Cluny: a “alma da Idade Média”



Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A abadia de Cluny, na Borgonha, França, hoje está em ruínas.

Mas ruínas que transmitem uma sublime mensagem. Porque essa abadia foi habitada pela “alma da Idade Média”.

Foi fundada em 910 pelo Bem-aventurado Bernon em terras doadas pelo Duque da Aquitânia, Guilherme o Piedoso.

Nela se sucederam quatro grandes Abades santos — Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo — durante dois longos séculos.

A França comemorou especialmente o 1100º aniversário da fundação da Abadia de Cluny, a mais célebre e grandiosa da Idade Média, destruída pelo furor dos adeptos da Revolução Francesa a partir de 1789.

Para a comemoração, o Centro Nacional de Monumentos da França reuniu, pela primeira vez cerca de 130 obras de arte, esculturas, mosaicos, joias e alguns dos melhores manuscritos com iluminuras medievais pertencentes ou relacionados com a mítica abadia.

Celeiro de Cluny
Prestigiosas instituições e coleções particulares prestaram seu concurso.

A organização e direção da exposição artística e científica foi confiada a Neil Stratford, curador-chefe emérito do Museu Britânico e membro da Academia das Inscrições e Literatura.

O Prof. Stratford explica a exibição no vídeo.

A abadia de Cluny foi arrasada pela barbárie anticristã dos seguidores da “Filosofia das Luzes”.

No século XXI, a tecnologia digital permitiu reconstituir a imagem daquela que foi a maior igreja da Cristandade medieval: Cluny III.

A denominação “Cluny III” indica que foi a terceira igreja erigida no mesmo local pelos mesmos monges. Algo frequente na Idade Média, época de continuado progresso, aperfeiçoamento e requinte.


Reconstrução digital de aspectos de Cluny


Como se vivia num mosteiro medieval, o exemplo de Cluny


1) breve histórico e descrição de Cluny: igreja, estábulos, fábricas, claustro, sala capitular, refeitório, dormitório, cozinha, padaria, hospital e hospedagem (em espanhol).

2) como viviam os monges medievais: atividades (em espanhol).

3) o pouco que sobra hoje de Cluny (em inglês).







A Ordem de Cluny na História:

quando os homens pareciam anjos

Imagem de Nossa Senhora originária de Cluny e hoje venerada na basílica Saint-Denis em Paris
Imagem de Nossa Senhora originária de Cluny
e hoje venerada na basílica Saint-Denis em Paris
A carta de fundação da abadia, assinada em setembro de 910 pelo poderoso duque da Aquitânia Guilherme I, cedia a Bernon, abade de Baume-les-Messieurs, uma terra chamada Cluny, na diocese de Mâcon, a cerca de vinte quilómetros desta cidade, bem no centro da França.

Esta carta de fundação explicitava com precisão a criação de uma abadia que seguisse a Regra de São Bento.

Com Bernon, vieram alguns monges, os primeiros religiosos da nova abadia, que se enquadrava no projeto de reforma promovida por Bento de Aniane (750-821), o qual pretendia unir todos os mosteiros da Europa Ocidental sob a observância da Regra Beneditina.

Por esta filiação, se poderá constatar o papel que Cluny desempenhará na difusão da reforma da Igreja mais tarde lançada de forma empenhada pelo papa São Gregório VII (1073-1085), a denominada “reforma gregoriana”.

Cluny, conforme se pode depreender a partir do vocativo (S. Pedro) da abadia, estava diretamente sujeita à Santa Sé, por isso subtraída à jurisdição do bispo de Mâcon.

Os abades de Cluny entre os séculos X e XII foram personagens importantes no seu tempo: Bernon (910-927), Odon (927-942), e principalmente os três mais famosos, Maïeul (948-994), Odilon (994-1049) e Hugo (1049-1109).

Depois deste tio-avô de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, a abadia conheceu tempos menos brilhantes, devido ao abaciado de Pons de Melgueil (1109-1122), figura instável.

Todavia, o seu sucessor conseguiu recuperar e sublimar até o prestígio de Cluny: Pedro de Montboisier (112-1156), dito o Venerável, homem de grande cultura e figura de proa da Cristandade medieval.

Era a época do apogeu de Cluny, com mais de 1180 mosteiros dependentes na Europa, dos quais mais de 800 só na França.

Isenta face ao poder secular dos senhores laicos e à jurisdição dos bispos, a abadia de Cluny conseguirá escapar ao controlo do poder régio até ao século XVI, ao contrário de muitas outras congéneres.

Naquela centúria, no entanto, os seus abades passaram a ser nomeados pelo rei de França, ao abrigo da Concordata de Bolonha de 1512.

Com o Concílio de Trento, Cluny organiza-se em torno de uma congregação. Um dos priores mais famosos de Cluny, o cardeal de Richelieu (entre 1629 e 1642) tentou unir a congregação à dos Mauristas (de St. Maur), conhecidos pela sua erudição e labor científico profundos.

Esta união não sobreviveu à morte de Richelieu (1644).

Também um intento de união com outra congregação beneditina francesa, a de St. Vanne, levado a efeito por Mazarin, também cardeal e ministro de França como Richelieu, gorou-se em 1654.

Os monges no refeitório na ceia presidida por Santo Odilon. M,s 722, fol 142v, Museu Condé, Chantilly.
Os monges no refeitório na ceia presidida por Santo Odilon.
M,s 722, fol 142v, Museu Condé, Chantilly.
As Luzes e o século XVIII revelaram-se ainda mais nefastos para Cluny, acelerando a sua decadência. Assim, em 1744, o bispo de Mâcon acabou por impor a sua jurisdição sobre esta velha abadia.

Reconstruiu-se então o edifício monástico ao gosto da época, embora a ocupação monástica fosse cada vez mais reduzida: em 1790, a comunidade não tinha mais de 35 monges.

Nesse mesmo ano, na sequência da Revolução Francesa iniciada em 1789, a abadia foi suprimida por decreto revolucionário, ficando à mercê da pilhagem, que ocorreu em 1793.

Depois foi posta à adjudicação em 1798, tendo sido comprada em hasta pública por um privado, que logo desmantelou a abadia.

Como ordem religiosa, esta grande abadia era a cabeça de um dos ramos mais importantes do monaquismo beneditino: a ordem de Cluny.

O abade do mosteiro era o superior da família cluniacense, com todos os abades e priores das centenas de casas da ordem a prestarem-lhe homenagem feudal de vassalagem, numa sujeição variável.

Era também este abade de Cluny quem nomeava os superiores dessas comunidades dependentes.

Nesta perspetiva, pode falar-se de um “monaquismo cluniacense”, ainda que a autonomia que a Regra Beneditina conferia aos mosteiros atenuasse essa sujeição, ao contrário da forte centralidade cisterciense.

Existiam as casas ditas “dependentes”, com superior nomeado e controlado pelo abade de Cluny, e as “subordinadas”, com o abade a ser eleito pela comunidade.

Deste último grupo faziam parte as cinco “filhas” de Cluny: Souvigny, Sauxillange, La-Charité-sur-Loire, St. Martin-des-Champs (Paris) e Lewes (Inglaterra).

Todavia existia uma uniformidade de observância e de costumes monásticos entre todas as casas cluniacenses.

A originalidade de Cluny traduzia-se essencialmente na liturgia, nutrida e apoiada pela frequência e grande duração dos ofícios.

Maquete da antiga abadia, no Museu em Cluny, França.
Maquete da antiga abadia, no Museu em Cluny, França.
Era de uma riqueza excecional, ímpar até aos dias de hoje, ilustrando a vitalidade de uma espiritualidade completamente direcionada para Deus.

Tudo era pouco para honrar e dignificar a Deus, diziam os cluniacenses, como forma de justificar a pompa, magnificência artística e estética e grande elaboração da sua liturgia e da arte dos seus belos mosteiros.

De facto, a arte cluniacense inscrevia-se nesta perspectiva grandiosa, de grande qualidade e apuro estéticos, com uma riqueza de simbolismo patentes nas artes plásticas e na arquitetura.

Os monges de Cluny, na sua expansão pela Europa, desempenharam um importante papel na vida e política da Igreja, mesmo na organização política, econômica e territorial de vastas regiões, assumindo-se quase como um senhor temporal e fundiário igual a tantos outros.

Mas a sua importância, superlativada pelos seus abades notáveis em torno do Ano Mil, foi maior em termos espirituais e na “alta” política europeia, como sucedeu quando o imperador germânico Henrique IV apelou a Cluny para mediar a Querela das Investiduras.

Também as peregrinações medievais muito devem a Cluny e à sua rede de mosteiros, principalmente ao longo dos chamados “caminhos franceses” em direção a Santiago e mesmo dentro das Espanhas, no “caminho francês”.

A tradição da hospedagem e apoio aos peregrinos eram apanágio da Regras Beneditinas e uma forma de enfatizar a importância social dos mosteiros que Cluny muito bem soube aproveitar.

Em Portugal, Cluny teve uma importância política menor em relação a outras ordens, como Cister ou os Mendicantes, por exemplo.

Em Portugal, depois do concílio de Coiança (1050-55, cânon 2) ter introduzido a Regra Beneditina em Portugal, vários foram os mosteiros que a seguiram.

No entanto, apenas três estavam “subordinados” a Cluny. Esses três mosteiros ditos cluniacenses foram S. Pedro de Rates, Santa Maria de Vimeiro e Santa Justa de Coimbra.


(Fonte, Infopedia, in Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-02-28 12:57:27])




O grande papel de Cluny na formação da Idade Média

A vinda de Cristo em majestade ocupava lugar central na cosmovisão de Cluny.  Berzé-la-Ville, capela dos monges, inspirada na grande igreja de Cluny III
A vinda de Cristo em majestade ocupava lugar central na cosmovisão de Cluny.
Berzé-la-Ville, capela dos monges, inspirada na grande igreja de Cluny III
No século XX os estudos sobre Cluny se multiplicaram.

Deles o mosteiro saiu engrandecido, e sua gloriosa história, mais bem conhecida, provoca o interesse sempre crescente dos pesquisadores, suscitando mesmo em alguns um verdadeiro entusiasmo.

O pequeno mosteiro fundado em 910 pelo Bem-aventurado Bernon em terras doadas pelo Duque da Aquitânia, Guilherme o Piedoso, teve quatro grandes Abades — Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo.

Seus longos abaciatos se estenderam por dois séculos, constatando-se com surpresa que nesse período Cluny reformou completamente a vida monástica na Europa, contribuiu de modo eficaz para a reforma da Igreja, formou a Cristandade nos seus mais variados aspectos e a conduziu aos grandes feitos da Idade Média.

Cluny conquistou rapidamente a liderança da vida religiosa do Ocidente e nela se manteve, pelo menos durante o governo dos seus quatro grandes abades, com glória e majestade.

“Com Cluny – diz um historiador –, ao longo desses dois séculos ter-se-á essa impressão de solidez e permanência na tradição que, no passado, se esperava da Santa Sé; Cluny é verdadeiramente uma nova Roma” (Delaruelle, Latreille, Palanque, “Histoire du Catholicisme en France”, vol. I, p. 251).

“Não sei — diz outro autor — que entusiasmo, que voga, que moda salutar atrai todo mundo, Papas, príncipes e monges, a Cluny, como ao porto mais seguro.”

O estrangeiro se contagia: a Espanha e a Inglaterra. Cluny torna-se o guardião oficial da regularidade monástica.

“Um mosteiro decai na observância, o Papa o entrega ao zelo cluniacense. Hugo parece ser verdadeiramente o Abade dos abades, e, com exceção do Papa, ninguém é comparável a ele na Cristandade” (D. Charles Poulet, “Histoire de l’Église de France”, t. I, p. 124).

Torre de Cluny, a única remanescente da depredação revolucionária.
Torre de Cluny, a única remanescente da depredação revolucionária.
Queremos estudar os primeiros tempos do Sacro Império Romano Alemão?

Lá encontramos os cluniacenses dirigindo a Imperatriz Adelaide e ajudando com seus conselhos espirituais e políticos os três primeiros Otons, Conrado e Santo Henrique II a trabalharem pela restauração do Império de Carlos Magno.

É a reconquista espanhola que nos interessa?

De novo os cluniacenses aparecem colaborando na luta contra os muçulmanos.

É a história do Papado que nos chama a atenção?

Os cluniacenses lá estão para retirá-lo do opróbrio em que caíra nos séculos IX e X, e, cerrando fileiras em torno de um de seus monges, São Gregório VII, colaboram com ele na luta gigantesca que esse grande Papa trava com o Imperador Henrique IV para afirmar a primazia do espiritual sobre o temporal.

São as canções de gesta que despertam o nosso interesse?

Surge Cluny, com todo o seu prestígio, compondo, incentivando, propagando essas epopeias da Cristandade.

É o feudalismo que nos atrai?

Não terá sido Cluny o criador do feudalismo católico?

Enfim, é a Cristandade, em todo o seu esplendor, que nos seduz?

Como negar que foi esse incomparável mosteiro que a modelou com a perfeição com que hoje a conhecemos pela História?

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




Cluny e a formação do espírito da Cavalaria

Nossa Senhora com o Menino Jesus, imagem de Cluny hoje resgatada na basílica de Saint-Denis em Paris.
Nossa Senhora com o Menino Jesus,
imagem de Cluny hoje resgatada
na basílica de Saint-Denis em Paris.
Sem dúvida, Cluny tem seus opositores. Mas a Abadia foi tão grande, que ninguém ousa negar a sua grandeza e a sua participação efetiva em todos os acontecimentos marcantes da época, influindo sobre eles de um modo glorioso.

As discussões se travam em torno da maior ou menor participação que os cluniacenses neles tiveram. Como exemplo do que é discutido, vamos citar o artigo de E. Delaruelle sobre a parte que teve Cluny na formação da ideia de Cruzada.

Aproveitaremos o ensejo para transcrever o tópico inicial desse estudo, pois ele dará aos nossos leitores uma ideia do grande interesse dos pesquisadores pela história da célebre Abadia:

“Se do ponto de vista da história propriamente religiosa o papel de Cluny foi considerável no século XI, é possível que se tenha exagerado seu papel quando se trata de história política, social e literária. Há trinta anos dominou entre certos historiadores o que se poderia chamar um verdadeiro “pancluniacismo”.

“Tentou-se explicar por Cluny a vitalidade e a fecundidade dessa época. Concedeu-se a Cluny uma influência determinante na reforma gregoriana, no desenvolvimento da peregrinação de Santiago de Compostela, na redação das canções de gesta.

“Assim como se vê uma Igreja, sobretudo espiritual até essa época, organizar se então como sociedade jurídica e política, e um Papa santo como Gregório VII tornar-se um “Kriegsmann” e um “Finanzmann”, assim se veria a instituição monástica, sob a pressão das circunstâncias e para responder a apelos diversos, imiscuir-se cada vez mais no mundo” (Delaruelle, “L’idée de Croisade dans la littérature clunisienne du XIe. siècle et l’Abbaye de Moissac”, “Annales du Midi”, n° 75, Toulouse, 1963, pp. 419 420).

Passando à questão que nos interessa – isto é, mostrar que as discussões sobre o papel de Cluny em cada grande feito da Alta Idade Média não negam a sua grande contribuição, mas giram em torno de se precisar melhor a influência que neles teve o grande mosteiro.

Cluny teve influência determinante no ideal do guerreiro cristão. Estátua de Godofredo de Bouillon. Fundo: uma ruela de Jerusalém.
Cluny teve influência determinante no ideal do guerreiro cristão.
Estátua de Godofredo de Bouillon. Fundo: uma ruela de Jerusalém.
Cabe mencionar que, nesse artigo, Delaruelle considera excessiva a posição tomada por Anouar Hakem, o qual defende a tese de ter sido Cluny que “preparou as guerras santas, mais ou menos como os enciclopedistas prepararam a Revolução Francesa por um trabalho de educação dos espíritos”.

Embora essa opinião, “talvez atenuada”, seja também a de outros especialistas no assunto, como Chalendon, Boissonade e Joseph Bédier, Delaruelle a combate, mas acrescenta logo que se pode sustentar que “Cluny contribuiu poderosamente para a formação do tipo de “miles” cristão, esse personagem novo na História, herói das próximas cruzadas.

Em lugar de se agastarem com a “militia saecularis” “militia, malitia” – como acontecia com os monges anteriores, os escritores cluniacenses, ao contrário, celebravam as virtudes do cavaleiro que põe sua espada ao serviço da Igreja, e mesmo apreciaram suas qualidades esportivas ou mundanas.

Aos exemplos que citei em outro lugar, poder se ia acrescentar aqui o “Tibellus”, que glorifica o pai de Maïeul, e a “Deploratio” de Jotsald” (ibidem, p., 422).

Delaruelle, portanto, julgando embora exagerada a opinião de Anouar Hakem, não nega que Cluny contribuiu poderosamente para a formação do cavaleiro católico combativo, característico da Idade Média, que pôs sua espada ao serviço da Igreja, sempre pronto a servi la e disposto a verter o seu sangue em todas as epopeias que envolvessem a causa católica.

Poderíamos multiplicar exemplos semelhantes, mas a exiguidade do espaço não o permite. Cremos, no entanto, que este exemplo é suficiente para mostrar aos nossos leitores como não há entre os historiadores a menor dúvida sobre o grande papel de Cluny na formação da Idade Média.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




Elogio de São Gregório VII aos religiosos de Cluny – 1

Ideal de Cluny: monges contemplativos em luta contra o reinado de Satanás.
Ideal de Cluny: monges contemplativos em luta contra o reinado de Satanás.
Se a totalidade dos historiadores está de acordo sobre a importância de Cluny na formação da Idade Média, o mesmo não acontece quando estudam a causa ou as causas do que poderíamos chamar o fenômeno cluniacense.

Os monges de Cluny consagravam a vida à glorificação de Deus. Viviam retirados do mundo, reclusos em seus mosteiros, cumprindo rigorosamente um Ordo minuciosíssimo, que deles exigia cinco horas diárias dedicadas ao Ofício Divino.

Eram contemplativos cuja principal obrigação era louvar a Deus perenemente. E seus mosteiros atingiram alto grau de santidade, louvado pelos próprios medievais, tão exigentes nessa matéria.

