domingo, 17 de janeiro de 2021

Cristandade medieval: primavera da humanidade cristã

Detalhe da Igreja Militante. Andrea da Firenze (1366-7). Santa Maria Novella, Florença
Detalhe da Igreja Militante. Andrea da Firenze (1366-7).
Santa Maria Novella, Florença
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A concepção do mundo que prevaleceu com bom sucesso foi a noção de Cristandade.

Formou-se lentamente, à custa de sangue e lágrimas, e foi-se também perdendo aos poucos.

Por trezentos anos impôs a sua lei, e, evidentemente não por acaso, foi esse talvez o período mais rico, mais fecundo e, sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias.

Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera.

O que inicialmente impressiona a quem analisa o conjunto destes trezentos anos é a sua riqueza de homens e de acontecimentos.

À semelhança da seiva que jorra por todos os lados na primavera, tudo parece agora germinar e desabrochar numa abundância de folhagem sobre o solo batizado por Cristo.

Em todos os âmbitos se manifesta o fervor criativo, a exigência profunda de empreender, de encaminhar a caravana humana para o futuro.

Os mais minuciosos quadros cronológicos não seriam suficientes para captar este impulso. 

São Jorge, St Mary & St John in Cowley. ©Fr Lawrence OP
São Jorge, St Mary & St John in Cowley.
©Fr Lawrence OP

Constroem-se catedrais; parte-se para a conquista do Santo Sepulcro, da Espanha que ainda se encontra submetida ao poder mouro, das regiões bálticas ainda pagãs; nas universidades, discutem-se as grandes questões humanas; escrevem-se epopeias, criam-se mitos eternos; milhares de pessoas transitam pelas rotas de peregrinação; no ímpeto de descobrir o mundo, chega-se até o secreto coração da Ásia; elaboram-se novas formas políticas…

E tudo isso simultaneamente, num ardor de vida em que todos os acontecimentos se precipitam e interagem, numa complexidade que desencoraja por antecipação quem quiser abarcá-la.

Este impulso prodigioso, contudo, não é uma improvisação de frágeis resultados, não desemboca numa dessas florações prematuras que os primeiros ventos de abril lançam ao chão. Traz frutos, e que frutos!

Perto de algumas criações mais imperecíveis que o gênio europeu produz nesta época, as mais ousadas obras modernas tornam-se irrisórias. 

É o tempo das altas naves góticas, do Pórtico Real de Chartres e das fachadas de Reims e de Amiens, dos vitrais da Sainte-Chapelle e dos afrescos de Giotto.

É o tempo em que se erguem, paralelamente aos edifícios de pedra e como eles desafiando os séculos, essas catedrais de sabedoria que são a mística de São Bernardo e a de São Boaventura, a Suma Teológica de São Tomás, as canções de gesta, a obra profética de Roger Bacon e a de Dante.

É o tempo ainda em que nascem instituições, tanto religiosas como civis, que servirão de base às gerações futuras, como o Conclave dos cardeais, o Direito Canônico e as diversas formas de governo.

Insigne fecundidade. Somente os séculos de Péricles, de Augusto e de Luís XIV podem rivalizar em poder criativo com este período de tempo que vai de Luís VII da França à morte do seu bisneto São Luís, da eleição de Inocêncio II à de São Celestino.

É claro que semelhante fecundidade pressupõe uma enorme riqueza de talentos. A Europa dá-nos a impressão de ter possuído nesta época, em todos os âmbitos, personalidades de primeira ordem, com uma abundância que não voltaria a encontrar depois.

A lista é infindável.

Castelo de Drachenburg, Alemanha.
O ideal da Cristandade inspirou obras como este castelo,
em séculos até muito posteriores.
São os santos, cujo valor de exemplo e de irradiação se mostram admiráveis: São Bernardo, São Norberto, São Francisco de Assis, São Domingos, que podemos citar entre centenas.

São os expoentes do pensamento: Santo Anselmo, São Boaventura, São Tomás de Aquino, e Abelardo, e Duns Escoto, e Bacon, e Dante…

São os artistas geniais, os inventores de técnicas e os criadores de formas, mestres e artistas cujos nomes estamos longe de conhecer em muitos casos.

