domingo, 17 de fevereiro de 2019

Armaduras ainda surpreendem

Armadura de cerimônia de Luis XIV
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O uso de armadura em combate na Idade Média requeria raras condições de força e destreza – concluíram pesquisadores europeus e neozelandeses que analisaram com critérios modernos o uso delas.

A armadura medieval podia pesar 30 e até 50 kg.

Exames de esforço feitos em esteira mostraram que seu uso exigia mais que o dobro de energia empregado para a locomoção com roupas normais.

A conclusão, bastante obvia, tem agora uma medição científica.

Alberto Minetti, da Universidade de Milão, explicou que a respiração do combatente era exigida pela necessidade de mais energia e pelas restrições à expansão do tórax para respirar, impostas pelas placas de metal.

Nos testes, câmeras de alta velocidade ajudaram os cientistas a entender como os homens distribuíam a carga do peso da armadura entre seus membros durante a corrida.

Entretanto, era com esta sobrecarga que os heróis medievais desciam ao campo de batalha para defender a Igreja, a Cristandade, seus feudos e seus vassalos.

Graham Askem, da Universidade de Leeds, lembra que nem todos os guerreiros usavam armaduras completas.

Realmente muito custosas, as armaduras eram levadas por reis e grandes senhores, que dessa maneira patenteavam serem os chefes, atraindo sobre si flechas, dardos e ataques inimigos.

Armaduras no Musée des Armées, Paris
“O arqueiro inglês era levemente protegido e soldados menos nobres também deviam ter armaduras incompletas”, disse Askem ao iG.

O porte de armaduras explica a juventude dos exércitos medievais, disse Minetti.

“Certamente esses soldados estavam em forma. Caminhar pelos campos de batalha era pesado. Os músculos eram importantes, mas a capacidade aeróbica deles tinha que ser muito alta” – acrescentou.

Outra conclusão óbvia foi que o peso das armaduras influenciou no rumo das batalhas e da guerra, segundo a pesquisa divulgada na revista científica Proceedings of the Royal Society, citado pela BBC Brasil.

Elmo completo
No início da Idade Média, os cavaleiros cristãos não dominavam a técnica do aço e usavam cotas de malha e armas de ferro mais moles, pesadas, e que enferrujavam logo.

Por sua vez, os cavaleiros árabes, com couraças, escudos e cimitarras de aço, podiam usar cavalos mais leves e velozes, assumindo a iniciativa dos movimentos no campo de batalha.

Os católicos assimilaram a técnica do aço, notadamente em Toledo, Espanha. E a desenvolveram muito mais.

Porém, com o progresso geral da Cristandade, o próprio aço serviu para criar armas mais poderosas que vulneraram a resistência das armaduras.

Na batalha de Agincourt, citada pelo estudo e uma das principais vitórias da Inglaterra sobre a França, em 1415, durante a Guerra dos Cem Anos, a cavalaria francesa foi posta por terra pelos famosos arqueiros e besteiros ingleses.

No século XV, as armaduras eram construídas a partir de placas de aço interligadas, que cobriam o soldado da cabeça aos pés.

Armadura usada nos testes
Mas foram perdendo sua importância militar com o aparecimento de armas de fogo.

Se elas perderam utilidade, ganharam muito em beleza e simbolismo.

Até Luís XIV, no século XVII, mandou fazer sua armadura completa que pode ser vista no Museu dos Inválidos, em Paris.

Hoje o desenvolvimento de novas armas puxou a de novas formas de proteção, como os coletes à prova de bala ou as blindagens cerâmicas dos tanques modernos.

A modernidade foi capaz de dar surpreendentes passos práticos, mas não soube dar os correspondentes passos na linha da beleza para poder se comparar com as armas e armaduras medievais.

De fato, a nobreza e a beleza moral das almas que usavam as armaduras se refletiam nestas.

Na modernidade, o pragmatismo e a feiura que tomaram conta dos espíritos se refletem em muitos equipamentos de combate.