O cronista Raoul Glabre, aliás ele mesmo cluniacense, proclama: “Saibam todos que esse convento não é igualado por nenhum outro no mundo romano, principalmente para libertar as almas que caíram sob o senhorio do demônio” (apud G. Duby, “Adolescence de la Chrétienté Occidentale”, p. 135).

E Jacques de Voragine, corroborando Raoul Glabre, conta a célebre visão do Abade São Hugo, a quem na véspera do Natal a Ssma. Virgem apareceu, com seu Filho nos braços, dizendo: “Eis que virá o dia em que vão ser renovados os oráculos dos profetas. Onde está o inimigo que até agora prevalecia contra os homens?”.

Ao ouvir estas palavras, relativas aos monges de Cluny, o demônio saiu do fundo da terra para desmentir a afirmação de Nossa Senhora, mas sua iniquidade nada conseguiu, porque de nada lhe adiantou percorrer todo o mosteiro: nenhum monge se deixou enganar, nenhum se desviou dos seus deveres na capela, no refeitório, no dormitório ou na sala do capítulo.

Jacques de Voragine completa a visão citando a versão do monge Pedro de Cluny, segundo a qual o Menino teria perguntado à sua Mãe: “Onde está agora o poder do demônio?”.

Ao que o maligno teria respondido: “Não pude, com efeito, penetrar na capela, onde se cantam os teus louvores, mas o capítulo, o dormitório, o refeitório estão abertos!”.

“Ora, eis que a porta do capítulo era demasiado estreita para ele entrar, a do dormitório demasiado baixa, a do refeitório obstruída por inúmeros obstáculos — tais eram a caridade dos monges, a atenção à leitura diária e a sobriedade no comer e no beber” (Jacques de Voragine, “La Legende Dorée”, Garnier Flammarion, Paris, vol. I, p. 59).

Completaremos esses elogios com mais um documento medieval, citado por H.E.J. Cowdrey:

“Cluny era a fonte a que todo o mundo praticamente recorria, como a um santuário da Religião, para o revigoramento espiritual de suas obras.

Nossa Senhora libera o cônego Teófilo que vendeu sua alma ao diabo.
Nossa Senhora libera o cônego Teófilo que vendeu sua alma ao diabo.
Notre Dame de Paris, pórtico lateral.
“Os cluniacenses sustentaram um combate espiritual constante para subjugarem a carne ao espírito; na verdade, como diz o Apóstolo, para viverem como Cristo e para morrerem a fim de vencerem.

“Mas vários deles foram chamados, e mesmo obrigados a contribuir para a construção, quer como Papas ou cardeais, quer como bispos, abades ou pastores.

“Quando o bálsamo de suas virtudes espirituais se difundiu amplamente, toda a terra, como se fosse uma só casa, ficou impregnada de seu perfume, e o fervor da religião monástica, que pouco a pouco aumentara, se inflamou com o zelo exemplar desses homens” (“Vita Sancti Morandi Confessoris”, apud H.E.J. Cowdrey, “The Cluniacs and the Gregorian Reform”, Oxford, 1970, p. 163).

Mas os cluniacenses influíram efetivamente em toda a vida medieval.

Ora, como é que, vivendo entregues completamente à oração, esses mesmos homens, quando saíam do mosteiro, resolviam rápida e brilhantemente as questões mais delicadas, influíam poderosamente em toda a vida temporal, cobriam o mundo de obras de arte incomparáveis.

E, como se nada tivessem feito, voltavam depois para suas celas e nelas retomavam a contemplação sem a menor dificuldade, conservando se sempre prontos a voltar a atividades prodigiosas, com a mesma paz de alma que mantinham no mosteiro?

Como e quando se preparavam eles para essa atuação?

A essa pergunta nenhuma resposta satisfatória foi dada até hoje pelos historiadores. Nenhum deles consegue atinar com o segredo que animava esses monges tão ativos e ao mesmo tempo tão contemplativos, sempre serenos e sem nenhuma agitação, ativos na contemplação e contemplativos na ação.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




Elogio de São Gregório VII aos religiosos de Cluny – 2

São Gregório VII. Busto em ouro e prata na catedral de Salerno.
São Gregório VII. Busto em ouro e prata na catedral de Salerno.
D. Kassius Hallinger, autor da monumental história da reforma monástica na Alta Idade Média (Gorze–Kluny), tentou uma resposta num artigo importante publicado na “Deutsche Archiv fur Erforschung des Mittelalters”, resumido e publicado em inglês com o título “The spiritual life of Cluny in the early days”, na coleção de memórias sobre Cluny selecionadas por Noreen Hunt e reunidas no livro “Cluniac Monasticism In the Central Middle Age” (Mac Millan, 1970).

Antes de dar sua própria opinião, D. Kassius Hallinger classifica em cinco grandes grupos as várias explicações propostas.

São elas: o espírito litúrgico da Abadia, a abertura para o mundo, a fuga do mundo, a organização feudal de Cluny, e as raízes monásticas especiais que caracterizavam o mosteiro.

Pela simples enumeração se vê a oposição flagrante que há, por exemplo, entre a segunda e a terceira posições, ambas defendidas por grandes historiadores. O fato é que nenhuma delas satisfaz.

Essa divergência de opiniões é uma das maiores dificuldades para o bom conhecimento de Cluny, gerando mesmo confusões lamentáveis.

Nesse mesmo artigo de D. Kassius Hallinger há uma amostra curiosa dessa confusão. Gorze é o mosteiro mais característico da reforma monástica iniciada na Lorena ao mesmo tempo que a de Cluny.

Weigle viu no livro “Gorze Kluny” uma certa oposição entre esses dois movimentos de reforma. Ora, D. Kassius afirma num artigo que os valores monásticos de Cluny “não só moldaram um grande número de monges dos séculos X e XI, como também estenderam a sua influência além dos mosteiros e se fizeram sentir no próprio mundo secular de sua época”.

Em uma nota, refuta F. Weigle: “O êxito do movimento de reforma de que Cluny teve a liderança só pode ser explicado pelos valores monásticos de Cluny. Esse fato foi mencionado várias vezes em “Gorze Kluny”.

A despeito de tais afirmações, F. Weigle pôde falar de uma descrição contrastada com Gorze (“Deutsche Archiv”, 9, 585); ele não entendeu absolutamente o ponto principal do livro”.

Por tudo isso procuraremos, nesta série de artigos sobre Cluny, pôr um pouco de ordem em todas essas questões. De antemão pedimos desculpas aos nossos leitores pelo grande número de citações que seremos obrigados a fazer.

É que Cluny foi tão grande, que sua história frequentemente parece inacreditável, se não é corroborada pela autoridade de especialistas, por vezes nem sequer católicos, mas que não deixam de se empolgar pelos feitos de seus monges.

Antes de terminar essa introdução, queremos reproduzir o maior dos elogios que Cluny recebeu em toda a sua história.

É de São Gregório VII, ao abrir a 7 de março de 1080 o Concílio Romano que realizava anualmente.

É bom notar que esse elogio foi pronunciado dois anos depois de o Imperador Henrique IV ter ido a Canossa pedir perdão ao Papa, episódio em que muitos procuram ver uma oposição séria entre o grande Papa e São Hugo, então Abade de Cluny:

“Sabei, meus irmãos no sacerdócio, todos que vos reunis nesta Santa Assembleia, que entre todos os nobres mosteiros fundados além dos montes para a glória de Deus onipotente e dos Bem aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, existe um que é propriedade particular de São Pedro, unido à Igreja de Roma por um pacto especial.

“Esse mosteiro é Cluny. Votado, desde a fundação, principalmente à honra e defesa da Sé Apostólica, pela graça e clemência divina e sob a direção de santos abades, chegou a uma tal grandeza e a uma tal santidade, que ultrapassa todos os mosteiros de além dos montes no serviço de Deus e no fervor espiritual.

“Nenhum outro o iguala, tanto quanto se possa julgar, embora haja um grande número de mosteiros mais antigos do que ele. Não houve em Cluny um só abade que não fosse santo. Monges a abades nunca faltaram a esta Santa Igreja, Mãe de todos eles.

Não dobraram o joelho diante de Baal nem diante dos ídolos de Jeroboão. Tomando por modelo a liberdade e a dignidade da Santa Sé de Roma, nobremente conservaram a autoridade conquistada por seus antepassados, e nunca se curvaram sob o domínio dos príncipes deste mundo, continuando a ser os defensores corajosos e submissos unicamente de São Pedro e de sua Igreja” (apud D. Usmer Berlière, “l’Ordre Monastique”, p. 219).

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




Santo Odon e as origens do mosteiro de Cluny

Devoção de um monge cluniacense a Nossa Senhora. Segundo alguns seria o próprio Santo Odon. Bibliothèque National de France, MSS. ms.latin 17716, fol 23
Devoção de um monge cluniacense a Nossa Senhora.
Segundo alguns seria o próprio Santo Odon.
Bibliothèque National de France, MSS. ms.latin 17716, fol 23
Antes de prosseguirmos no estudo das causas do grande sucesso de Cluny, convém recordarmos rapidamente o histórico de sua fundação.

A legislação monástica promulgada para todo o Império por Carlos Magno e Luís o Piedoso exigia que todos os mosteiros adotassem a regra de São Bento. Assim sendo, a partir do século IX houve só mosteiros beneditinos no Ocidente.

Mas, de acordo com a regra de São Bento, esses mosteiros eram autônomos, sem nenhuma vinculação jurídica entre si.

Não houve propriamente uma Ordem religiosa. Percebendo os perigos dessa extrema descentralização, São Bento de Aniane, o conselheiro monástico de Carlos Magno e de Luís o Piedoso, tentou dar uma direção única às abadias do Império, mas sua obra não sobreviveu à sua morte.

Ora, as lutas entre os descendentes de Carlos Magno, tendo enfraquecido o Império, permitiram que novas invasões bárbaras – normandos, eslavos, etc. – penetrassem a fundo no Ocidente.

Essas invasões levaram a desordem e a destruição por onde passaram, e todas as grandes instituições carolíngias sofreram as consequências disso.

De todas elas, foi talvez o monaquismo a mais atingida. Os mosteiros, desamparados, foram pilhados, outros viram se obrigados a permitir, em troca de uma proteção, a ingerência desmedida dos senhores temporais em seus assuntos internos, e todos caíram num relaxamento que conduziu à inobservância da Regra e à consequente dissolução dos costumes.

No início do século X esboçou-se uma reação contra esse estado de coisas. Alguns monges santos, como São Geraldo de Brogne na Lorena, tentaram reerguer suas abadias, levando as novamente à fiel observância da Regra.

E para que mais amplamente se estendesse a sua ação, costumavam reunir sob um abaciato único os mosteiros que, desejando reformar se, se entregavam à sua direção.

O Bem-aventurado Bernon foi um desses monges precursores da grande reforma monástica. Sobrinho do Rei da França, Luís o Gago, ele entrara no mosteiro de São Martinho de Autun.

Depois de ali permanecer por algum tempo, percebeu que, por maiores que fossem os esforços de seu abade para a reforma, eles se perdiam devido à intromissão de outras autoridades na vida interna do mosteiro.

Bernon resolveu então fundar um mosteiro numa das propriedades de sua família. Foi assim que nasceu o mosteiro de Gigny.

Guillerme I o Piedoso faz a doação das terras de Cluny.
Guillerme I o Piedoso faz a doação das terras de Cluny.
Os bons resultados obtidos em Gigny foram logo conhecidos nos arredores. O Rei da Borgonha, Rodolfo I, apreciando o trabalho de Bernon, entregou-lhe o mosteiro de Baume para ser reformado. E com base nesses dois mosteiros o Bem-aventurado pôde realizar a obra que projetara.

Nessa época, Santo Odon, que seria o primeiro dos quatro grandes abades santos de Cluny, era um jovem conselheiro que servia na corte do Conde Foulques de Anjou, vassalo do Duque de Aquitânia, Guilherme o Piedoso. Era filho único de uma nobre e rica família do Maine.

Seu pai, Abon, o tinha doado a São Martinho de Tours logo após seu nascimento, mas o fizera às escondidas de sua mulher e de sua família, nada contando a ninguém.

Vendo o menino crescer muito bem dotado, arrependeu se da doação que fizera. Mantendo o segredo, encaminhou o para o serviço do Conde de Anjou.

Santo Odon distinguiu se nessa corte e prometia ser um grande cavaleiro. Percebeu, no entanto, que não era essa a vida que Deus desejava que ele levasse. Recorreu a Nossa Senhora, pedindo que o esclarecesse e fizesse ver quais eram os desígnios de Deus sobre ele.

Foi logo acometido por uma violenta dor de cabeça, que o impedia de se desincumbir direito de suas obrigações. Durante três anos essa dor de cabeça não o abandonou.

A princípio tentou continuar na corte, cumprindo rigorosamente os seus deveres, mas logo teve de reconhecer que não poderia ali se manter.

Voltou para a casa paterna, onde Abon usou de todos os recursos possíveis para curá lo. Tudo foi inútil.

O pai teve de se render à evidência: São Martinho de Tours cobrava a doação que ele fizera. Abon contou tudo a Odon.

“Não tinha outra saída — dizia o Santo quando contava a sua vida aos Monges — senão refugiar me junto de São Martinho, receber a tonsura, e de bom grado votar me ao seu serviço, pois a ele fora doado sem o meu consentimento”.

Santo Odon aos pés de Nossa Senhora, detalhe da iluminura acima.
Santo Odon aos pés de Nossa Senhora, detalhe da iluminura acima.
A dor de cabeça cessou imediatamente. Santo Odon foi para o cabido da Igreja de São Martinho do Tours.

Durante a sua permanência entre os cônegos, leu a Regra de São Bento e ficou encantado com a vida monástica, mas não via em nenhum mosteiro que conhecia a observância dessa Regra que tanto o atraía.

Por outro lado, os cônegos de São Martinho de Tours viviam também em desordem, e não suportavam a presença de Odon, pois a vida virtuosa que este levava os incomodava.

O Santo retirou se para uma casa próxima da igreja, e ali dividia o seu tempo entre o cumprimento de suas obrigações de cônego e a vida de eremita.

Um de seus amigos na corte do Conde de Anjou desejava entrar no estado religioso, e foi procurá-lo em Tours. Depois de viverem juntos durante algum tempo, saíram os dois em peregrinação, procurando um mosteiro verdadeiramente observante da Regra.

Viajaram muito tempo e não o encontraram. Santo Odon voltou para Tours, e seu companheiro Santo Adgrim dirigiu se a Roma, a fim de pedir aos Apóstolos São Pedro e São Paulo as luzes necessárias para seguir a sua vocação.

A caminho de Roma, passou pela abadia de Baume, e não pôde conter a sua surpresa encontrando um mosteiro observante. Avisou Santo Odon, que lhe foi ao encontro, e ambos pediram ao Bem aventurado Bernon que os recebesse entre os seus monges.

Foram logo aceitos, e iniciaram em Baume a vida monástica que tanto desejavam. Santo Adgrim não chegou a fazer a profissão monástica.

Retirou se para uma caverna próxima do mosteiro e foi eremita até o fim de sua vida, morando sempre em lugares próximos dos mosteiros onde estava Santo Odon.

Este permaneceu algum tempo em Baume e depois em Gigny, apesar de violenta oposição que lhe movia o Monge Guy, sobrinho do Bem aventurado Bernon.

O Duque Guilherme da Aquitânia teve conhecimento da vida regular que havia em Baume e em Gigny.

Havia muito tempo ele desejava fundar um mosteiro em suas terras, para reparar um crime que cometera na mocidade. Mandou chamar Bernon. Ambos se encontraram num local conhecido por Cluny, onde Guilherme treinava os seus cães de caça.

Depois de expor os seus projetos, o Duque perguntou ao Abade se aceitava fundar esse mosteiro. Diante da resposta afirmativa, pediu lhe que escolhesse, ele mesmo, as terras que desejava em seus imensos domínios.

— Escolho estas — respondeu o Abade.

— Mas estas não posso dar, pois nelas tenho o melhor tempo de treinamento de meus cães de caça.

— Senhor Duque, bem sabeis que as preces dos monges vos servirão mais, diante de Deus, do que os latidos dos cães. Expulsai os cães e recebei os monges.

E o Duque nada teve para responder.

Em 910, na cidade de Bourges, Guilherme o Piedoso entregou solenemente ao Bem aventurado Bernon as terras de Cluny, na presença da Duquesa e de toda sua família.

Santo Odon, abade de Cluny.
Santo Odon, abade de Cluny.
Assistiram ao ato vários senhores feudais, muitos bispos e clérigos, e vários monges, entre os quais Santo Odon.

Num documento assinado por todos os presentes, o Duque da Aquitânia isentou Cluny de qualquer ingerência sua, dando aos Apóstolos São Pedro e São Paulo as terras e o mosteiro que ali se construiria, e cobrindo de anátemas todos aqueles que, seus parentes ou não, no presente ou no futuro tentassem delas se apoderar ou interviessem, sob qualquer pretexto, na vida interna do mosteiro.

O Papa, como Sucessor dos Apóstolos, deveria zelar pelo mosteiro, a ele incumbindo a defesa desse patrimônio entregue à guarda do Bem aventurado Bernon e da Santa Sé.

O próprio Duque da Aquitânia foi a Roma para obter a ratificação do documento e pagar as primeiras doze peças de ouro para manutenção da luminária da Igreja dos Apóstolos, como Cluny deveria fazer todos os anos, de acordo com o direito feudal.

Santo Odon foi para Cluny com outros monges de Baume e Gigny. Ao que parece, o que levou o Bem aventurado Bernon a enviá-lo para o novo mosteiro foi a hostilidade de Guy.

Ao morrer, em 926, Bernon deixou a este último, por testamento, alguns dos mosteiros que dirigia, entre eles Baume e Gigny, e outros a Santo Odon, entre os quais Cluny. Como Cluny era o mais pobre dos mosteiros e estava ainda em construção, o Bem aventurado Bernon tirou de Gigny o domínio de Alafracta e o entregou a Santo Odon, para com ele manter Cluny.

Guy impugnou a doação, e à força se apoderou de Alafracta. Santo Odon recorreu à Santa Sé e o Papa lhe deu ganho de causa enquanto os monges de Gigny vivessem no mosteiro de Cluny.

Santo Odon pôde então entregar se livremente à formação de seus monges e empreender a reforma monástica que estes realizariam com tanto brilho na França, na Itália e até na Espanha.

