domingo, 18 de dezembro de 2016

O “Bolo dos Reis”


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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No início do mês de janeiro, as vitrines das pâtisseries de Paris se enchem de “galette des rois” ou “gateau des rois”, conta “Le Petit Journal”.

O nome, como o de tantos produtos culinários franceses não tem tradução, mas alguns tentaram “bolo dos reis”.

Ele é vendido já com uma coroa especial. Em 2014 entre 85% e 97% dos franceses diziam come-la na festa da Epifania, ou Reis.

O Bolo dos Reis com a fava
As receitas, acompanhamentos e formas são incontáveis, em geral redondas.

Quando contêm o prezado marzipã e chamado de “parisiense”. Com frutas abrilhantadas é o “bordelês”.

Existem outras receitas em Nova Orleans (EUA), Bélgica, o “bolo rei” em Portugal, a “rosca” no México, a “vassilopita” na Grécia e a “pitka” na Bulgária, para só citar algumas.

O mais típico é que a criança mais nova sentada na mesa se encarregue de cortar a “galette des rois” e distribua um pedaço a cada um.

O bolo dos reis em família: quem ganha a 'fava'?

Porque dentro do bolo, em alguma parte há uma fava também chamado “rei” e que faz a alegria da mesa.

A fava respeita a forma da humilde semente original, mas depois passou a ser substituída por pequenos objetos simbólicos imaginosos como lâmpadas douradas, ou outros.

O fato é que quem recebe o pedaço com a “fava” é chamado de “rei”, recebe a coroa que veio com o bolo e deve beber numa taça especial enquanto os demais cantam “o rei bebe, o rei bebe”, em meio ao gáudio geral.

O costume tradicional: reservar uma parte para o primeiro pobre que bater na porta
O costume tradicional católico: reservar uma parte
para o primeiro pobre que bater na porta
Nos bons tempos, aliás, partia-se a “galette” no número dos presentes mais um.

Esse pedaço extra era chamado “a parte do Bom Deus”, ou “parte da Virgem”, ou “parte do pobre”, e era destinado ao primeiro pobre que fosse bater a porta do lar.

O costume comemora a festa da Adoração do Menino Jesus pelos três Reis Magos, ou Epifania, 6 de janeiro.

A Epifania comemora precisamente a chegada dos Reis Magos Melchor, Gaspar e Balthazar, conduzidos pela miraculosa estrela.

Na Espanha, para as crianças, os Reis Magos são muito mais importantes que Papai Noel.

São eles que trazem os presentes na noite de 5 para 6 do janeiro.

Os Reis deixam os presentes sobre os sapatinhos que elas puseram na sacada, ou na lareira.

É normal que o fato seja comemorado com um bolo. É o denominado Roscón de Reyes com forma de coroa, e introduz uma variedade grande em relação à galette des rois francesa.




AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 11 de dezembro de 2016

Costumes católicos do Natal: la “bûche de Noël” na França


Luis Dufaur
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Durante séculos, na noite de Natal as famílias francesas acendiam um pedaço de lenha de árvores frutíferas como cerejeira, ameixeira, macieira ou oliveira, ou de madeiras nobres ou comuns. Ficou conhecida como a “bûche de Noël”.

A família aquecida por esse fogo se reunia para a Ceia de Natal entoando canções, conta “Le Petit Journal”.

Os restos das achas de lenha dos anos passados ficavam ornando a lareira para simbolizar que enquanto o tempo passa, a chama do Natal e sua benção perduram eternamente.

domingo, 4 de dezembro de 2016

A multiforme inspiração do Espírito Santo
nos panettones de Natal

Christmas pudding inglês
Christmas pudding inglês
Luis Dufaur
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No Natal, os britânicos preparam o tradicional “pudding”, oriundo da Idade Média e que segundo instrução da Igreja Católica, “deve ser feito no domingo 25, após a Trindade.

