domingo, 15 de julho de 2018

O simbolismo do leão: Jesus Cristo;
e da leoa: Nossa Senhora (2)

Cristo é o Leão de Judá. Cristo em Majestade no Juízo Final.
Beato Angélico (1395 – 1455). Catedral de Orvieto, Itália
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






continuação do post anterior: O simbolismo do leão: Jesus Cristo; e da leoa: Nossa Senhora (2)



O demônio enganou o homem; Deus venceu o homem, que não o reconheceu, e depois ao diabo, mediante sua adequada virtude.

Se o demônio tivesse sabido que aquele homem mortal era Deus, não o havia conduzido à crucificação.

Assim Deus obrou habilmente, sem que o demônio se dessa conta; Deus se ocultou de nosso inimigo, que não soube que Deus era aquele homem até que o comprovou.

Deus se ocultou tanto que os anjos do céu que estavam no Paraíso não o reconheceram.

Por isso, quando voltou o Filho de Deus em majestade para o lugar de onde havia partido quando se encarnou por nós, perguntaram aos anjos que estavam com ele:

“‒ Quem é esse rei de glória que regressa com o triunfo?”

Os que estavam com Deus deram a seguinte resposta:

“‒ Este é o rei de glória que regressa com o triunfo.”

E os anjos que estavam no céu também perguntaram:

“‒ Por que carrega roupas de cor vermelha?”

Os anjos e Nosso Senhor responderam:

“‒ Pelo martírio que temos sofrido na terra para conquistar vossas almas.”

E assim entendemos, através das pegadas do leão, que Deus quis ocultar-se para enganar o demônio.

O leão teme o galo branco e o ruído dos carros em movimento, e tal é sua índole que dorme com os olhos abertos. E isso haveis de entender nas figuras que vês.

O galo branco significa os homens de vida virtuosa que anunciaram sua morte antes que Deus falecesse. Ele muito a temia, pois era homem, e o texto sagrado demonstra que o próprio Deus disse:

“‒ Pai, perdoa-Me pela morte que devo sofrer: que Tua vontade não se detenha por mim.”

Assim mostrou ser homem em sua morte. Tal e como o homem é alma e corpo, Cristo é Deus e homem.

E sabeis que Deus disse a São Pedro o seguinte: que lhe negaria três vezes antes que o galo cantasse. Em sua honra, o galo canta todas as horas, dia e noite, e nós, igualmente, cantamos a prima, a terça e meio-dia, e rezamos dia e noite para o Nosso Criador.

León, British Library, Royal MS 12 C xix, Folio 6r
Por isso, cantam os freires da matinas ao alvorecer: então Deus foi julgado, golpeado e atado; e ao sair o Sol os clérigos cantam a prima, pois então Deus ressuscitou e nos arrancou da morte.

E cantamos a terça, quando é a hora da terça, pois então Deus foi castigado e elevado na cruz.

E às doze, os clérigos cantam a hora do meio-dia: então se produziu a escuridão, quando foi morto na cruz; o Sol se escureceu e não deu luz devido à autêntica luz da dor que Deus sofreu devido à Sua humanidade, não à Sua divindade.

E falamos tudo isso lendo a Paixão; recorde-a, pois tem um profundo sentido.

Cantamos as nonas, porque a essa hora o espírito se retirou, tremeu a terra e se quebraram rochas de diversas formas. Recorde-o, pois tem um profundo sentido. E se cantam as vésperas ao entardecer, porque então Seu corpo autêntico foi encerrado no sepulcro.

Assim, ficam cumpridas as vésperas, que significa que Deus cumpriu tudo ao vencer o demônio; então veio silencium, que chamamos silêncio.

Começa o repouso, e então nos calamos e os diabos se movem, que sempre atuam de noite, quando deixamos de rezar eles se põem a deambular: pela noite, os demônios, que chamamos de negros, têm o poder de obrar, pois são filhos de Neron [N. T.: Satanás].

