domingo, 18 de fevereiro de 2024

Preconceitos e anacronismos obscurecem a verdade sobre a Idade Média

Catedral de Bristol
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Continuação do post anterior: A Idade Média é mal conhecida por causa de preconceitos


5. Até aqui insistimos sobre a necessidade de se adotar uma atitude de abertura e submissão aos documentos, alertando para o fato de que preconceitos e anacronismos podem distorcer os resultados da pesquisa.

De fato, a realidade histórica sempre se revela mais densa, complexa e rica do que certos conceitos dos quais facilmente nos tornamos prisioneiros.

Frisar a exigência de fidelidade às fontes, no entanto, não quer dizer que o ofício do historiador seja meramente passivo ou receptivo.


Ao estudioso cabe a tarefa de fazer os documentos falarem. Muitas vezes, o material analisado parece bem pouco eloquente; a quantidade e a qualidade das informações que serão extraídas dele dependem da habilidade do historiador ao questioná-lo.

A pesquisa não se resume à compilação de informações que os documentos já fornecem “prontas”: compete ao estudioso abordá-los adequadamente e formular hipóteses explicativas para os dados observados.

Sendo assim, a documentação histórica pode ser considerada uma fonte inesgotável de conhecimentos, pois sempre poderá revelar aspectos até então ignorados se submetida a novas interrogações.

É preciso observar, contudo, que o questionamento das fontes é uma habilidade que deve ser desenvolvida, pois atualmente se cultiva mais a dúvida sistemática (que termina por imobilizar a inteligência) do que a atenção genuína aos porquês últimos da realidade.

É justamente por ter formulado interrogações que ainda não haviam sido feitas, alargando os horizontes da pesquisa histórica, que a obra de certos medievalistas têm conquistado relevância crescente.

Um dos precursores desta renovação foi Johan Huizinga, que — há 70 anos, quando a pesquisa histórica se limitava a temas políticos e econômicos — procurou descrever os ideais, os sentimentos e as formas de pensamento do homem medieval, numa obra que continua estimulante ainda hoje(10).

Prof. Georges Duby
Estava aberto o caminho para a “nova história”, escola à qual se filiam historiadores do porte de Jacques le Goff e Georges Duby.

6. Se o resultado da análise é condicionado pelo questionamento proposto pelo estudioso, conclui-se que a investigação histórica será sempre inevitavelmente plasmada pela personalidade do pesquisador.

Os documentos históricos são “testemunhos da experiência de homens do passado”; como tais, solicitam que também a experiência humana de quem os lê entre em jogo para serem compreendidos(11).

Quanto mais atento e curioso for o pesquisador, mais fecunda será portanto sua investigação: “o valor do conhecimento histórico é diretamente função da riqueza interior, da abertura de espírito, da magnanimidade de quem o elaborou. (...) O historiador deve ser também, primeiro que tudo, um homem plenamente homem, aberto a tudo o que é humano”(12).

E não poderia ser de outra forma: o historiador, em particular o medievalista, lida com elementos que, embora cronologicamente distantes, dizem algo a respeito de sua própria pessoa e da sociedade na qual ele vive.

A pesquisa histórica pode ser descrita, portanto, como um encontro. Neste encontro com o outro reconheceremos, para além das diferenças, uma série de afinidades, graças às quais é possível estabelecer um diálogo com o passado.

Com efeito, “é nesta tensão entre o mesmo e o outro que o conhecimento da humanidade mais antiga pode continuar a enriquecer nossa existência, num século em que a ansiedade do homem nasce do questionamento de todas as suas referências fundamentais”.

Por isso, a história se escreve “apoiando-se ao mesmo tempo na presença da memória do passado e na compreensão da distância que existe entre esse passado e o presente”(13).

Exemplar, neste sentido, é a reflexão de Régine Pernoud acerca das origens medievais dos conceitos de casamento e direitos da mulher, temas que estão no centro de debates cruciais dos dias de hoje(14).









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domingo, 4 de fevereiro de 2024

A Idade Média: era histórica mal conhecida por erros metodológicos básicos

Canterbury
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: A Idade Média: era histórica mal conhecida por causa de preconceitos

4. Outra fonte de equívocos é a tendência, muitas vezes inconsciente, de interpretar os fatos do passado utilizando critérios ditados pela cultura de nosso tempo, sem cuidar que eles talvez não se apliquem ao período estudado.