“Ele é preparado com 13 ingredientes para representar Cristo e os 12 Apóstolos, e em cuja massa todos os membros da família devem dar uma mexida durante a preparação, um de cada vez, de leste a oeste, a fim de homenagear os Reis Magos e sua suposta jornada nessa direção”.
Por sua vez, os belgas degustam os chamados “cougnoles” ou “cougnous”, pães do tipo brioche cujo tamanho varia entre 15 e 80 cm, com a forma de um presépio que acolhe uma imagenzinha do Menino Jesus.

domingo, 27 de novembro de 2016

Festa de coroação do Imperador Romano-Alemão

Conrado III imperador, Chronica Regia Coloniensis (s 13)
Conrado III imperador.
Chronica Regia Coloniensis (s 13)
Luis Dufaur
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Desde o Imperador Conrado até Fernando I, irmão de Carlos V, isto é de 911 a 1556, a coroação teve lugar em Aachen (Aix-la-Chapelle).

Maximiliano II começou em 1564 a série de Imperadores eleitos de Frankfurt.

A partir desse momento, a sala principal do magnífico edifício central de Frankfurt, o Rómer, serviu para a proclamação dos Imperadores, e denominou-se esta sala Kaisersaal, Sala do Imperador.

E' um recinto oblongo, vasto, discretamente iluminado em sua extremidade oriental por cinco estreitas janelas desiguais que se elevam no sentido do muro externo do Romer.

Na Kaisersaal há móveis preciosos, entre os quais a mesa de couro dos Príncipes Eleitores.

Em suas quatro altas paredes abundam afrescos esmaecidos pelo tempo. E sob uma abóbada de madeira com nervuras de um dourado envelhecido, encontram-se, em prestigiosa penumbra, os quarenta e cinco retratos dos continuadores do Império Carolíngio, figurados em bustos de bronze, cujos pedestais mostram as duas datas que abrem e fecham cada reinado, alguns ornados com lauréis, como os Césares romanos, outros cingidos com o diadema germânico.

Ali entreolham-se silenciosamente, cada um dentro de seu nicho ogival, os três Conrados, os sete Henriques, os quatro Ottons, o único Lotário, os dois Albertos, o único Luiz, os quatro Carlos que sucederam a Carlos Magno, o único Wenceslau, o único Roberto, o único Segismundo, os dois Maximilianos, os três Fernandos, o único Matias, os dois Leopoldos, os dois Josés, os dois Franciscos, os quais durante nove séculos, de 911 a 1806 marcaram a História do mundo, com a espada de São Pedro numa mão e o globo de Carlos Magno na outra.

domingo, 20 de novembro de 2016

São Gregório VII face aos atentados
contra os fiéis ministros da Igreja

Busto de São Gregório VII  em ouro e prata, na catedral de Salerno
Busto de São Gregório VII  em ouro e prata, na catedral de Salerno
Luis Dufaur
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São Gregório VII foi, sem dúvida, o Papa por excelência da História da Igreja.

Lutador indomável contra o cisma do Oriente, as heresias, o Império revoltado e um antipapa usurpador, foi também o idealizador das Cruzadas que libertaram o Santo Sepulcro de Nosso Senhor.

Entretanto, um tal gigante na defesa da Igreja não descuidava dos humildes.

Ele sabia descobrir, no combate humilde e corajoso, o ferido que sofria pela causa da Igreja, e o cercava de uma admiração e de uma ternura que não podia dar aos chefes, cuja fidelidade era devida ao preço da glória.

Leia-se esta carta a um pobre padre milanês chamado Liprand, que os simoníacos haviam mutilado de maneira bárbara:

“Se nós veneramos a memória dos santos que foram mortos depois que seus membros foram cortados pelo ferro, se celebramos os sofrimentos daqueles que nem o gladio nem os sofrimentos puderam separar da fé em Cristo, tu és mais digno de louvores ainda, por ter merecido uma graça que, se a ela se juntar a perseverança, te dá uma inteira semelhança com os santos.

