domingo, 16 de dezembro de 2018

Preconceitos e anacronismos obscurecem a verdade sobre a Idade Média

Catedral de Bristol
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Continuação do post anterior: A Idade Média: era histórica mal conhecida por causa de preconceitos


5. Até aqui insistimos sobre a necessidade de se adotar uma atitude de abertura e submissão aos documentos, alertando para o fato de que preconceitos e anacronismos podem distorcer os resultados da pesquisa.

De fato, a realidade histórica sempre se revela mais densa, complexa e rica do que certos conceitos dos quais facilmente nos tornamos prisioneiros.

Frisar a exigência de fidelidade às fontes, no entanto, não quer dizer que o ofício do historiador seja meramente passivo ou receptivo.


Ao estudioso cabe a tarefa de fazer os documentos falarem. Muitas vezes, o material analisado parece bem pouco eloquente; a quantidade e a qualidade das informações que serão extraídas dele dependem da habilidade do historiador ao questioná-lo.

A pesquisa não se resume à compilação de informações que os documentos já fornecem “prontas”: compete ao estudioso abordá-los adequadamente e formular hipóteses explicativas para os dados observados.

Sendo assim, a documentação histórica pode ser considerada uma fonte inesgotável de conhecimentos, pois sempre poderá revelar aspectos até então ignorados se submetida a novas interrogações.

É preciso observar, contudo, que o questionamento das fontes é uma habilidade que deve ser desenvolvida, pois atualmente se cultiva mais a dúvida sistemática (que termina por imobilizar a inteligência) do que a atenção genuína aos porquês últimos da realidade.

É justamente por ter formulado interrogações que ainda não haviam sido feitas, alargando os horizontes da pesquisa histórica, que a obra de certos medievalistas têm conquistado relevância crescente.

Um dos precursores desta renovação foi Johan Huizinga, que — há 70 anos, quando a pesquisa histórica se limitava a temas políticos e econômicos — procurou descrever os ideais, os sentimentos e as formas de pensamento do homem medieval, numa obra que continua estimulante ainda hoje(10).

Prof. Georges Duby
Estava aberto o caminho para a “nova história”, escola à qual se filiam historiadores do porte de Jacques le Goff e Georges Duby.

6. Se o resultado da análise é condicionado pelo questionamento proposto pelo estudioso, conclui-se que a investigação histórica será sempre inevitavelmente plasmada pela personalidade do pesquisador.

Os documentos históricos são “testemunhos da experiência de homens do passado”; como tais, solicitam que também a experiência humana de quem os lê entre em jogo para serem compreendidos(11).

Quanto mais atento e curioso for o pesquisador, mais fecunda será portanto sua investigação: “o valor do conhecimento histórico é diretamente função da riqueza interior, da abertura de espírito, da magnanimidade de quem o elaborou. (...) O historiador deve ser também, primeiro que tudo, um homem plenamente homem, aberto a tudo o que é humano”(12).

E não poderia ser de outra forma: o historiador, em particular o medievalista, lida com elementos que, embora cronologicamente distantes, dizem algo a respeito de sua própria pessoa e da sociedade na qual ele vive.

A pesquisa histórica pode ser descrita, portanto, como um encontro. Neste encontro com o outro reconheceremos, para além das diferenças, uma série de afinidades, graças às quais é possível estabelecer um diálogo com o passado.

Com efeito, “é nesta tensão entre o mesmo e o outro que o conhecimento da humanidade mais antiga pode continuar a enriquecer nossa existência, num século em que a ansiedade do homem nasce do questionamento de todas as suas referências fundamentais”.

Por isso, a história se escreve “apoiando-se ao mesmo tempo na presença da memória do passado e na compreensão da distância que existe entre esse passado e o presente”(13).

Exemplar, neste sentido, é a reflexão de Régine Pernoud acerca das origens medievais dos conceitos de casamento e direitos da mulher, temas que estão no centro de debates cruciais dos dias de hoje(14).









