domingo, 20 de maio de 2018

A civilização cristã e a sociedade perfeita ‒ A Cristandade (4)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A civilização cristã é a sociedade perfeita?

Sim. Se Jesus Cristo é o verdadeiro ideal de perfeição de todos os homens, uma sociedade que aplique todas as Suas leis tem de ser uma sociedade perfeita, a cultura e a civilização nascidas da Igreja de Cristo tem de ser forçosamente, não só a melhor civilização, mas, a única verdadeira. Di-lo o Santo Pontífice Pio X:

"Não há verdadeira civilização sem civilização moral, e não há verdadeira civilização moral senão com a Religião verdadeira". (Carta ao Episcopado Francês, de 28-VIII-1910, sobre "Le Sillon"). 

De onde decorre com evidência cristalina que não há verdadeira civilização senão como decorrência e fruto da verdadeira Religião.



A ação da Igreja sobre os homens é só individual?

Não, Ela forma também povos, culturas, civilizações.



Por quê?

Porque Deus criou o homem naturalmente sociável, e quis que os homens, em sociedade, trabalhassem uns pela santificação dos outros.



Os demais homens nos influenciam?

Sim. Temos todos, pela própria pressão do instinto de sociabilidade, a tendência a comunicar em certa medida nossas ideias aos outros, e, em certa medida, em receber a influência deles. Isto se pode afirmar nas relações de indivíduo a indivíduo, e do indivíduo com a sociedade.



As leis, costumes, culturas nos influenciam?

Os ambientes, as leis, as instituições em que vivemos exercem efeito sobre nós, têm sobre nós uma ação pedagógica.

Resistir inteiramente ao ambiente ruim, cuja influência nos penetra até por osmose e como que pela pele, é obra de alta e árdua virtude.

E por isto os primitivos cristãos não foram mais admiráveis enfrentando as feras do Coliseu, do que mantendo íntegro seu espírito católico embora vivessem no seio de uma sociedade pagã.



A cultura e a civilização são meios de salvação da alma?

Sim. A cultura e a civilização são fortíssimos meios para agir sobre as almas. Agir para a sua ruína, quando a cultura e a civilização são pagãs.

Para a sua edificação e sua salvação, quando são católicas.

Por isso, a Igreja não pode desinteressar-se em produzir uma cultura e uma civilização, e se contentar em agir sobre cada alma a título meramente individual.



Todo cristão é um foco de Civilização Cristã?

Sim. Toda a alma sobre a qual a Igreja age, e que corresponde generosamente a tal ação, é como que um foco ou uma semente da civilização cristã, que ela expande ativa e energicamente em torno de si.

A virtude transparece e contagia. Contagiando, propaga-se. Agindo e propagando-se tende a transformar-se em cultura e civilização católica.



A Igreja pode não produzir uma Civilização e uma cultura católicas?

Não. O próprio da Igreja é de produzir uma cultura e uma civilização cristã. É de produzir todos os seus frutos numa atmosfera social plenamente católica.



O fiel deve desejar a Civilização Cristã?

Sim. O católico deve aspirar a uma civilização católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu.



Qual é, em resumo, o ideal católico hoje?

E é esta nossa finalidade, nosso grande ideal. Caminhamos para a civilização católica que poderá nascer dos escombros do mundo de hoje, como dos escombros do mundo romano nasceu a civilização medieval.

Caminhamos para a conquista deste ideal, com a coragem, a perseverança, a resolução de enfrentar e vencer todos os obstáculos, com que os Cruzados marcharam para Jerusalém.

Porque, se nossos maiores souberam morrer para reconquistar o sepulcro de Cristo, como não queremos nós filhos da Igreja como eles lutar e morrer para restaurar algo que vale infinitamente mais do que o preciosíssimo sepulcro do Salvador, isto é, seu reinado sobre as almas e as sociedades, que Ele criou e salvou para O amarem eternamente?