“A integridade de teu corpo não existe mais; mas o homem interior, que se renova dia a dia, desenvolveu-se em ti com grandeza.

domingo, 6 de novembro de 2016

A Luz de Cristo e o charme da Idade Média

Jesus Cristo, San Paolo fuori le mura, Roma

Luis Dufaur
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Na cerimônia da madrugada da Resurreição, no jardim tirava-se fogo do atrito da pedra e acendia-se o círio pascal.

Porque assim como Nosso Senhor Jesus Cristo deu vida a seu próprio cadáver, assim da fricção de matérias inertes como as pedras nasce uma chama viva para acender o círio pascal.

Então, na noite, no crepúsculo, nas trevas, é acesa uma luz: é Nosso Senhor Jesus Cristo que ressuscita!

Acende-se o círio pascal e o padre entra com uma vela acesa na igreja e canta três vezes Lumen Christi. As velas vão se acendendo e daí a pouco a igreja está toda iluminada pelo círio pascal.

Essa expressão Lumen Christi ficou-me como imensamente bonita e nobre, querendo dizer mil coisas.

O que é que vem a ser especificamente a Luz de Cristo, ou Lumen Christi?

A expressão Lumen Christi, tomada ao pé da letra, literalmente, é adequada. É uma certa luz que há em Nosso Senhor Jesus Cristo, e que é a luz de toda Sua pessoa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Feliz concórdia entre Sacerdócio e Império
no cerne do regime medieval

O rei Filipe I da França conversa com o Papa Pasqual II. Grandes Chroniques de France, Bibliotèque National de France.
O rei Filipe I da França conversa com o Papa Pasqual II.
Grandes Chroniques de France, Bibliothèque National de France.
Luis Dufaur
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No âmago da grande paz e da luminosa ordem medieval nós encontramos a união entre o Poder Espiritual e o Poder Temporal.

Não havia indiferentismo do Estado, nem laicismo agressivo, nem oposição crônica e desgastante entre os dois.

A Igreja não só respeitava as legítimas autoridades. Foi Ela, muitas vezes, a que instituiu e organizou os sistemas de governo, a partir de realidades embrionárias preexistentes, como o reino bárbaro dos francos ou dos hunos (húngaros).

E Ela vigiava como uma mãe para que o filho perseverasse pelo bom caminho.

Hoje, na imensa maioria dos casos, o filho está em estado de indiferença ou até revolta contra a mãe.

E então vemos imensas durezas na vida diária, crises e desajustes um pouco por toda parte. Os cidadãos sofrem as consequências, como filhos de pais divorciados em perpétua briga.

domingo, 23 de outubro de 2016

Subiaco: no ponto de partida da Cristandade medieval está a gruta de São Bento

Subiaco, panorama desde a Santa Gruta

Luis Dufaur
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Onde e quando nasceu a Cristandade medieval? Quem foi o fundador?

A resposta é paradoxal. Foi numa gruta. E o fundador foi um ermitão isolado.

Um jovem nobre romano que fugiu da imoralidade e da decadência de Roma.

Sim, da Roma que em poucos anos haveria de ser afogada no sangue e no fogo.

Foi o grande São Bento, o Patriarca de Ocidente, a grande alma que deu o ponto de partida da imensa ordem medieval, justa e sacral.

São Bento acabou fundando a Ordem Beneditina, que subsiste até hoje nos seus vários ramos e famílias espirituais. Em torno dos mosteiros beneditinos foram se aglutinando os restos do naufrágio do Império Romano e, também, bandos de bárbaros apenas aculturados.

domingo, 2 de outubro de 2016

A sociedade medieval: algo do Céu na Terra

Altar Santo André

Luis Dufaur
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A arquitetura, a arte, o ambiente, a sociedade medieval auxiliam os fiéis a terem, por assim dizer, “saudades” do Céu.

A partir de suas realizações, elas elevam as almas para algo de celestial.

“A Igreja apresentava-se habitualmente com uma aparência de Céu na Terra, de modo tal que a pessoa, ao analisá-la e contemplá-la, sentia-se convidada para ingressar numa espécie de Céu da alma nesta Terra.