Por isso, quando chega o dia, eles fogem da luz e nós, com a claridade, louvamos o Criador, nos levantamos com o dia e recitamos nossas preces. Ouvi, graças ao magistério, o que significa o carro.

O carro designa, na verdade, os quatro filhos de Deus: Marcos, Mateus, sem dúvida, Lucas e São João, e o ruído significa a morte do Filho de Maria que eles anunciaram ao mundo, em virtude da qual as gentes ficavam redimidas: Jesus, por ser homem, tinha medo.

Nossa Senhora é a leoa, mãe do Leão de Judá.
Nossa Senhora dos Reis, Sevilha.
E sabeis outra atitude do leão: ele é de tal índole que dorme com os olhos abertos.

Sabeis que isto representa o Filho da Virgem Maria, enquanto velava em Sua morte, quando destruiu a morte mediante a morte, chamou o demônio à morte e disse que seria sua morte, sua destruição e nosso descanso.

E em Sua morte velou, quando encarcerou o demônio; mediante Sua morte, venceu a Satanás, nosso inimigo.

E mercê à morte do Senhor, nos foi dado repouso, e assim entendemos o sonho do leão.

Figuradamente, o leão também tem outra propriedade: no dia em que vê um homem a primeira vez, se põe a tremer; e podeis comprovar isso mirando essas ilustrações.

O temor do leão mostra razoavelmente que Deus se humilhou ao encarnar-Se em um homem, pois teve divindade primeiro que humanidade, assim como o homem é alma e corpo, do mesmo modo foi Deus e homem. E isso é suficiente a esse respeito. Escutai outra questão.

Sabeis que a leoa trás ao mundo seu filhote morto, e quando o tem, chega o leão, que tantas voltas dá em seu redor, rugindo, que no terceiro dia o filhote ressuscita. E esta propriedade mostra o sentido seguinte.

Sabeis que a leoa representa a Virgem Maria e o leãozinho a Cristo, que morreu pelos homens. Durante três dias jazeu na terra para conquistar nossas almas, segundo sua natureza humana, não segundo a divina. Igualmente obrou Jonas, que permaneceu dentro do peixe.


Entendemos pelo rugido do leão a virtude de Deus; mercê a ela, Cristo ressuscitou, arrancado do Inferno. Tal é o significado que não deveis esquecer. Na verdade, isto diz sobre a autoridade do leão.”

Fonte: Philippe de Thaün. Le Bestiaire (ed. E. Walberg), H. Möller, Paris-Lund, 1900. In: MALAXEVERRÍA, Ignacio. Bestiario Medieval. Madrid: Ediciones Siruela, 2000. Esse é o mais antigo bestiário francês, escrito em versos de seis sílabas (3.194 versos), e segue com bastante fidelidade o texto latino do Physiologus (séc. III-V d.C.). Seu autor, de origem anglo-normanda, dedica sua obra a Aelis de Louvain, segunda esposa de Henrique I da Inglaterra (1100-1135), no manuscrito conservado em Londres; em outro exemplar, guardado em Oxford, a dedicatória é para Eleonor, esposa de Henrique II (1154-1189). Os manuscritos, ilustrados ou com vazios reservados para as iluminuras, contém prólogos em latim e indicações para o artista. Os 38 capítulos deste bestiário, editado por Walberg, estudam os quadrúpedes, as aves e as pedras (um pequeno lapidário), sucessivamente, e Philippe se refere a suas fontes como Physiologus, bestiaire, un livre de grammaire, Ysidre (Isidoro) e escripture. 




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domingo, 1 de julho de 2018

O simbolismo do leão: Jesus Cristo; e da leoa: Nossa Senhora (1)

Leão na catedral de Sessa, Itália
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No site do prof. Ricardo da Costa, Professor Associado I de História e Filosofia Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e membro de numerosas academias, o leitor encontra artigos e documentos de grande valor para o conhecimento da Idade Média.

