importante, na construção dos mecanismos e engrenagens de relojoaria.

Para realizar esses aparelhos complicados e precisos, cientistas e técnicos tiveram de colaborar estreitamente na mesma tarefa. Essa colaboração entre a ciência e a tecnologia é um fato raro e será preciso aguardar a segunda metade do século XIX para que ela se torne um fato consumado.

A conjunção desses talentos foi saudada com respeito e admiração. O relógio de Dondi era célebre em toda a Europa.

Relógio astronômico na catedral de Lund, Suécia
Relógio astronômico na catedral de Lund, Suécia
Por volta de 1385, Philippe de Maísière, um amigo pessoal do inventor, escrevia que “o relógio é uma tal maravilha que os astrônomos mais solenes vêm de regiões muito longínquas para admirá-lo com o mais profundo respeito”. (Songe du viel pelerin, por G. W. Coopland, Cambridge Univ. Press, 1969, VoI. I, p. 606).

Petrarca, que também foi amigo de Dondi, legou-lhe 50 ducados para a compra de um anel de ouro que deveria usar em lembrança dele. Petrarca fala de “mestre Giovanni di Dondi, filósofo nato e muito naturalmente o príncipe dos astrônomos.

Chamam-lhe 'Dell Orologio' em virtude do maravilhoso planetário que ele construiu e que os ignorantes tomam por um relógio ...” (Citado em Bedini e Maddison, “Mechanical Universe ...”, pp. 15-16).

Com efeito, ao contrário do relógio de Su Song, preciosamente escondido dos olhares profanos, o relógio de Dondi podia ser admirado e desenhado pelos astrônomos, engenheiros ou mesmo simples amadores.

Ele serviu durante muito tempo de protótipo à construção de outros relógios astronômicos das grandes cidades da Europa, sobretudo na Itália e Alemanha do Sul, onde ornaram as paredes de edifícios públicos e as torres de igrejas.

O seu prestígio era evidente. A partir da segunda metade do século XIV, são numerosos os pêndulos e relógios. Alguns chegaram até nós, quando não em perfeito estado, pelo menos em peças soltas.

Em nossos dias, dois pêndulos conservam-se ainda em perfeito estado: o de Wells que data de 1392, e o da catedral de Salisbury, que continua a dar horas desde 1386. (O pêndulo de Wells a que se refere o texto encontra-se na torre da catedral gótica da cidade. N. do T.)

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)




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domingo, 17 de abril de 2016

Um abade na ponta da tecnologia: Dom Richard Wallingford

Dom Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans trabalhando
Dom Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans trabalhando
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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sócio do IPCO,
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Um pêndulo astronômico foi graficamente representado pela primeira vez na miniatura de um manuscrito inglês do século XIV.

Nessa miniatura o inventor Richard Wallingford (1292–1336), Abade de Saint-Albans (que parece sofrer de uma desagradável doença de pele), aponta para seu pêndulo, com um dedo esticado.

Richard Wallingford era um homem notável, mas de temperamento difícil (foi ele quem mandou apreender, em 1331, as mós dos moinhos para pavimentar o pátio do mosteiro e humilhar os habitantes de Saint-Albans).

Ele teria adquirido na forja paterna algumas noções de ferragem e mecânica. Órfão aos 10 anos foi recolhido pelo prior que o mandou estudar em Oxford, ingressando depois no mosteiro de Saint-Albans, do qual viria a ser abade em 1326.

Além de seu custoso e complicado relógio, Wallingford concebeu novos métodos de trigonometria que lhe valeram o título de “pai da trigonometria inglesa”.

Também inventou dois instrumentos astronômicos o Albion e o Rectangulus. O Albion, semelhante ao equatório planetário, servia para determinar a posição dos planetas. Para os homens da Idade Média, foi um dos instrumentos mais importantes de cálculo astronômico.

Quanto ao Rectangulus, numerosos tratados e fragmentos de textos chegados até nós fazem a sua descrição.

“O Rectangulus era um instrumento formado por um grupo de quatro réguas de couro articuladas no topo de um eixo vertical com a ajuda de uma rótula orientável.

