domingo, 20 de janeiro de 2019

Covadonga: o milagre que parou a invasão muçulmana

Gruta de Covadonga: local do milagre
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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No ano 722, em Covadonga começou a reconquista da Espanha invadida pelos árabes muçulmanos.

Foi ali que, segundo as crônicas, Pelayo (primeiro rei das Astúrias), derrotou aos seguidores de Maomé, com o auxílio miraculoso de Nossa Senhora.

Aquela vitória milagrosa deu início a 800 anos de Cruzada nos quais se constituiu a Espanha católica.

Cangas de Onís foi a capital do novo Reino de Astúrias até o ano 774.

Nela se estabeleceu o rei Don Pelayo, e desde ela empreendeu com seus homens diversas campanhas no norte da Espanha.

Cangas de Onís ficou com seu heróico rei como único foco de resistência ao expansionismo muçulmano até então invicto.

Don Pelayo
Do antigo e decadente reino visigodo cristão tudo tinha desaparecido.

Só ficou Don Pelayo, um punhado de valentes e, o mais valioso de tudo, o impulso vencedor da Cruz e de Nossa Senhora de Covadonga.

Na batalha de Covadonga, Don Pelayo portava uma Cruz com a inscrição em latim:

 “HOC SIGNO TVETVR PIVS. HOC SIGNO VINCITVR INMICVS”

Quer dizer: “Com este signo o piedoso é protegido. Com este signo o inimigo é vencido”.

Hoje é o símbolo de Astúrias.

Junto à gruta da vitória milagrosa e sobre um pequeno morro surge hoje o Santuário de Covadonga.

Ele foi construído com a pedra avermelhada da região que se destaca entre o verde das pradarias e das florestas.

Na manhã cedinho, quando a névoa envolve o vale, é fácil ver o Santuário emergindo na solidão como se estivesse pairando no ar.

Etimologicamente Covadonga significa Cova da Senhora e está unida indissoluvelmente ao nascimento da nacionalidade hispânica.



Nossa Senhora de Covadonga, a "Santina"
Nossa Senhora de Covadonga, a “Santina”

Bendita seja a Rainha da nossa montanha, cujo trono é o berço da Espanha.

Causa da nossa alegria, vida e esperança nossa, abençoa nossa Pátria e mostra que teus filhos, teus são.

Don Pelayo, o vencedor dos muçulmanos em Covadonga, hoje é considerado na Espanha “o símbolo de uma sociedade, que após ter caído, luta para reconquistar a liberdade, é o modelo para nós reconquistarmos uma sociedade invadida por outros bárbaros”.


Vídeo: Covadonga: o milagre que parou a invasão muçulmana







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domingo, 13 de janeiro de 2019

Retomada dos estudos sobre a Idade Média: vitória da verdade histórica

Catedral de Ferrara
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Preconceitos e anacronismos obscurecem a verdade sobre a Idade Média



7. A esta altura, o leitor poderá perguntar: se a investigação histórica é produzida no cruzamento entre o “eu” e o “outro”, entre presente e passado, como é possível o conhecimento objetivo da história?

O conhecimento objetivo ou científico do passado pressupõe a adoção de um método seguro, que permita uma abordagem fiel das fontes.

Não se deve, entretanto, confundir rigor metodológico com a obsessão positivista de eliminar a possibilidade de interferência da personalidade do estudioso no desenvolvimento da pesquisa para evitar os riscos de uma análise “subjetiva” da documentação.

León, Espanha, claustro da catedral
Essa pretensão se revela, em particular no campo das ciências humanas, uma utopia prejudicial: se limitarmos nossa investigação somente àquilo que pode ser considerado “objetivo” ou “comprovado” — conceitos que são, de resto, bastante escorregadios —, terminaremos por reduzir a história a uma coleção de fatos desconexos ou então a simples sondagens estatísticas.