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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A Idade Média: era histórica mal conhecida por erros metodológicos básicos

Canterbury
Luis Dufaur
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4. Outra fonte de equívocos é a tendência, muitas vezes inconsciente, de interpretar os fatos do passado utilizando critérios ditados pela cultura de nosso tempo, sem cuidar que eles talvez não se apliquem ao período estudado.

Qualquer dado histórico manifesta plena e adequadamente seu significado apenas se é observado no contexto do qual faz parte; por isso, é necessário inteirar-se dos valores culturais e sociais da época que o gerou para avaliá-lo com propriedade.

Ora, uma das principais características da Idade Média é sua intensa religiosidade — e a dificuldade de compreensão deste fator fundamental tem sido uma importante fonte de mal-entendidos.

Se hoje o fator religioso é percebido como algo estranho à vida, para o homem medieval, ao contrário, a esfera do sagrado era reconhecida presente e encarnada nas contingências da vida quotidiana(6).

Congregados pelo irresistível apelo da religião, homens e mulheres de todas as regiões da Europa adquiriram, a partir do século X, a consciência de formar um povo único, uma entidade que pretendia espelhar e prefigurar a ordem celeste: a Cristandade.

“Cada um”, observa Daniel-Rops, ”trabalhando ao longo de sua existência, tinha a certeza de colaborar numa grande obra que o ultrapassava”(7), contribuindo com sua pequena pedra para levantar a catedral, segundo a imagem utilizada por Paul Claudel(8).

Paris, Conciergerie, Salle des Gardes
A “extraordinária capacidade que os homens da Idade Média tinham de pensar e agir em conjunto” deve-se, portanto, ao fato de que “o sentido da transcendência arrancava o indivíduo da sua condição particular (...) para impulsioná-lo rumo a um ideal absoluto, tal como uma terra santa a ser libertada, uma igreja a ser construída, ou então, com obstinada candura, um herege a ser queimado vivo”(9).

Quem negligenciar esse dado prejudicará gravemente sua capacidade de compreensão histórica: como descrever as Cruzadas ou a Inquisição sem levar em conta o fato de que a religião era o cimento da sociedade medieval?


 
 

(Fonte: “Reflexões sobre o Estudo da Idade Média”, Raúl Cesar Gouveia Fernandes, M. Sc. Letras FFLCHUSP - Prof. Filosofia FEI).




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domingo, 9 de dezembro de 2018

A Idade Média: era histórica mal conhecida
por causa de preconceitos

Luis Dufaur
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2. Apesar do significativo renovamento dos estudos sobre a Idade Média, ela ainda é muito pouco conhecida, ou — o que é pior — mal conhecida por quem não é especialista.

As noções fragmentadas e contraditórias transmitidas na escola permitem que se use (e abuse) de conceitos relativos à Idade Média segundo a conveniência de cada um: desde o militante político que apelida a perversa concentração fundiária brasileira de “feudal”, até os novos “magos” de hoje que procuram se revestir de uma aura “medieval” para vender livros de auto-ajuda.

O fato mais grave, no entanto, é que a Idade Média segue sendo vítima de um grande preconceito.

Para muitos, ela ainda representa um período no qual a humanidade, subjugada pela ignorância e flagelada pela peste, viveu oprimida sob o terror das fogueiras da Inquisição.

Afinal de contas, continua a ser aceito o rótulo de “idade das trevas”, como se no milênio que permeia a queda do Império Romano e a chegada de Colombo à América não houvesse sido criado nada que fosse digno de nota.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Crescente interesse pelo estudo da Idade Média
em ambientes acadêmicos

Luis Dufaur
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1. Nas últimas décadas, a Idade Média vem suscitado um interesse crescente.

Desde os anos 50, aproximadamente, os estudos medievais conquistaram um posto de honra na historiografia, razão pela qual têm sido amplamente divulgados no Brasil; mas essa curiosidade já extrapolou os restritos círculos acadêmicos.

