domingo, 29 de março de 2020

Símbolos Papais requintados na Idade Média

Anel do Pescador que foi de Bento XVI.
Anel do Pescador que foi de Bento XVI.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No post “Símbolos dos Papas tomaram forma final na Idade Média”, apresentamos a contribuição que a “Doce primavera da Fé” deu para a criação ou definição de certas insígnias dos Papas.

Essas insígnias não correspondem a uma época, mas a todas as épocas e provêm de ensinamentos evangélicos ou da Tradição da Igreja.

Neste post trataremos de outras insígnias e da parte que a Era Medieval teve em sua elaboração.

O Anel do Pescador é dos mais importantes símbolos. Consiste num anel de ouro no qual está gravada a Barca de Pedro, símbolo da Igreja, e em volta, o nome do Papa que o está usando.

A primeira menção documentada ao Anel está contida numa carta do Papa Clemente IV de 1265. Nela, o Pontífice dizia que era costume dos sucessores de Pedro muito anteriores a ele, manter sigilosas suas cartas.

Veja mais em: Símbolos dos Papas que tomaram forma final na Idade Média

Isto se fazia através de um pouco de cera quente no fim do texto ou para fechar o envelope. O Papa aplicava então o Anel, que deixava cunhado seu nome e a Barca.

Férula, originalmente do Beato Pio IX.
Férula, originalmente do Beato Pio IX.
Depois passou a ser usado em todos os documentos oficiais da Igreja, que são conservados no Vaticano.

Cada Anel do Pescador é destruído pelo Cardeal Camerlengo da Santa Igreja Romana assim que se constata a morte do Papa.

A destruição simboliza o fim da autoridade do Papa falecido, e impede que algum outro venha a utilizá-lo indevidamente.

A Férula é usada pelos Papas em lugar do báculo pastoral dos bispos e abades mitrados. Enquanto o báculo, que lembra um cajado de pastor, indica a autoridade na diocese ou na abadia, a Férula, que tem forma de Cruz, indica a jurisdição universal do Papa.

A Férula já era usada nos primórdios da Idade Média. No auge desta, era recebida pelo novo Papa como símbolo de governo, que inclui a punição e a penitência.

A Sedia Gestatória é um trono portátil levado por 12 homens chamados de sediários ou palafreneiros, que vão vestidos de vermelho com ornatos de ouro.

A Sedia Gestatória é acompanhada por dois assistentes que levam os Flabelli, ou flabelos, grandes leques de pena de avestruz que remontam ao século IV.

Os flabelli eram usados pelos magnatas da Antiguidade e nasceram com uma finalidade muito prática: afastar insetos; mas depois permaneceram, pelo seu valor decorativo e pela manifestação da altíssima dignidade do Pontífice.

A mais antiga referência à Sedia Gestatória remonta ao ano 521 e era também reminiscência dos antigos reis. Hoje é certo que ela vinha sendo usada antes do ano 1.000.

Pálio pontifício.
Pálio pontifício.
O Papa também usa o Pálio sobre os paramentos litúrgicos, na Missa ou em outras cerimônias.

Trata-se de uma rica fita circular da qual descem duas faixas de 30 cm, uma pelo peito e outra pelas costas.

O Pálio é ornado com seis cruzes pequenas, vermelhas, para lembrar o Preciosíssimo Sangue derramado na Redenção, e é preso por três agulhas de ouro, que evocam os pregos com que Jesus foi crucificado.

Também os arcebispos usam o Pálio, embora mais simples. Os bispos dos ritos orientais católicos usam-no com mais ornato.

Outra insígnia exclusiva é o Fanon, pequena capa de ombros, como uma dupla murça (mozeta) ou camalha de seda branca com listras douradas.

O Fanon, ou Fano, é reservado somente ao Papa durante as Missas pontificais e representa o escudo da fé que protege a Igreja Católica, personificada no Papa.

Só o Sumo Pontífice, chefe visível da Igreja de Cristo, pode usar o Fanon.

As faixas verticais, de cor dourada, representam a unidade e a indissolubilidade da Igreja latina e oriental. O Fano já era usado no século VIII, porém ficou exclusivo do Papa a partir do fim do século XII.