Dessa forma, em suma, ficaríamos à margem do que é mais importante conhecer, isto é, o significado dos acontecimentos, das idéias e das experiências dos homens do passado(15).

A neutralidade total do pesquisador é uma meta inatingível: só seria possível na hipótese absurda de que o objeto de estudo lhe fosse inteiramente indiferente (mas então por que estudá-lo?).

Imparcialidade não significa aridez; já notamos que a riqueza interior do estudioso é um ingrediente fundamental na elaboração do conhecimento histórico.

Contrariando a estéril tentativa de levar o pesquisador ao estado de ataraxia a fim de garantir a objetividade do trabalho científico, Marrou afirma que entre o sujeito e o objeto da investigação deve haver uma relação de simpatia e amizade, pois, como já dizia Santo Agostinho, “não se pode conhecer ninguém a não ser pela amizade”.

Não se trata, evidentemente, de maquiar o passado, substituindo a “lenda negra” sobre a Idade Média por uma “lenda dourada” igualmente tendenciosa.

Catedral de Palermo, Itália
A simpatia e a amizade de que o autor fala constituem o fundamento da dedicação sincera na tentativa de conhecer o outro como ele realmente é: “a amizade autêntica, na vida como na história, supõe a verdade”(16).

A verdadeira simpatia pelo objeto é, paradoxalmente, uma condição indispensável para gerar em nós aquele desapego necessário no caso de os resultados da pesquisa contrariarem nossas hipóteses ou expectativas.

A humilde disponibilidade de aceitar a verdade tal como ela se nos apresenta, e não como gostaríamos que fosse, é o que Luigi Giussani apelidou de “regra moral” do conhecimento: “amor à verdade do objeto maior que nosso apego às opiniões que já formamos sobre ele”(17).

8. Embora entrem em conflito com algumas idéias atualmente em voga, as sugestões metodológicas propostas pelos autores citados estão em perfeita sintonia com a mentalidade medieval.

Se para muitos hoje, o termo estudo evoca uma atividade insossa e meramente cerebrina, na Idade Média, como notou Luiz Jean Lauand, o alcance semântico de studium era mais amplo: “Studium significa amor, afeição, devotamento, a atitude de quem se aplica a algo porque ama”(18).

Fim

(Autor: Raúl Cesar Gouveia Fernandes, M. Sc. Letras FFLCHUSP - Prof. Filosofia FEI, “Reflexões sobre o Estudo da Idade Média”). 

Notas:
(1). A Idade Média: Nascimento do Ocidente. São Paulo, Brasiliense, 1986, pp. 170-179.
(2). Cf. Nunes, Ruy A. da Costa. História da Educação na Idade Média. São Paulo, EDUSP, 1979, pp. 9-30.
(3). Lisboa, Europa-América, s / d.
(4). Cf. Dawson, C. Il Cristianesimo e la Formazione della Civiltà Occidentale, Milão, Rizzoli, 1997, p. 60.
(5). Do Conhecimento Histórico, Lisboa, Martins Fontes, s / d, pp. 85 e 231.
(6). Cf. Giussani, Luigi. O Senso de Deus e o Homem Moderno, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997, p. 101 e ss.
Santa Isabel da Hungria, Edmund Blair Leighton
(7). A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, São Paulo, Quadrante, 1993, p. 39.
(8). O Anúncio Feito a Maria, Rio de Janeiro, Agir, 1968, p. 28.
(9). Marchi, Cesare. Grandes Pecadores, Grandes Catedrais, São Paulo, Martins Fontes, 1991, p. 39.
(10). Cf. O Declínio da Idade Média, Lisboa, Ulisséia, s / d.
(11). Cf. Massimi, Marina. “Partir do Presente”, in: Litterae Communionis, 57, maio / junho 1997.
(12). Marrou, Henri-Irenée. Op. cit., p. 92.
(13). Fontaine, J. “Face à la Foi des Premiers Siècles”, in: Delumeau, J. L’Historien et la Foi, Paris, 1996, p. 116.
(14). Cf. A Mulher no Tempo das Catedrais, Lisboa, Gradiva, 1984.
(15). Cf. Brooke, Christopher. O Casamento na Idade Média, Lisboa, Europa-América, pp. 15-32.
(16). Marrou, Henri-Irenée. Op. cit., p. 88.
(17). Giussani, Luigi. O Senso Religioso. 2a edição, São Paulo, Companhia Ilimitada, 1993, p. 59.
(18). Cultura e Educação na Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 1998, p. 302.