São homens de Estado, eminentes pela sua sabedoria, como Filipe Augusto ou São Luís, ou pela profundidade da sua visão política, como grande Frederico Barba-Roxa e o inquietante Frederico II.

São os chefes guerreiros à testa de tropas imensas, desde Guilherme o Bastardo, que conquistou a Inglaterra, e os seus primos, que instalaram no sul da Itália a dominação normanda, até os grandes cruzados, um Godofredo de Bulhões e um Balduíno, ou aqueles que, com o Cid Campeador, travaram na Espanha batalhas semelhantes.

Não faltam representantes das mais altas categorias, os que fazem progredir a humanidade: escritores, escultores, músicos, sábios, juristas.

E qualquer outra categoria que citemos possuirá, entre 1050 e 1350, nomes que a posteridade há de respeitar.

E no cimo destas nobres coortes, vemos os papas, muitos dos quais foram personalidades excepcionais, quer se trate de um Gregório VII ou de um Inocêncio III.

Os empreendimentos, os conflitos e até os dramas em que estes homens se envolveram trazem também sinal da grandeza.

Há períodos da história em que os acontecimentos têm qualquer coisa de mesquinho: os tempos merovíngios, por exemplo, ou os do desmembramento do Império de Carlos Magno.

Santo Agostinho definiu o ideal da sociedade humana: a Cristandade.
Santo Agostinho definiu o ideal
da sociedade humana: a Cristandade.

Durante os três séculos da Baixa Idade Média, porém, tudo transcorre de outro modo: a Cruzada é uma empresa grandiosa, mas também o é a invasão mongol, apesar da sua crueldade e violência, ou a própria entrada em cena dos almorávidas na Espanha.

E mesmo nas desastrosas lutas entre o papado e as potências terrenas, subsiste uma intensidade dramática que atinge a dimensão de um confronto decisivo entre duas concepções do mundo.

Mas esta época dá a impressão de ordem e equilíbrio tanto como de vitalidade e de frondoso desabrochar. 

As instituições políticas e sociais, bem como o sistema econômico, surgem como entes concretos e reais, proporcionados à estatura do homem.

Não se observa neles essa tendência para o desmedido e para a abstração desumana que caracteriza o mundo moderno.

Toda essa época assemelha-se à sua mais bela criação – a Catedral – cuja infinita complexidade e cujos múltiplos aspectos testemunham um caudal inesgotável, mas que obedece a uma evidente ordem preestabelecida, graças à qual o conjunto ganha o seu sentido e cada detalhe o seu alcance.

Muitos filósofos da história, de Oswald Spengler a Toynbee, pensam que as sociedades humanas, à semelhança dos seres individuais, obedecem a uma lei cíclica e irreversível que as faz percorrer estágios bastante parecidos aos da infância, juventude, maturidade e velhice do ser fisiológico.

Se tais comparações são válidas, é indubitável que, ao longo destes três séculos, a humanidade cristã do Ocidente conheceu a primavera da vida, a juventude, com tudo o que esta traz consigo de vigor criativo, de violência generosa e por vezes inútil, de combatividade, de fé e de grandeza.

(Autor: Daniel-Rops, “A Igreja das Catedrais e das Cruzadas”, Ed. Quadrante, 1993, pág. 9-13).




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domingo, 10 de janeiro de 2021

Santo Edmundo: dedicação e sacrifício na realeza

Santo Edmundo rei mártir, Wilton Diptych, National Gallery, Londres
Santo Edmundo rei mártir,
Wilton Diptych, National Gallery, Londres
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No livro “Os Santos Militares”, do General Silveira Mello (Dep. Imp. Nacional, 1953, 456pp.) encontramos uma síntese biográfica digna de destaque:

“Edmundo era filho de Opa, rei da Estânglia. É um dos pequenos reinos que compunha a Inglaterra primitiva - e nasceu por volta de 840 quando o cristianismo já estava disseminado nos estados ingleses.

“O rei, seu pai, homem de grande piedade, quando viu o filho com 15 anos, abdicou em seu favor e retirou-se para Roma a fim de consagrar seus últimos dias ao recolhimento e à oração.”

“Edmundo, que fora muito bem-educado na Religião Católica, tornou-se modelo de cristão para seu povo. Justo e bom, era homem de invulgar energia.