Os medievais tinham uma visão ao mesmo tempo muito prática e altamente simbólica da realidade. Eles partiam da observação material e se elevavam facilmente até as culminâncias da metafísica e da teologia como quem sobe e desce pelas ladeiras de uma colina florida.

Eis um exemplo tirado pelo prof. Costa de um Bestiário medieval. Os Bestiários são livros típicos da era medieval que alimentavam essa contemplação da ordem natural.

O exemplo expõe o simbolismo do leão e os ensinamentos que Deus pôs nesse animal visando a elevação do homem até a Sabedoria infinita:

“O que em grego se chama “leão” significa “rei” em francês. O leão, de várias formas, domina muitos animais. Por isso o leão é rei. Escutai agora suas propriedades.

“Tem a expressão ardente, o pescoço grosso e com juba; o peito, na frente, é quadrado, valente e agressivo, os quartos traseiros, delgados; tem um grande rabo e as patas lisas e ágeis próximas aos pés; os pés, grossos e cortados, têm unhas largas e curvadas.

“Quando tem fome, enfurecido, trata os animais como a esse asno que urra e fala. Escutai, pois, com toda a convicção, o significado disso.

Leão, Espanha. Metropolitan Museum of Art, New York
“O leão significa o Filho da Virgem Maria. É, sem dúvida alguma, o rei de todos os homens; por sua própria natureza, tem poder sobre todas as criaturas.

“Com atitude feroz e terrível vingança aparecerá aos judeus quando os julgar, pois eles obraram mal quando o cravaram na cruz, e devido a esta ação perversa não têm rei próprio.


“O peito quadrado representa a força divina; os quartos traseiros muito delgados mostram que Ele foi humano depois de divino; o rabo, a justiça que se fecha sobre nós; mediante a pata, que tem lisa, mostra que Deus é rápido, e que foi conveniente se entregar por nós; o pé, que tem cortado, mostra que Deus rodeará o mundo e o terá no punho; através das unhas, se entende a vingança contra os judeus, e pelo asno entendemos evidentemente aos judeus.


“O asno é estúpido por natureza, como diz a Escritura, e não sairá de seu caminho a menos que o arranquem dali.

“A mesma natureza têm os judeus, que são uns néscios: não creem em Deus, a não ser pela força; não se converterão, a menos que Deus lhes dê essa mercê. Escutai agora outra natureza, segundo o texto sagrado.

“Quando o leão quer caçar e comer uma presa, traça um círculo no solo com seu rabo, como está comprovado; sempre que quer apanhar uma vítima, deixa uma abertura que sirva de entrada aos animais que deseja e que quer converter em sua presa.

“Tal é sua natureza que não haverá besta alguma que possa ultrapassar seu limite, nem ir além. Isto é o que mostra a ilustração [N.T.: remete às iluminuras do bestiário], e tem um sentido figurado.

“O rabo, conforme indica o texto sagrado, é a justiça que pende sobre nós; pelo círculo, temos que entender naturalmente o Paraíso, e a brecha é a entrada disposta para nós, se fazemos o bem e abandonamos o mal; e nós somos representados pelas bestas, naturalmente.

“Quando o leão está enfurecido, golpeia com suas patas, pisoteia a terra quando se encontra desgostoso, e esta propriedade está refletida pelo desenho.

Através do leão entendemos a Jesus Cristo, e nós somos sua terra em figura humana. Então, quando nos castiga com alguma desgraça sem que tenhamos cometido maldade nem tenhamos má vontade, isto significa sua ira, e que o maltratamos de alguma maneira.

Leão de Bestiario medieval.
Quando não se porta com as gentes conforme todos os seus desejos e se veem encarcerados ou com enfermidades, dizem então os infelizes que Deus não os ama em absoluto e que não merecem que os castigue assim; não sabem os afligidos que Deus não os castiga antecipadamente, que Deus põe em dificuldades a quem estaria menos atribulados se pudesse decidir e fazer o que quisesse.