Os cluniacenses o consideravam o seu verdadeiro fundador, e foi realmente ele que introduziu no mosteiro esse espírito, essa alma que modelou a Idade Média.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




Abades santos governam Cluny quase 200 anos

São Mayeul, abade de Cluny.
São Mayeul, abade de Cluny.
A fim de evitar confusões, é conveniente explicar desde já que a palavra cluny tem, em geral, dois significados. Um deles diz respeito à Abadia de Cluny, fundada em 910 pelo Bem aventurado Bernon, e que desapareceu na Revolução Francesa, quando seus últimos monges pereceram nas mãos dos revolucionários.

Sua igreja, a célebre Igreja de São Pedro de Cluny, foi a maior do mundo até a construção da Basílica de São Pedro do Vaticano, edificada propositadamente com alguns metros a mais do que a abacial de Cluny.

Adornado de riquezas artísticas sem número, esse monumento de arte e resumo de um glorioso passado de vários séculos foi dinamitado pela prefeitura da pequena cidade de Cluny, no tempo de Napoleão.

Esse crime tão patente forçou a Revolução a inventar uma lenda que pelo menos excluísse Bonaparte desse vergonhoso episódio.

Reza essa lenda que certo dia, em que dava audiência às prefeituras de várias cidades, ao ser anunciada a delegação de Cluny, o Imperador voltou lhe as costas, dizendo que não recebia bárbaros.

O outro significado de Cluny corresponde ao que poderíamos chamar de Congregação de Cluny, embora esse nome não seja completamente adaptável à realidade histórica.

Ele designa o conjunto de mosteiros governados pelo abade de Cluny, e que seguiam o mesmo “Ordo”, ou seja, tinham os mesmos usos e costumes.

Esse conjunto constituía como que uma única abadia beneditina, e tinha por cabeça o mosteiro fundado pelo Beato Bernon. Será neste último sentido que usaremos a palavra Cluny. Quando tivermos que nos referir à abadia propriamente dita, declará-lo-emos explicitamente.

São Hugo falando com seus monges, manuscrito século XIII, Bibliothèque National de France Mss.ms.latin 17716, fol 25,
São Hugo falando com seus monges, manuscrito século XIII,
Bibliothèque National de France Mss.ms.latin 17716, fol 25,
Há uma diferença enorme entre a Cluny dos dois primeiros séculos e a dos tempos posteriores. Foi nos primeiros duzentos anos que Cluny chegou à perfeição que tanto entusiasma os que estudam a sua história.

Neles é que a grande Abadia foi a luz do mundo, a segunda Roma, procurada pelos peregrinos de toda a Cristandade quando as guerras e epidemias não lhes permitiam ir à Cidade Eterna.

Atingindo um alto grau de sabedoria e santidade, Cluny foi então não só o modelo do monacato e de toda a Cristandade, como também o modelador da alma da Idade Média. Nesse período, os seus monges e abades eram venerados pelo povo fiel, que neles via o exemplo que deveria imitar.

Estavam eles por toda parte. Nos mosteiros, cantavam os louvores de Deus em horas determinadas, na medida do possível as mesmas para todos, para que todos juntos, até os que estivessem viajando, pudessem participar das mesmas orações, de modo que todo o imenso império de Cluny se prosternava ao mesmo tempo, para adorar o Criador de todas as coisas.

E todo o mundo sabia que naquelas horas podia contar com as preces dos cluniacenses e tomar parte nestas, a elas se associando na adoração e nas súplicas a Deus.

Era também nos mosteiros que esses filhos de São Bento se preparavam para formar a sociedade medieval, sacralizando todas as instituições e atividades humanas, procurando a perfeição em tudo, para que tudo fosse perfeito e belo, pois não compreendiam nada do que faziam sem a beleza, porque Deus é belo em tudo o que fez.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




A decadência de Cluny

Croquis da nave central de Cluny antes da demolição revolucionária. Jean-Baptiste Lallemand, 1771-1780.
Croquis da nave central de Cluny antes da demolição revolucionária.
Jean-Baptiste Lallemand, 1771-1780.
Quando se fala de Cluny, entende se esse período de tal forma grandioso, que ofusca todo o resto da história cluniacense.

Não é que Cluny tenha deixado de ser grande. Pelo contrário, por muito mais tempo ainda, não só na Idade Média, mas mesmo no início da Idade Moderna, a Abadia conservou o seu prestígio.

Foi pouco a pouco que ela decaiu. O brilho que manteve ainda depois desses dois séculos deixa se ver nitidamente pela condição social de muitos de seus abades: vários príncipes da casa de Lorena e muitos grandes nobres da França e da Inglaterra.

No fim do século XVI, porém, a Abadia já não era senão uma sombra do que fora. O abaciato caíra sob o fatal regime da comenda.

Mas era tão glorioso o passado de Cluny, que ainda nessas tristes condições Richelieu e Mazarino quiseram ser seus abades, porque o título de Abade de Cluny acrescentava alguma coisa ao prestígio desses homens postos no pináculo de todas as grandezas humanas.

De 910 a 1109, Cluny teve seis abades: o Bem aventurado Bernon (910 926), Santo Odon (926 944), Aymard (944 954), São Maïeul (954 994), Santo Odilon (994 1049) e São Hugo (1049 1109).

Os próprios cluniacenses consideravam Santo Odon como o verdadeiro fundador da Abadia, e realmente foi ele que deu a Cluny a sua fisionomia definitiva. Além disso, logo depois da fundação Santo Odon foi auxiliar direto do Bem aventurado Bernon, e pôde já desde o início trabalhar nessa grande obra.

O terceiro abade, Aymard, governou pouco tempo, porque ficou logo cego e passou a direção efetiva a São Maïeul, seu coadjutor.

Na realidade, nesses duzentos anos Cluny foi governada pelos quatro abades santos: Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo.

Esses prelados eram varões extraordinários. Todos refletiam no exterior a luz peculiar da formação cluniacense.

O homem medieval sabia reconhecer o maravilhoso e ver a Deus em seus eleitos, de modo que a mera presença dos abades de Cluny provocava entusiasmo, conversões súbitas e desejo de colaborar com eles.

São Austremoine, detalhe da urna de Santa Calmina
São Austremoine, detalhe da urna de Santa Calmina
É o caso, por exemplo, de um bandido italiano que, à simples vista de Santo Odon, pediu para entrar em Cluny, indo lá morrer pouco depois em odor de santidade. Ou o de Hugo de Arles, Rei da Itália, que nada recusava aos monges porque conhecera Santo Odon.

Não era só a presença de algum dos abades cluniacenses que provocava movimentos de piedade popular. Muitas vezes o povo queria ao menos ver algo que os tivesse tocado.

Durante uma visita de Santo Odilon a Pavia, onde fora encontrar se com o Imperador, as cidades vizinhas o obrigaram a mandar o seu cavalo percorrê las, para que vissem pelo menos a montaria que ele usava.

Os quatro abades tinham esse fundo comum cluniacense, reconhecido até pelo povo, embora fossem muito diferentes entre si. É esse fundo comum que é o cerne da personalidade de cada um deles.

Foi o que viu muito bem D. Jacques Hourlier em seu estudo sobre Santo Odilon:

“O que há de mais notável na história de Cluny é que sempre revelaram em suas atitudes a permanência de “alguma coisa” própria de Cluny — uma unidade de pensamento, de orientação, de estilo, apesar da evidente diversidade de caracteres e temperamentos, apesar das mais profundas transformações da sociedade” (D. Jacques Hourlier, “Saint Odilon, Abbé de Cluny”, Bibliothèque de l’Université, Louvain, p. 50).

Essa “alguma coisa” pode se encontrar no pensamento, nos princípios que orientaram os quatro santos abades na formação de Cluny. É o que fazem os historiadores, ao pesquisar os poucos documentos que chegaram até nós, sobretudo as obras de Santo Odon e Santo Odilon.

Resumindo as conclusões a que chegaram, acreditamos poder dar aos nossos leitores uma idéia clara de quais foram os princípios que nortearam os quatro abades que construíram Cluny.

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 




Zelo pela tradição na arquitetura de Cluny

Capitel da antiga Ecclesia Maior de Cluny
Capitel da antiga Ecclesia Maior de Cluny
Procurando sistematizar um pouco a imensa riqueza de aspectos pelos quais podemos abordar o estudo dos princípios que guiaram os cluniacenses em sua obra gigantesca, escolhemos para nos servir de referência o zelo pela tradição, que esses monges deixaram impresso indelevelmente em tudo que realizaram.

Na escolha dos meios para atingirem os fins que desejavam, era a tradição o farol que os guiava. Estudavam o passado com os olhos voltados para o futuro, para construírem o presente, a fim de que este fosse o mais forte elo entre aquelas duas épocas e imprimisse à humanidade de seu tempo o maior progresso possível.

Este zelo pela tradição é incontestável. Ninguém o põe em dúvida. Poderíamos escolher qualquer atividade humana para mostrar como a tradição presidiu às obras que realizaram esses discípulos de São Bento. Escolhemos a arquitetura.

Já no século passado, Eugène Emmanuel Viollet le Duc, estudando a arquitetura dos mosteiros de Cluny, mostrou a existência de uma arquitetura própria cluniacense, que levou à perfeição o estilo românico.

Sua tese foi duramente criticada e até mesmo ridicularizada por alguns. Neste século, a “Medieval Academy of America” enviou a Cluny uma missão arqueológica para estudar as construções da célebre Abadia.

Seus trabalhos continuam ainda hoje, e, graças sobretudo a Kenneth John Conant, que os lidera, conseguiu levantar dos escombros que restam a reconstituição arqueológica de todos os edifícios lá construídos pelos cluniacenses.

Viollet le Duc foi reabilitado pela missão norte-americana. Dele diz Conant que

“foi o primeiro nos tempos modernos a ter a intuição do que tinha sido Cluny. Distinguindo se entre os mais qualificados arquitetos que conheceram o fundo e a técnica da arquitetura da Idade Média na França, estava bem preparado para compreender os cluniacenses, cujo espírito falava nos seus monumentos com uma eloqüência particular” (K. J. Conant, “Cluny – Les Églises et la Maison du Chef d’Ordre”, Mâcon, 1968).

Mais adiante, depois de mostrar a tradição sempre presente nas construções cluniacenses, volta a tratar do assunto:

“Vê-se, além disso, o que havia de arbitrário nos contraditores de Viollet-le-Duc, que não compreenderam em que sentido houve, realmente, uma escola cluniacense. Como a igreja abacial de Cluny foi a obra-prima do estilo cluniacense, a mais bela, a mais rica e, na época, a maior do mundo (com poucos metros a menos, como dissemos, do que a atual Basílica de São Pedro do Vaticano), vamos ainda citar uma breve descrição desse templo, que deixa bem patente como os cluniacenses marcavam de tradição suas construções:

“O próprio edifício, por seu estilo, por seus elementos, relembrava perfeitamente a extensão imperial da Congregação de Cluny. Um monge vindo de qualquer lugar encontrava ali alguma coisa que lhe recordava a arte da região de onde viera. Cluny agregava mosteiros de toda parte e colhia também em toda parte elementos para a sua arte.

Rosácea da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
Rosácea da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
“Algumas notas farão compreender a natureza dessa síntese sutil. O plano em cruz arquiepiscopal exprimia um edifício que era uma combinação muito hábil do plano central da basílica romana de duplo transepto com o plano basilical ordinário.

“A ele se acrescentava um deambulatório com capelas formando raios. O aspecto interior, se bem que fosse uma das mais altas naves abobadadas até então construídas, fazia prevalecer a longa linha horizontal amada pelos meridionais, enquanto que as torres levantadas sobre os transeptos forneciam as massas para a interpretação e as linhas montantes tão caras aos bizantinos e aos setentrionais.

“A decoração era feita com pinturas de inspiração bizantina e esculturas – centenas de capitéis esculturados, um pórtico notável – que são os marcos da reconquista da arte de fazer esculturas em pedra.

“ Numerosos capitéis relembram muito o coríntio antigo, mas muitos deles tinham o estilo novo que a arquitetura soubera dar a todo o edifício.

“A arte que produziu esse edifício era visivelmente uma arte especial e de elite. Só uma tal congregação e um tal abade [São Hugo] poderiam executar um tal projeto. Temos o direito, creio, de qualificar de escola cluniacense a obra dessa plêiade de Cluny.

“Esse maravilhoso florão não é, na verdade, arquitetura românica da Borgonha. De um lado ultrapassa as fronteiras da Borgonha; de outro, tirando se Cluny da Borgonha, fica uma arquitetura regional, borguinhona.

“A arquitetura de Cluny é uma soma da arquitetura românica e de suas fontes de inspiração, obra especial feita em Cluny, pelo instituto beneditino de Cluny, sob a presidência de um abade de Cluny e por monges de Cluny.

“Concebida em 1088 e terminada em 1109, Cluny tem o direito de ocupar o primeiro lugar como a maior obra desse grande período, com um edifício ricamente dotado pelo passado, em progresso sobre o seu tempo e antecipando ousadamente o futuro (“Dictionnaire d’Histoire et de Géographie Ecclésiastique”, verbete Bénédictin – Ordre, por Ph. Schmitz, cols. 1161 a 1162 do vol. VII).
Ábside da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
Ábside da igreja principal de Cluny, segundo reconstituição digital
Essa descrição põe em relevo como Cluny procurava a beleza no passado para que suas realizações fossem cada vez mais belas. E é a beleza outro aspecto característico de Cluny, o que bem exprimia Santo Odon dizendo que “a arte é a antecâmara do Céu”.

O historiador Guy de Valous vai mais além:

“Em Cluny a vida espiritual tem necessidade da beleza para desabrochar; é um dos traços dominantes da tradição cluniacense, tanto na arte espiritual como nas artes plásticas, na formação das almas como na do mosteiro.

“Os monges não eram estetas, eram artistas peritos em ir ao encontro de Deus por caminhos de suma beleza, e precisamos nos lembrar de que eles não separavam o bom do belo” (Guy de Valous, “Le Monachisme Clunisien des Origines au Xve. Siècle”, vol. 1, Introduction, p. IV).

Ao encerrarmos este artigo, não podemos deixar de transcrever as palavras finais do citado livro de K. J. Conant. Ele foi publicado em 1968 pela “Medieval Academy of America”, em francês e inglês. Contém tudo o que se conhece até hoje sobre a Igreja e a Abadia de Cluny.

Como se sabe, o vandalismo da Revolução Francesa iniciou a destruição sistemática da Abadia. No tempo de Napoleão, a Igreja de São Pedro, a maravilha da arquitetura de Cluny, foi dinamitada. A Restauração não impediu que a destruição prosseguisse.

Até 1823 o arrasamento continuou, deixando intactas apenas algumas pedras. Foi a partir delas que a reconstrução arqueológica pôde ser feita. Depois de expor os resultados obtidos, Conant termina com as seguintes palavras:

“Mas se a beleza pode perecer, sua lembrança sobrevive.

“Na medida em que nos foi possível, trouxemos a uma nova vida a Cluny de outrora. Não teríamos estado à altura da tarefa se, no decurso de nosso trabalho, a beleza material e espiritual que deu forma a essas pedras não tivesse voltado algumas vezes de seu exílio, para nos unir intimamente ao espírito cluniacense” (Op. cit., p. 134).

(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 






Em Cluny, história como alimento para as almas

Nas pesquisas arqueológicas que estão sendo feitas em Cluny, um dos critérios básicos que orientam os estudiosos da grande Abadia é o respeito à tradição que os cluniacenses sempre observaram em suas obras.

O empenho que tinham esses monges em serem os continuadores de seus maiores simplifica muitas vezes o trabalho dos pesquisadores.

Quando as ruínas em que trabalham não lhes fornecem elementos suficientes para uma reconstituição, recorrem eles ao passado, procurando uma abadia ou igreja de anteriores épocas que tenha sido conservada até hoje, para conseguirem, por comparação, completar os dados que puderam coligir nos restos do monumento que estão reconstituindo.

Em tudo, os cluniacenses tinham como guia a tradição. Eles eram eminentemente conservadores no verdadeiro sentido da palavra — isto é, estudavam, conservavam e desenvolviam o que o passado realizara de bom, belo e verdadeiro, sem prejuízo de inovações prudentes e fecundas — para que a humanidade não se desviasse do reto caminho em seu progresso para a eternidade.

Esse cuidado com a tradição exigia deles um bom conhecimento da História, estudada à luz da doutrina católica, para poderem discernir nos acontecimentos passados a mão de Deus, que conduz a humanidade, da obra dos homens que tentam opor se à Providência Divina.

Esse estudo, assim feito, não só lhes permitia construir o presente com segurança, como alimentava a própria vida espiritual dos monges.

E, de fato, vê se em listas de volumes retirados da biblioteca de Cluny, para a hora destinada pela Regra à leitura espiritual, vários livros históricos, tanto consideravam os cluniacenses a História como um alimento da vida de suas almas.

Por outro lado, eles deviam também deixar registrados os acontecimentos que se passavam sob seus olhos. Daí o cuidado que tiveram os abades, desde Santo Odon, com os arquivos da Abadia.

Mais eloquente ainda é a deliberação de Santo Odilon, mandando Raoul Glabre escrever a crônica de seu tempo, para que a posteridade conhecesse a “gesta Dei” no mundo durante a época em que viviam.

Devemos ter sempre presente esse respeito pela tradição, se quisermos conhecer bem o pensamento que presidia à formação dos monges de Cluny.

Tanto mais que ele é sempre o mesmo, sem solução de continuidade, por parte dos abades e de todos os religiosos durante os chamados tempos heroicos da Abadia, que podemos limitar aos anos do governo de Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo.

Não quer isso dizer que esse pensamento tenha ficado imóvel durante todo esse período.

Pelo contrário, ele foi sendo explicitado sempre mais, pelas sucessivas gerações de monges que não só o desenvolveram, como o aplicaram na vida que levavam no mosteiro e fora dele.

E como esses quatro abades são os arquétipos da vida monástica que instituíram, é analisando seu pensamento que poderemos melhor conhecer o pensamento de Cluny.

Homens extraordinários, com qualidades humanas excepcionais e sobrenaturalizados pela “metanóia” exigida pelo voto de reforma dos costumes, que a Regra de São Bento lhes pedia ao entrarem no mosteiro, souberam eles pô las ao serviço do ideal cluniacense que conceberam.