“Percebeu cedo o perigo que representava os escandinavos para seu país e preparou-se militarmente, assim como dispôs seu povo, para uma possível guerra.”


Naquele tempo, os escandinavos eram o grande perigo dos povos civilizados. Hoje tão pacíficos, foram no passado os tiranos dos mares.

Eles ocupavam a Escandinávia e iam descendo pela Europa e representavam a última leva das invasões bárbaras.

Alguns usavam o título de reis do mar, porque viviam em barcos fazendo pirataria de um lado e de outro, nuns barcos com umas proas lindas, de uma audácia e de uma arrogância de que a Suécia e Dinamarca perderam completamente o segredo.

Com a queda das proas, caiu tudo. Falam de “figuras de proa”; a gente poderia dizer que cada povo tem a proa que merece. E quando um povo já não tem mais coragem de ter proa é porque já não vale mais nada.

Eram, entretanto, os grandes inimigos e então preparar o povo contra essa invasão, era enfrentar o perigo por excelência.

“Não se enganou em suas previsões. Atacaram os dinamarqueses o Reino inglês.

“No primeiro combate foram duramente rechaçados, mas unindo esforços num grande número venceram a Santo Edmundo e o aprisionaram em Oxon.”

Santo Edmundo martirizado. Iluminura medieval
O rei santo enfrentou a primeira leva que atacou seu Reino desembarcada em vários pontos da Inglaterra.

“O chefe e adversário fez várias propostas de paz ao santo rei, que ele recusou por ser contra a Religião Católica e os direitos de seus súditos.

“Foi duramente supliciado e por fim decapitado. Foi martirizado a 20 de novembro de 870.

“Um Concílio nacional reunido em Oxford em 1122 tornou obrigatória a festa do mártir.

“Suas relíquias, inclusive um saltério que usava diariamente, foram venerados na Abadia de Cluny até o surto da heresia protestante.”

Acontece que o santo não queria ceder aos pagãos e favorecer o restabelecimento do paganismo naquele local. Ele resistiu, então e foi martirizado.

Os senhores veem a alta consciência que tinha esse homem - entretanto um filho de bárbaro - do papel de rei, de suas obrigações e das relações entre os assuntos políticos e religiosos.

Hoje se fala frequentemente em separação da política e da Religião... ao mesmo tempo que a Religião mais do que nunca intervém na política e que a política tem pânico de intervir na religião...

Naquele tempo, os senhores veem a noção que Santo Edmundo tinha. Sua queda, a implantação de uma dinastia de reis pagãos trariam a paganização do Estado e dos indivíduos.

Seria, portanto, a apostasia daqueles povos, a perdição das almas.

O nexo entre a vida política, a forma do Estado e a forma religiosa, como ele compreendia isso bem e como então se manteve fiel até o fim.

E apesar de ser maltratado por causa de sua fidelidade a Nosso Senhor, assim perseverou, sendo depois martirizado.

Santo Edmundo rei mártir de East Anglia
Por que razão queriam que renunciasse?

Naturalmente porque ele continuava a ter prestígio, senão sua renúncia não adiantaria de nada, era difícil consolidar a conquista enquanto não houvesse uma prova de que o Rei renunciara.

Talvez quisessem até levá-lo ao seu próprio reino para ele declarar aos seus súditos que tinha renunciado.

Se ele não quis fazê-lo, foi pela esperança de que seus súditos organizassem uma reação, uma espécie de guerrilha contra o ocupante para salvar a Fé.

Santo Edmundo regou, assim, com seu sangue a esperança de uma restauração católica.

Que lindo exemplo para os governantes modernos, seja para os civis, seja para os eclesiásticos.

O sangue desse rei valeu porque de fato a Inglaterra acabou se cristianizando inteira e até o protestantismo foi uma nação católica que durante algum tempo se chamou a “ilha dos santos”, tal foi o número de santos que lá floresceram.

Com esses dados devemos pedir a Nossa Senhora que proporcione muitos homens de Estado e muitos homens de Igreja que tenham esse espírito.

Porque enquanto os povos católicos, no campo temporal e sobretudo no espiritual, não são governados por homens dispostos a derramar seu sangue, não são dirigidos por quem preste.

Só governa bem quem está disposto a ir na fidelidade a seus princípios até o martírio, na fidelidade a seu cargo até o martírio, do contrário não vale de nada.