Sedia Gestatoria, se destacam os fiabelli
O sub-cinctorium, ou succintório, ou subcíngulo, só é usado pelo Papa nas Missas pontificais. Consiste numa faixa estreita e comprida, decorada nas extremidades com uma cruz e um cordeiro, pendendo do lado esquerdo.

Mencionado pela primeira vez no século X, na Idade Média o subcíngulo podia ser usado pelos bispos, e era dotado de uma bolsa com esmolas para distribuir aos pobres. Evoca também a toalha usada por Jesus na Última Ceia para lavar os pés dos Apóstolos.

Embora não tenham sido abolidos, esses símbolos deixaram de ser usados hoje –numa época em que paradoxalmente tanto se fala dos pobres e da pretensa humildade de tantos prelados.

Manto, no quadro usado por S.S. Pio VII na Capela Sistina
O Manto é uma capa muito larga, exclusiva do Papa. Originariamente era vermelha e depois passou a acompanhar as cores litúrgicas. Quando o Papa usava a Sedia Gestatória, portava o Manto.

A primeira referência ao uso do Manto remonta à Divina Comédia de Dante Alighieri, no século XIII.

O Manto é muito maior que o Papa, que ao sentar-se no trono coloca seus pés sobre ele, enquanto os assistentes o espraiam sobre os degraus do trono. Indica a superioridade absoluta do Papa. Bispos e outros dignitários podiam usar mantos menores.

O Manípulo Papal é semelhante aos usados por bispos e padres, com a diferença de que os fios que o unem são dourados e vermelhos, para simbolizar a união das igrejas católicas, ou ritos católicos do Oriente e do Ocidente. É usado na liturgia desde o século VI.

Cabe mencionar o “umbraculum” ou umbrela, rico guarda-chuva de cor dourada e vermelha que os Papas usavam para se proteger do sol. Era prerrogativa exclusiva dos reis e simbolizava o poder temporal do Papado. Teria sido instituído por Alexandre VI, na transição da Idade Média para a Renascença.

É símbolo da vacância do Papado. Atualmente é usado no escudo de armas do Cardeal Camerlengo, que administra a Igreja durante a vacância do Trono de Pedro entre a morte de um Papa e a entronização do seguinte.

Esta insígnia constitui também privilégio das basílicas, sendo habitualmente exposta junto ao altar-mor ou em procissões.




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domingo, 22 de março de 2020

Avança um castelo medieval do século XXI

Guédelon poucos anos atrás
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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No fundo de uma floresta do centro da França um inusual experiência arquitetônica já antevê a terminação de um castelo construído com técnicas medievais, sem concessão a instrumentos modernos, noticiou a BBC.

As torres do castelo de Guédelon iniciado em 1998 na Borgonha superaram os 15 metros de altura.

Nos bosques, lenhadores abatem as árvores que serão empregadas.

O cimento é desconhecido e mestres pedreiros lapidam as pedras.

O aço sai das forjas, e até as roupas dos operários provêm dos ateliers do castelo.

Em 2020 a construção se aproxima ao fim. O telhado está sendo concluído e a pintura dos salões internos do castelo já começou.

O jornalista Hendrik Welling da agência oficial alemã Deutsche Welle foi fazer a reportagem e acabou se alistando como um dos 600 voluntários que participam nos trabalhos, segundo suas possibilidades.

Fez a experiência inusual para alguém habituado às facilidades modernas do que é o duro trabalho manual com os rústicos métodos medievais, mas ficou encantado.

Mais de 300.000 pessoas, sobre tudo famílias, visitam o canteiro cada ano. O trabalho manual artesanal suscita uma incrível admiração.

O mundo acadêmico acompanha com respeito. Diversos especialistas e arqueólogos acompanham de perto o surgimento de um castelo 100% medieval no século XXI.

Os desenhos foram tirados de um estilo de fortaleza popularizada no século XIII no reinado de Felipe Augusto, avó de São Luis.

O castelo vai surgindo a 200 quilometros ao sul de Paris, perto da cidade de Treigny na região da Borgonha, cheia de história e famosa pelos seus magníficos vinhos.

O projeto de Guédelon quer reproduzir fielmente todos os aspectos da vida no século XIII.