Qualquer dado histórico manifesta plena e adequadamente seu significado apenas se é observado no contexto do qual faz parte; por isso, é necessário inteirar-se dos valores culturais e sociais da época que o gerou para avaliá-lo com propriedade.

Ora, uma das principais características da Idade Média é sua intensa religiosidade — e a dificuldade de compreensão deste fator fundamental tem sido uma importante fonte de mal-entendidos.

Se hoje o fator religioso é percebido como algo estranho à vida, para o homem medieval, ao contrário, a esfera do sagrado era reconhecida presente e encarnada nas contingências da vida quotidiana(6).

Congregados pelo irresistível apelo da religião, homens e mulheres de todas as regiões da Europa adquiriram, a partir do século X, a consciência de formar um povo único, uma entidade que pretendia espelhar e prefigurar a ordem celeste: a Cristandade.

“Cada um”, observa Daniel-Rops, ”trabalhando ao longo de sua existência, tinha a certeza de colaborar numa grande obra que o ultrapassava”(7), contribuindo com sua pequena pedra para levantar a catedral, segundo a imagem utilizada por Paul Claudel(8).

Paris, Conciergerie, Salle des Gardes
A “extraordinária capacidade que os homens da Idade Média tinham de pensar e agir em conjunto” deve-se, portanto, ao fato de que “o sentido da transcendência arrancava o indivíduo da sua condição particular (...) para impulsioná-lo rumo a um ideal absoluto, tal como uma terra santa a ser libertada, uma igreja a ser construída, ou então, com obstinada candura, um herege a ser queimado vivo”(9).

Quem negligenciar esse dado prejudicará gravemente sua capacidade de compreensão histórica: como descrever as Cruzadas ou a Inquisição sem levar em conta o fato de que a religião era o cimento da sociedade medieval?


 
 

(Fonte: “Reflexões sobre o Estudo da Idade Média”, Raúl Cesar Gouveia Fernandes, M. Sc. Letras FFLCHUSP - Prof. Filosofia FEI).




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domingo, 28 de janeiro de 2024

O senhor do castelo dá a vida pelos súbditos
e esses o seguem com amor

Castelo de Wijnendael, Bélgica
Castelo de Wijnendael, Bélgica
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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É difícil sintetizar como era a vida nos castelos medievais, porque ela era extremamente rica e variegada, variando muito segundo os locais.

Em cada lugar era, em verdade, inteiramente diferente. Mas há alguns traços comuns.

No castelo e nos arredores vive a pequena pátria que o espírito feudal formou em torno do barão.

Ela tem seus camponeses e artesãos, que são também seus soldados; seu tribunal, que é presidido pelo senhor; seus costumes, suas tradições de honra e de heroísmo, das quais se orgulha; uma insígnia, um lema e até um nome, que é o do próprio barão.

É um todo orgânico e único, que protege seus membros contra o mundo inimigo.

Graças ao senhor feudal que por eles vigia, os camponeses se sentem protegidos, podem arar, semear e esperar a colheita sem medo de serem surpreendidos por bandidos que os pilhem e escravizem.

Diz uma crônica do tempo que os barões, “para estarem sempre prontos, têm seus cavalos na sala onde dormem”.

Pouco a pouco, por via consuetudinária, vão se estabelecendo contratos. Em retribuição pela proteção que recebem, os camponeses e artesãos dão um tanto do que produzem, para sustentar o barão e sua família, e trabalham uns tantos dias por ano na reparação e conservação do castelo.

Os interesses de uns e outros são solidários; a prosperidade dos súditos é a do barão, que com ela se rejubila; das alegrias e do renome do barão participam os súditos.

O caráter essencial desta grande família, formada pela união íntima das famílias que a compõem, é o amor mútuo, profundo e devotado entre seus membros.

Amor filial e submisso dos súditos para com o senhor, amor paternal e protetor do senhor para com seus súditos.