Cada um deles deu a sua contribuição para a formação desse pensamento comum destinado a construir, ao longo de duzentos anos, essa Cluny primitiva, a verdadeira Cluny, tão admirada por quem quer que conheça a sua história.

Infelizmente, os escritos que se conhecem desses quatro santos abades são raros, o que dificulta muito o trabalho dos historiadores. Aliás, a pobreza de documentos de que se ressente a História medieval é notória, e muito explicável.

Além de serem deficientes os meios materiais de que dispunham os medievais para deixarem obras escritas para a posteridade, a Revolução encarregou se de destruir boa parte do que poderia ter chegado até nós.

A difusão de seus erros só seria possível com a sistemática destruição de tudo que revelasse a grandeza dessa era gloriosa que foi a Idade Média. Cluny, particularmente, sofreu muito com as pilhagens, devastações, incêndios de igrejas e mosteiros, com que o ódio revolucionário perseguiu sua memória.

Existem, entretanto, algumas obras de Santo Odon, e outras, em menor número, de Santo Odilon e São Hugo. Curiosamente, não chegou até nós nada escrito por São Maïeul. Entretanto, os historiadores souberam aproveitar esse material existente e dar dele uma boa visão de conjunto, o que nos permitirá tentar um estudo do pensamento cluniacense.

O verdadeiro fundador de Cluny, o abade que deu o espírito à Abadia, foi Santo Odon. Antes de se empenhar nessa obra, ele meditou profundamente sobre a formação a dar a seus monges, sobre a História do mundo e sobre o estado em que este se encontrava na sua época.

Era uma época de trevas, da mais completa decadência. Desmoronara o Império católico de Carlos Magno, ruíam as instituições, e a corrupção de costumes invadira todas as camadas da sociedade, atingindo até a vida religiosa e a própria Santa Sé.

São Pedro, a quem estava consagrada a grande igreja abacial de Cluny, a maior da Idade Média
São Pedro, a quem estava consagrada a grande igreja abacial de Cluny,
a maior da Idade Média
Ora, Santo Odon queria que os seus monges fossem o sal da terra, que regeneraria os homens, as instituições e toda a sociedade, tirando a do caos em que se encontrava. Meditou com todo o cuidado as causas dessa decadência e escolheu os remédios necessários e suficientes para renovar o mundo.

As conclusões a que chegou, ele as expôs numa obra, a “Occupatio”, escrita em versos, que é fundamental para compreendermos o pensamento de Cluny. Infelizmente, não conhecemos seu texto (do qual A. Svoboda publicou uma edição crítica em 1900), mas tantos são os trabalhos publicados sobre ela, que as suas linhas fundamentais estão bem definidas para nós.

Santo Odon identificava sua época como o limiar dos últimos tempos.

E a “Occupatio” é estudo teológico da História desde a criação e a queda dos anjos até esse limiar dos últimos tempos, o que lhe permitiu conceber como deveria ser o monge cluniacense para combater eficazmente os males da humanidade nos tempos em que vivia, e para construir esses últimos tempos que viriam.

A importância desse estudo é enorme. Suas conclusões não valem só para os monges que o autor desejava formar.

Pelo menos em suas linhas gerais, são válidas para qualquer homem. Dom Kassius Hallinger observa com muita razão que Santo Odon ensina o leitor a “evitar os caminhos extraordinários de sua própria fantasia e, ainda mais, a encontrar a segurança no identificar-se com os acontecimentos históricos concretos” (K. Hallinger, “The Spiritual Life of Cluny”, editado por Noreen Hunt em seu “Cluniac Monasticism in the Central Middle Age”, p. 33).

É essa obra fundamental que nos servirá de ponto de partida para o estudo que pretendemos fazer.


(Autor: Prof. Fernando Furquim de Almeida, “Catolicismo”) 

FIM dos artigos do Prof. Furquim de Almeida




A Sabedoria pondo ordem

nos aspectos materiais da existência

Antigo celeiro de Cluny, andar superior. Hoje é museu
A conservação dos alimentos foi sempre uma preocupação em toda sociedade organizada.

Na Antiguidade encontram-se obras notáveis pelo engenho com que o problema foi solucionado.

A Bíblia nos fala do patriarca José aconselhando o faraó de Egito a acumulação de trigo para 7 anos de seca e fome que viriam.

Os celeiros construídos então salvaram o povo egípcio e muitos outros de povos diversos que, acossados pela fome, acudiram ao Egito.

Andar superior do celeiro
A Bíblia fala também da sabedoria de Salomão rei-profeta erigindo prédios destinados a preservar e acumular as riquezas materiais.

O modelo de suas cavalariças, por exemplo, ainda é objeto de estudo e imitação.

Porém, após a queda do Império Romano, o caos tomou conta da produção na Europa.

A fome, os saques e pilhagens praticados pelos bárbaros invasores e pelos supérstites da ordem romana tornaram impossível a formação de reservas alimentares para o inverno ‒ especialmente  rude na Europa setentrional.

Para pior, nos tempos do Império Romano a produção agrícola era vista com menosprezo.

Julgava-se própria de seres inferiores e era quase toda garantida por servos escravos.

Resultado: poucos sabiam aproveitar bem a terra e faltava comida.

A visão cristã da agricultura devolveu sua nobreza ao trabalho da terra e promoveu uma retomada num patamar altamente produtivo.

Os monges beneditinos assumiram a liderança do movimento de restauração da atividade agroalimentar.

Foi a “revolução verde” medieval que gerou uma riqueza em quantidade e variedade de alimentos até então desconhecida.

Celeiro: o teto foi feito no ano 1275 aproximadamente
e dura até hoje.
O problema vital de conservar os alimentos até a próxima safra, colheita ou simplesmente até o próximo verão foi resolvido magistralmente pelos monges de São Bento.

Cluny criou uma escola de aproveitamento da terra e dos recursos que até hoje causa admiração.

A abadia foi demolida facinorosamente pela Revolução Francesa, porém, ficam prédios que são exemplos característicos da grandeza da escola agrícola cluniacense.

Veja-se o exemplo de seu granel, ou celeiro, destinado a proteger grãos e farinhas da intempérie, mofos, pragas e animais predadores durante o ano todo até a próxima colheita.

O celeiro de Cluny foi um dos poucos edifícios que se salvou da depredação revolucionária.

Ele foi construído no século XIII, mais provavelmente por volta de 1275.

Ele ficava no canto sudeste do imenso complexo constituído pela abadia e suas dependências.

"Torre do Moinho", ou "Torre dos queijos", colada no celeiro
A construção é de tal maneira harmoniosa e acolhedora que foi transformada em museu.

Ali são exibidos incontáveis objetos produzidos pelos monges, restos dos prédios demolidos e modelos de Abadia de Cluny.

O prédio do celeiro está semienterrado e tem dois andares.

O de baixo é mais frio e úmido (ideal para vinhos e queixos), e o de cima é arejado e seco acima para os grãos.

Desta forma ficava garantida uma temperatura ideal para conservar os diversos alimentos.

Apenas a parte superior sobressaía do chão permitindo a abertura de janelas para ventilação e iluminação.

O imenso telhado foi feito de madeira de carvalho e castanheira. Até hoje é o mesmo da época.

Para se ter uma ideia de como foi bem feito, basta considerar que tendo sido construído por volta de 1275, no início do século XX precisou apenas de uma restauração muito leve para virar museu.

Quer dizer 740 anos de existência e uso quase sem danos relevantes!

Panorâmica da cidade: no centro a Torre do Moinho e o celeiro
No andar inferior está o porão (nível mais baixo, parcialmente subterrâneo).

A farinha era armazenada no andar superior ou celeiro.

O celeiro atual, entretanto, é só uma parte do original.

Ele foi reduzido em comprimento durante as adições do século XVIII para o mosteiro.

Agora estende-se 36 metros para dentro das paredes da abadia.

Fachada de Cluny, gravura
Por ali podemos considerar a grandeza do projeto original.

À direita encontra-se a “Tour du Moulin” (a “Torre do Moinho”) da mesma data.

O moinho foi outra das grandes invenções medievais.

O moinho das abadias aproveitava energias renováveis ‒ o vento, a correnteza dos rios ‒ e como seu nome indica servia originalmente para moer os grãos e fazer a farinha.

Portanto, Cluny ficava colado no celeiro.

A Torre do Moinho é também conhecida como “Tour des Fromages” (“Torre dos Queijos”) pela utilização do andar semienterrado para conservar os derivados do leite.

O moinho medieval, com o tempo virou uma fonte de energia que propulsionava incontáveis tipos de máquinas simplificando os trabalhos e multiplicando a produção várias vezes.

Ainda sob este ponto de vista, as abadias beneditinas, e notadamente Cluny contribuíram para o desenvolvimento econômico e o enriquecimento medieval.



Cluny na voz de um Papa contemporâneo


Em 11 de novembro de 2009, durante a catequese das quartas-feiras, S.S. Bento XVI descreveu a vida e a importância para a história da Igreja do vasto complexo de abadias lideradas pela de Cluny, a “alma da Idade Média”.

Reproduzimos a continuação o essencial das palavras do Pontífice, traduzidas e difundidas pela agência Zenit.


Queridos irmãos e irmãs:

Nesta manhã, eu gostaria de falar-vos de um movimento monástico que teve grande importância nos séculos da Idade Média e que eu já havia mencionado em outras catequeses.

Trata-se da ordem de Cluny, que no começo do século XII, momento de sua máxima expansão, contava com quase 1.200 mosteiros: um número verdadeiramente impressionante!

Em Cluny, precisamente há 1.100 anos, em 910, fundou-se um mosteiro colocado sob a guia do abade Bernon, depois da doação de Guilherme o Piedoso, duque de Aquitânia.

Nesse momento, o monaquismo ocidental, que floresceu alguns anos antes com São Bento, havia decaído muito por diversas causas: as condições políticas e sociais instáveis, devido às contínuas invasões e devastações de povos não integrados no tecido europeu, a pobreza difundida e sobretudo a dependência das abadias dos senhores locais, que controlavam tudo o que pertencia aos territórios de sua competência.

Neste contexto, Cluny representou a alma de uma profunda renovação da vida monástica, para reconduzi-la à sua inspiração original.

Em Cluny, restaurou-se a observância da Regra de São Bento, com algumas adaptações já introduzidas por outros reformadores.

Sobre tudo, quis-se garantir o lugar fundamental que a liturgia deve ocupar na vida cristã.

Os monges cluniacenses se dedicaram com amor e grande cuidado à celebração das Horas litúrgicas, ao canto dos Salmos, a procissões tão devotas quanto solenes e, sobretudo, à celebração da Santa Missa.

Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais, como, por exemplo, no começo de novembro, a comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há pouco; incrementaram o culto a Nossa Senhora.

Reservou-se muita importância à liturgia, porque os monges de Cluny estavam convencidos de que esta era participação na liturgia do céu.

E os monges se sentiam responsáveis por interceder diante do altar de Deus pelos vivos e pelos defuntos, dado que muitíssimos fiéis lhes pediam com insistência que rezassem por eles.

No demais, foi precisamente por este motivo que Guilherme o Piedoso quis o nascimento da abadia de Cluny.

No antigo documento, que testemunha sua fundação, lemos:

“Estabeleço com este dom que em Cluny seja construído um mosteiro de regulares em honra dos santos apóstolos Pedro e Paulo e que nele se recolham monges que vivem segundo a regra de São Bento (...);

“que lá se frequente um venerável refúgio de oração com votos e súplicas, e se busque e se implore com todo desejo e íntimo ardor a vida celeste, e se dirijam ao Senhor assiduamente orações, invocações e súplicas”.

Para custodiar e alimentar este clima de oração, a regra cluniacense acentuou a importância do silêncio, a cuja disciplina os monges se submetiam de bom grado, convencidos de que a pureza das virtudes, às quais aspiravam, exigia um íntimo e constante recolhimento.

Não surpreende que rapidamente uma fama de santidade envolveu o mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas decidiram seguir seus costumes.

Muitos príncipes e papas pediram aos abades de Cluny que difundissem sua reforma, de maneira que, em pouco tempo, estendeu-se uma rede enorme de mosteiros ligados a Cluny ou com verdadeiros e próprios vínculos jurídicos, ou com uma espécie de afiliação carismática.

Assim, ia se desenhando uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.



Vídeo: Cluny completou 1100 anos




O êxito de Cluny foi assegurado antes de mais nada pela elevada espiritualidade que se cultivava lá, mas também por algumas outras condições que favoreceram seu desenvolvimento.

Ao contrário do que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e as comunidades dependentes dele foram reconhecidas como isentas da jurisdição dos bispos locais e submetidas diretamente à do Pontífice Romano.

Isso comportava um vínculo especial com a Sé de Pedro, e graças precisamente à proteção e ao ânimo dos pontífices, os ideais de pureza e de fidelidade, que a reforma cluniacense pretendia buscar, puderam difundir-se rapidamente.

Além disso, os abades eram eleitos sem interferência alguma por parte das autoridades civis, ao contrário do que acontecia em outros lugares.

Pessoas verdadeiramente dignas se sucederam na guia de Cluny e das numerosas comunidades monásticas dependentes: o abade Odon de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses, e outras grandes personalidades, como Aimar, Mayolo, Odilon e sobretudo Hugo o Grande, que levaram a cabo seu serviço durante longos períodos, assegurando estabilidade à reforma empreendida e à sua difusão. Além de Odon, são venerados como santos Mayolo, Odilon y Hugo.

A reforma cluniacense teve efeitos positivos não somente na purificação e no despertar da vida monástica, mas também na vida da Igreja universal.

De fato, a aspiração à perfeição evangélica representou um estímulo para combater dois graves males que afligiam a Igreja daquela época: a simonia, isto é, a compra de cargos pastorais, e a imoralidade de clero leigo.

Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se converteram em bispos, alguns deles inclusive papas, foram protagonistas desta imponente ação de renovação espiritual.

E os frutos não faltaram: o celibato dos sacerdotes voltou a ser estimado e vivido e, na assunção dos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.

Foram também significativos os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Em uma época em que somente as instituições eclesiásticas assistiam os indigentes, praticou-se com empenho a caridade.

Em todas as casas, uma pessoa se dedicava a hospedar os transeuntes e os peregrinos necessitados, os sacerdotes e os religiosos em viagem, e sobretudo os pobres que vinham pedir alimento e teto por algum dia.

Não menos importantes foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as chamadas “tréguas de Deus” e a “paz de Deus”.

Em uma época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com as “tréguas de Deus” se asseguravam longos períodos de não-beligerância, por ocasião de determinadas festas religiosas e de alguns períodos da semana. Com a “paz de Deus”, pedia-se, sob pena de uma censura canônica, o respeito pelas pessoas inermes e pelos lugares sagrados.

Na consciência dos povos da Europa, incrementava-se assim esse processo de longa gestação, que teria levado a reconhecer, de modo cada vez mais claro, dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz.

Além disso, como acontecia para as demais fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, colocadas diligentemente a frutificar, contribuíram para o desenvolvimento da economia.

Junto ao trabalho manual, não faltaram tampouco algumas típicas atividades culturais do monaquismo medieval, como as escolas para crianças, a criação de bibliotecas, os scriptoria para a transcrição dos livros.

Dessa forma, há mil anos, quando estava em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, difundida em vastas regiões do continente europeu, ofereceu sua contribuição importante e preciosa.

Exigiu a primazia dos bens do espírito; manteve elevada a tensão aos bens de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção dos valores humanos; educou para um espírito de paz.

Queridos irmãos, oremos para que todos aqueles que estão preocupados por um autêntico humanismo e pelo futuro da Europa saibam descobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso desses séculos.






Cluny e a origem da arte gótica

Transepto da catedral de Amiens, França.
foto David Iliff.
O estilo gótico nasceu e cresceu dando passos aparentemente pequenos, até gerar um conjunto monumental como nenhum outro na História da Civilização.
Nenhum estilo histórico é uma produção de gabinete, mas é obra de uma sociedade inteira.

Os artistas não são os criadores do estilo usado por uma sociedade, mas seus intérpretes.

E isto é especialmente verdadeiro do estilo gótico ou medieval.

Nesse estilo produzido pela sociedade medieval, o prático e o belo, os elementos materiais e intelectuais se fundiram harmonicamente com a fé católica professada pela sociedade.

Do ponto de vista arquitetônico que foi tão decisivo, o estilo gótico tem como elemento característico a chamada ogiva gótica.

Segundo a tradição, num sonho, São Pedro e São Paulo teriam aparecido a um velho abade beneditino de nome Gunzo, que foi terminar seus dias na abadia de Cluny. Os santos lhe ensinaram a ogiva, que depois se chamou gótica.

O sonho do abade Gunzo que inspirou o arco gótico
na abadia de Cluny III.
Miscellanea secundum usum ordinis Cluniacensis
O velho monge narrou o sonho ao abade São Hugo. Na época, por volta de 1080 d. C., Cluny estava construindo sua terceira grande igreja abacial, dedicada a São Pedro.

Ela foi a maior igreja da Cristandade até a construção da Basílica de São Pedro, no Vaticano, feita um metro maior, para afirmar assim sua superioridade universal.

O monge Gunzo era cego, mas seu testemunho foi considerado fidedigno e convincente. A parte final da nave de Cluny foi concluída no novo estilo ogival.

O exemplo de Cluny pegou fogo em toda a Europa. Construir catedrais foi um fenômeno correlato às Cruzadas. O mesmo fervor animava os cavaleiros e os arquitetos.

O movimento se expandiu a partir da França em meados do século XII.

É por isso que na época medieval o estilo gótico era referido como art français, francigenum opus (trabalho francês) ou opus modernum (trabalho moderno).

O termo gótico foi cunhado pelo historiador renascentista da arte Giorgio Vasari (1511 — 1574).

Para Vasari e seus colegas naturalistas, admiradores da arte pagã da Antiguidade, a arte da Idade Média, especialmente a arquitetura, era objeto de horror. Eles a consideravam o oposto da perfeição, o símbolo do obscuro e do negativo que o catolicismo havia inoculado nas massas.

O século XIX recuperou o estilo gótico.
E deu o neogótico.
Catedral St Patrick, de New York
Vasari atribuiu esse horror aos godos, povo que destruiu a Roma Antiga em 410. E inventou o termo gótico, com fortes conotações pejorativas. Ele quis designar um estilo digno apenas de bárbaros e vândalos.