Nos dias de hoje, a Idade Média exerce também uma fascinação irrecusável sobre a imaginação do grande público, conforme testemunham a crescente quantidade de publicações de textos literários medievais e o fato de que recriações das narrativas sobre o rei Artur, o Santo Graal ou o mago Merlin sejam atualmente responsáveis por alguns best-sellers nas livrarias e por gordas bilheterias nos cinemas: é o sucesso da Idade Média na sociedade de consumo.

Esse interesse é bem compreensível, pois falar da Idade Média é, de certa forma, falar de nós mesmos.

domingo, 11 de novembro de 2018

Como era uma "Canção de Cruzada"?

Batalha das Navas de Tolosa, episódio eminente da Reconquista da Espanha
Luis Dufaur
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A Canção de Cruzada traduzida e reproduzida a continuação foi composta para encorajar os cristãos a participar na campanha contra a invasão islâmica da Espanha.

A cruzada resultante deu na grande vitória de Las Navas de Tolosa em 1212.

Foi composta após a derrota de Alarcos (19 de julho de 1195) e do avanço dos almohades de Abu Yusuf na península ibérica. O autor Gavaudan (1195-1215) foi um trovador-soldado das cortes de Tolosa e posteriormente em Castela.

Senhores, por causa dos nossos pecados cresce a força dos sarracenos; Saladino tomou Jerusalém (em 1187) e a cidade ainda não foi recuperada.

O rei de Marrocos fez-nos saber que combaterá contra todos os reis cristãos com seus pérfidos andaluzes e árabes, armados contra a fé de Cristo.

Ele convocou a todos os alcaides (governadores de fortalezas), almofades, mouros, godos e bereberés, e não queda homem forte nem débil que não tenha se reunido a todos eles.

Nunca uma chuva tão torrencial fez tanto dano como quando eles passam e se apossam dos prados. Eles devastam como ovelhas que não deixam nem broto nem raiz.

Seus escolhidos têm tanto orgulho que acham que submeterão o mundo todo. Marroquinos e almorávides instalam-se nos morros e nos vales.

Fanfarreiam entre eles: “¡Francos, afastai-vos! Nossas são a Provença e o Tolosanés e tudo que há até o Puy.”

Nunca se ouviu uma bazófia tão feroz nesses cães falsos, malditos sem fé.

domingo, 4 de novembro de 2018

A Igreja medieval não inventou a perseguição aos hereges

São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.  Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.
Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
Luis Dufaur
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Desde os primórdios do Cristianismo houve, da parte de potentados temporais, a aplicação de medidas punitivas contra hereges.(1)

Isso porque, quer no Império Romano cristão do Ocidente, quer no Bizantino, e sobretudo nas nações cristãs que foram compondo a Cristandade Medieval, a Religião Católica, sua moral, suas leis e doutrinas respondiam em muito larga medida pela urbanização e sustentação da ordem civil.(2)

Isto não era novidade. Era um conceito comum em toda a Antiguidade. E nas civilizações pagãs, inclusive as menos decadentes punham em prática esse critério com largas doses de abuso e crueldade.

A heresia afigurava-se, pois, frequentes vezes, como uma séria ameaça à ordem civil estabelecida.

Tanto mais quanto quase todas as heresias, que assolaram a Igreja e a Cristandade naqueles séculos, revestiam-se de um caráter nitidamente anarquista e anti-social.(3)

Foi assim que a iniciativa da perseguição - com o fim de aplicação de penas temporais - aos hereges não partiu da Igreja, mas da sociedade civil.