“A régua inferior tem gravada uma escala numérica. A régua superior tem as miras. Prende-se-lhe um fio de prumo que desce até à escala numérica da régua inferior. As réguas II e III são móveis e podem ser ajustadas de modo a formar um ângulo determinado com a régua inferior, a qual deve permanecer na horizontal”. (R. T. Gunter, Early Science in Oxford, vol. II, Oxford, 1923, p. 32).

O abade Richard of Wallingford aponta para seu relógio.
O abade Richard of Wallingford aponta para seu relógio.
As explicações deixadas por Wallingford são minuciosamente precisas, ao ponto de permitirem a reconstrução de um Rectangulus tal como era há 600 anos.

O seu tratado divide-se em duas seções: a construção e o emprego do instrumento. Certos desenhos são verdadeiros croquis de engenheiro.

Um deles mostra “uma régua graduada baseada na divisão por seis, em vez da divisão por cinco”. (Early Science in Oxford, p. 32.)

A paixão de Wallingford pela pesquisa e as invenções valeu-lhe a hostilidade dos seus próprios monges e até uma reprimenda do Rei Eduardo III.

O cronista de Saint-Albans, Thomas Walsingham, descreveu de forma pitoresca a oposição com que Wallingford se deparou desde que quis construir o seu relógio.

Os seus projetos, como os dos inventores de todos os tempos, foram considerados extravagantes, inúteis e dispendiosos.

“Richard executou na igreja um trabalho magnífico, um relógio que exigiu muito dinheiro e muito trabalho. A malevolência de seus irmãos monges, que consideravam esse pêndulo o cúmulo da loucura, não o fez abandonar a tarefa.

“Ele tinha, entretanto, a desculpa de ter decidido construir o relógio com pouca despesa, pois a igreja necessitava de reparações evidentes e admitidas por todos.

“Na ausência de Richard, os frades intrometeram-se, os operários tomaram-se exigentes e o trabalho começou com um orçamento importante. Mas teria parecido estranho que não se terminasse o que fora começado.

“Quando o mui ilustre Rei Eduardo III veio a Saint-Albans e visitou a abadia para aí rezar, notou os suntuosos trabalhos do relógio, enquanto que a reconstrução da igreja, danificada ao tempo do Abade Hugo, não avançava.

“O Rei censurou discretamente Wallingford por negligenciar as reparações e gastar tanto dinheiro na construção de uma máquina tão inútil quanto um relógio.

“Richard respondeu mui respeitosamente que, depois dele, seria fácil encontrar um número suficiente de abades e operários para reconstruir os edifícios do mosteiro, mas que, após sua morte, nenhum sucessor poderia terminar esse trabalho.

“Ele falava verdade pois que, nessa arte, nada apareceu de semelhante e ninguém inventou coisa alguma do mesmo gênero durante sua vida”. (Citado em S. Bedini e F. Maddison, “Mechanical Universe. The Astrarium of Giovanni di Dondi”, Transactions of the American. Philosophical Society, vol. 56, outubro de 1966, pp. 6-7).

Réplica do relógio de Dom Wallingford, catedral de St Albans, Inglaterra.
Réplica do relógio de Dom Wallingford, catedral de St Albans, Inglaterra.
John Leland, visitando a abadia em 1540, admirou o relógio que acreditou sem igual em toda a Europa:

“Pode-se observar nele o curso do Sol e da Lua, das estrelas fixas e até os movimentos das marés”. Fala também do tratado de Wallingford em que se descreve “esse admirável mecanismo”.

Esse tratado foi desconhecido até 1965, data em que o Dr. J. D. North chamou a atenção dos medievalistas para um manuscrito da biblioteca de Oxford que parecia ser o famoso tratado.

“O texto inclui quatro ou cinco ilustrações. Três delas mostram conjuntos de engrenagens ou projetos de transmissões mecânicas. Uma outra mostra o corte transversal de um quadrante, os ponteiros e o globo lunar de um relógio astronômico complexo.

“O texto explica as engrenagens do movimento dos corpos celestes, os cálculos desses movimentos com a ajuda de tabelas que são fornecidas, e o número de dentes de uma roda de engrenagem. O texto explica também como fazer funcionar a campainha de um relógio”.