Assim como um militar que não está disposto a morrer é igual a zero, assim um bispo, um príncipe, um rei, um alto governante que não esteja disposto a morrer para o cumprimento de seu dever é igual a absolutamente zero.

Os altos cargos exigem a alta coragem. São os cargos pequenos que podem se acomodar com o valor moral normal.

Os grandes cargos exigem o grande espírito de dedicação, o grande sacrifício.

Os grandes cargos... Deus o que dá de mais alto a um homem é um cargo? O que vale mais: um cargo ou uma vocação? Não há situações em que uma vocação vale mais do que um cargo?

Pensemos no exemplo desse rei para termos sempre a deliberação de sermos fiéis até a morte, à vocação que a Providência chama a cada um.


domingo, 27 de dezembro de 2020

O senhor feudal criminoso, o ermitão piedoso e o misterioso barrilzinho

Luis Dufaur
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Habitava nos confins da Normandia um destemido cavaleiro, cujo nome causava terror na região. De seu castelo fortificado junto ao mar, não receava nem mesmo o rei.

De grande estatura e belo porte, era no entanto vaidoso, desleal e cruel, não temendo a Deus nem aos homens.

Não fazia jejum nem abstinência, não assistia à Missa nem ouvia sermões. Não se conhecia homem tão mau.

Numa Sexta-feira Santa, bradou ele aos cozinheiros:
— Aprontai-me para o almoço a peça que cacei ontem.

Ouvindo isto, seus vassalos exclamaram:

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Tesouros de Natal: São Nicolau, a árvore maravilhosa, Santa Lucia e o pudding real

Natal 2020, anônimo peruano e igreja colegiata de Thann, Alsacia
Natal 2020, anônimo peruano e igreja colegiata de Thann, Alsácia
Luis Dufaur
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Natal abre clareiras de luz e alegria nas trevas e nas tristezas.

Enquanto em Belém raiava a salvação, o imperador Augusto refletia o fracasso de sua política moralizadora.

Perto dele iam noite adentro as orgias e os arúspices e falsos teólogos jogavam as sortes com o oculto.

Eles não sabiam a sociedade do futuro se decidia num estábulo da Judeia.

Ali as mãos virginais de Maria davam ao mundo o Messias que o redimiria com seu sangue, o reorganizaria com seu Evangelho e o inundaria de gáudios com sua graça.

Quem foi São Nicolau?

domingo, 20 de dezembro de 2020

Por que o Natal aparece tão ligado à Idade Média?

Luis Dufaur
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Por que as alegrias e o imponderável sobrenatural do Natal aparecem ligados à Idade Média?

A cidadinha de Siegburg, oeste da Alemanha, parece ter o segredo da resposta.

Ela revive a tradição da Idade Média abrindo mão do conforto da modernidade.

domingo, 13 de dezembro de 2020

A “Seita dos Assassinos” e os mistérios do Terror islâmico

Um fanático do Velho da Montanha (turbante branco) assassina o vizir Nizam-al-mulk. Museu de Topkapi, Estambul
Um fanático do Velho da Montanha (turbante branco) assassina o vizir Nizam-al-mulk.
Museu de Topkapi, Estambul
Luis Dufaur
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Os seguidores do Islã se subdividem em incontáveis seitas, algumas deveras extravagantes ou que fazem interpretações especialmente criminosas do Corão.

E isso não é novo nem de espantar pois o próprio São Tomás de Aquino nos advertiu:

“Maomé manifestou ter sido enviado pelo poder das armas, que também são sinais dos ladrões e dos tiranos. Nele, porém, acreditaram homens que, animalizados no deserto, eram totalmente ignorantes da doutrina divina” (Suma contra los Gentiles. Livro I, Capítulo VI, Club de Lectores, Buenos Aies, 1951, 321. p.76 e ss.).

Hoje, arqueólogos buscam desvendar os segredos que cultuavam a “seita dos assassinos”, um grupo religioso medieval maligno liderado pelo dito “Velha da Montanha”. Para isso escavam nas ruínas do castelo da seita no acidentado vale iraniano de Alamut, escreve “Clarín”.

domingo, 6 de dezembro de 2020

O ameaçado encanto dos mercadinhos de Natal

Feira de Natal, Frankfurt
Luis Dufaur
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Eles nos afastavam da banalidade comercial que se apropriou da magna festa cristã.