Alguns dos últimos Imperadores romanos - antes da Idade Média, portanto - desterravam hereges, confiscavam-lhes os bens, mas, via de regra, só aplicavam a pena capital aos culpados de atos de violência contra os cristãos.(4)

A ameaça à ordem civil nas nações cristãs da Idade Média, representada pelas heresias, levou muitos monarcas a tomar a iniciativa de perseguir os hereges. Notadamente as heresias neomaniquéias que se desenvolveram no sul da França, nos séculos XII e XIII - os albigenses que assolaram progressivamente quase toda a Cristandade, puseram em contínuo sobressalto reis e imperadores.(5)

Vemos, pois, um Roberto o Piedoso, Rei da França, que, no século XI, solicita insistentemente ao Papa medidas punitivas contra os hereges.

domingo, 21 de outubro de 2018

O Brasil e os templários no plano da Providência

Milagre de Ourique
Luis Dufaur
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Portugal nasceu sendo rei D. Afonso Henriques. Na batalha de Ourique, ele estava na indecisão do resultado da luta contra os mouros.

Nosso Senhor apareceu ao heroico rei fundador de Portugal exibindo suas cinco chagas, pregado na Cruz, e incitando-o a que ele não perdesse o ânimo e que continuasse para frente. Porque a Providência queria um Portugal português.

Ele continuou a batalha e ganhou.

E daí as cinco chagas de Nosso Senhor estarem na origem do reino de Portugal, que era antes um condado e que passou a reino no tempo dele.

A origem de Portugal e toda sua vida é, portanto, profundamente embebida de coisas católicas.

Nós dizemos que os reis de Portugal, ou Pedro Alvares Cabral, descobriu o Brasil. Essas coisas são muito controvertidas, e uma delas é flagrantemente errada.

Não foi Portugal que descobriu o Brasil.

domingo, 23 de setembro de 2018

Idade Média: era de grandes descobertas geográficas

Lenda irlandesa conta que São Brendano
e seus monges chegaram a América.
Colombo queria encontrar a "terra de São Brendano".
Luis Dufaur
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No domínio da exploração e dos conhecimentos geográficos, a atividade não foi menor.

É um erro, mais do que uma injustiça, fazer remontar apenas ao Renascimento a época das grandes viagens.

A descoberta da América fez esquecer que a curiosidade dos geógrafos e exploradores da Idade Média em relação ao Oriente não havia sido menor do que a dos seus sucessores em relação ao Ocidente.

Desde os primórdios do século XII, Benjamim de Toledo tinha ido até à Índia. Cerca de cem anos mais tarde, Odéric de Pordenone atingia o Tibete.

As viagens de Marco Polo, bem como outras menos conhecidas — as de Jean du Plan-Carpin, Guillaume de Rubruquis, André de Longjumeau, Jean de Béthencourt — bastam para dar ideia da atividade desenvolvida nessa época para a descoberta da Terra.

A Ásia e a África eram então infinitamente mais bem conhecidas do que o foram a seguir.

São Luís estabeleceu relações com o khan (imperador) dos mongóis e também com o Velho da Montanha, o terrível senhor da seita dos assassinos.

domingo, 12 de agosto de 2018

Confrarias de mestres e operários de um mesmo ofício: autonomia, proteção social e fé

Na Europa, até hoje as antigas confrarias de ofícios e de bairros rememoram suas tradições. Foto em Florença, Itália.
Na Europa, até hoje as antigas confrarias de ofícios e de bairros
rememoram suas tradições. Foto em Florença, Itália.
Luis Dufaur
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A confraria (dos artesões de um ofício definido, p.ex.: alfaiates), que era de origem religiosa e existia mais ou menos por toda parte, era um centro de ajuda mútua.

Figuravam em primeiro plano as pensões concedidas aos mestres idosos ou já enfermos e os socorros aos doentes, durante todo o tempo da doença e da convalescença.

Era um sistema de seguros em que cada caso podia ser conhecido e examinado em particular, o que permitia dar o remédio apropriado a cada situação e ainda evitar os abusos.

Se o filho de um mestre é pobre e quer aprender, os homens de bem devem lhe ensinar por 5 soldos (taxa corporativa) e por suas esmolas — diz o estatuto dos fabricantes de escudos.

A corporação ajudava ainda no caso de seus membros precisarem viajar ou por ocasião do desemprego.