“Mas Deus os acorrenta ao mal para que não cometam maldades.

“Deus ama muito a quem quer castigar; recordai, pois este é o significado.

“Também diz a Escritura que o leão tem a seguinte natureza: quando o homem o persegue, vai com o rabo apagando suas pegadas do solo enquanto foge, para que o caçador não saiba como encontrá-lo. Isto tem um grande sentido, e deveis recordá-lo.

“O leão, ao fugir, vai cobrindo suas pegadas: o rastro do leão representa a Encarnação que Deus quis tomar na terra para conquistar novas almas.

“E certamente o fez secretamente: se colocou nos degraus em que se encontrava cada ordem ‒ profetas, apóstolos ‒ até que chegou ao nosso, se converteu em homem de carne e osso, se fez mortal por nós e assim, segundo uma ordem aceitável, venceu o demônio.


Fonte: Philippe de Thaün. Le Bestiaire (ed. E. Walberg), H. Möller, Paris-Lund, 1900. In: MALAXEVERRÍA, Ignacio. Bestiario Medieval. Madrid: Ediciones Siruela, 2000. Esse é o mais antigo bestiário francês, escrito em versos de seis sílabas (3.194 versos), e segue com bastante fidelidade o texto latino do Physiologus (séc. III-V d.C.). Seu autor, de origem anglo-normanda, dedica sua obra a Aelis de Louvain, segunda esposa de Henrique I da Inglaterra (1100-1135), no manuscrito conservado em Londres; em outro exemplar, guardado em Oxford, a dedicatória é para Eleonor, esposa de Henrique II (1154-1189). Os manuscritos, ilustrados ou com vazios reservados para as iluminuras, contém prólogos em latim e indicações para o artista. Os 38 capítulos deste bestiário, editado por Walberg, estudam os quadrúpedes, as aves e as pedras (um pequeno lapidário), sucessivamente, e Philippe se refere a suas fontes como Physiologus, bestiaire, un livre de grammaire, Ysidre (Isidoro) e escripture. 





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domingo, 17 de junho de 2018

Ordens religiosas: austeridade, estudo e trabalho manual

Monges cantando o Ofício Divino
Monges cantando o Ofício Divino
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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A imagem do clero na Idade Média correspondia à categoria dessa classe social. Quer dizer, a classe superior.

Na imagem aparece figuras mais magras do que as outras que podemos ver na iconografia medieval do povo.

Positivamente era a classe social onde mais se jejuava e onde mais se sentia fome na Idade Média.

As regras das Ordens religiosas eram muito severas e apresentavam exigências de jejuns enormes, cumpridos muito à risca pelos sacerdotes e pelos religiosos, em geral verdadeiros ascetas.

Os monges usavam tonsura, um modo de cortar o cabelo que formava uma aureóla, ou algo parecido.

O hábito dos monges tonsurados é branco, sem nenhuma pretensão humana.

Eles não são homens com a saúde destroçada, mas o jejum está na cara.

Eles, que tanto jejuam, está cantando o Ofício divino.

O estudo era o companheiro inseparável do jejum.

Frei Gonzalo de Illescas, Francisco de Zurbarán,
claustro mercedário de Sevilha
Num retrato do religioso mercedário Frei Gonçalo de Illescas, pintado por Francisco de Zurbarán (Badajoz 1598 — Madri 1664), famoso pintor espanhol.

O frade está no seu quarto, estudando, em longas horas de isolamento, de vida intelectual.

Um detalhe no quadro nos apresenta o mesmo religioso fazendo caridade com pobres, velhos e doentes na porta do mosteiro.

Não se tratava de um religioso que se refugiava no estudo esquecendo dos demais.

O clero foi a classe intelectual por excelência na Idade Média.