Neles triunfava o sorriso sobrenatural do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo que enchia de alegria suave e de aconchego as praças de cidades e aldeias, de palácios e choupanas da Idade Média.

A tradição, embora deformada, pervive até hoje, mas está ameaçada com sofismas.

Trata-se das feiras de Natal que ainda dominavam em cidades alemãs, austríacas, alsacianas, etc., na Europa.

Elas constituíam um eco saudoso, requintado em épocas posteriores, do Natal medieval.

Cheiro de ervas, amêndoas torradas, vinho, cravo, canela, incenso e resina de pinheiro.

Enfeites natalinos que falavam não ao corpo mas à alma nos faziamm reviver as profundas alegrias da infância.

domingo, 29 de novembro de 2020

A luz fugidia dos vitrais falando de Deus
como nenhuma outra coisa consegue

Luz de um vitral batendo na pedra do chão
Luz de um vitral batendo na pedra do chão
Luis Dufaur
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A luz da graça que desceu no começo da construção da Cristandade foi se definindo à medida em que ia tomando conta a Civilização Cristã nascente.

E os artistas e o povo iam se enchendo cada vez mais dessa luz.

Por isso se podia dizer de muito católico medieval aquilo que por excelência se diz dos santos: “Ele é luz”.

Poderia se dizer: “A luz se chama fulano”.

domingo, 22 de novembro de 2020

Catedrais: resumo simbólico da ordem do universo

Notre Dame
Notre Dame

Luis Dufaur
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A Igreja inspirou as grandes catedrais. Na foto, vemos a abside de Catedral de Notre-Dame. É uma verdadeira joia!

A gente não sabe por onde esta catedral é mais bela!

A gente poderia dizer dela, utilizando uma palavra da Escritura, que ela é o edifício de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro!

Se isto não é bonito, não há beleza na terra!

E o vitral da catedral, também.

Uma renda de pedra, uma sinfonia de cores, inspirada pelo clero.

Nos vitrais se representavam os fatos fundamentais da História Sagrada, do Antigo e do Novo Testamento, a Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e a vida dos santos.

Na grande rosácea da fachada é representado o Apocalipse.

Jesus Cristo está no centro, na sua segunda vinda como Juiz triunfante, e em volta d’Ele estão os justos e os símbolos de que fala o livro que encerra a Bíblia.

domingo, 15 de novembro de 2020

O “homem Sainte-Chapelle”: Jesus Cristo, modelo perfeito

Luis Dufaur
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Antes da Revolução e da confusão atual, havia na Igreja uma coisa curiosa.

Contemplando uma igreja, viam-se primeiro as várias partes, das quais depois se desprendia uma impressão de conjunto.

Por exemplo, na Sainte-Chapelle veem-se em primeiro lugar as várias formas, vitrais, colunas, imagens, cores, paredes etc.

Porém, em certo momento desprende-se de tudo uma impressão única que produz uma ressonância na nossa alma e nos faz exclamar: igreja é isso!

O mais íntimo de nossa alma encontra nela sua realização: uma antecâmara do Céu para a qual fomos feitos, para a qual nascemos e a qual queremos.

A alma do católico que quer ser inteiramente fiel procura instintivamente um homem que represente o espírito da Igreja para entrar em consonância com ele. 

A alma desse homem lembra a Sainte-Chapelle. Ele é um “homem Sainte-Chapelle”, que deve ser contemplado como tal.

Os fiéis chamados a participar da vocação desse homem devem saber contemplá-lo e entender que devem ser como ele, têm de o contemplar para poderem elevar-se à sua altura.

domingo, 8 de novembro de 2020

Como os homens puderam esquecer o gótico durante séculos?

Catedral de Siena, Itália
Catedral de Siena, Itália
Luis Dufaur
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Diante da beleza, da sacralidade e da superioridade por exemplo, da catedral de Orvieto, pode-se perguntar como foi possível que as almas que geraram um estilo tão sublime foram ficando insensíveis a ele, e durante séculos deixaram de construir edifícios desse gênero.