Por isso não só as técnicas de construção mas o estilo de vida medieval foi adotado pelos artesãos, engenheiros, pedreiros e todos os que querem colaborar gratuitamente com seu trabalho manual.

Hendrik Welling aprendeu a cortar a pedra, talha-la, e como faziam os medievais gravou suas iniciais na pedra para a posteridade. Escolheu DW, de Deutsche Welle, a agência que o enviou a fazer a reportagem.

Mas também fez funcionar o elevador, uma roda em que o homem, no caso Hendrik, vai caminhando dentro, fazendo-a girar e que por meio de cabos e polias sobe as cargas pesadas.

O vídeo de suas experiências, façanhas e reportagem está embaixo.

Nunca antes chegou a haver um castelo no local.

Guédelon é um prédio medieval totalmente  do nosso milênio que ocupa 70.000 metros quadrados de superfície (7 hectares).

Por volta de quarenta artesões e empregados trabalham estavelmente.

Mas nas épocas das férias muitas dezenas de voluntários vem a colaborar gratuitamente pelo tempo que tenham disponível... e apreendem a construir como autênticos medievais.

Guédelon no início de 2020
O castelo foi começado por Guilbert, senhor de Guédelon, em 1228, com aprovação de São Luis, pelo apoio dado ao rei numa revolta de barões.

Os artistas já pensam no “depois” de concluída fortificação, e anunciam continuar com o exemplo dos castelos que eram perpetuamente ampliados e melhorados.

Muitos ensinamentos estão sendo tirados da experiência, porém o mais singular é o entusiasmo de o número de artesões e operários voluntários que querem sair da camisa de força da modernidade.



Vídeo: Uma visita ao canteiro de Guédelon
Se seu email não visualiza corretamente o vídeo embaixo CLIQUE AQUI





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domingo, 15 de março de 2020

Abadia milenar de Solesmes, uma arca de salvação

A vida na solidão acompanhado por Deus
A vida na solidão acompanhado por Deus
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Às cinco da manhã ainda está escuro no verão e no inverno faz muito frio.

A cidade toda de Solesmes dorme bem arroupada enquanto o velho sininho da abadia se põe a repicar com sua milenar nota.

Os monges estão sendo convocados a cantar a primeira Hora do dia.

Silhuetas silenciosas se encaminham para a igreja fazendo deslizar seus hábitos pretos sobre o chão de pedra.

De ali a pouco suas vozes entoam as antífonas, leituras e salmos à glória dAquele que os convocou ali.

“Qui bene cantat, bis orat” (“Quem canta bem, reza duas vezes”) ensinou Santo Agostinho.

Em Solesmes os monges cantam sete vezes por dia, trinta e cinco horas por semana, explica o Pe. Paul-Alain.

O brilho do olhar dos monges percebe-se a plenitude do gáudio sobrenatural que enche suas almas.

Solesmes foco de restauração do canto gregoriano.
Solesmes: foco de restauração do canto gregoriano.
O costume se repete há mil e quinhentos anos na abadia de Saint Pierre de Solesmes, na região da Sarthe, França num antegosto terrestre da vida eterna.

Não foi um milênio e meio fácil.

O inferno se abateu sobre Solesmes que foi preciso reconstruir em 1869.

A Revolução Francesa não tolerou essa antessala da Corte Celeste cujo nome o igualitarismo revolucionário não conseguia sequer pronunciar sem blasfemar.

Em 1833, entre as ruínas deixadas pelo tufão do ódio revolucionário, um jovem sonhava com os monges que outrora animaram aquele lugar destruído onde os anjos pareciam chorar.

Seu nome era Prosper Pascal Guéranger, nascido em 1805, fervente admirador dos magníficos grupos escultóricos de “Les Saints de Solesmes” esculpidos nos séculos XV e XVI.

'Quem canta bem, reza duas vezes' ensinou Santo Agostinho
'Quem canta bem, reza duas vezes', ensinou Santo Agostinho
Ele haveria de se tornar eclesiástico e reunir os recursos para comprar e restaurar o priorado.

Acabaria sendo o homem símbolo da recuperação da Ordem Beneditina no século XIX e o grande restaurador do canto gregoriano.