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domingo, 16 de dezembro de 2018

Preconceitos e anacronismos obscurecem a verdade sobre a Idade Média

Catedral de Bristol
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: A Idade Média: era histórica mal conhecida por causa de preconceitos


5. Até aqui insistimos sobre a necessidade de se adotar uma atitude de abertura e submissão aos documentos, alertando para o fato de que preconceitos e anacronismos podem distorcer os resultados da pesquisa.

De fato, a realidade histórica sempre se revela mais densa, complexa e rica do que certos conceitos dos quais facilmente nos tornamos prisioneiros.

Frisar a exigência de fidelidade às fontes, no entanto, não quer dizer que o ofício do historiador seja meramente passivo ou receptivo.


Ao estudioso cabe a tarefa de fazer os documentos falarem. Muitas vezes, o material analisado parece bem pouco eloquente; a quantidade e a qualidade das informações que serão extraídas dele dependem da habilidade do historiador ao questioná-lo.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A Idade Média: era histórica mal conhecida
por causa de preconceitos

Luis Dufaur
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2. Apesar do significativo renovamento dos estudos sobre a Idade Média, ela ainda é muito pouco conhecida, ou — o que é pior — mal conhecida por quem não é especialista.

As noções fragmentadas e contraditórias transmitidas na escola permitem que se use (e abuse) de conceitos relativos à Idade Média segundo a conveniência de cada um: desde o militante político que apelida a perversa concentração fundiária brasileira de “feudal”, até os novos “magos” de hoje que procuram se revestir de uma aura “medieval” para vender livros de auto-ajuda.

O fato mais grave, no entanto, é que a Idade Média segue sendo vítima de um grande preconceito.

Para muitos, ela ainda representa um período no qual a humanidade, subjugada pela ignorância e flagelada pela peste, viveu oprimida sob o terror das fogueiras da Inquisição.

Afinal de contas, continua a ser aceito o rótulo de “idade das trevas”, como se no milênio que permeia a queda do Império Romano e a chegada de Colombo à América não houvesse sido criado nada que fosse digno de nota.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Crescente interesse pelo estudo da Idade Média
em ambientes acadêmicos

Luis Dufaur
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1. Nas últimas décadas, a Idade Média vem suscitado um interesse crescente.

Desde os anos 50, aproximadamente, os estudos medievais conquistaram um posto de honra na historiografia, razão pela qual têm sido amplamente divulgados no Brasil; mas essa curiosidade já extrapolou os restritos círculos acadêmicos.

Nos dias de hoje, a Idade Média exerce também uma fascinação irrecusável sobre a imaginação do grande público, conforme testemunham a crescente quantidade de publicações de textos literários medievais e o fato de que recriações das narrativas sobre o rei Artur, o Santo Graal ou o mago Merlin sejam atualmente responsáveis por alguns best-sellers nas livrarias e por gordas bilheterias nos cinemas: é o sucesso da Idade Média na sociedade de consumo.

Esse interesse é bem compreensível, pois falar da Idade Média é, de certa forma, falar de nós mesmos.

domingo, 18 de novembro de 2018

Distinções e atributos dos Lordes:
títulos e coroas

Escudo do conde de Shrewsbury
Luis Dufaur
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O barão par da Inglaterra porta um diadema com seis pérolas.