Todos os historiadores, mesmo os mais superficiais, reconhecem que se a cultura clássica não morreu, é porque foi recolhida nos conventos medievais.

Neles, os grandes escritos da Antiguidade foram assiduamente estudados pelo clero, que comunicou a sua cultura à classe universitária.

A classe dos professores universitários antes nunca existiu.

Ela nasceu do zelo do clero e contou, durante toda a Idade Média e especialmente nos primeiros séculos da era medieval, com muitos clérigos como professores e alunos.

Monges trabalhando a horta do mosteiro
Monges trabalhando a horta do mosteiro
Numa outra foto podemos perguntar: Quem são esses? São camponeses plebeus?

Não. São clérigos. Percebe-se, pelo fato de usarem um escapulário que desce a partir de uma espécie de pelerine.

Eles estão com um capuz, ceifando o trigo na plantação da abadia que está perto.

“Ora et Labora”, diz a regra de São Bento, a mais acatada na Idade Média: “reza e trabalha”.

Muitas Ordens religiosas impunham ao religioso, como elemento para a formação, ao lado do estudo, da penitência e da oração, o trabalho manual.

Então, esses homens, verdadeiros intelectuais, muitas vezes cumpriam os trabalhos da terra com satisfação. Essa tradição, aliás, se mantém ainda hoje em inúmeras Ordens religiosas.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 22.04.73. Sem revisão do autor.)




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domingo, 10 de junho de 2018

São Bernardo: "é muito mais justo
combater agora o jugo dos pecadores
do que sofré-lo sempre"

São Bernardo de Claraval fez alto elogio  dos cavaleiros que empunham as armas por Cristo
São Bernardo de Claraval fez alto elogio
dos cavaleiros que empunham as armas por Cristo
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Elogio dos Templários feito por São Bernardo de Claraval

A milícia do Templo

Mas o mesmo não se dá com os Cavaleiros de Jesus Cristo, pois combatem somente pelos interesses de seu Senhor, sem temor de incorrer em algum pecado pela morte de seus inimigos e sem perigo nenhum pela sua própria, porque a morte que se dá ou recebe por amor de Jesus Cristo, muito longe de ser criminosa, é digna de muita glória.

Por um lado se adquire em ganho para Nosso Senhor, por outro é Jesus Cristo mesmo que o adquire; porque Ele recebe com gosto a morte de seu inimigo em seu desagravo, e se entrega com mais gosto ainda como consolo de seu soldado fiel.

Assim, o soldado de Jesus Cristo mata com segurança o seu inimigo e morre com maior segurança.

Se morre, faz o bem para consigo; se mata, o faz para Jesus Cristo; porque não é em vão que ele leva ao lado a espada, pois é ministro de Deus pata tirar vingança sobre os maus e defender pela virtude os bons.

Certamente, quando se mata um malfeitor, não se passa por homicida. Antes, se me é permitido falar assim, por malicida. Passa por ser o justo vingador de Jesus Cristo na pessoa dos pecadores, e por ser o legítimo defensor dos cristãos.

E quando ele perde a vida, é antes uma vantagem do que uma perda. Pois a morte que dá a seu inimigo é um ganho para Nosso Senhor, e a que recebe é sua ventura verdadeira.

 Um cristão se glorifica na morte de um pagão, porque Jesus Cristo é glorificado nela; e a liberalidade do Rei dos Reis se torna manifesta na morte de um soldado cristão, porque ele é levado da terra para o prêmio.

À vista do mau, o justo se regozijará vendo a vingança executada nele. Do bom, dirão os homens: "Ficará o justo sem recompensa? Não há Deus que é seu juiz sobre a terra?"

É certo que não se deveria exterminar os pagãos se houvesse algum outro meio de punir e evitar os maus tratos e opressões violentas que eles exercem contra os cristãos.

Mas é muito mais justo combatê-los agora do que sofrer sempre o jugo dos pecadores sobre os justos, assim os bons não cometerão iniqüidades com os pecadores.