“Tudo quanto é medieval, e que se orienta nessa linha — dir-se-ia a nota tônica da Idade Média —, é impregnado disso: uma sociedade que, mesmo em seus aspectos temporais, apresenta algo de celeste na Terra.

domingo, 25 de setembro de 2016

Mont Saint-Michel: píncaro de força, beleza e fé


Luis Dufaur
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Quem observe o mapa da França, notará em sua costa ocidental, banhada pelo Atlântico, duas pontas ou imensas penínsulas: a maior, toda recortada em ilhas e pequenas baías, a desafiar o imenso oceano; a menor, lembrando um chifre voltado para a Inglaterra, situada ao norte.

A primeira corresponde à Bretanha; e a segunda pertence à Normandia.

Uma baía separa as duas penínsulas, e um rio, o Couesnon, divide os dois grandes ducados históricos.

Pirâmide maravilhosa

domingo, 11 de setembro de 2016

Convocação de Cruzada pelo beato Papa Urbano II

A catedral de Clermont-Ferrand construída no local onde o Papa Urbano II pregou a primeira Cruzada.
A catedral de Clermont-Ferrand construída no local
onde o Papa Urbano II pregou a primeira Cruzada.
Luis Dufaur
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No dia 27 de novembro de 1095, no encerramento do Concílio de Clermont-Ferrand, o bem-aventurado Papa Urbano II se dirigiu à multidão de bispos e cavaleiros, maioritariamente franceses, congregados na cidade para um fato transcendental.

Com palavras divinamente inspiradas, o Papa Urbano II hoje nos altares convocou a primeira Cruzada da História. Ele não leu um texto escrito nem ficou registrado com qualquer método moderno.

Mas, a formidável impressão causada pode se medir pela inusitada quantidade de relações de testemunhas presentes. Dentre elas se destacam as versões escritas por Roberto o monge, Guibert de Nogent, Foucher de Chartres, Guilherme de Tiro, Orderic Vital e Balderico arcebispo de Dol.

Em séculos mais próximos, historiadores de renome condensaram esses testemunhos em diversas publicações de grande autoridade.

A continuação apresentamos a condensação feita por Joseph-François Michaud (1767-1839) na sua célebre “História das Cruzadas”, que concorda grandemente com a versão da não menos célebre “História Universal da Igreja Católica” do Pe. René Rohrbacher.

Em outros posts temos reproduzidas outras versões:

Sermão do Beato Urbano II convocando a Primeira Cruzada

Bem-aventurado Papa Urbano II: a versão mais completa do Sermão da Cruzada. Conhecida como “Popolo dei franchi”.

O Patriarca de Jerusalém implora o socorro do Papa e dos Príncipes

A fama das peregrinações ao Oriente fez Pedro (o Eremita) sair de seu retiro. Ele seguiu a multidão dos cristãos à Palestina, para visitar os santos lugares. (...)

Depois de ter seguido seus irmãos ao Calvário e ao Sepulcro de Jesus Cristo, foi ter com o Patriarca de Jerusalém. Os cabelos brancos de Simeão, sua venerável figura e principalmente a perseguição que ele havia sofrido, mereceram-lhe toda a confiança de Pedro: eles choraram juntos os males dos cristãos. (...)

Pedro disse-lhe, que talvez um dia os guerreiros do Ocidente seriam os libertadores de Jerusalém.

Sim, sem dúvida, replicou o Patriarca; quando nossa aflição chegar ao auge, quando Deus se comover, ante nossas misérias, Ele moverá o coração dos Príncipes do Ocidente e os mandará em auxílio da cidade santa. (...)

O Patriarca resolveu implorar por meio de cartas o socorro do Papa e dos Príncipes da Europa. (...)

Depois dessa entrevista, Pedro ficou persuadido de que o céu mesmo o havia encarregado de vingar sua causa.

Um dia, quando estava prostrado diante do Santo Sepulcro, pareceu-lhe ouvir a voz de Jesus Cristo que lhe dizia: Pedro, levanta-te, corre a anunciar as tribulações de meu povo; é tempo de que meus servidores sejam socorridos e os lugares santos, libertados”.