A coroa começa no visconde. O visconde porta uma coroa com incontáveis pérolas; o conde, uma coroa de pérolas sobre pontas entremeadas com folhas de groselha, mais baixas; o marquês, pérolas e folhas de igual altura; o duque real, um círculo de cruzes e de flores de lis; o príncipe de Gales, uma coroa semelhante à do rei, mas não fechada.

O duque é ‘muito alto e muito poderoso príncipe’; o marquês e o conde, ‘muito nobre e poderoso senhor’; o visconde, ‘nobre e poderoso senhor’; o barão, ‘verdadeiramente senhor’.

O duque é ‘graça’; os outros pares são ‘senhoria’.

Os lordes são invioláveis.

Os pares são câmara e corte, ‘concilium et curia’, legislatura e justiça.

‘Most honourable’ é mais do que ‘right honourable’.

Os lordes pares são qualificados de ‘lordes de direito’; os lordes não pares são ‘lordes de cortesia’; não há, pois, lordes propriamente a não ser os pares.

domingo, 11 de novembro de 2018

Como era uma "Canção de Cruzada"?

Batalha das Navas de Tolosa, episódio eminente da Reconquista da Espanha
Luis Dufaur
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A Canção de Cruzada traduzida e reproduzida a continuação foi composta para encorajar os cristãos a participar na campanha contra a invasão islâmica da Espanha.

A cruzada resultante deu na grande vitória de Las Navas de Tolosa em 1212.

Foi composta após a derrota de Alarcos (19 de julho de 1195) e do avanço dos almohades de Abu Yusuf na península ibérica. O autor Gavaudan (1195-1215) foi um trovador-soldado das cortes de Tolosa e posteriormente em Castela.

Senhores, por causa dos nossos pecados cresce a força dos sarracenos; Saladino tomou Jerusalém (em 1187) e a cidade ainda não foi recuperada.

O rei de Marrocos fez-nos saber que combaterá contra todos os reis cristãos com seus pérfidos andaluzes e árabes, armados contra a fé de Cristo.

Ele convocou a todos os alcaides (governadores de fortalezas), almofades, mouros, godos e bereberés, e não queda homem forte nem débil que não tenha se reunido a todos eles.

Nunca uma chuva tão torrencial fez tanto dano como quando eles passam e se apossam dos prados. Eles devastam como ovelhas que não deixam nem broto nem raiz.

Seus escolhidos têm tanto orgulho que acham que submeterão o mundo todo. Marroquinos e almorávides instalam-se nos morros e nos vales.

Fanfarreiam entre eles: “¡Francos, afastai-vos! Nossas são a Provença e o Tolosanés e tudo que há até o Puy.”

Nunca se ouviu uma bazófia tão feroz nesses cães falsos, malditos sem fé.

domingo, 4 de novembro de 2018

A Igreja medieval não inventou a perseguição aos hereges

São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.  Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.
Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
Luis Dufaur
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Desde os primórdios do Cristianismo houve, da parte de potentados temporais, a aplicação de medidas punitivas contra hereges.(1)

Isso porque, quer no Império Romano cristão do Ocidente, quer no Bizantino, e sobretudo nas nações cristãs que foram compondo a Cristandade Medieval, a Religião Católica, sua moral, suas leis e doutrinas respondiam em muito larga medida pela urbanização e sustentação da ordem civil.(2)

Isto não era novidade. Era um conceito comum em toda a Antiguidade. E nas civilizações pagãs, inclusive as menos decadentes punham em prática esse critério com largas doses de abuso e crueldade.

A heresia afigurava-se, pois, frequentes vezes, como uma séria ameaça à ordem civil estabelecida.

Tanto mais quanto quase todas as heresias, que assolaram a Igreja e a Cristandade naqueles séculos, revestiam-se de um caráter nitidamente anarquista e anti-social.(3)

Foi assim que a iniciativa da perseguição - com o fim de aplicação de penas temporais - aos hereges não partiu da Igreja, mas da sociedade civil.