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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Superioridade da família na Idade Média
em relação ao paganismo antigo (e moderno!)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Não poderíamos apreender melhor a importância desta base familiar do que, por exemplo, comparando a sociedade medieval, composta de famílias, com a sociedade antiga, composta de indivíduos.

Na Antiguidade

Nesta, o varão detém a primazia em tudo: na vida pública ele é o civis, o cidadão que vota, que faz as leis e toma parte nos negócios de Estado; na vida privada, é o pater familias, o proprietário de um bem que lhe pertence pessoalmente, do qual é o único responsável, e sobre o qual as suas atribuições são quase ilimitadas.

Em parte alguma se vê a sua família ou a sua linhagem participando na sua atividade.

A mulher e os filhos estão inteiramente submetidos a ele, em relação a quem permanecem em estado de menoridade perpétua.

Sobre eles, como sobre os escravos ou sobre as propriedades, tem o jus utendi et abutendi, o poder de usar e consumir.

A família parece existir apenas em estado latente, não vive senão pela personalidade do pai, que é simultaneamente chefe militar e grande sacerdote, com todas as conseqüências morais que daí decorrem, entre as quais é preciso colocar o infanticídio legal.

A criança, na Antiguidade, era a grande sacrificada, um objeto cuja vida dependia do juízo ou do capricho paterno.

Estava submetida a todas as eventualidades da troca ou da adoção, e quando o direito de vida lhe era concedido, permanecia sob a autoridade do pater familias até à morte deste.

Mesmo então não adquiria de pleno direito a herança paterna, já que o pai podia dispor à vontade dos seus bens por testamento.

Quando o Estado se ocupava dessa criança, não era de todo para intervir a favor de um ser frágil, mas para realizar a educação do futuro soldado e do futuro cidadão.

Poderíamos estudar a Antiguidade — e estudamo-la de fato — sob a forma de biografias individuais: a história de Roma é a de Sila, Pompeu, Augusto; a conquista dos gauleses é a história de Júlio César.

Na Idade Média

Nada subsiste desta concepção na nossa Idade Média. O que importa então já não é o homem, mas a linhagem.

Ao se abordar a Idade Média, uma mudança de método impõe-se: a história da unidade francesa é a da linhagem capetiana; a conquista da Sicília é a história dos descendentes de uma família normanda, demasiado numerosa para o seu patrimônio.

Para compreender bem a Idade Média, é preciso vê-la na sua continuidade, no seu conjunto.

Talvez por isso ela é muito menos conhecida e muito mais difícil de estudar do que o período antigo, porque é necessário apreendê-la na sua complexidade, segui-la na continuidade do tempo, através dessas cortes que são a sua trama.

E é preciso fazê-lo não apenas em relação às que deixaram um nome pelo brilho dos seus feitos ou pela importância do seu domínio, mas também nas gentes mais humildes das cidades e dos campos, que é preciso conhecer na sua vida familiar se quisermos dar conta do que foi a sociedade medieval.

Isto se explica, pois durante esse período de perturbações e de decomposição total, que foi a Alta Idade Média, a única fonte de unidade, a única força que permaneceu viva foi precisamente o núcleo familiar, a partir do qual se constituiu pouco a pouco a unidade francesa.

A família e a sua base fundiária foram assim, devido às circunstâncias, o ponto de partida da nossa nação.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)





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domingo, 3 de fevereiro de 2019

Classes sociais medievais: relacionamento justo e harmonioso

Luis Dufaur
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Julgou-se durante muito tempo que bastava, para explicar a sociedade medieval, recorrer à clássica divisão em três ordens: clero, nobreza e terceiro estado.

É a noção que dão ainda os manuais de História: três categorias de indivíduos, bem definidas, tendo cada uma as suas atribuições próprias e nitidamente separadas umas das outras. Nada está mais afastado da realidade histórica.