Cheio do espírito dessas palavras que lhe ecoavam continuamente ao ouvido, (...) atravessa os mares, desembarca nas costas da Itália e vem lançar-se aos pés do Papa.

O Imperador de Oriente apela ao Ocidente

Urbano II rumo ao Concílio de Clermont-Ferrand e falando aos bispos.
Urbano II rumo ao Concílio de Clermont-Ferrand e falando aos bispos.
No meio dessa agitação geral, Alexis Comeno (Imperador do Oriente), ameaçado pelos turcos, mandou embaixadores ao Papa para pedir o auxílio dos latinos. (...)

Para responder aos pedidos de Alexis e aos votos dos fiéis, o soberano Pontífice convocou em Piacenza um concílio, a fim de expor os perigos da Igreja grega e da Igreja latina do Oriente. (...) mais de duzentos Bispos e Arcebispos, quatro mil eclesiásticos e trinta mil leigos obedeceram ao convite da Santa Sé. (...)

No entretanto, o Concílio de Piacenza não tomou resolução alguma sobre a guerra contra os infiéis. (...)

Outras razões explicariam o pouco efeito que produziu a pregação de Urbano no concílio de Piacenza.

Os povos da Itália, aos quais o soberano Pontífice se dirigia, estavam entregues ao espírito de comércio, e as preocupações mercantis não vão de acordo com o entusiasmo religioso; além disso, a Itália estava fortemente dominada por um espírito de liberdade, que produzia perturbações e levava a negligência aos interesses da religião. (...)

A conclamação do Beato Urbano II em Clermont-Ferrand

O prudente Urbano (...) para tomar um partido decisivo sobre a guerra santa e para interessar todos os povos ao seu feliz êxito, resolveu reunir um segundo sínodo, numa nação belicosa e, desde aqueles tempos remotos, acostumada a dar impulso à Europa.

O novo concílio, reunido em Clermont, no Auvergne, não foi nem menos numeroso nem menos respeitável que o de Piacenza; os santos e os doutores mais célebres vieram honrá-lo com sua presença e ilustrá-lo com seus conselhos. (...)

O concílio teve sua décima reunião na grande praça de Clermont que logo se encheu de uma multidão enorme.

Seguido por seus Cardeais, o Papa subiu a uma espécie de trono, que haviam erguido para ele; (...)

Urbano II falou nestes termos:


Urbano II em Clermont-Ferrand
Urbano II em Clermont-Ferrand
“Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente.

“Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos Reis, que transmite aos outros os preceitos de uma Fé pura, foi obrigada a servir às superstições dos pagãos.

“De como o túmulo milagroso, onde a morte não pôde conservar sua presa, esse túmulo, fonte da vida futura, sobre o qual surgiu o sol da ressurreição, foi manchado por aqueles que não devem ressuscitar, senão para ‘servir de palha ao fogo eterno’.

“A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da ­sia; (...) as hordas bárbaras dos turcos (...) ameaçam todos os países cristãos.

“Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente? (...)

“O povo digno de elogios, esse povo que o Senhor, nosso Deus, abençoou, geme e sucumbe sob o peso dos ultrajes e das exações mais vergonhosas.

“A raça dos eleitos sofre indignas perseguições; a raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos Sacerdotes.

“Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus.

“Os asilos que esperavam os viajantes pobres na estrada dos santos lugares receberam sob seu teto profanado uma nação perversa; ‘o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos’.

“Que vos direi mais? (...)

“Ai! de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades!

“Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos?

“Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo?

“Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas lágrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja ‘mais forte que a mesma morte’, contra os inimigos do povo cristão.

“Guerreiros que me escutais, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima.

Urbano II no concilio de Clermont
Urbano II no concilio de Clermont
“Chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça.

“Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender ‘a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos exércitos’.

“Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.