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)



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domingo, 13 de maio de 2018

Igreja e Civilização Cristã ‒ A Cristandade (3)


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Se o mundo adotasse a Civilização Cristã resolveria todos os problemas?

Se todos os homens praticassem a Lei de Deus se resolveriam rapidamente todos os problemas políticos, econômicos, sociais, que nos atormentam.

Não se pode esperar uma solução enquanto os homens viverem na inobservância habitual da Lei de Deus.


A sociedade humana realizou alguma vez este ideal de perfeição?

Sem dúvida. Di-lo o imortal Leão XIII: operada a Redenção e fundada a Igreja,

"como que despertando de antiga, longa e mortal letargia, o homem percebeu a luz da verdade, que tinha procurado e desejado em vão durante tantos séculos; reconheceu sobretudo que tinha nascido para bens muito mais altos e muito mais magníficos do que os bens frágeis e perecíveis que são atingidos pelos sentidos, e em torno dos quais tinha até então circunscrito seus pensamentos e suas preocupações. Compreendeu ele que toda a constituição da vida humana, a lei suprema, o fim a que tudo se deve sujeitar, é que, vindos de Deus, um dia devamos retornar a Ele.

"Desta fonte, sobre este fundamento, viu-se renascer a consciência da dignidade humana; o sentimento de que a fraternidade social é necessária fez então pulsar os corações; em consequência, os direitos e deveres atingiram sua perfeição, ou se fixaram integralmente, e, ao mesmo tempo, em diversos pontos, se expandiram virtudes tais, como a filosofia dos antigos sequer pôde jamais imaginar.

"Por isto, os desígnios dos homens, a conduta da vida, os costumes tomaram outro rumo. E, quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe, quando sua virtude penetrou até os veios íntimos da sociedade, dissipando as trevas e os vícios da antiguidade, então se operou aquela transformação que, na era da Civilização Cristã, mudou inteiramente a face da terra". (Leão XIII Encíclica "Tametsi futura prospiscientibus", I-XI-1900).

Casimiro III, o Grande, rei da Polônia

O que é a civilização?

Civilização é o estado de uma sociedade humana que possui uma cultura, e que criou, segundo os princípios básicos desta cultura, todo um conjunto de costumes, de leis, de instituições, de sistemas literários e artísticos próprios.



O que é uma civilização católica?

Uma civilização é católica, se for a resultante fiel de uma cultura católica e se, pois, o espírito da Igreja, for o próprio princípio normativo e vital de seus costumes, leis instituições, e sistemas literários e artísticos.



O que é então a Civilização Cristã e a cultura cristã?

A civilização cristã é uma luminosa realidade feita de uma ordem e uma perfeição antes sobrenatural e celeste do que natural e terrestre, produto da cultura cristã, a qual por sua vez é filha da Igreja Católica.



O que é a cultura católica?

A cultura católica é o cultivo da inteligência, da vontade e da sensibilidade segundo as normas da moral ensinada pela Igreja.

Ela se identifica com a própria perfeição da alma.

Se ela existir na generalidade dos membros de uma sociedade humana, ela será um fato social e coletivo.

E constituirá um elemento — o mais importante — da própria perfeição social.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)



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domingo, 6 de maio de 2018

Igreja, Ordem, Paz e Idade Média ‒ A Cristandade (2)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No que consiste a ordem?

A ordem é a disposição das coisas segundo sua natureza.

Assim, um relógio está em ordem quando todas as suas peças estão ordenadas segundo a natureza e o fim que lhes é próprio: apontar as horas.

Diz-se que há ordem no universo sideral porque todos os corpos celestes estão ordenados segundo sua natureza e fim. A Idade Média tendeu para implantar essa ordem em todas as coisas.

De onde provinha a paz medieval?

A paz medieval vinha do fato que a ordem engendra a tratabilidade. A tranquilidade da ordem é a paz.

Basta ter tranquilidade para ter paz?

Não. Não é qualquer tranquilidade que merece ser chamada paz mas apenas a que resulta da ordem.