Com efeito, se de nenhum modo fosse permitido a um cristão fazer guerra, por que teria o precursor do Salvador declarado no Evangelho que os soldados devem estar contentes com seu pagamento, e não proibiu toda sorte de guerra?

Se, como é certo, este é um emprego lícito para todos aqueles que Deus destinou a ele, e não estão empenhados em outra profissão mais perfeita, quem — vos pergunto — o pode servir com mais vantagens do que nossos valorosos cavaleiros, que pela força de seu braço e de sua coragem conservam generosamente a cidade de Sion como o baluarte mais forte de toda a Cristandade, a fim de que, expulsos dele os inimigos da lei de Deus, possam as nações fiéis, que guardam a verdade, entrar ali com toda segurança?

Dispersai, pois, e dissipai com firmeza os infiéis que buscam a guerra, e sejam exterminados aqueles que nos conturbam continuamente; lançai fora da cidade do Salvador todos os ímpios que cometem a iniqüidade, que desejam roubar os inestimáveis tesouros do povo cristão dos quais a cidade de Jerusalém é o sagrado depósito, os que desejam profanar as coisas santas e possuir o santuário de Deus, como se fosse herança sua.

Sejam vibradas as duas espadas dos fiéis contra as cervizes dos inimigos, a fim de destruir toda cultura que queira elevar-se contra a ciência de Deus, que é a fé dos cristãos, para que os gentios não digam um dia: onde está o Deus destas nações?

Então, expulsos os inimigos de sua casa, Nosso Senhor mesmo voltará à sua herança, da qual predisse em sua cólera: "Vede que vossa casa ficará desamparada como um deserto"; e à qual se refere, pela boca de seu profeta, nestas palavras: "Desejei minha casa e abandonei minha herança".

Será cumprida esta profecia de Jeremias: "O Senhor resgatou seu povo e o libertou; e eles virão e se regozijarão sobre a montanha de Sion, e gozarão com prazer dos bens do Senhor".

Alegra-te, ó Jerusalém, e reconhece o tempo de tua visita. Regozijai-vos e entoai cânticos de gratidão, desertos de Jerusalém, porque Deus consolou seu povo, livrou Jerusalém e mostrou a força de seu braço santo à vista de todos os gentios.

A vida dos cavaleiros templários

É mister agora que, para exemplo ou confusão de nossos soldados, digamos umas palavras da vida e dos costumes dos cavaleiros de Jesus Cristo, e de que maneira se portam na guerra e em sua vida particular, a fim de fazer conhecer melhor a diferença que há entre a milícia de Deus e a do século.

Primeiramente, quer na guerra, quer na paz, guarda-se perfeitamente a disciplina e a obediência exata, porque, segundo o testemunho da Escritura, "o menino que vive sem disciplina perecerá".

E também: "é um crime de magia resistir, e um pecado de idolatria não querer obedecer".

Vai-se e vem ao primeiro sinal daquele que manda, veste o que se dá e não ousa buscar em outra parte nem a vestimenta, contentando-se em satisfazer apenas as necessidades.

Todos vivem em comum, em uma sociedade agradável e modesta; sem mulheres e sem filhos, a fim de que nada falte à perfeição evangélica; moram todos juntos numa mesma casa, sem propriedade alguma particular, tendo um cuidado muito grande em conservar a unidade de espírito no laço da paz.

Dir-se-ia que toda essa multidão de pessoas não tem senão um coração e uma só alma. Cada um procura com cuidado não seguir sua própria vontade, mas sim obedecer pontualmente à ordem do superior.

Não estão jamais ociosos nem correm daqui para lá, desejando satisfazer sua curiosidade. Mas quando não estão em marcha, o que sucede raras vezes, estão sempre ocupados, para não comer ociosamente seu pão, em refazer o que estragou-se de suas armas e de seus hábitos, em reparar o que está demasiadamente velho ou em colocar em ordem o que está fora do lugar.