A divisão em três classes pode aplicar-se ao Antigo Regime, aos séculos XVII e XVIII, onde efetivamente as diferentes camadas da sociedade formaram ordens distintas, cujas prerrogativas e relações dão conta do mecanismo da vida.

No que concerne à Idade Média, tal divisão é superficial. Explica o agrupamento, a repartição e distribuição das forças, mas nada revela sobre a sua origem, sua jurisdição, a estrutura profunda da sociedade.

Tal como aparece nos textos jurídicos, literários e outros, esta divisão corresponde a uma hierarquia, comportando uma ordem determinada, mas uma ordem diferente do que se pensou, e desde já muito mais variada.

Nos atos notariais, vê-se correntemente o senhor de um condado, o cura de uma paróquia aparecerem como testemunhas em transações entre vilãos, e a mesnie (mesnada é o termo correspondente entre nós, mas de sentido diferente, englobando um companheirismo guerreiro) de um barão — quer dizer, o seu meio, os seus familiares — comporta tanto servos e frades como altas personagens.

As atribuições destas classes estão também estreitamente entrelaçadas.

A maior parte dos bispos são igualmente senhores, e muitos deles se originam do povo miúdo.

Um burguês que compra uma terra nobre torna-se também nobre em certas regiões. Logo que abandonamos os manuais para mergulhar nos textos, esta noção das “três classes da sociedade” se mostra fictícia e sumária.

Mais próxima da verdade, a divisão em privilegiados e não privilegiados se mostra também incompleta, porque houve na Idade Média privilegiados da mais alta à mais baixa escala social.

O menor aprendiz é um privilegiado em determinados níveis, pois participa dos privilégios do corpo de ofício; as isenções da universidade beneficiam os estudantes, e mesmo os seus criados, tanto como os mestres e os doutores.

Alguns grupos de servos rurais gozam de privilégios precisos, que o seu senhor é obrigado a respeitar.

Considerar como privilégios apenas os da nobreza e do clero, é uma noção completamente errônea da ordem social.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)




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domingo, 27 de janeiro de 2019

Covadonga: como foi o portentoso milagre da vitória

Don Pelayo, estátua em Cangas de Onís, Astúrias
Luis Dufaur
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Invasão moura na base da traição

Musa bem Nusayr, com ciúmes dos sucessos de seu capitão Tarif, resolveu também atravessar o Estreito à frente de poderoso exército, com o qual foi conquistando, uma após outra, Sevilha, Mérida, Saragoça e as atuais províncias de Málaga e Granada. Toledo já fora dominada por Tarif no ano de 713.

Juntando infâmia à traição, os partidários do último rei Vitiza foram entregando suas cidades ao invasor.

E assim foram caindo, como cartas de baralho, todas as regiões da Espanha visigótica, restando somente poucos núcleos independentes da autoridade muçulmana nos Montes Cantábricos, nas Vascongadas e junto aos Pireneus.

No ano 716, a maioria da população era composta de hispano-romanos cristãos, aos quais os mouros não obrigavam a se converter ao Islã, porque sua religião era também do Livro Revelado.

Mas tinham que pagar impostos ao invasor, sob pena de escravidão e confisco de bens.

D. Pelayo resiste e é aclamado rei

O governador muçulmano de Gijón, Munuza, enamorou-se da irmã de Pelayo. Por isso enviou-o para Córdoba com outros reféns, para poder dar livre curso a suas paixões desordenadas.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Covadonga: o milagre que parou a invasão muçulmana

Gruta de Covadonga: local do milagre
Luis Dufaur
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No ano 722, em Covadonga começou a reconquista da Espanha invadida pelos árabes muçulmanos.

Foi ali que, segundo as crônicas, Pelayo (primeiro rei das Astúrias), derrotou aos seguidores de Maomé, com o auxílio miraculoso de Nossa Senhora.

Aquela vitória milagrosa deu início a 800 anos de Cruzada nos quais se constituiu a Espanha católica.

Cangas de Onís foi a capital do novo Reino de Astúrias até o ano 774.