No século XIX essa manipulação foi posta de lado. O gótico voltou a ser valorizado como merecia. Poetas como Goethe ficaram fascinados pela imponência das grandes catedrais góticas na Alemanha. Literatos como Victor Hugo empolgavam seus leitores com os relatos dos monumentos medievais.

Restauradores como Viollet-le-Duc se engajaram em hercúleos trabalhos, ainda em andamento, para restaurar catedrais, abadias, castelos, palácios e outras obras insignes.

Chefes de Estado como o Kaiser da Alemanha, Luís II da Baviera, Napoleão III ou a rainha Victória promoveram essas fabulosas restaurações ou até novas realizações em estilo medieval. O Parlamento de Londres e o Big Ben são um exemplo acabado da tendência neogótica.

A restauração do gótico ficou associada ao movimento contrarrevolucionário do século XIX.

E onde não havia catedral gótica para restaurar, os católicos se punham a erigir novas: St. Patrick, em Nova York, a catedral de São Paulo, ou as basílicas de Luján, na Argentina, e de Las Lajas, na Colômbia, para dar alguns exemplos.

Nesse momento nasceu o neogótico, marcado pelos elementos decorativos ogivais.


Primeiros elementos góticos nasceram em Cluny (reconstituição virtual)













Cluny comemorou 1.100 anos

envolta numa aura de veneração

Planta de Cluny por volta de 1157 d.C.



A pequena cidade de Cluny, na França, mobilizou-se para comemorar os 1.100 anos de sua mítica abadia.

Cluny foi a capital monástica da Cristandade durante a Idade Média.

A abadia estava à testa de uma galáxia de 30.000 mosteiros na Europa toda. A igreja abacial, dedicada a São Pedro era a maior do orbe.

São Pedro de Roma atingiu o tamanho atual para poder ser a maior do catolicismo por 50 centímetros.

Entretanto, o ódio seletivo da Revolução Francesa demoliu aquele formidável complexo arquitetônico. Hoje só fica em pé o 8% dele [foto].

Mas, a lembrança dos tempos gloriosos de Cluny fizeram dessas ruínas verdadeiras relíquias.

Junto elas, os habitantes de Cluny e inúmeros turistas sonham com a glória beneditina medieval.

Sinal das crescentes saudades é que as autoridades receberam perto de 200 projetos para comemorar essa data, informou o diário “La Croix” de Paris.




Cluny, a Jerusalém celeste encarnada


(Fonte: Ricardo da Costa (Ufes), "Cluny, Jerusalém celeste encarnada", in: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 21 (2002), p. 115-137 (ISSN 0872-0991).


Houve uma igreja medieval que foi a maior ‒ e no juízo dos contemporâneos ‒ a mais bela e esplendorosa da Idade Média.

Ela foi uma obra prima do estilo românico e dela brotou o estilo gótico.

Foi a igreja abacial de São Pedro de Cluny, mais conhecida como Cluny III, pois foi a terceira de uma série construída, uma após a outra, no mosteiro de Cluny, na Borgonha‒França. Cluny foi a mais grande, deslumbrante, poderosa e influente abadia da Era da Luz.

A Basílica de São Pedro no Vaticano foi feita do tamanho atual para superar a Cluny III e poder ser o maior templo da Igreja Católica e da Cristandade.

De São Pedro de Cluny hoje só ficam ruínas como resultado do feroz ódio anti-cristão da Revolução Francesa.

Entretanto, o mito da fantástica abadia, coração monacal da Europa medieval, não só não morreu, mas tem surpreendente renascer no século XXI.

O prof. Ricardo da Costa elaborou valioso estudo sobre aquela que foi considerada a “Jerusalém celeste encarnada”, e do qual reproduzimos excertos nos posts seguintes.



(No tempo da fundação de Cluny) O mundo religioso também enfrentava uma grave decadência, especialmente após a dissolução do Império Carolíngio e os ataques vikings no final do século IX.

Brasão da abadia de Cluny: as chaves de São Pedro e uma espada.
Abadias foram destruídas, comunidades dispersadas, a Regra de São Bento esquecida. Ermentário, um monge de Saint-Philibert de Noirmoutier, escreveu em meados do século IX:

O número de navios aumenta; a multidão inumerável de normandos não para de crescer; de todos os lados cristãos são vítimas de massacres, pilhagens, devastações, incêndios (...) tomam todas as cidades que atravessam (...) muitas cinzas de santos são roubadas (...) quase não há localidade, nenhum mosteiro que seja respeitado, e raros são aqueles que ousam dizer: fiquem, fiquem, resistam... (citado em D'HAENENS, 1997: 89)

Cluny III, imagem de sintese
Marc Bloch chegou a afirmar que a desordem resultante das tormentas vikings e magiares do século IX deixou o corpo social do ocidente medieval “coberto de feridas”; a vida intelectual sofreu muito com isso, pois o monarquismo decaiu profundamente (BLOCH, 1987: 57).

O papado também sofreu: no início do século XI, estava dominado pela nobreza germânica, que elegia e depunha papas a seu bel-prazer. Por sua vez, corruptos e devassos, os papas distinguiram-se por suas orgias e subornos.

Simonia e nepotismo, desejo de possuir coisas impuras: cupiditas (DUBY, 1992: 51). Pecado capital. Escândalo. João XII (955-964), por exemplo, foi acusado por seus cardeais de subornar bispos, cometer adultério com a concubina de seu pai e incesto com sua mãe; Benedito IX (1032-1044), igualmente devasso, vendeu o cargo a Gregório VI (1045-1046) por moedas de ouro, sendo deposto por isso (DUFFY, 1998: 87).

Senhores feudais também indicavam abades para os mosteiros, apropriando-se de suas rendas. Parecia que o mundo espiritual estava irrevogavelmente destruído. Fim dos tempos, apocalipse.

São Eudes de Cluny (†942) disse:
Única torre que restou de Cluny
...alguns clérigos desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a fornicação em suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro de seus recintos cercados; inundam-nas com tanta luxúria que Maria não tem lugar para deixar o Filho Jesus (citado em DURAND, s/d: 475-476) Obs: Frequentemente Eudes é mencionado como Odon).


Os mosteiros na Idade Média

E foi justamente da abadia de Cluny que teve início um grande movimento de reforma.

Muitos religiosos desejavam o retorno à “idade de ouro dos apóstolos”. Os monges foram mais uma vez os responsáveis pelo reerguimento intelectual da Europa medieval.

Eles tentavam se aproximar do além, recusando o século, rompendo com o mundo, aquele mundo cheio de vícios (o tema dos sete pecados capitais ‒ e as virtudes ‒ é recorrente na literatura medieval).

Verdadeiro sistema regulador da vida moral, o estudo das virtudes e vícios era considerado necessário até para a ciência da memória [mnemotécnica]: LE GOFF, 1994: 453). Ao ser perguntado sobre o porquê de fundar mosteiros, Oto, bispo de Bamberg (1062-1139) disse:

...todo este mundo é um local de exílio; e, enquanto vivermos nesta vida, somos peregrinos do Senhor. Assim sendo, necessitamos de estábulos e estalagens espirituais e locais de repouso como os monastérios podem dar-se ao luxo de acolher peregrinos. Além disso, o fim de todas as coisas está próximo e o mundo inteiro assenta-se sobre depravação; por conseguinte, é bom multiplicar os monastérios por amor daqueles que desejam fugir ao mundo e salvar suas almas (citado em JOHNSON, 2001: 212)

São Pedro de Cluny: reconstituição virtual

Os monges trabalhavam a terra, rezavam e estudavam, ocupavam o tempo em prol de Deus: ora et labora.

Devemos agradecer a eles: graças a esses monges sabemos algo desse tempo. Eles escreveram, rescreveram e copiaram. Preservaram. Reinventaram a escrita, a caligrafia minúscula, inventaram a leitura em silêncio, a reflexão (PARKES, 1998: 103-122).

Essa foi uma grande revolução silenciosa e duradoura, embora imperceptível para mentes obtusas acostumadas com a excitação da história dos acontecimentos políticos.

Um alerta já antigo de um historiador: há cinquenta anos Fernand Braudel nos ensinou que as imensas e lentíssimas vagas das marés profundas dos oceanos, os movimentos quase imóveis dos processos históricos, são mais importantes para a nossa análise do que as enganadoras e apaixonantes espumas das ondas dos fatos, da política, do dia-a-dia (BRAUDEL, 1995: 25).

Bem, os mosteiros proliferavam desde a época merovíngia (DUBY, 1992: 23). Eram organizados, tinham disciplina; prosperavam.

Outro paradoxo: apesar de voltados para o outro mundo, o da eternidade, os monges levavam uma vida bastante prática: cultivavam suas terras com seus camponeses, ajudavam-nos a dominar a natureza, a abrir matagais, a drenar pântanos, a construir moinhos (numa verdadeira política de mecanização do trabalho [GIMPEL, 1977: 15]); produziam vinhos (JOHNSON, 1999: 141) - necessários à liturgia, à prevenção sanitária e à higiene alimentar (MONTANARI, 1998: 287).

As abadias também eram centros de povoamento ‒ vilas foram fundadas (JOHNSON, 2001: 180) ‒, de produção e comércio ‒ mercados foram desenvolvidos para o excedente de sua produção.

No entanto, esse comércio monástico não estava voltado para ganhar, mas para o consumo próprio (DUBY, 1990: 87).

Mais: para dar (FOURQUIN, 1986: 21). Hospitalitas. Receber, alojar e alimentar o viajante, o peregrino, o que batia à porta solicitando pernoite, mas também os doentes, os errantes, as crianças, os pobres (DUBY, 1990: 87). Função do bom cristão, do civilizado.

Por fim, os monges foram desbravadores das florestas. Civilizaram. Outra revolução silenciosa, pertinaz, agrícola, levada a cabo por esses homens de negro (os historiadores, mais uma vez eles, deram a esse lento movimento de conquista da natureza realizado principalmente pelos mosteiros o nome de arroteamento) (BONNASSIE, 1985: 33-36, que, no entanto, não diz uma palavra sobre a participação dos mosteiros no processo de arroteamento! Por que? Ver, para confronto, FOURQUIN, 1986: 34).

Assim, embora também tocados pela degradação espiritual dos séculos IX-X, os mosteiros, devido à sua organização, foram os primeiros a se recuperar.






Cluny: o “exército do Senhor”


Fundação de Cluny: a doação de Guilherme, duque da Aquitânia

O mais importante centro da reforma monástica foi Cluny.

Raul Glaber (†1044), o melhor historiador do ano mil, também ele cluniacense, nos conta que a abadia de Cluny era um asilo de sabedoria, pois fez renascer a Regra de São Bento ‒ embora com uma ênfase diferente, como veremos mais adiante.

A raça cluniacense tornou-se, segundo suas palavras, “um exército do Senhor que se espalhou rapidamente numa grande parte da terra” (citado em DUBY, 1986: 188).

Um modelo de perfeição, um modo de vida totalmente harmonizado com os desígnios do Criador, Cluny foi um dos maiores projetos monásticos de todos os tempos.

Desde sua fundação em 932, a abadia não parou de crescer. Doado em 910 (ou 909) por Guilherme, mais tarde chamado de o Piedoso, duque da Aquitânia e conde de Mâcon, o domínio (villa) encontrava-se ao sul da Borgonha, no Saône e Loire, próximo do Ródano (MARTÍNEZ, 1997: 192).

Havia uma capela no local (chamada de Cluny A) - as escavações arqueológicas dataram-na entre os séculos VI e VIII (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Chegaram seis monges, liderados por Bernon (910-924), abade de Baume e Gigny, que se propôs construir um pequeno santuário (chamado pelos especialistas de Cluny I), com 35 metros de comprimento (HEITZ, s/d: 132).

Em seu testamento, o duque Guilherme diz:
Para aqueles que consideram as coisas com bom senso é evidente que a Divina Providência aconselha os ricos a utilizar devidamente os bens que possuem de maneira transitória, se desejam recompensa eterna (...)

Por esta razão , eu, Guilherme, pela Graça de Deus conde e duque, tendo ponderado estas coisas e desejando, enquanto é tempo, tomar medidas para a minha salvação, achei justo e mesmo necessário dispor, para proveito da minha alma, de algumas das possessões temporais que me foram concedidas (...)

Portanto, a todos aqueles que vivem na unidade da fé e que imploram a misericórdia de Cristo, a todos os que lhes sucederem e viverem até à consumação dos séculos, faço saber que por amor de Deus e do nosso Salvador Jesus Cristo, dou e entrego aos santos apóstolos Pedro e Paulo a vila de Cluny, que fica sobre o rio chamado Grosne, com as suas terras e reserva senhorial, a capela dedicada em honra de Santa Maria Mãe de Deus e de São Pedro Príncipe dos Apóstolos, com todas as coisas que pertencem a essa vila: capelas, servos dos dois sexos, vinhas, campos, prados, florestas, águas e cursos de água, moinhos, colheitas e rendas, terras lavradas e por lavrar, sem restrições (...)

Dou com a condição de que seja construído em Cluny um mosteiro regular, em honra dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo; que aí formem uma congregação de monges vivendo sob a regra de São Bento; que a possuam para sempre, detenham e governem, de tal maneira que este venerável domicílio esteja incessantemente cheio de votos e preces; que todos procurem nela, com o vivo desejo e um fervor íntimo, a doçura da comunicação com o Céu e que as preces e súplicas sejam sem cessar daí dirigidas para Deus, tanto por mim como por aquelas pessoas acima lembradas (...)

Vézelay, abadia dependente de Cluny
Foi de nosso agrado registrar neste testamento que de este dia em diante os monges unidos na congregação de Cluny fiquem por completo libertos do nosso poder, do dos nossos parentes e da jurisdição da real grandeza, e nunca se submetam ao jugo de qualquer poder terreno, nem ao de nenhum príncipe secular, conde ou bispo, nem ao do pontífice da Sé Romana, mas apenas a Deus... (citado em ESPINOSA, 1981: 284-285)

Sem rodeios ou interpretações dúbias, aqui estão as palavras de um medieval. Um testamento, por natureza, expressa o desejo mais íntimo de alguém, sua vontade mais recôndita, ainda mais se for redigido em vida do doador, como foi o caso.

Temente a Deus e preocupado com a salvação de sua alma, pois acredita que recebeu dos céus como graça a nobreza de sua posição social, Guilherme dá um pouco do que tem. Reparte. Deve ser generoso: não reter nada nas mãos é o ideal cavalheiresco que aos poucos se difunde por entre a nobreza: largueza é o termo que define esse gesto. Os cavaleiros deveriam ser largos, generosos.

Mas o que quero ressaltar aqui são duas de suas condições ‒ sua dádiva tem preço, pois ele parece conhecer a degradação humana: os monges que ali vivessem deveriam se comprometer a cumprir estritamente as normas beneditinas e eleger livremente seu abade.

Assim, ninguém poderia interferir na vida da comunidade e, o que é mais importante neste testamento, Guilherme dá o tom da crença da época: o mosteiro que eles deveriam construir em Cluny, seria um portal de comunicação com o céu!

Um elo de ligação cheio de doçura. Cluny seria a Jerusalém celeste encarnada, o paraíso novamente concretizado.

Como um ponto de luz na escuridão, um foco de bondade em meio à turbulência do século, as preces e súplicas dos monges seriam a causa de sua reunião.

É por esse motivo que o duque os liberta das indesejáveis intromissões de nobres e bispos: os monges deveriam ser livres para melhor obrar junto a Deus!

Eram intermediários, intercessores entre “a ordem imutável do universo celeste e a perturbação, a miséria e o medo deste mundo” (DUBY, 1988: 03).

Guilherme confiou essa missão a Bernon por sua fama: o abade era conhecido por ter restaurado a disciplina monástica em vários mosteiros (PACAUT, 1996: 393-394).

Essa iniciativa estava bem de acordo com a época. Relação dialética: os seculares, os mais corrompidos, se interessavam pela renovação; os clérigos, igualmente corrompidos, aceitaram renovar.

Um movimento social que partiu das consciências, uma mutação das consciências baseada na crença em um além, em uma salvação.

De todas as partes do corpo social brotou um desejo de mudança.



Cluny: o “fasto” e a “hierarquia angélica”

A expansão cluniacense

Até 926 Bernon aclimatou os irmãos no espaço, na pequena capela existente. Preparou-os para sua missão. Edificou a primeira igreja (Cluny I). Não se sabe nada nem da capela (Cluny A) nem da igreja (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Nesse mesmo ano de 926 Bernon legou Cluny a seu discípulo Eudes (927-942), já citado.

Durante seu abaciado, Cluny recebeu um importante privilégio: o papa João XI (931-936) outorgou-lhe em 931 um direito de reforma: a partir de então, qualquer mosteiro que solicitasse ao abade cluniacense uma reforma monástica seria incorporado à casa mãe. O mesmo se daria com qualquer monge que desejasse ser acolhido (IOGNA-PRAT, 1998: 101).

Este fato possibilitou a Cluny criar uma rede de mosteiros, um corpo monástico, um exército, como disse Raul Glaber, a ecclesia cluniacensis.

Eudes ainda contribuiu de forma decisiva para a formação da espiritualidade cluniacense. Seguindo o modelo apostólico, Eudes traçou um paralelo da vida monástica com o mundo angélico: os monges deveriam ascender sete etapas sucessivas em busca da felicidade angélica para alcançar o Cristo.

Em sua obra Occupatio, ele afirma que a Páscoa era celebrada todos os dias pelos cluniacenses em uma igreja que era a “Jerusalém descida dos Céus” (HEITZ, s/d: 132).

Aymard (942-954), Mayeul (954-994) e Odilon (994-1049) prosseguiram o trabalho dos dois primeiros abades com tal afinco que, já no final do século X, Cluny agrupava uma vasta congregação de abadias pelo território francês (PACAUT, 1996: 394).

Um ponto importante: com essa expansão, os cluniacenses tornam-se senhores, como castelões e eclesiásticos, pois se apropriaram das antigas prerrogativas do poder real ausente, especialmente a justiça (IOGNA-PRAT, 1998: 102).