Mais ainda: construíram incontáveis igrejas, mosteiros, abadias, edifícios públicos, residências particulares em estilo clássico, com o surradíssimo arco em semicírculo ou com a surradíssima linha reta dos pórticos clássicos.

Mas jamais, jamais, jamais o gótico. Ele ficou posto de lado durante séculos.

Por exemplo, o pintor Rafael representou anjos revelando incontestável talento, mas também uma falta de discernimento, de bom gosto em vários aspectos, de chocar.

Por que esse homem fez tantas representações angélicas que parecem ignorar completamente os anjos de Fra Angélico? 

domingo, 1 de novembro de 2020

O ensino medieval mudou a história do mundo

Professor medieval dá aula sentado na cátedra para meninos
Professor medieval dá aula sentado na cátedra para jovens
Luis Dufaur
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O professor está sentado na cátedra. Embaixo estão os alunos. Parece que são alunos frades, porque estão tonsurados, sentados em bancos e estudando.

Muitas vezes as escolas eram nos mosteiros e o ensino era gratuito.

Alcuíno, abade de York, espécie de ministro de Educação do imperador Carlos Magno, dispôs que todas as dioceses, abadias e paróquias deveriam montar escolas gratuitas e fornecer até vestimenta e refeições aos alunos, com interdição formal de receber qualquer forma de pagamento.

As próprias Universidades, que foram criadas pela Igreja na Idade Média, eram inteiramente gratuitas, podendo o aluno trocar livremente de uma para outra.

Por exemplo, podia trocar de Oxford, na Inglaterra, para Coimbra, em Portugal, ou Bolonha, na Itália, se achava bom em função da reputação do ensino e dos professores.

O ensino universitário em toda Europa era em latim, fato que facilitava essa assombrosa mobilidade.

Em geral, professores e alunos eram plebeus. Os nobres eram guerreiros.

Os senhores vêem a dignidade da cátedra, um verdadeiro trono.

domingo, 25 de outubro de 2020

Idade Média: modelo para imitar, mas não para copiar servilmente

Coroa da rainha Maria, século XIX
Coroa da rainha Maria, século XIX

Luis Dufaur
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Qual é para nós hoje o remédio, depois de alguns séculos de um processo complicado de crescimento e degenerescência simultâneos?

Voltar pura e simplesmente à Idade Media?

Seria uma solução tão simplista quanto a do medico que julgasse consistir a cura do adolescente, já feito moço, em voltar aos seus 15 anos. 

É preciso curar a tuberculose, e não fazer voltar atrás os ponteiros do relógio.

E neste ponto o discurso de Pio XII (aos membros do X Congresso Internacional de Ciências Históricas, 7 de setembro de 1955) contém um princípio que domina do mais alto todo o assunto.

A doutrina do Evangelho é imutável. Mas, ao ser posta em pratica, ela deve atuar sobre inúmeras circunstâncias concretas das mais variáveis, ordenando-as, corrigindo-as, elevando-as. 

E como uma civilização católica, considerada no plano histórico, é sempre a realização dos princípios doutrinários imutáveis do Evangelho, em circunstâncias históricas mutáveis, como de outro lado a Igreja não esta vinculada senão à Revelação.

Dai decorre que Ela não Se identifica com qualquer cultura, ou qualquer civilização, por mais que lhes tenha servido de fonte de inspiração.

domingo, 18 de outubro de 2020

O imperador Constantino reconhece o Cristianismo. São Pio X: grande e portentoso evento. Absurdo do Estado laico

São Pio X recebe honras militares subindo à carruagem pontifícia de gala
São Pio X recebe honras militares subindo à carruagem pontifícia de gala
Luis Dufaur
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Para comemorar o 16º centenário do Edito de 313, através do qual o Imperador Constantino o Grande reconheceu oficialmente o Cristianismo em todo o Império Romano, o Papa São Pio X decretou um Jubileu universal e concedeu uma generosa Indulgência Plenária.

Na Carta Apostólica Magni Faustique (O grande e portentoso evento), aquele grande santo, Vigário de Cristo e sucessor de São Pedro ensina a razão de ser altamente desejável e benéfica do reconhecimento oficial do Catolicismo pelo Estado.

E mostra indiretamente a falsidade dos que postulam um Estado laico como sendo o ideal para a Igreja.