Nela se estabeleceu o rei Don Pelayo, e desde ela empreendeu com seus homens diversas campanhas no norte da Espanha.

Cangas de Onís ficou com seu heroico rei como único foco de resistência ao expansionismo muçulmano até então invicto.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Retomada dos estudos sobre a Idade Média: vitória da verdade histórica

Catedral de Ferrara
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Preconceitos e anacronismos obscurecem a verdade sobre a Idade Média



7. A esta altura, o leitor poderá perguntar: se a investigação histórica é produzida no cruzamento entre o “eu” e o “outro”, entre presente e passado, como é possível o conhecimento objetivo da história?

O conhecimento objetivo ou científico do passado pressupõe a adoção de um método seguro, que permita uma abordagem fiel das fontes.

Não se deve, entretanto, confundir rigor metodológico com a obsessão positivista de eliminar a possibilidade de interferência da personalidade do estudioso no desenvolvimento da pesquisa para evitar os riscos de uma análise “subjetiva” da documentação.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Preconceitos e anacronismos obscurecem a verdade sobre a Idade Média

Catedral de Bristol
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: A Idade Média: era histórica mal conhecida por causa de preconceitos


5. Até aqui insistimos sobre a necessidade de se adotar uma atitude de abertura e submissão aos documentos, alertando para o fato de que preconceitos e anacronismos podem distorcer os resultados da pesquisa.

De fato, a realidade histórica sempre se revela mais densa, complexa e rica do que certos conceitos dos quais facilmente nos tornamos prisioneiros.

Frisar a exigência de fidelidade às fontes, no entanto, não quer dizer que o ofício do historiador seja meramente passivo ou receptivo.


Ao estudioso cabe a tarefa de fazer os documentos falarem. Muitas vezes, o material analisado parece bem pouco eloquente; a quantidade e a qualidade das informações que serão extraídas dele dependem da habilidade do historiador ao questioná-lo.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A Idade Média: era histórica mal conhecida
por causa de preconceitos

Luis Dufaur
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2. Apesar do significativo renovamento dos estudos sobre a Idade Média, ela ainda é muito pouco conhecida, ou — o que é pior — mal conhecida por quem não é especialista.

As noções fragmentadas e contraditórias transmitidas na escola permitem que se use (e abuse) de conceitos relativos à Idade Média segundo a conveniência de cada um: desde o militante político que apelida a perversa concentração fundiária brasileira de “feudal”, até os novos “magos” de hoje que procuram se revestir de uma aura “medieval” para vender livros de auto-ajuda.

O fato mais grave, no entanto, é que a Idade Média segue sendo vítima de um grande preconceito.

Para muitos, ela ainda representa um período no qual a humanidade, subjugada pela ignorância e flagelada pela peste, viveu oprimida sob o terror das fogueiras da Inquisição.

Afinal de contas, continua a ser aceito o rótulo de “idade das trevas”, como se no milênio que permeia a queda do Império Romano e a chegada de Colombo à América não houvesse sido criado nada que fosse digno de nota.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Crescente interesse pelo estudo da Idade Média
em ambientes acadêmicos

Luis Dufaur
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1. Nas últimas décadas, a Idade Média vem suscitado um interesse crescente.

Desde os anos 50, aproximadamente, os estudos medievais conquistaram um posto de honra na historiografia, razão pela qual têm sido amplamente divulgados no Brasil; mas essa curiosidade já extrapolou os restritos círculos acadêmicos.

Nos dias de hoje, a Idade Média exerce também uma fascinação irrecusável sobre a imaginação do grande público, conforme testemunham a crescente quantidade de publicações de textos literários medievais e o fato de que recriações das narrativas sobre o rei Artur, o Santo Graal ou o mago Merlin sejam atualmente responsáveis por alguns best-sellers nas livrarias e por gordas bilheterias nos cinemas: é o sucesso da Idade Média na sociedade de consumo.

Esse interesse é bem compreensível, pois falar da Idade Média é, de certa forma, falar de nós mesmos.