Por exemplo, a paz de consciência é a tranquilidade da consciência reta: não pode confundir-se com o letargo da consciência embotada.

O que era a harmonia medieval?

Existe harmonia quando as relações entre dois seres são conformes à natureza e o fim de cada qual.

A harmonia é o operar das coisas umas em relação às outras, segundo a ordem. Essa harmonia impregnou toda a Idade Média.

Qual é a relação entre ordem social e perfeição espiritual?

Quando um ser está inteiramente disposto segundo sua natureza, está em estado de perfeição.

Assim uma pessoa com grande capacidade de estudo, posta em uma Universidade em que haja todos os meios para estudar, está posta em condições perfeitas.

A trajetória dos astros é perfeita, porque corresponde inteiramente à natureza e ao fim de cada qual.

A Idade Média visou pôr nessa perfeição em tudo. Por isso gerou muitos santos.

Qual é a condição essencial da ordem e da paz?

A posse da verdade religiosa é a condição essencial da ordem, da harmonia, da paz e da perfeição.

A vida foi difícil na Idade Média?

Sim. A fidelidade à Lei exige sacrifícios por vezes heroicos dos próprios católicos que vivem no seio da Igreja banhados pela superabundância da graça e de todos os meios de santificação.

Foi o caso da Idade Média.

Se os indivíduos praticam a Lei de Deus, o que acontece na sociedade?

Isto equivale a perguntar o que acontece num relógio em que cada peça trabalha na perfeição. Dá as horas perfeitamente.

Uma sociedade em que todos os fossem bons católicos, seria como a sociedade traçada por Santo Agostinho: imaginemos:

"um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo, governadores, maridos, esposos, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã!

"E ousem (os pagãos) ainda dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado!

"Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado, quando fielmente observada" (Epíst. CXXXVIII al. 5 ad Marcellinum, cap. II, n. 15).



Qual é o ideal de uma sociedade cristã?

Santo Agostinho, falando da Igreja Católica, exclama:

"Conduzes e instrues as crianças com ternura, os jovens com vigor, os anciãos com calma, como comporta a idade não só do corpo mas da alma. Submetes as esposas a seus maridos, por uma casta e fiel obediência, não para saciar a paixão, mas para propagar a espé­cie e constituir a sociedade doméstica.

"Conferes autoridade aos mari­dos sobre as esposas, não para que abusem da fragilidade do seu sexo, mas para que sigam as leis de um sincero amor. Subordinas os filhos aos pais por uma terna autoridade.

"Unes não só em sociedade, mas em uma como que fraternidade os cidadãos aos cidadãos, as nações às nações, e os homens entre si, pela recordação de seus pri­mei­ros pais.

"Ensinas aos reis a velar pelos povos, e prescreves aos povos que obedeçam os reis.

"Ensinas com solicitude a quem se deve a honra, a quem o afeto, a quem o respeito, a quem o temor, a quem o consolo, a quem a advertência, a quem o encorajamento, a quem a correção, a quem a reprimenda, a quem o castigo; e fazes saber de que modo, se nem todas as coisas a todos se devem, a todos de deve a caridade e a ninguém a injustiça". (De Moribus Ecclesiae, cap. XXX, n. 63).

Seria impossível descrever melhor o ideal de uma sociedade intei­ra­mente cristã. Poderia em uma sociedade a ordem, a paz, a harmonia, a perfeição ser levada a limite mais alto?





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domingo, 29 de abril de 2018

A Igreja e o Reino de Cristo na Terra ‒ A Cristandade (1)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O que a Idade Média teve de original, malgrado os defeitos humanos atuantes em todas as épocas históricas, é que foi por excelência a era da “Cristandade”.

Isto é realizou o Reino de Cristo nesta terra, em toda a medida permitida pelas circunstâncias da época.

Cristandade: até hoje o termo e a realidade esplendorosa que ele exprime causam polêmica.

Tal vez ninguém a definiu melhor que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no hoje histórico artigo “A Cruzada do século XX”.