Enfim, em trabalhar em tudo aquilo que a vontade do Grão-Mestre ou a necessidade comum prescreve.

Entre eles não há acepção de pessoas. Tem-se consideração pela generosidade, e não pela maior nobreza. Apressam-se em honrar-se mutuamente e em carregar as cruzes do próximo, a fim de cumprir por este meio a lei de Jesus Cristo.

Hábito e armas de um templário
Hábito e armas de um templário
Uma palavra insolente, uma ação inútil, um risco imoderado, uma leve queixa ou a menor murmuração não ficam jamais sem castigo neste lugar.

Desprezam e têm horror aos cômicos e aos mágicos, aos contos de fantasias, às canções burlescas e a toda sorte de espetáculos e de comédias, como vaidades e loucuras falsas.

Levam seus cabelos curtos, sabendo que, segundo o Apóstolo, é vergonhoso a um homem cuidar de sua cabeleira.

Quando estão prestes a entrar em guerra, fortificam-se por dentro com a fé e por fora com as armas de aço não douradas, para, assim armados sem ornamentos preciosos, infundir terror aos inimigos, em vez de excitar sua avareza.

Cuidam muito de ter bons cavalos, fortes e ligeiros, e não reparam que sejam de pelagem bonita ou estejam ricamente ajaezados. Pensam mais em combater do que em apresentar-se com fausto e pompa.

Aspirando à vitória e não à vanglória, procuram fazer-se mais respeitar do que admirar por seus inimigos.

Jamais marcham em confusão e com impetuosidade, nem se precipitam às pressas nos perigos, pelo contrário estão sempre em seus postos com uma precaução e prudência inimagináveis.

Entram em batalha na mais bela ordem, segundo o que está escrito do povo de Deus: "Os verdadeiros israelitas marcham para a batalha com o espírito pacífico.

Mas chegados ao embate, põem de lado a mansidão costumeira, como se dissessem: ‘Não é certo que eu aborreço a todos que vos aborrecem, Senhor, e que me consumo de cólera contra vossos inimigos?’"

Lançam-se como leões sobre seus adversários, olhando as tropas inimigas como rebanhos de ovelhas.

Mesmo que muito poucos em número, não temem de maneira alguma a multidão de seus soldados nem sua crueldade bárbara.

Estão igualmente ensinados a não confiarem em suas próprias forças, mas a esperam do poder do Deus dos Exércitos, ao qual é fácil, segundo a sentença do generoso Macabeu, entregar as numerosas fileiras inimigas nas mãos de um punhado de pessoas, não fazendo, para Deus do céu, nenhuma diferença em livrar seu povo com muita ou pouca gente.

Video: Montgisard: um punhado de templários mas o rei Balduíno IV o leproso derrotam a Saladino




Porque a vitória da guerra não vem do grande número de soldados, mas de um favor do céu. Isto eles têm experimentado frequentemente, até ter visto muitas vezes um milhar de homens posto em fuga por um só, e dez mil por dois somente.

Enfim, vê-se todavia no dia de hoje, por uma graça singular e admirável, que eles são mais mansos que cordeiros e mais ferozes que leões.

De tal forma que, de boa fé, fico indeciso em dizer se deve-se qualificá-los com o nome de monges ou de cavaleiros, e me pergunto se não seria melhor chamá-los com um e outro nome, posto que têm a mansidão dos monges e a força dos soldados.

O que se pode dizer aqui, senão que é Deus mesmo o autor dessas maravilhas que vemos com pasmo diante de nossos olhos?

É Deus, volto a dizer, quem escolheu para si tais servos e os juntou de todas as extremidades da terra, dentre os mais valentes de Israel, para guardar animosamente o leito do verdadeiro Salomão, isto é, o Santo Sepulcro, com a força de suas armas e com sua destreza nos combates.

FIM




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