Apesar da perfeição do relógio de Wallingford, o de Giovanni di Dondi conheceu maior renome.

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)




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domingo, 10 de abril de 2016

O relógio astronômico do Ocidente nasceu na Idade Média

Relógio astronômico de Dondi, ou Astrarium, feito no ano 1364 em Pádua.
Relógio astronômico de Dondi, ou Astrarium, feito no ano 1364 em Pádua.
Luis Dufaur
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Estranha coincidência: o mais famoso relógio astronômico chinês desapareceu quatro anos depois da criação do mais importante relógio astronômico da Europa Ocidental, o de Giovanni di Dondi, que comporta um escapo mecânico de vara de palhetas, numerador e roda de encontro acionado por pesos.

Esse sistema substitui o dos relógios de água utilizados até então. Os engenheiros medievais que, no entanto, tinham sabido utilizar a energia hidráulica para fins tão numerosos quanto variados, aperceberam-se rapidamente de suas limitações na construção de relógios.

Na Europa do Norte, no inverno, a água gela e os pêndulos param. As pesquisas para encontrar uma solução mecânica remontam à segunda parte do século XIII.

Em 1271, Robert l'Anglais escrevia: “Os fabricantes de relógios procuram fazer uma roda que execute uma rotação completa para cada círculo equinocial, mas não' conseguem descobrir a solução correta”. (H. A. Lloyd, Some Outstanding Clocks over Seven Hundred: Years 1250-1950, Leonard Hill, Londres, 1958, p. 5.)

Um manuscrito redigido alguns anos depois na corte de Afonso X de Castela inclui o desenho de um relógio cujo movimento é produzido pela queda de um peso.

O movimento é regulado pelo escoamento do mercúrio contido num tambor compartimentado, o qual gira em torno de um eixo horizontal.

Essa técnica, já utilizada foi tomada ao matemático e astrônomo Bhaskara que, em 1150, tinha fabricado um motor perpétuo com rodas, conhecido na Europa através dos textos árabes.

O texto de Giovanni di Dondi sugere que os pêndulos, de pesos e o escapo mecânico já eram familiares em meados do século XIV e que seus mecanismos existiam há várias dezenas de anos.

Maestro relojero. Jean Suso, "L'horloge de la Sapience", siglo XV.  BnF, français 455, folio 4
Mestre relojoeiro. Jean Suso, "L'horloge de la Sapience", século XV.
BnF, français 455, folio 4
A falta de novas provas os especialistas consideram o início do século XIV a data provável dos primeiros relógios mecânicos.

Um especialista inglês, Alan Lloyd, que reconstruiu na década de 1960 um modelo exato do pêndulo de Dondi, pensa que o pêndulo mecânico foi inventado entre 1277 e 1300. (H. A. Lloyd, Some Outstanding Clocks over Seven Hundred Years 1259-1950, Leonard Hill, Londres, 1958, p.5)

O texto de Robert l'Anglais parece corroborar essa data. É possível que Barthélemy, o Relojoeiro, tenha construído um relógio mecânico na Catedral de São Paulo em Londres, por volta de 1286, e que tenha existido em Canterbury um relógio semelhante, em 1292.

Em Paris o primeiro relógio público foi construído em 1300 por Píerre Pípelart, e sabemos que custou 6 libras turnesas. Esse modelo, que funciona, pertence ao Instituto Smithsoniano de Washington. O Museu das Ciências de Londres adquiriu um segundo modelo.

No Canto X do Paraíso, na Divina Comédia, escrita antes de 1321, Dante faz entrar o relógio mecânico na literatura. No canto intitulado “Canto do Quarto Céu” ele menciona poeticamente um relógio, suas engrenagens e até seu toque:

“Como um relógio quando nos chama à hora em que a esposa de Deus se levanta para cantar as matinas em honra de seu esposo, a fim de obter seu amor, e cujas rodinhas puxam e empurram outras, fazendo soar tim-tim numa nota tão doce que o espírito bem disposto se enche de amor”. (Dante, O Paraíso, X, v. 139-144)

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas.)




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