Thomas Deloney conta-nos este episódio interessante: Tom Dsum, sapateiro inglês em viagem, encontra-se com um jovem senhor arruinado, e se dispõe a acompanhá-lo a Londres:

Em Siena, Itália, as "contrade" ou bairros, revivem em esplendorosa festa suas glórias seculares. Os bairros estavam ligados a um artesanato ou profissão manual.
Em Siena, Itália, as "contrade" ou bairros,
revivem em esplendorosa festa suas glórias seculares.
Os bairros estavam ligados a uma profissão manual.
— Sou eu quem paga. Na próxima cidade nos divertiremos bastante.

— Como?! Pensava que você não tivesse mais que um soldo no bolso.

— Se você fosse sapateiro como eu, poderia viajar de um lado a outro da Inglaterra apenas com um penny (tostão) no bolso.

Em cada cidade acharia boa comida, boa cama e boa bebida, sem mesmo gastar seu penny.

Isto porque nenhum sapateiro deixará faltar alguma coisa a um dos seus.

Pelo nosso regulamento, se algum companheiro chegar a uma cidade sem dinheiro e sem pão, basta ele se dar a conhecer, não precisando se ocupar com outra coisa.

Os outros companheiros da cidade não somente o receberão bem, mas lhe fornecerão gratuitamente víveres e acomodações.

Se quiser trabalhar, sua corporação se encarregará de lhe arranjar um patrão, e ele não terá que procurá-lo”.

Esta curta passagem não necessita comentários.

Assim compreendidas, as corporações eram um centro muito vivo de ajuda mútua, honrando seu lema: “Todos por um, um por todos”.

Elas se glorificavam por suas obras de caridade. Os joalheiros obtiveram assim permissão para vender nas festas dos apóstolos, no domingo e nos feriados em geral.

Siena: as autoridades dos bairros
Siena: autoridades dos bairros, 'contrade', julgavam as pendências trabalhistas
Tudo o que o joalheiro ganhasse então era colocado na caixa da confraria, e do dinheiro desta caixa dava-se todo ano, no dia da Páscoa, um jantar aos pobres do Hospital de Paris.

Na maioria dos ofícios, os órfãos da corporação são educados às suas custas.

Tudo se passa numa atmosfera de concórdia e de alegria, da qual o trabalho moderno não pode dar uma idéia.

As corporações e confrarias tinham cada uma suas tradições, suas festas, seus ritos piedosos e cômicos, canções e insígnias.

Ainda segundo Thomas Deloney, para ser adotado como filho do “nobre ofício” um sapateiro deve saber “cantar, soar o corno, tocar flauta, martelar, combater com a espada e cantar seus instrumentos de trabalho em versos”.

Nas festas da cidade e nos cortejos solenes, as corporações expunham seus estandartes e ocupavam lugares de destaque. São pequenos mundos extraordinariamente vivos e ativos, que dão à cidade seu impulso e sua fisionomia original.
Em resumo, não se poderia melhor caracterizar a vida urbana na Idade Média do que citando o grande historiador das cidades medievais, Henri Pirenne:

O ofício dos falcoeiros era respeitado: trazia alimento pelo falcão
e limitava as espécies danosas pelos bons ofícios da ave.
A economia urbana é digna da arquitetura gótica, da qual é contemporânea. Ela criou uma legislação social inteira, mais completa que a de qualquer outra época, inclusive a nossa.

“Suprimindo os intermediários entre vendedor e comprador, ela assegurou aos burgueses o benefício da vida barata.

Impiedosamente perseguiu a fraude, protegeu o trabalhador contra a concorrência e a exploração, regulamentou seu trabalho e seu salário, velou por sua higiene, providenciou a aprendizagem, impediu o trabalho da mulher e da criança, ao mesmo tempo que conseguiu reservar para a cidade o monopólio de prover com produtos os campos circunvizinhos e encontrar ao longe escoadouros para o seu comércio”.

(Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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