“Se triunfardes, as bênçãos do céu e os reinos da ­sia serão vosso prêmio; se sucumbirdes, tereis a glória de morrer nos mesmo lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não se esquecerá de que vos viu em sua santa milícia.

“Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares; soldados do Deus vivo.

“Escutai somente os gemidos de Sião; quebrai todos os liames da terra e lembrai-vos do que o Senhor disse: ‘Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; todo aquele que deixar sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua esposa, ou seus filhos, ou sua propriedade, por Meu nome, será recompensado com o cêntuplo e terá a vida eterna’.

Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações e assemelhavam-se à chama ardente descida do céu. (...)

A assembleia dos fiéis – levados por um entusiasmo que jamais a eloquência humana tinha inspirado – ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras:

Deus o quer! Esse brado (...) ecoou até nas montanhas da vizinhança. (...)

“Vedes aqui, continuou o Pontífice, a realização da promessa divina: Jesus Cristo declarou, que quando seus discípulos se reunissem em seu nome, Ele estaria no meio deles.

“Sim, o Salvador do mundo está agora em nosso meio e é Ele mesmo que vos inspira os brados que acabo de ouvir.

“Que essas palavras: Deus o quer! sejam para o futuro vosso grito de guerra e anunciem por toda a parte a presença do Deus dos exércitos. (...)

“É o próprio Jesus Cristo que sai de Seu túmulo e que vos apresenta sua Cruz.

“Ela será o sinal, erguido entre as nações, que deve reunir os filhos dispersos de Israel; levai-a em vossos ombros ou sobre o vosso peito; que ela brilhe sobre as vossas armas e sobre os vossos estandartes.

“Ela será para vós o penhor da vitória ou a palma do martírio; ela vos há-de lembrar continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que deveis morrer por Ele”.

Efeito da conclamação papal

Depois que Urbano acabou de falar, só se ouviam estes brados: Deus o quer! Deus o quer!, que era como a voz de todo o povo cristão. (...)

Os Barões e os Cavaleiros que tinham ouvido as exortações de Urbano fizeram o juramento de vingar a causa de Jesus Cristo; esqueceram-se de suas próprias questões e juraram combater juntos os inimigos da Fé cristã.

Todos os fiéis prometeram respeitar as decisões do Concílio e ornaram suas vestes com uma cruz vermelha de pano ou de seda. (...)

Os fiéis pediram a Urbano que se pusesse à sua frente, mas o Pontífice, que ainda não tinha triunfado sobre o antipapa Guiberto, e que perseguia com seus anátemas o Rei da França e o Imperador da Alemanha, não podia deixar a Europa sem comprometer o poder e a política da Santa Sé. (...)

Nomeou o Bispo de Puy, seu legado apostólico, junto do exército dos cristãos.

Prometeu a todos os cruzados a remissão de seus pecados. Suas pessoas, suas famílias, seus bens, foram postos sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos São Pedro e São Paulo.

O concílio declarou que toda a violência feita contra os soldados de Jesus Cristo seria castigada com o anátema e entregou seus decretos, em favor dos cruzados à vigilância dos Padres e dos Bispos. (...)

O Beato Adhermar, bispo de Puy (de mitra-elmo)
foi o legado pontifício à testa da Cruzada
Urbano percorreu ele mesmo várias províncias da França, para terminar sua obra tão felizmente começada. (...)

Os Bispos e os simples pastores, não paravam de benzer cruzes para os fiéis que prometiam armar-se para a libertação da Terra Santa. A Igreja conservou em seus anais as fórmulas de orações rezadas nessa cerimônia.

O padre, depois de ter invocado o auxílio de Deus, que fez o Céu e a Terra, rogava ao Senhor que abençoasse, em sua bondade paterna, a cruz dos peregrinos, como tinha outrora abençoado a vara de Aarão; rogava à misericórdia divina que não abandonasse nos perigos os que iam combater por Jesus Cristo e que lhes enviasse o anjo Rafael que outrora tinha sido o fiel companheiro de Tobias. (...)