Naturalmente isso aconteceu por outras vias, pois a defesa de sua liberdade, isto é, de sua emancipação frente aos poderes instituídos, deu-se através de armas espirituais, especialmente sua participação nos movimentos da Paz de Deus e Trégua de Deus (COSTA, 2001) e, um pouco depois, na divulgação da Primeira Cruzada para reconquistar Jerusalém.

Os monges vinham de todas as partes. Em pouco tempo o número se multiplicou: dos seis do tempo de Bernon (910) para 132 no tempo de Mayeul (948).

Era necessário ampliar a igreja. Cluny II foi construída nos anos 955-991, seguindo os moldes da planta do convento de Saint-Gall.

Tinha 63 metros de comprimento. Consagrada em 981, a partir de 986 temos notícia do primeiro tribunal provado, um claro indício da feudalização dos poderes (DUBY, 1990: 143-179). Os monges tornavam-se senhores.

A alimentação em Cluny e o enriquecimento da região. Cluny III

E senhores com fausto. A batina dos monges, tecida de boa lã, era renovada todos os anos; os tecidos eram comprados de fora, pois a criação de carneiro era pouco desenvolvida na senhoria cluniacense (DUBY, 1990: 110).

Um luxo para a época. Graças ao monge Ulrico de Zell, secretário de São Hugo (1049-1109), abade, sabemos um pouco mais da vida no mosteiro. Ele redigiu por volta de 1080 as Très Anciennes Coutumes, descrevendo sua vida cotidiana, sua vida material. Dados preciosos.

Nesse tempo já viviam cerca de 300 monges em Cluny ‒ chegariam a 450 no tempo de Pedro, o Venerável (1122-1155). Uma grande expansão. Proibida a carne de quadrúpedes ‒ exceto para os fracos e doentes ‒ a dieta dos monges era rica e variada.

Os cluniacenses foram favorecidos pela multiplicação de trabalhadores nas zonas rurais e a abundância de matérias orgânicas nos séculos XII-XIII: os rendimentos da terra melhoravam, passando de dois para um do período carolíngio a quatro para um em Cluny (RIERA-MELIS, 1998: 390).

Segundo Ulrico, de primeiro de outubro até a Quaresma ‒ dias curtos e frios, a comunidade se reunia no refeitório apenas uma vez por dia nas jornadas de trabalho e duas nos dias de festa. A dieta era a seguinte:

1) Almoço (na sexta hora, por volta do meio-dia): dois pratos quentes (sopa de legumes e guisado de legumes). Como sobremesa, frutas e legumes;

2) Às terças, quintas, sábados e domingos: o “geral” (quatro ovos, uma ração de queijo cru ou cozido) e

3) Aos domingos e quintas: peixe (quando obtido a preço razoável nas feiras locais)

Todos esses pratos no inverno eram acompanhados de pão branco e uma taça grande de vinho.

No verão (da Páscoa a setembro) eles tinham duas refeições diárias, uma ao meio-dia outra nas vésperas ‒ as horas eram divididas de acordo com as horas das orações: matinas (meia-noite), laudes (três da manhã), primas (primeiras horas do dia, ao nascer do Sol, cerca de seis da manhã), vésperas (seis da tarde) e completas (na hora de dormir) (TUCHMANN, 1990: 56)

O jantar das vésperas era frugal: restos de pão, de vinho e frutas da refeição. No fim do dia os monges poderiam ainda tomar um cálice de vinho antes de se recolherem (RIERA-MELIS, 1998: 398-399).

Além disso, a abadia sustentava uma considerável multidão.

Os novos recursos que entravam na economia cluniacense ‒ oriundos dos dízimos das abadias satélites, doações inglesas (especialmente Henrique I [1100-1135], que ajuda a construir Cluny III [IOGNA-PRAT, 1998: 103]) e das mil peças de ouro anuais doadas pelos castelhanos (DUBY, 1990: 113) ‒ enriqueceram-na. A abadia virou um imenso canteiro de obras. Cluny III foi construída para tornar-se uma “pequena Roma” (IOGNA-PRAT, 1998: 114).

A igreja tinha mais de 187 metros de comprimento. Naturalmente, esta grandiosa obra arquitetônica pareceu aos contemporâneos a “Jerusalém celeste” (HEITZ, s/d: 134).

Tudo em Cluny sugeria o além, as sagradas coisas divinas, os anjos. Os próprios monges eram considerados anjos. Como intermediários perfeitos entre o mundo terrestre e o celeste, a origem da concepção da nova igreja não poderia deixar de ser um milagre.

Hildebert de Lavardin, bispo de Mans e de Tours (1055-1133) descreveu em sua obra La Vîe de l'Abbé Hugues a maravilha: São Pedro apareceu ao monge Gunzo em sonho e ordenou-lhe que procurasse seu abade Hugo e o convencesse a construir Cluny III.

Semi-paralítico, Gunzo ouviu do santo que, tomando essa iniciativa junto ao abade, ele seria curado e ganharia ainda mais sete anos de vida. No sonho, o monge chegou a ver São Pedro medir o comprimento e a largura da nova igreja abacial, determinando, calculando, precisando o espaço (HEITZ, s/d: 134).

O sonho de Gunzo com São Pedro ordenando e medindo a abadia monumental legitimou Cluny como centro de peregrinação, de devoção, de luz.

Espiritualizou o surto agrícola e comercial da região cujo principal responsável foi o mosteiro.

Mostra-nos também que o mundo clerical recebeu, a princípio, a reforma cluniacense de braços abertos. Daí sua rápida expansão.



Cluny, monges-guerreiros e “anjos do Apocalipse”

Dos sonhos aos mortos

Eles conquistaram as graças do povo. Um fato crucial para essa devoção popular foi a criação da liturgia dos mortos. Dia dos finados. Assumiam também as funções eucarísticas.

Um “mistério magnífico” que trouxe grandes benefícios às almas dos fiéis defuntos. Os monges de Cluny eram guerreiros de luz que combatiam as trevas.

Ao cantarem ininterruptamente, resgatavam as almas penadas, os perdidos, os errantes que estavam condenados ao abismo infernal.

Por volta de 1030 Cluny organizou a liturgia da comemoração dos defuntos - a data foi fixada em 02 de novembro. Era sua vocação. Pierre, o Venerável, oitavo abade de Cluny (1122-1156) escreveu uma coletânea de relatos de milagres (De miraculis): visões ‒ celestiais e diabólicas (sim, o diabo tentava a abadia, daí sua santidade) ‒, sonhos e aparições de mortos.

A obra possui dez relatos de aparições de mortos. Especialmente através de sonhos: os monges cluniacenses recebiam regularmente a visita de mortos em seus sonhos. Anunciações, avisos, premonições.

A tradição de Cluny obrigava que o visitado avisasse à comunidade para que fossem celebradas missas salutares em honra ao morto onírico visitante (SCHMITT, 1999: 90-97).

Assim, além do contato e do auxílio aos mortos, o mosteiro, com seu canto e suas missas ininterruptas, libertavam almas perdidas para o demônio. Mais uma vez Raul Glaber nos conta:

Sabe que esse mosteiro não tem outro que se lhe iguale no mundo romano, sobretudo para libertar as almas que caíram no poder do demônio. Imola-se nesse lugar tão frequentemente o sacrifício vivificante, que quase não passa um dia sem que, por tal mediação, não sejam arrancadas almas ao poder dos malignos demônios.

Com efeito, neste mosteiro, nós próprios fomos testemunhas disso, um uso tornado possível pelo grande número dos seus monges, determinava que se celebrasse sem interrupção missas desde a primeira hora do dia até a hora do repouso; e punha-se nisso tanta dignidade, tanta piedade, tanta veneração, que se acreditava ver mais anjos do que homens (citado em DUBY, 1986: 217).

Anjos, eles eram anjos de verdade que desceram dos céus para cantarem próximo de nós. 

Esses monges de negro, com suas vozes entoadas em uníssono perfeito, salvariam o mundo da perdição e os homens estariam livres dos horrores do fim dos tempos.

Cluny veio para preparar o mundo para o Apocalipse, amenizar o sofrimento dos espíritos inquietos.




Cluny, como viviam os monges

O monetário oriundo das doações que afluiu para Cluny foi também direcionado pelo abade para os mais pobres.

A economia monástica não visava o lucro, estava voltada para a comunidade ‒ num sentido mais amplo, para o corpo cristão.

Reitero: nem o abade, nem os monges, nem seu tempo tinham a mentalidade capitalista. É inútil vê-los com esse olhar moderno. Não era esse o foco.

Há de se fazer um esforço de compreensão, é necessário. Historiador, liberte-se de suas amarras materiais, sinta o ambiente e as prioridades de então.

Coloque-se no lugar, pense na Idade Média, não a Idade Média (LIBERA, 1999: 68).

Perde-se perspectiva, claro, mas ganha-se compreensão, amplia-se o horizonte do entendimento histórico.

Assim, pelo contrário, cada vez mais ricos, os monges deveriam ter mais tempo para os mortos, para a liturgia, para seu objetivo primeiro: salvar as almas do povo, protegê-las contra os perigos invisíveis ‒ lembre que, para os homens da Idade Média, o mundo invisível era mais importante que o visível. Claro, este perecerá, aquele permanecerá, permanece, é eterno.

Planta de Cluny III


Mais ricos, eles deveriam se libertar ainda mais das tarefas domésticas para se dedicar ao Opus Dei, ao canto. E eles cantavam. Cantavam e cantavam, cantavam cada vez mais, “a plenos pulmões”, todos juntos, em uníssono, seis, oito horas, sete vezes por dia (DUBY, 1979: 80).

Seu coro era másculo e violento, um verdadeiro canto de guerra ‒ uma guerra espiritual e ininterrupta contra as forças do mal. Esse canto buscava o sagrado, deveria harmonizar-se com os hinos dos serafins que rodeavam Deus (DUBY, 1988: 26).

Por esse motivo, o trabalho físico dos monges em Cluny passou cada vez mais a ser simbólico (DUBY e ARIÈS, 1990: 58). Além de embelezar o santuário ‒ a casa de Deus deveria ser semelhante à luz transbordante e gloriosa do céu do Senhor ‒ mais livres, os monges poderiam também realizar melhor outro ideal cluniacense: o da caridade beneditina (DUBY, 1990: 113).

Ao analisar o orçamento de Cluny no final do século XI, Georges Duby descobriu uma quantidade surpreendente de pessoas que estavam ligadas à riqueza alimentícia cluniacense: serviçais (que, além de usufruírem da caridade, também trabalhavam no mosteiro para sustentar a família), pensionistas pobres, visitantes de passagem, dignitários ricos e peregrinos nobres (e seus cavalos), crianças entregues por sua linhagem (DUBY e ARIÈS, 1990: 63), todos fielmente alimentados como os monges!

Reconstituição de Cluny
Cluny realizava verdadeiras epopeias distributivas: as esmolas.

Na Quaresma, por exemplo, pasme, leitor, 16 mil indigentes repartiam 250 porcos salgados preparados pelas duas cozinhas do mosteiro.

O consumo de pão era igualmente desmedido: 2 mil cargas de asnos, muitas vezes oriundos de longe (DUBY, 1990: 109).

Por esse motivo, a economia cluniacense rapidamente entrou em crise ‒ some-se a isso o fato de as cobranças das famílias camponeses instaladas nas terras do mosteiro serem muito suaves (as corvéias eram insignificantes, lembrem-se do ideal de caridade), existiam muitos alódios nos arredores (terras camponesas livres de cobranças), e um terço do excedente ainda era destinado aos hóspedes e às esmolas para os pobres (DUBY, 1990: 110).

Por fim, as necessidades de consumo da abadia (grãos e vinho) estimularam a produção agrícola local. Os camponeses prosperaram, não só vendendo sua produção para os monges mas também trabalhando no canteiro de obras que se tornou a construção daquela imensa igreja abacial (DUBY, 1990: 115).




São Bernardo: reação

para segurar a queda de Cluny

De qualquer modo, a independência, todo esse luxo e opulência e especialmente a velocidade com que Cluny passou de uma economia baseada na exploração direta de um vasto domínio (910-1080) para uma economia monetária (1080-1125) (DUBY, 1990: 123) despertou a ira de muitos setores eclesiásticos. Invejas.

Com a morte do abade Hugo de Sémur (1109), a eleição de Pons (que se demitiu) e Hugo II (que governou apenas alguns meses), a ordem entrou em crise. Crise de valores: foi acusada de corrompimento. Luxo, opulência, fausto. Degeneração. Sua expansão e enriquecimento provocara ciúmes. Mas também decadência moral.

As críticas não eram novas. O bispo Adalberon de Laon (†1031) ‒ um dos criadores do ideal das três ordens ‒ já havia escrito um poema satírico, um panfleto, Graça para o rei Roberto (Carmen ad Robertum regem) denunciando Cluny e seu abade, Eudes.

O desejo de Adalberon era restabelecer os bispos como conselheiros dos reis, função então usurpada pelos monges, segundo ele, “laicos que recusam o matrimônio”, responsáveis pela perturbação social.

Eudes era o culpado: esse “mestre da ordem belicosa dos monges”, que domina um suntuoso palácio, vive como um nobre quando deveria viver como um pobre. É um usurpador.

Além disso, os cluniacenses militarizaram a oração, como vimos. Adalberon teria mandado um monge a Cluny para obter informações.

Ele regressou maravilhado e convertido à mentalidade cluniacense: “Sou cavaleiro, permanecendo monge!” Adalberon ficou perplexo: monges guerreiros? Orações militarizadas? Guerra espiritual? Tolice. Trata-se de uma transgressão social (DUBY, 1982: 67-71).

Chegamos então a São Bernardo (1090-1153), o homem do século XII (SANTOS, 2001).

Um dos maiores pregadores de seu tempo, cisterciense, austero, devotado à união mística com Deus, ao papel acético do trabalho manual, Bernardo redigiu, por volta de 1124, uma apologia (DIAS, 1997: 7-76).

Um grande amigo seu, monge cluniacense, Guilherme de Saint-Thierry (próximo de Reims), escreveu-lhe uma carta com uma ordem: pôr fim a um escândalo. Os cistercienses estavam caluniando os cluniacenses (BAC, MCMXCIII: 248).

Guilherme então se queixou a Bernardo, que decidiu ceder à sua dor e responder. Logo no início da carta ele faz duas perguntas diretas e incisivas, características de seu estilo impetuoso:

Como é que eu poderia ouvir em silêncio a tua queixa acerca de mim, pela qual se diz que nós, os mais miseráveis dos homens, andrajosos e mal vestidos, das cavernas, como diz ele, julgamos o mundo e, o que é mais intolerável ainda, criticamos também a tua gloriosíssima Ordem e, sem vergonha, atacamos os santos que nela vivem tão louvavelmente e, da sombra da nossa ignobilidade, insultamos esses luminares do mundo?

Por acaso é possível que nós, não lobos vorazes sob pele de ovelhas, mas pulgas mordazes e mesmo traças destruidoras, uma vez que não o ousamos fazer às claras, destruamos, às ocultas, a vida dos bons e nem sequer lancemos o clamor da invectiva mas o sussurro da detração? (I.1. In: DIAS, 1997: 23)

Como se vê e pode-se imaginar, esse texto fez muito sucesso. Bernardo possui um estilo vigoroso. Logo se faz ouvido. Particularmente esse texto deu-lhe prestígio, tornou-o famoso nos círculos eclesiásticos (SANTOS, 2001: 53).

Bernardo afirma que jamais discutiu em público contra Cluny. Pelo contrário, sempre foi muito bem recebido como hóspede em mosteiros cluniacenses ‒ chegou mesmo a ser hospitalizado ‒ e pôde perceber que seu modo de vida é santo, honesto, discreto e casto (II.4) (DIAS, 1997: 27-29).

Afirma que sempre falou bem dos monges de negro: “Sou cisterciense, condeno por isso os cluniacenses? De modo nenhum. Amo-os até, falo deles com elogio, louvo-os.” (IV.7) (DIAS, 1997: 33).

Apenas preferiu entrar para a Ordem de Cister por necessitar de um remédio mais forte tanto para sua alma pecadora quanto para seu corpo, antes vendido ao pecado.

Assim, antes de iniciar suas críticas aos costumes corrompidos de Cluny, Bernardo ressalva:

Na realidade, nenhuma ordem aceita algo de desordenado; o que é desordenado não é ordem. Por consequência, não me devem considerar como disputando contra a Ordem mas pela Ordem, se acaso, repreendo não a Ordem nos homens mas os vícios dos homens (...)

Se, de fato, a alguns desagradar, eles mesmos mostram que não amam a Ordem, já que não querem condenar a corrupção, isto é, os vícios. A esses respondo com aquele dito de Gregório: “É melhor que apareça o escândalo que se deixe a verdade” (VII.15) (DIAS, 1997: 47)

Suas críticas dirigem-se não só a cluniacenses, mas a todos os monges: “Quem é que no princípio, quando começou a Ordem monástica, teria pensado que os monges pudessem chegar a tal relaxamento? Oh! Como estamos longe dos tempos de Antão!” (IX.29) (DIAS, 1997: 51).

Seus olhos veem vaidade e superficialidade disseminadas em todos os mosteiros. Falta de moderação. Riqueza. Luxo. O mundo monástico foi tomado pelo excesso: “...intemperança nas comidas e bebidas, nas vestes e nas roupas de dormir, nos apetrechos de cavalgar e na construção de edifícios.” (VIII.16) (DIAS, 1997: 47).

Ao referir-se à alimentação, Bernardo é tão incisivo que seu tom beira a denúncia. Ele quer trazer os monges de volta à razão, aos valores espirituais, à busca da elevação da alma:

O Reino de Deus está dentro de vós, isto é, não na exterioridade do vestir ou dos alimentos do corpo mas nas virtudes do homem interior (VI.12)

(...) De fato, o exercício espiritual é tanto mais frutuoso que o corporal, quanto o espírito é superior ao corpo. (VII.13) (DIAS, 1997: 43)


Diversos aspectos da amostra sobre Cluny, gire com o mouse e escolha salas diferentes (acima à esquerda)

Sobre as refeições e a bebida nos mosteiros cluniacenses, ele aponta:

Trazem-se pratos de comida uns após outros e, em vez dum simples prato de carnes, de que se faz abstinência, servem-se dois grandes peixes (...) Com tanta arte e cuidado as coisas são preparadas pelos cozinheiros que, depois de se ter devorado quatro ou cinco pratos, os primeiros não impedem os últimos nem a saciedade diminui o apetite (...)