Uma das belas canções de gesta da época assim descreve os sentimentos do Conde de Artois, vencido numa batalha, ao ver seus homens que jazem por terra:

Sua mesnada está lá, morta, ensangüentada.
Com sua mão direita ele a abençoa,
Sobre ela se inclina e chora
E suas lágrimas correm até a cintura.

Assim como no deserto floresce o oásis junto ao poço, também no princípio da era feudal, nos lugares onde havia homens de valor para erguer a “motte” e o castelo e se opor às arremetidas do inimigo, aí havia trabalho e progresso. Porém, onde não havia senhores fortes e obedecidos, tudo caía na anarquia.

E a França ia se enchendo desses núcleos isolados, formando uma constelação de pequenas soberanias que cresciam espontaneamente, por suas próprias forças, sem planificações de governos, mas com vitalidade e pujança que permitiam prever os esplendores da civilização cristã.

Até inimigos ferrenhos da ordem hierárquica medieval, como o soturno fundador do comunismo Karl Marx, reconhecem que nunca a vida dos operários foi melhor que na Idade Média.

De fato, como constata um comunista divulgador de Marx, (Henri Lefebvre, “Le matérialisme dialectique”, P.U.F., 1962), o senhor feudal tinha outro conceito de seu feudo. Ele não se perguntava quanto valia e qual a vantagem que podia tirar.

Castelo de Montrésor, França, interior
Castelo de Montrésor, França, interior
Olhando para suas terras, bosques, rios, prados, camponeses, aldeinhas ele pensava: estas são as terras pelas quais meus antepassados deram a vida; meu pai e eu mesmo brincamos naquele bosque quando éramos crianças; aqueles são meus camponeses e burgueses por cujos antepassados os meus deram a vida e reciprocamente; eu devo passar tudo isto inteiro e melhorado para meus filhos, e para os filhos deste povo que é minha família num sentido muito largo, porque a Providência quis unir nossa história.

Por isso quando acontecia de algum senhor feudal vender seu feudo, os sinos da igrejinha tocavam a finados. Como se alguém tivesse morrido. De tal maneira, isso era considerado uma desgraça, para os nobres e para o povo.



(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)



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domingo, 21 de janeiro de 2024

Castelos que preparam as almas para o Céu

Castelo de Bonnétable, Loire, França
Castelo de Bonnétable, Loire, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A Europa medieval foi um mito que se realizou.

A Religião Católica transformou um continente povoado de bárbaros e romanos decadentes num seminário do Céu.

Os valores que os castelos encarnam são, no fundo, valores religiosos. Porque eles são símbolos.

O lado simbólico é muito mais importante que o lado prático e que o lado estético. É por isso que nos agradam tanto.

Símbolos do quê?

O Paraíso Celeste é um lugar material.

Nele viveram Adão e Eva antes do pecado original e nele viverão os bem-aventurados durante a eternidade.

Castelo de Wernigerode, Alemanha
Castelo de Wernigerode, Alemanha

É um lugar onde Deus instalou coisas magníficas, castas e santas, para o homem viver imerso nelas.

É um mundo feito de matéria, mas de uma matéria que fala de Deus.

E os bem-aventurados ressurretos depois do fim do mundo, passearão seus corpos ressuscitados pelo Paraíso, enquanto suas almas estarão envolvidas nos gáudios magníficos da Visão Beatífica.

I. é, da visão de Deus face a face.

Para preparar os homens para isso é necessário alimentar o espírito deles.

E isso se faz não só considerando diretamente as coisas da Religião.

Nozet, castelo na Borgonha, Franca
Castelo de Nozet, Borgonha, França
Os homens chamados ao Céu precisam se voltar para Deus também a propósito das coisas do mundo temporal.

Portanto, do mundo da matéria, porque até no Céu empíreo e no Paraíso a matéria vai existir.

Como fazer isso sem chafurdar no materialismo grosseiro que anda por ai?

Os castelos ‒ poderíamos falar da arquitetura de igrejas, da arte católica em geral ‒ nos dão um exemplo.

Um exemplo de como elevar nossa alma a Deus através de construções feitas de matéria, mas modeladas pelo espírito.

E pelo espírito católico, o qual animado pela graça divina, é um preanuncio da vida eterna.




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