O padre dizia, depois de ter prendido a cruz ao peito: ‘Recebe este sinal, imagem da Paixão e da Morte do Salvador do mundo, a fim de que em tua viagem nem a infelicidade nem o pecado te possam ferir e voltes mais feliz e sobretudo, melhor, para junto dos teus’. (...)

Tal o ascendente da religião ultrajada pelos infiéis, que todas as nações cristãs logo esqueceram o que era objeto de sua ambição ou de seus temores e forneceram à cruzada os soldados de que precisavam para se defenderem.

Todo o Ocidente reboava com estas palavras: ‘Aquele que não traz sua cruz e não vem comigo, não é digno de Mim’.

Que se julgue o que se deveu operar nos espíritos, quando a Igreja tocou a trombeta guerreira e apresentou como agradável a Deus o amor das conquistas, a glória de vencer, o ardor pelos perigos. (...)

O clero mesmo deu o exemplo. A maior parte dos Bispos, que tinham o título de Conde ou de Barão (...) julgou dever armar-se para a causa de Jesus Cristo.

Os autores contemporâneos contam vários milagres que contribuíram para inflamar o espírito da multidão.

Haviam-se visto estrelas destacarem-se do firmamento e caírem sobre a terra; mil fogos desconhecidos corriam pelo ar e davam à noite a claridade do dia; nuvens cor de sangue levantavam-se de repente no horizonte, e no ocidente um cometa ameaçador apareceu ao meio-dia; sua forma era a de uma espada.

Viram-se nas altas esferas do céu cidades com suas torres e defesas, armadas, prestes a combater, seguindo o estandarte da cruz.

O monge Roberto refere que, no mesmo dia em que no concílio de Clermont, se decidiu a cruzada, aquela deliberação foi proclamada além dos mares.

“Essa notícia, diz ele, tinha reerguido a coragem dos cristãos no Oriente e levado de repente o desespero aos povos da Arábia”.

Para cúmulo de prodígios, os Santos e os Reis das idades precedentes saíam de seus túmulos e vários franceses haviam visto a sombra de Carlos Magno exortando os cristãos a combater contra os infiéis.

O concílio de Clermont, que se havia reunido no mês de novembro de 1095, tinha marcado a partida dos cruzados para a festa da Assunção, do ano seguinte.

(Autor: Joseph-François Michaud (1767-1839), “Histoire des Croisades”, Paris, Furne Jouvet et Cie Éditeurs, 1877, livro I, páginas 22 em diante).



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 4 de setembro de 2016

Monges fazem a melhor cerveja do mundo,
como na Idade Média

Westvleteren XII a melhor cerveja do mundo é feita por monges trapistas que levam vida de penitência.
Westvleteren XII a melhor cerveja do mundo
é feita por monges trapistas que levam vida de penitência.
Luis Dufaur
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Há perto de três anos pudemos comentar um artigo vindo da França, narrando que a cerveja Westvleteren XII, produzida pelos monges trapistas da abadia de São Sixto de Westvleteren, na Bélgica, ocupava o primeiro lugar das melhores cervejas do mundo, segundo o site americano especializado www.rateBeer.com.

Mas as modas mudam. Há pressões econômicas para transformar em puro negócio aquilo que é uma tradição religiosa de vários séculos.

Também o chamado “progressismo católico” tem uma declarada animadversão aos costumes e às tradições católicas que remontam à Idade Média, uma idade de fé em que o Evangelho penetrava todas as instituições, segundo ensinou o Papa Leão XIII.

No mês de junho do presente ano (2016), o site da revista italiana “Pane & Focolare” trouxe a notícia de que os monges trapistas de São Sixto de Westvleteren prosseguem imperturbáveis a tradição de fabrico de cerveja artesanal da mais alta qualidade.

E que, em consequência, essa cerveja monacal continua sendo votada como a melhor do mundo no referido site de apreciadores da bebida. Confira.

Os monges não querem saber de um aumento de produção ou qualquer argumento econômico que possa por em perigo o recolhimento de sua vida monástica.