Se fazem misturas dumas coisas com outras, e, desprezando os sabores naturais que Deus lhes incutiu, provoca-se a gula com sabores adulterados... (IX.20) (DIAS, 1997: 51-53)

Um escândalo! Os cluniacenses adulteram os sabores das coisas. Reviram, transformam a natureza! Repare na escolha minuciosamente proposital das palavras: adultério (sabores adulterados). Pecado mortal.

Culinária? Perda de tempo, causa para a gula, outro pecado mortal. Peixes à macheia ‒ sinal de grande riqueza, compras regulares nos mercados locais. E os ovos? Quantos ovos! ‒ vimos atrás que terças, quintas, sábados e domingos os cluniacenses comiam quatro ovos.

O frigir dos ovos propicia a Bernardo um ritmo, uma cadência pulsante no texto:

Quem seria capaz de dizer de quantos modos (...)

Só os ovos se deitam e batem, com que cuidado se viram, se reviram, mal passados, bem passados, se reduzem e se servem ora cozidos, ora estrelados, ora recheados, ora mexidos, ora sós? Para quê tudo isso senão para prevenir o fastio? (IX.20) (DIAS, 1997: 53)

Quem sofre é o pobre estômago do monge, cheio, com grandes arrotos. Mas nem assim o cluniacense pecador e guloso satisfaz sua curiosidade. Repare que um vício leva a outro: movimento circular. A curiosidade é, para Bernardo, o primeiro grau da soberba, porque “lança os olhos e demais sentidos em direção a coisas que não lhe interessam” (BAC, MCMXCIII: 169).

Os olhos deveriam estar voltados para a terra, para que o néscio se conhecesse. “A terra te dará tua própria imagem, pois eras terra e à terra há de retornar” (BAC, MCMXCIII: 213).

Os olhos dos monges são os culpados: o estômago não tem olhos. Mais um motivo para o texto ser lido como um banquete imaginário, em um andamento rítmico e melódico de grande impacto discursivo:

Enquanto os olhos são seduzidos pelas cores, o paladar pelos sabores, o pobre estômago, que nem conhece as cores nem aprecia os sabores, é obrigado a receber tudo e violentado, fica ainda mais sobrecarregado do que refeito.” (IX.20) (DIAS, 1997: 53)

Apesar de todo esse fastio, Bernardo ainda sabe de terceiros que muitos jovens sãos mentem que estão doentes para poderem comer carne!

Ridículo se for verdadeiro (Ridiculum vero est) Qual o objetivo desses jovens monges? Imagine: aperfeiçoar a boa aparência do corpo. Então ele pergunta: “Que frouxidão é essa, ó bons soldados?” (IX.22) (DIAS, 1997: 55).

Ele debocha desses soldados de Cristo. São beberrões, inclusive, esses cluniacenses. Três, quatro cálices cheios de vinho em cada refeição. Vinhos aromatizados com mel e misturados com pós de corantes. Suas veias ficam saturadas de álcool, a cabeça palpita. Ao invés de rezarem à noite, muitos deles dormem. Claro.

Bernardo faz um trocadilho: canto/pranto: “Ora, se és obrigado a levantar-te para as vigílias com a digestão por fazer, não executarás o canto mas antes o pranto” (IX.21) (DIAS, 1997: 55).

Como não associar a denúncia de Bernardo das orgias alimentares cluniacenses ao enriquecimento material que tomou conta do ocidente medieval na virada do século XII? Crescimento populacional, desenvolvimento de novas técnicas agrícolas, arroteamentos, conquista do solo (LE GOFF, 1983: 87-92).




A decadência de Cluny 

e o ocaso da Cristandade medieval

A cristandade alargava-se, as cidades eram novamente palco de transformações sociais. Nascimento da burguesia, novo impulso comercial.

Esse arranque teve início por volta do ano mil. Para as mentes de então, estava associado à busca religiosa. O próprio Raul Glaber, cluniacense, é sempre bom recordar, fala de uma paz divina após o flagelo da fome, como se Deus renovasse seu pacto com a humanidade. Sinta a fluência literária de um historiador cluniacense:

No ano milésimo depois da Paixão do Senhor, após a dita fome desastrosa, as chuvas das nuvens acalmaram-se obedecendo à bondade e à misericórdia divina.

O céu começou a rir, a clarear e animou-se de ventos favoráveis. Pela sua serenidade e paz, mostrava a magnanimidade do Criador. Toda a superfície da terra cobriu-se de uma amável verdura e de uma abundância de frutos que expulsou completamente a privação (...)
Inúmeros doentes reencontraram a saúde (...)

O entusiasmo era tão ardente que os assistentes elevaram as mãos a Deus exclamando em uníssono: “Paz! Paz!” Viam o sinal do pacto definitivo, da promessa estabelecida entre eles e Deus. (citado em DUBY, 1986: 179-180)

O ocidente medieval cobriu-se de branco, o branco das igrejas. Construções por toda a parte:

...viu-se em quase toda a terra, mas sobretudo na Itália e na Gália, renovar as basílicas das igrejas (...) Era como se o próprio mundo tivesse sido sacudido e, despojando-se da sua vetustez, se tivesse coberto por toda a parte de um manto branco de igrejas. (citado em DUBY, 1986: 192)

Cluny foi reflexo e imagem disso. A arte das catedrais foi também a arte das cidades (DUBY, 1988: 59), o que mostra a pujança dessa arrancada civilizacional.

Mas Bernardo acusa a opulência do mosteiro de Cluny. Os fiéis deveriam retornar a seu momento primeiro, à vida pobre, como Cristo, como os Apóstolos.

Especialmente os monges, que estavam na dianteira do mundo, próximos do além. A vida apostólica era novamente o modelo a ser seguido. O século XII enriquece materialmente mas entra em crise, crise espiritual, crise religiosa (BOLTON, 1986: 19-62).

Por fim, a arte, a rica arte cluniacense que Bernardo aponta e que faz lembrar-lhe do “antigo rito dos judeus” (XII.28) (DIAS, 1997: 63). Ela é resultado imediato dessa riqueza que o mundo conhece. Qual a causa desse pecado? Para ele, a avareza. Ele critica:

Com os bens dos pobres serve-se aos olhares dos ricos. Os curiosos encontram com que deleitar-se e os miseráveis não encontram com que sustentar-se (...) Muitas vezes cospe-se na figura dum anjo, muitas vezes ferem a face dos santos os calcanhares dos transeuntes (...)

Porque decoras o que logo sujas? Porque pintas o que se deve calcar? Que valem aí essas bonitas imagens, onde tão freqüentemente se enchem de pó? Por último, que vale isso para os pobres, para os monges, para a gente espiritual? (XII.28) (DIAS, 1997: 63)

Então chego à passagem mais famosa dessa apologia. Ao acusar a monstruosidade artística cluniacense, Bernardo nos mostra o quanto o mosteiro era suntuosamente decorado:

De resto, nos claustros, diante dos irmãos a fazer leituras, que faz aquela ridícula monstruosidade, aquela disforme beleza e bela disformidade? Para quê estão lá aqueles imundos macacos? Para quê os leões ferozes?

Para quê os centauros monstruosos? Para quê os semi-homens? Para quê os tigres às manchas? Para quê os soldados a combater? Para quê os caçadores a tocar trombetas?

Vês uma cabeça com muitos corpos e um corpo com muitas cabeças. Daqui vê-se um quadrúpede com cauda de serpente, dali um peixe com cabeça de quadrúpede. Ali uma besta tem frente de cavalo e de cabra a parte de trás; acolá um animal cornudo tem traseiro de cavalo.

Tão grande e tão admirável aparece por toda a parte a variedade das formas que mais apetece ler nos mármores que nos códices, gastar todo o dia a admirar estas coisas que a meditar na lei de Deus.

Meu Deus! Se a gente não se envergonha destas frivolidades, porque não tem pejo das despesas? (XII.29) (DIAS, 1997: 67)

Banalidade da arte, do mal. Os olhos se perdem nas imagens, que passam para o primeiro plano. O tempo está perdido.

O mundo cluniacense é um carnaval animalesco, um bestiário que passa em cada parede, em cada escultura, em cada pintura.

Os artistas de Cluny deram asas à imaginação e representaram o mundo visível e o invisível para o deleite dos monges: monstros, centauros, sátiros, faunos, dragões, sagitários, macacos (simiae). Até macacos!

Na Idade Média, o macaco, o símio, simbolizava os vícios do condenado, a caricatura do homem (CURTIUS, 1996: 655).

Como poderia estar presente na arte de um claustro? Por isso Bernardo os chama de imundos. Essa arte é sensual, um prazer perverso, e por isso não deveria ser chamada de estética (DUBY, 1990: 109).

Como ver beleza e sublimação nisso? Onde estão as virtudes morais que deveriam estar associadas às percepções estéticas?

A mística bernardina não negava a beleza desses ornamentos. Umberto Eco nos mostrou que justamente por reconhecer seu atrativo irresistível é que os místicos a combateram.

A descrição de Bernardo da arte cluniacense é tão real que mostra seu paradoxo: ele via tanta sutileza em coisas que não queria ver (ECO, 1989: 17).

Talvez eu deva moderar um pouco o julgamento de Umberto Eco. Bernardo apenas aparenta ser contraditório, pois quando conclui sua apologia lamentando não ter conseguido escrever sobre esse tema de outra forma que não fosse o escândalo, diz que, ao repreender os irmãos para que se corrijam, não está fazendo detração, mas atração (XII.31) (DIAS, 1997: 71).

Mais um jogo de palavras típico de sua bela e rica retórica, cheia de hábeis contraposições, bem ao melhor estilo da época (ECO, 1989: 20).

Bernardo sabe que ao lamentar os vícios ofende os viciosos. Paciência ‒ virtude máxima medieval.

O Beato Papa Urbano II consagra a igreja de Cluny
A crítica de São Bernardo à vida cluniacense foi apenas a primeira de uma torrente que se avolumou com o passar do tempo.

À medida que se aproximou de seu fim, a Idade Média tornou-se mais rígida, o crescimento e a riqueza, distanciaram os extremos sociais.

De sua parte, os religiosos buscaram alternativas mais austeras de redenção. A proposta de reforma cluniacense, a transformação da oração em combate religioso, dos monges em guerreiros de luz foi mais uma etapa de sublimação das pulsões agressivas dos cavaleiros medievais, da violência das camadas superiores daquela população (VAUCHEZ, 1995: 51).

Em suma, mais um momento do processo de civilização realizado durante aqueles séculos pelo cristianismo triunfante.

Por outro lado, a Igreja, ou melhor, os bispos, já não precisavam dos monges. Vimos que desde Adalberon os bispos denunciavam a apropriações que os cluniacenses vinha realizando, especialmente no campo da liturgia.

De um lado, essas críticas foram mais um movimento de retorno às origens (à chamada Igreja primitiva) típico dos segmentos mais radicais presentes em todas as religiões e sempre dispostos a um eterno retorno; por outro, o mundo havia mudado e o centro da mudança estava nas cidades.

A virada deu-se entre 1120 e 1125: Calisto II (1119-1124), o primeiro papa em cinquenta anos que não provinha de um mosteiro, abandonou Cluny aos ataques, às críticas do episcopado (DUBY, 1982: 232).

A partir daí, a vida cultural, especialmente a intelectual, passou então, e cada vez mais, do mosteiro para a catedral, do campo para a cidade. Mas isso é outra história.

Enfim, Cluny representa o que de mais opulento a Idade Média central, a dos feudais, criou.

Foi uma espiritualidade triunfalista, a ideia de cruzada na oração, onde a contemplação da glória e da majestade divinas eram mais destacadas que as noções de pecado e de resgate (VAUCHEZ, 1995: 40).

Exprimindo o desejo espiritual de conquistar o mundo, de representar cada vez mais e melhor o esplendor celeste em sua igreja monumental, mas sem abandonar a caridade beneditina e o auxílio aos desamparados, os monges-cavaleiros cluniacenses criaram e materializaram a Jerusalém celeste em terras borgonhesas.

Seguiram à risca e no limite das possibilidades humanas o pedido sincero e despojado do duque Guilherme: a doçura da comunicação com o céu.

(Fonte: Ricardo da Costa (Ufes), "Cluny, Jerusalém celeste encarnada", in: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 21 (2002), p. 115-137 (ISSN 0872-0991).

FIM

Bibliografia
BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. Lisboa: Edições 70, 1987.
BOLTON, Brenda. A Reforma na Idade Média. Lisboa: Edições 70, 1986.
BONNASSIE, Pierre. “Arroteamento”. In: Dicionário de História Medieval. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985, p. 33-36.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II. Lisboa: Publicações Europa-América, 1995, vol. I.
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CURTIUS, Ernest Robert. Literatura Européia e Idade Média Latina. São Paulo, HUCITEC, 1996.
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Santo Odon: resplandecente abade de Cluny


A figura luminosa de Santo Odon, abade de Cluny se coloca no medievo monástico, que viu a surpreendente difusão na Europa da vida e da espiritualidade inspiradas na Regra de São Bento.

Ocorreu, durante aqueles séculos, um prodigioso surgimento e multiplicação de claustros que, ramificando-se no continente, difundiram nele o espírito e a sensibilidade cristãos.

Santo Odon nos leva, em particular, a um mosteiro, Cluny, que durante a Idade Média foi um dos mais ilustres e celebrados, e ainda hoje revela, através de suas ruínas majestosas, as marcas de um passado glorioso por sua intensa dedicação à ascese, ao estudo e, de forma especial, ao culto divino, envolvido pelo decoro e pela beleza.

Odon foi o segundo abade de Cluny. Nasceu em 880, nos confins entre Maine e Touraine, na França. Foi consagrado pelo seu pai ao santo bispo Martinho de Tours, a cuja sombra benéfica e em cuja memória Odon passou toda a sua vida, concluindo-a perto de seu túmulo.

A escolha da consagração religiosa esteve nele precedida pela experiência de um momento especial de graça, do qual ele mesmo falou a outro monge, João o Italiano, que depois foi seu biógrafo.

Odon era ainda adolescente, por volta dos 16 anos, quando, em uma vigília de Natal, sintiu como lhe saía espontaneamente dos lábios esta oração a Nossa Senhora:

“Minha Senhora, Mãe de misericórdia, que nesta noite destes à luz o Salvador, rezai por mim. Que vosso parto glorioso e singular seja, oh, a mais pia, meu refúgio” (Vita sancti Odonis, I,9: PL 133,747).

O apelativo “Mãe de misericórdia”, com o qual o jovem Odon invocou então Nossa Senhora, será aquele com o qual ele sempre quis se dirigir a Maria, chamando-a também de “única esperança do mundo (...), graças à qual nos foram abertas as portas do paraíso” (In veneratione S. Mariae Magdalenae: PL 133,721).

Naquele tempo, ele começou a aprofundar na Regra de São Bento e a observar alguns dos seus mandatos, “carregando, ainda sem ser monge, o leve jugo dos monges” (ibidem, I,14: PL 133,50).

Em um dos seus sermões, Odon se referiu a São Bento como “farol que brilha na tenebrosa etapa desta vida” (De sancto Benedicto abbate: PL 133,725) e o qualificou como “mestre de disciplina espiritual” (ibidem: PL 133,727).

Com afeto, revelou que a piedade cristã, “o recorda com a mais viva doçura”, consciente de que Deus o elevou “entre os sumos e eleitos Padres da santa Igreja” (ibidem: PL 133,722).

Fascinado pelo ideal beneditino, Odon deixou Tours e entrou como monge na abadia beneditina de Baume, para passar depois à de Cluny, da qual se converteu em abade em 927.

A partir deste centro de vida espiritual, ele pôde exercer uma ampla influência nos mosteiros do continente. De sua guia e reforma beneficiaram-se também, na Itália, diversos cenóbios, entre eles o de São Paulo Fora dos Muros.

Odon visitou Roma mais de uma vez, chegando também a Subiaco, Monte Cassino e Salerno. Foi precisamente em Roma que, no verão de 942, ele ficou doente. Sentindo-se perto da morte, com todos os esforços, quis voltar junto a São Martinho, onde morreu durante a oitava do santo, no dia 18 de novembro de 942.

Seu biógrafo, ao sublinhar em Odon a “virtude da paciência”, oferece um longo elenco de suas demais virtudes, como o desprezo do mundo, o zelo pelas almas, o compromisso pela paz das Igrejas etc.

Grandes aspirações do abade Odon eram a concórdia entre o rei e os príncipes, a observância dos mandamentos, a atenção aos pobres, a correção dos jovens, o respeito aos idosos (cf. Vita sancti Odonis, I,17: PL 133,49).

Ele amava a pequena cela em que residia, “afastado dos olhos de todos, preocupado somente com agradar Deus” (ibidem, I,14: PL 133,49). Não deixava, no entanto, de exercitar também, como “fonte superabundante”, o ministério da palavra e do exemplo, “chorando este mundo como imensamente mísero” (ibidem, I,17: PL 133,51).

Em um só monge, comenta seu biógrafo, encontravam-se unidas as diversas virtudes existentes de forma dispersa nos demais mosteiros: “Jesus, em sua bondade, baseando-se nos diversos jardins dos monges, formava em um pequeno lugar um paraíso, para regar a partir da sua fonte os corações dos fiéis” (ibidem, I,14: PL 133,49).

Em uma passagem de um sermão em honra de Maria Madalena, o abade de Cluny nos revela como concebia a vida monástica: “Maria, que, sentada aos pés do Senhor, com espírito atento, escutava sua palavra, é o símbolo da doçura da vida contemplativa, cujo sabor, quanto mais é degustado, mais induz a alma a desapegar-se das coisas visíveis e dos tumultos das preocupações do mundo” (In ven. S. Mariae Magd., PL 133,717).

Esta é uma concepção que Odon confirma em outros escritos seus, dos quais se transluz seu amor pela interioridade, uma visão do mundo como realidade frágil e precária da qual é preciso desarraigar-se, uma constante inclinação ao desapego das coisas consideradas como fonte de inquietude, uma aguda sensibilidade pela presença do mal nas diversas categorias de homens, uma íntima aspiração escatológica.

Esta visão de mundo pode parecer bastante afastada da nossa e, no entanto, a de Odon é uma concepção que, vendo a fragilidade do mundo, valoriza a vida interior aberta ao outro, ao amor ao próximo e, precisamente assim, transforma a existência e abre o mundo à luz de Deus.