Alguns dos últimos Imperadores romanos - antes da Idade Média, portanto - desterravam hereges, confiscavam-lhes os bens, mas, via de regra, só aplicavam a pena capital aos culpados de atos de violência contra os cristãos.(4)

A ameaça à ordem civil nas nações cristãs da Idade Média, representada pelas heresias, levou muitos monarcas a tomar a iniciativa de perseguir os hereges. Notadamente as heresias neomaniquéias que se desenvolveram no sul da França, nos séculos XII e XIII - os albigenses que assolaram progressivamente quase toda a Cristandade, puseram em contínuo sobressalto reis e imperadores.(5)

Vemos, pois, um Roberto o Piedoso, Rei da França, que, no século XI, solicita insistentemente ao Papa medidas punitivas contra os hereges.

domingo, 21 de outubro de 2018

O Brasil e os templários no plano da Providência

Milagre de Ourique
Luis Dufaur
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Portugal nasceu sendo rei D. Afonso Henriques. Na batalha de Ourique, ele estava na indecisão do resultado da luta contra os mouros.

Nosso Senhor apareceu ao heroico rei fundador de Portugal exibindo suas cinco chagas, pregado na Cruz, e incitando-o a que ele não perdesse o ânimo e que continuasse para frente. Porque a Providência queria um Portugal português.

Ele continuou a batalha e ganhou.

E daí as cinco chagas de Nosso Senhor estarem na origem do reino de Portugal, que era antes um condado e que passou a reino no tempo dele.

A origem de Portugal e toda sua vida é, portanto, profundamente embebida de coisas católicas.

Nós dizemos que os reis de Portugal, ou Pedro Alvares Cabral, descobriu o Brasil. Essas coisas são muito controvertidas, e uma delas é flagrantemente errada.

Não foi Portugal que descobriu o Brasil.

domingo, 14 de outubro de 2018

A nobreza podia ser adquirida, de preferência por méritos, ou perdida por deméritos

João II, rei da França, aduba cavaleiros, iluminura século XIV-XV, BNF
Luis Dufaur
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A nobreza é hereditária, mas pode também ser adquirida, seja como retribuição de serviços, seja pela aquisição de um feudo nobre.

Foi o que aconteceu em grande escala pelos fins do século XIII.

Numerosos tinham sido os nobres mortos ou arruinados nas grandes expedições, então muitos tornaram-se nobres, fato que deu origem a uma reação da nobreza.

A cavalaria enobrecia aquele a quem ela era conferida.

E com o correr dos tempos surgiram os títulos de nobreza, que na verdade foram distribuídos muito parcimoniosamente.

Podia-se adquirir a nobreza, mas também podia-se perdê-la por decadência, como decorrência de uma condenação infamante.

A vergonha de uma hora apaga bem quarenta anos de honra — dizia-se.

Ela se extinguia ainda pela derrogação, quando um nobre confessava ter exercido um ofício plebeu ou um tráfico qualquer.

Com efeito, era proibido sair do papel que lhe fora conferido. Ele não devia mais procurar se enriquecer, assumindo cargos que lhe poderiam fazer negligenciar aqueles aos quais dedicou sua vida.

domingo, 7 de outubro de 2018

Feudalismo: reciprocidade de fidelidade e serviço

Homenagem de Eduardo I a Felipe o Belo da França
Luis Dufaur
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As obrigações que ligam o vassalo a seu senhor levam à reciprocidade: “O senhor deve tanta fidelidade e lealdade a seu homem como o homem a seu senhor” — diz Beaumanoir.

Esta noção de dever recíproco, de serviço mútuo, se encontra muitas vezes em textos, tanto literários como jurídicos.

“O senhor deve mais reconhecimento a seu vassalo do que este a seu senhor” — observa Etienne de Fougères no seu “Livre des Manières”.

Philippe de Novare comenta em apoio dessa constatação: 

“Aqueles que recebem serviços e jamais o recompensam bebendo de seus servos o suor, que lhes é veneno mortal ao corpo e à alma”.