Atendendo a uma intenção didática, achamos melhor apresentar o conteúdo desse ensaio na forma de perguntas e respostas em sucessivos posts.



A finalidade da Igreja vai além da Terra?

Sim. A Igreja Católica foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar entre os homens os benefícios da Redenção.

Sua finalidade se identifica, pois, com a da própria Redenção: expiar os pecados dos homens pelos méritos infinitamente preciosos do Homem-Deus; restituir assim a Deus a glória extrínseca que o pecado Lhe havia roubado; e abrir aos homens as portas do Céu.

Esta finalidade se realiza toda no plano sobrenatural, e com ordem à vida eterna. Ela transcende absolutamente tudo quanto é meramente natural, terreno, perecível.

Foi o que N. S. Jesus Cristo afirmou, quando disse a Pôncio Pilatos "meu Reino não é deste mundo" (João, 18-36).



A Igreja quer o Reino de Cristo neste mundo?

Sim. Há nos desígnios da Providência uma relação íntima entre a vida terrena e a vida eterna. A vida terrena é o caminho, a vida eterna é o fim.

O Reino de Cristo não é deste mundo, mas é neste mundo que está o caminho pelo qual chegaremos até ele. Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu.



Como chegamos ao Céu?

Tornando-nos plenamente semelhantes a Deus, somos capazes de O amar plenamente, e de atrair sobre nós a plenitude de Seu amor. Ficamos, assim, preparados para a contemplação de Deus face a face, e para aquele eterno ato de amor, plenamente feliz, para o qual somos chamados no Céu.



O que é que é a vida terrena, então?

A vida terrena é, pois, um noviciado em que preparamos nossa alma para seu verdadeiro destino, que é ver a Deus face a face, e amá-lO por toda a eternidade.



Se nós formos bons, por quê nos importarmos com a ordem temporal?

Se nossa alma é boa, todas as nossas ações devem ser boas necessariamente, pois que a árvore boa não pode produzir senão bons frutos (Mat.7,17-18).

Assim, é absolutamente necessário, para que conquistemos o Céu, não só que em nosso interior amemos o bem e detestemos o mal, mas que por nossas ações pratiquemos o bem e evitemos o mal no estado que vivemos. Assim devemos agir na ordem temporal.



O Reino de Deus se realiza nesta Terra?
Sim. O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo, mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo.

Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército... vivendo a própria vida militar.



Qual é o sentido da festa de Cristo Rei?

É a festa de Cristo enquanto Rei Celeste cujo governo já se exerce neste mundo. É Rei quem possui de direito a autoridade suprema e plena. O Rei legisla, dirige e julga.



Quando se efetiva a Realeza de Cristo Rei?

Sua realeza se torna efetiva quando os súditos reconhecem seus direitos, e obedecem a suas leis.

Ora, Jesus Cristo possui sobre nós todos os direitos. Ele promulgou leis, dirige o mundo e julgará os homens.



Qual nossa parte na construção do Reino de Cristo?

Cabe-nos tornar efetivo o Reino de Cristo obedecendo a suas leis.



O Reino de Cristo é um fato social?

O Reinado de Cristo se exerce sobre as almas. Então, a alma de cada um de nós é uma parcela do campo de jurisdição de Cristo Rei.

O Reinado de Cristo será um fato social se as sociedades humanas Lhe prestarem obediência.



Como se realiza o Reino de Cristo nesta Terra?

O Reino de Cristo se torna efetivo na terra, individual e socialmente, quando os homens no íntimo de sua alma como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a Lei de Cristo.



O Reino de Cristo nesta Terra é eterno?

Não. Por mais concreta, brilhante e tangível que seja a realidade terrena do Reino de Cristo — no século XIII, por exemplo — é preciso não esquecer que este Reino não é senão preparação e proêmio. Na sua plenitude, o Reino de Deus se realizará no Céu: "O meu Reino não é deste mundo...". (João, 18-36).


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “A Cruzada do século XX”, Catolicismo nº 1, Janeiro de 1951)




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