Merece uma particular menção a “devoção” ao Corpo e Sangue de Cristo que Odon, frente a um estendido abandono, vivamente deplorado por ele, cultivou sempre com convicção.

Ele estava firmemente convencido da presença real, sob as espécies eucarísticas, do Corpo e do Sangue do Senhor, em virtude da conversão “substancial” do pão e do vinho.

Ele escrevia: “Deus, Criador de tudo, tomou o pão, dizendo que era seu Corpo e que o havia oferecido para o mundo, e distribuiu o vinho, chamando-o de seu Sangue”; portanto, “é lei de natureza que se dá a mutação segundo o mandato do Criador” e, por isso, “imediatamente, a natureza transforma sua condição habitual: sem dúvida, o pão se converte em carne e o vinho se converte em sangue”; à ordem do Senhor, “a substância muda” (Odonis Abb. Cluniac. occupatio, ed. A. Swoboda, Lipsia 1900, p.121).

Infelizmente, anota o próprio abade, este “sacrossanto mistério do Corpo do Senhor, em que consiste toda a salvação do mundo” (Collationes, XXVIII: PL 133,572), é celebrado com negligência.

“Os sacerdotes – adverte – que acedem ao altar indignamente, mancham o pão, isto é, o Corpo de Cristo” (ibidem, PL 133,572-573).

“Somente quem está unido espiritualmente a Cristo pode participar dignamente do seu Corpo eucarístico: caso contrário, comer sua carne e beber seu sangue não seria seu benefício, mas sua condenação” (cf. ibidem, XXX, PL 133,575).

Tudo isso nos convida a crer com nova força e profundidade na verdade da presença do Senhor. A presença do Criador entre nós, que se entrega em nossas mãos e nos transforma como transforma o pão e o vinho, transforma, assim, o mundo.



Santo Odon foi um verdadeiro guia espiritual, tanto para monges como para os fiéis da sua época. Frente à “vastidão dos vícios” difundidos na sociedade, o remédio que ele propunha com decisão era o de uma mudança radical de vida, fundada sobre a humildade, a austeridade, o desapego das coisas efêmeras e a adesão às eternas (cf. Collationes, XXX, PL 133, 613).

Apesar do realismo do seu tempo, Odon não se rende ao pessimismo. “Não dizemos isso – precisa – para precipitar no desespero daqueles que gostariam de converter-se. A misericórdia divina está sempre disponível; ela espera a hora da nossa conversão” (ibidem: PL 133, 563).

E exclama: “Ó inefáveis entranhas da piedade divina! Deus persegue as culpas e, no entanto, protege os pecadores” (ibidem: PL 133,592). Apoiado nesta convicção, o abade de Cluny amava deter-se na contemplação da misericórdia de Cristo, o Salvador que ele qualificava sugestivamente como “amante do homem”, amator hominum Christus (ibidem, LIII: PL 133,637): “Jesus tomou sobre si os flagelos que correspondiam a nós – observa – para salvar, assim, a criatura que é obra sua e à qual ama” (cf. ibidem: PL 133, 638).

Aparece aqui uma característica do santo abade à primeira vista quase escondida sob o rigor de sua austeridade de reformador: a profunda bondade de sua alma.

Ele era austero, mas sobretudo era bondoso, de uma bondade que provém do contato com a bondade divina. Odon – assim dizem seus coetâneos – difundia a alegria de que estava repleto. Seu biógrafo testifica não ter ouvido jamais sair de sua boa de homem “tanta doçura de palavra” (ibidem, I,17: PL 133,31).

Ele costumava convidar para cantar crianças que encontrava pelo caminho e depois lhes dava algum pequeno presente, e acrescenta: “Suas palavras estavam cheias de exultação (...); sua hilaridade infundia em nosso coração uma íntima alegria” (ibidem, II, 5: PL 133,63).

(Fonte: S.S. Bento XVI, audiência geral 14.10.2009, ZP09101415)







Santo Odilon, modelo das virtudes cluniacenses

A abadia de Cluny, na Borgonha, França, está comemorando seu 1.100 aniversário. Ela foi a alma e a cabeça do monasticismo medieval tendo chegado a estar à testa de um conjunto de 30.000 abadias e casas monásticas na Europa toda.

Na construção desse imenso patrimônio moral e cultural destacaram-se certas almas de elite, verdadeiros heróis dos claustros que seguiam as pegadas do grande São Bento. Esses claustros irradiavam a espiritualidade, a cultura e a civilização para toda a Cristandade.

Dentre esses heróis pouco conhecidos, destacou-se Santo Odilon, quinto abade de Cluny (962-1048). Ele provinha da nobreza de Auvergne. Mesmo antes de completar o ano de provação ele foi eleito coadjutor do Abade São Mayeul. E, pouco depois da morte desse santo, foi eleito em 994 abade da gloriosa Cluny. Nesse momento ainda não tinha recebido o sacramento da Ordem.

O pontificado de Santo Odilon estendeu-se por mais de meio século e modelou para sempre o perfil moral de Cluny.

O rápido e altamente qualificado desenvolvimento do mosteiro e de sua irradiação na Igreja é devido principalmente a sua caridade e cavalheirosidade, a seu apostolado e talento organizativo. (Fonte: Catholic Encyclopaedia)
Odilon tinha um passo grave e uma voz admirável. Ele falava bem. Era uma alegria vê-lo. Seu rosto angélico, seu olhar sereno, cada um de seus movimentos, de seus gestos, todo ato de seu corpo exprimia a honestidade. Cada dobra de suas vestimentas revelava a dignidade, o respeito próprio e dos outros.

Tinha em si qualquer coisa de luminoso, que convidava a imitá-lo e a venerá-lo. A luz da graça que habitava nele brilhava no exterior, por assim dizer, manifestando o quilate de sua alma. Como o comportamento de uma alma transparece na apresentação do corpo, falemos brevemente de sua aparência exterior.



Era de porte mediano. Seu rosto exprimia simultaneamente a autoridade e a benevolência. Com os mansos mostrava-se sorridente, acolhedor.

Mas para os orgulhosos e rebeldes, tornava-se terrível, a ponto de eles não poderem suportar seu olhar.

Nele a magreza acentuava a força, a palidez era uma elegância, os cabelos brancos uma distinção.

Seus olhos tinham um brilho singular, que inspirava ao mesmo tempo o espanto e o temor.

Eram olhos acostumados às lágrimas, porque tinha recebido a graça da compunção.

De seus movimentos, de seus gestos, de seu passo, emanava uma espécie de autoridade, de gravidade, de paz.

Sua acolhida era um raio de alegria e de graça, uma extraordinária surpresa. Era perfeitamente senhor de si. Sem artifícios, sem fraudes, a natureza tinha feito dele qualquer coisa de admiravelmente harmonioso e ordenado.

Santo Ambrósio tem razão em dizer que a beleza não tem lugar de virtude. Contudo, desprezaremos essa graça?

Primeiro na dignidade, ele se esforçava por ser igualmente o primeiro no trabalho, seguindo a palavra da Escritura: “Jesus se pôs a operar e a ensinar”. Grande leitor, tinha frequentemente um livro nas mãos, mesmo em viagem. Enquanto cavalgava, refazia na leitura as forças de sua alma.

Quando meditava os livros de sabedoria mundana, observava com sagacidade aquilo que a voz divina dita ao legislador no Deuteronômio: “A cativa estrangeira poderá tornar-se a esposa de seu vencedor arrasado e de garras cortadas”.

Autorizado por esse exemplo, guardava na sua memória aquilo que de bom achava nos livros dos filósofos. O resto – quer dizer, o amor e o cuidado dos bens deste mundo – ele extirpava e alijava, como coisa infecta e mortal.

Perscrutava a lei divina com espírito especulativo e penetrante. A sua aplicação à leitura santa absorvia-o, a ponto de torná-lo por instantes alheio aos outros e a si mesmo.

Entregava-se, pode-se dizer, todo inteiro ao livro sacro. Lá ele auferia, das fontes do Salvador, o que distribuir em seguida gratuitamente.

Rodeava-se de doutores, desejando sempre aprender deles, enquanto todos o consideravam um poço de ciência.

Disso ele não tinha vaidade, não se considerando um grande homem, mas perscrutava as coisas divinas como uma criança, desejando com toda a alma aprender sempre.

Ávido de leituras, incansável na oração, pode-se dizer que a toda hora era útil aos outros ou a si mesmo. Quando guardava o silêncio, estava com o Senhor. Mas se falava, era sempre no Senhor ou do Senhor.

Das palavras de Santo Odilon defluía a alegria.

Quando contava qualquer coisa, era de tal modo vivo que nos forçava a rir. Mas ele, que prendia bem as rédeas, nos indicava logo um capítulo da Regra: “Detestar o riso estúrdio e cadenciado”.

Ou ainda: “O monge não deve ser leviano e pronto a rir, porque está escrito: É o tolo que estoura a rir”.

De um modo ou de outro, prendia nossa hilaridade, mas seu gozo espiritual nos havia sido comunicado e dilatava nossa alma.

“Eu me esforçarei – dizia ele – por ser veraz antes que eloquente. Nosso ministério não se pode permitir as pequenas glórias de um discurso pomposo. Nós nos esforçamos por ser, e não por parecer”.

A temperança vem por último, na lista das virtudes. Por definição, ela guarda a medida e a ordem de tudo aquilo que é preciso dizer e fazer.

Santo Odilon a praticava de modo excelente. Em seus atos ou em suas ordens, ele guardava a medida, mantinha a ordem, mostrava uma admirável discrição.

Seguia o conselho de São Jerônimo: como um cocheiro, conduzia seus jejuns, segundo suas forças ou sua estafa. Assim, ele tomava um pouco de tudo que lhe traziam, para evitar o escrúpulo, mas se regrava, sem dar ocasião a ninguém de louvar suas privações.

Suas vestes eram somente as necessárias, sem mais. Elas não podiam ser consideradas nem muito belas nem muito miseráveis. Já que nada vale mais que o exemplo, para fazer entender as coisas, não será fora de propósito contar a história de Guiges, Conde de Albon. Ele foi salvo pela discrição de Santo Odilon, em circunstâncias pouco comuns.

Este Guiges, conversando um dia com Santo Odilon, disse entre outras coisas que tornar-se monge, para ele, era uma coisa impossível, a menos que lhe fosse per-mitido conservar suas vestimentas seculares.

O homem de Deus tomou-lhe ao pé da letra a palavra, e aquiescendo a seu capricho, ganhou essa alma para Deus, porque ele se tornou monge.

No início era visto ir e vir com seus belos trajes confortáveis, em vez do hábito. Mas, à força de ter sob os olhos a humildade dos frades, a simplicidade de suas vidas e de suas vestes, começou a ter-se por um intruso entre as ovelhas de Cristo.

Espontaneamente, alijou suas belas coisas do século, e eis que, num breve prazo, cerca de vinte dias depois de sua conversão, morreu santamente.

Colocado acima dos outros, Santo Odilon procurava voluntariamente a humildade e a compunção. Ele julgava a si próprio, de mais bom grado do que repreendia os outros.

Era tão empenhado em obras de misericórdia, que jamais recusava ajuda a ninguém. Levava vida comum com os Irmãos, a ponto de partilhar, com quem lhe pedisse, tudo aquilo que fosse de seu uso.

Um dia, fizeram-lhe saber que um Irmão tremia de frio, e ele refletia nisso tristemente, não achando nada para dar-lhe. Na noite seguinte, estando no coro, pensava sempre na nudez do Irmão: o que fazer para vesti-lo? De repente, chamou-o por sinais a sair do coro, e tirando às ocultas seu colete, deu-lho para se cobrir.

Nada escapava a seu zelo

Não posso descrever em detalhes sua caridade fraternal. Ele a espalhava por seu próprio afeto, antes de pregá-la. Ensinava-a, sobretudo por atos, porque amava os Irmãos com o calor íntimo de sua alma.

Queria fazer crescer cada um deles, impulsioná-los ao amor divino, e com isso avivava sua própria alma. Jamais desprezava ou repelia ninguém. Por uma caridade verdadeiramente divina, convidava todo mundo, sem reservas, a gozar de sua indulgência.

Aquele que ama verdadeiramente é engrandecido e sobrelevado pela graça de sua própria consciência, e ele ardia de desejo e de amor. Amava, com uma caridade bem ordenada, a Deus mais do que a si mesmo, ao próximo como a si mesmo, e às coisas menos do que a si mesmo.

Manso e paciente, dava graças quando se lhe fazia mal, mas chorava se a injustiça atingira os pobres. Porque Cristo disse: “Tudo o que fizeres a um de meus pequeninos, é a Mim que o fareis”.

Procurava prover os seus necessitados com o mesmo zelo que teria se tivesse diante de si a própria pessoa de Cristo. Por isso era constantemente assediado por uma multidão de mendigos.

Intendente fiel e sábio, coletava para eles víveres e vestimentas. Fez mesmo construir casas para os leprosos, às escondidas e como se fosse obra de outros, para que essa boa obra não lhe fosse atribuída.

Durante os anos de miséria, quebrou, para dar aos pobres, muitos vasos sagrados, assim como insignes peças de ourivesaria, entre elas a própria coroa do Imperador Henrique. Porque julgava indigno reservar esses objetos enquanto os pobres tinham fome, eles por quem Cristo deu o Seu sangue.

Sua solicitude se estendeu aos bens exteriores, que geriu conscienciosamente. Seu labor valeu ao mosteiro um crescimento de prosperidade, que todo mundo pôde ver. Não somente fez construir a igreja, mas dotou-a de ornamentos preciosos. Estendeu suas terras.

Para distribuir aos Irmãos os objetos de uso, decidiu sabiamente que cada mês os religiosos encarregados dos estoques dariam a todos o necessário.

Assim o convento estaria sempre em paz. Assim fazendo, pensava na tranquilidade dos Irmãos, não os querendo deixar necessitados.

Aplicando seu espírito a essas questões materiais, conservava um constante cuidado com os valores interiores. Sua alma fervente procurava promover o fervor da observância.

Suprimiu do mosteiro um bom número de estudos supérfluos, e introduziu em contrapartida aquelas que podiam favorecer a vida religiosa.

Proibindo aquilo que era pouco útil, procurou sempre, em tudo e através de tudo, a dignidade e a santidade da igreja de Cluny.

Santo Odilon era exemplo de uma mobilidade e de uma resistência física pouco comuns.

Viajava muito, com numerosa escolta. Jamais deixou-se reter, nem pelas neves abundantes, nem pelas chuvas diluvianas, nem pelos rios transbordados.

É sempre ele que estimula sua tropa, submetendo-a às piores provas de coragem e de resistência. Verdadeiro condutor de homens, ele o foi nas estradas tanto quanto nos claustros.

Ele o é ainda mais pela continuidade no esforço. Não somente não se detém nunca, mas tem-se a impressão de que, ao longo de toda sua vida, ele persegue sua missão, imperturbável, quaisquer que sejam suas dificuldades, quaisquer que sejam as infelicidades dos tempos.

Capaz de defender seus direitos, sabe também fazer acomodações, a fim de evitar ressentimentos; renunciar por um tempo às suas pretensões legítimas, se julga mais útil contemporizar.

Sobressai nele ainda essa facilidade para se adaptar a cada um, qualquer que seja sua posição, o que Jotsaud considera uma característica da justiça, mas que é também habilidade e senso das realidades.

Este homem de princípios, que durante uma longa vida perseguiu fins precisos, soube entretanto conciliar todos os espíritos e guardar sua independência.

O escravo de Nossa Senhora

Quando era já adulto, entrou numa igreja dedicada à Mãe de Deus, para ali se consagrar a Nossa Senhora. Pôs-se diante de seu altar para a mancipation du col – quer dizer, ele passou uma corda no pescoço e pôs a extremidade sobre o altar – pronunciando a seguinte fórmula de mancipação:

“Ó terníssima Virgem e Mãe do Salvador de todos os séculos. A partir de hoje e para sempre, tomai-me a vosso serviço. A partir de agora, em todas as circunstâncias, sede minha misericordiosíssima advogada. Vinde sem cessar em meu auxílio. Com efeito, depois de Deus, não quero amar ninguém mais do que a vós. Com minha inteira vontade, como vosso próprio servo, entrego-me à vossa dominação”.

A morte, síntese de sua vida

Às Vésperas, os frades levaram seu leito diante do altar de Nossa Senhora. Achou ainda um resto de forças para impor os salmos: a emoção e a tristeza abatendo os religiosos, eles se enganam na salmódia, mas logo o santo retifica seus erros, e prossegue o canto.

Fica um momento a sós, em oração, após o Ofício, e depois é reconduzido à enfermaria. Ele preocupa-se com o que fazem os frades, porque era Sábado: temia que deixassem o lava-pés para uma hora muito avançada, pois a noite já caía.

Repousa um momento. Quando volta a si, está no fim. Sustentam-no sobre o leito, e logo sua cabeça se abate. Em seguida, preparam-no deitando-o no solo, sobre o cilício e a cinza, e acendendo os círios.

Ao grande rumor que fazem os monges, dando livre curso às suas penas, ele se levanta, faz sinal de silêncio e pergunta onde está. “Senhor, sobre a cinza e o cilício” – lhe dizem. Ao que ele responde: “Graças a Deus”.

Em seguida, pergunta se todos estão ali. Todos o assistem. Pronuncia palavras ininteligíveis, alternativamente cala-se e fala, lança um olhar terrível em direção ao Oriente, fixa seus olhos sobre a cruz. Sua face parece sorrir.

Enquanto seus lábios proferem em silêncio as palavras de uma última prece, sem nenhuma convulsão de seu corpo, sem manifestar a menor alteração na harmonia de sua alma, os olhos fechados, adormece em paz. Estava-se na primeira vigília do Domingo, dia 1º de janeiro de 1048, no priorado de Souvigny (França).


(Fonte: resumo de Pe. P. Jardet, “Saint Odilon, abbé de Cluny ‒ Sa vie, son temps, ses oeuvres”, Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898.)











2 comentários:

Pedro G. G. Teo disse...

Quando esse texto foi publicado?

Luis Dufaur disse...

Esta página contém um número grande dos posts que publicamos em diversas ocasiões e blogs.
Como contém abundante número de citações dos mais diversos autores é preciso ver em cada caso.

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