De onde vem a máxima: “Ao bem servir convém recompensar”.

Exige-se da nobreza mais compostura e retidão moral que dos outros membros da sociedade.

Por uma mesma falta, a pena aplicada a um nobre será muito superior à de um plebeu.

domingo, 30 de setembro de 2018

O imposto do sangue era o mais duro, e só era pago pela nobreza

Luis Dufaur
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Das obrigações militares da nobreza decorre a maior parte dos seus costumes.

O direito de primogenitura vem, em parte, da necessidade de confiar ao mais forte a herança que ele deve garantir, muitas vezes pela espada.

A lei sálica se explica também por isso, pois só um homem pode assegurar a defesa de um castelo (donjon).

Assim pois, quando uma mulher se torna a única herdeira de um feudo, o suserano tem o dever de casá-la.

Eis por que a mulher apenas sucederá após seus filhos mais jovens, e estes após o primogênito.

Estes só receberão apanágios, e ainda assim muitos desastres ocorridos pelo fim da Idade Média tiveram por origem os demasiados apanágios deixados a seus filhos por João, o Bom.

O poder foi para eles uma tentação perpétua, e para todos uma fonte de desordem durante a minoridade de Carlos VI.

Os nobres têm igualmente o dever de fazer justiça a seus vassalos de todas as condições e de administrar o feudo.

domingo, 23 de setembro de 2018

Idade Média: era de grandes descobertas geográficas

Lenda irlandesa conta que São Brendano
e seus monges chegaram a América.
Colombo queria encontrar a "terra de São Brendano".
Luis Dufaur
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No domínio da exploração e dos conhecimentos geográficos, a atividade não foi menor.

É um erro, mais do que uma injustiça, fazer remontar apenas ao Renascimento a época das grandes viagens.

A descoberta da América fez esquecer que a curiosidade dos geógrafos e exploradores da Idade Média em relação ao Oriente não havia sido menor do que a dos seus sucessores em relação ao Ocidente.

Desde os primórdios do século XII, Benjamim de Toledo tinha ido até à Índia. Cerca de cem anos mais tarde, Odéric de Pordenone atingia o Tibete.

As viagens de Marco Polo, bem como outras menos conhecidas — as de Jean du Plan-Carpin, Guillaume de Rubruquis, André de Longjumeau, Jean de Béthencourt — bastam para dar ideia da atividade desenvolvida nessa época para a descoberta da Terra.

A Ásia e a África eram então infinitamente mais bem conhecidas do que o foram a seguir.

São Luís estabeleceu relações com o khan (imperador) dos mongóis e também com o Velho da Montanha, o terrível senhor da seita dos assassinos.

domingo, 9 de setembro de 2018

O vínculo feudal: relação pessoal de fidelidade e proteção

Relações recíprocas entre nobre e vassalos: baseadas na proteção e fidelidade
Luis Dufaur
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Pode-se dizer da sociedade atual que ela se fundamenta sobre o assalariado.

No plano econômico, as relações de homem para homem reduzem-se às relações do capital e do trabalho.

Executar um trabalho determinado, receber em troca uma certa soma, tal é o esquema das relações sociais.

O dinheiro é o nervo essencial delas, pois com raras exceções uma atividade determinada se transforma de início em numerário, antes de se transformar novamente em objeto necessário à vida.

Para compreender a Idade Média, é preciso se afigurar uma sociedade vivendo de modo totalmente diverso, em que a noção de trabalho assalariado, e em parte até mesmo a do dinheiro, são ausentes ou secundárias.

O fundamento das relações de homem a homem é a dupla noção de fidelidade e proteção.

Assegura-se a alguém seu devotamento, e em troca espera-se dele segurança.

Não se contrata sua atividade, tendo em vista um trabalho determinado com remuneração fixa, mas sua pessoa, ou antes sua fidelidade.