Dom Guéranger abriu a avenida mística dos homens que por vezes com menos de 20 anos ouviram o chamado de Deus e se embrenharam pelo que os comuns chamam de deserto.

Mas eles percebiam que o deserto estava na agitação.

O Pe. Rafael tinha se graduado em Minas e um belo futuro se abria diante dele. Mas algo de enorme lhe faltava.

“A sociedade moderna só funciona por e para o dinheiro. Mas essa não é a finalidade da vida humana! Foi então que Cristo veio me colher.

“Era como se uma luz apontasse para mim e me penetrava completamente. Eu percebia uma inteligência, uma pessoa por trás dessa luz que me dizia: ‘Eu te conheço e eu te amo’.”

No 8 de dezembro de 2011, Rafael ingressava no noviciado de Saint Pierre de Solesmes.

A soma das idades rumo à eternidade.
A soma das idades rumo à eternidade.
A agenda do monge é extraordinariamente cheia. Acordar às 5:00 horas para cantar em gregoriano Matinas às 5:30 e Laudes às 7:30h. Missa às 10:00. Canto de Sexta às 13:00; Nona às 13:50; Vésperas às 17 e Completas às 20:30.

“O canto gregoriano, como toda forma de beleza, tem qualquer coisa de Deus”, explica o prior Pe. Geoffroy.

“Se há tantos visitantes tocados por Solesmes é porque eles fazem a experiencia sensível da fé por meio do canto.

“Frequentemente as pessoas as mais afastadas da Igreja são as mais tocadas por esta experiência, ainda quando não entendem o latim, que lhes revela o carácter infinitamente sagrado de Deus”.

“Por vezes me ocorre a ideia, diz o escritor Julien Green, que estes religiosos vivem um imenso sonho litúrgico quando, na realidade, são eles que estão na verdade e somos nós que vivemos num sonho que a todo momento vira pesadelo”.

Toda manhã antes da Missa, cada beneditino lê um trechinho da Bíblia ou dos escritos dos Padres e Doutores da Igreja.

Alguns fazem verdadeiros trabalhos de pesquisa que culminam em publicações. Livros são lidos durante as refeições e a biblioteca da abadia é de uma riqueza inaudita.

Além do trabalho intelectual, eles têm o manual: alguns são padeiros, outros alfaiates, sapateiros, jardineiros, encadernadores, carpinteiros ... Todos ao serviço da comunidade monástica.

O irmão Lionel diz “eu rezo trabalhando a madeira. Com o trabalho manual o homem está chamado a participar na obra da Criação.

O trabalho manual é obrigatório
O trabalho manual é obrigatório
“E ainda cometendo erros o trabalho humano é infinitamente preferível ao da máquina.

“À perfeição maquinal se opõe a perfeição da alma humana, e de Deus que está nela, completando a obra criadora.

“Olhe esta tábua de madeira com seus nós e imperfeições: não é a imagem da alma humana com suas asperezas e seus limites que Deus vem a encher com sua graça?”

O irmão Lionel parte para atender seus pobres miseráveis que vem de toda parte da França porque sabem que em Solesmes, em conformidade com a Regra de São Bento, são recebidos como se eles fossem o próprio Cristo.

E então para o que é que serve um monge no século XXI?

“O monge por definição não serve para nada aos olhos do mundo, responde frei Geoffroy.

“Não se pode esperar de nós nem eficácia nem rentabilidade”.

Eles só fazem uma coisa aos olhos de outros: fascinam. São procurados ainda que mais não seja para passar perto deles um instante, de vê-los rezar e sentir um pouco da paz que reside neles.

“O homem no seu cerne está animado pelo desejo do infinito, diz frei Boralevi,

A vida monástica, reflexo da vida celeste.
A vida monástica, reflexo da vida celeste.
“Ele tem a necessidade de sentir que é possível existir uma relação como a que nós temos com Deus.

“Essa relação constante de coração a coração com nosso Criador é a vocação derradeira de todo ser humano”.

Alguns que batem na porta do mosteiro estão a anos luz da religião cristã, mas todos são acolhidos.

O atrativo é enorme, mas poucos são os que se engajam. É difícil renunciar às solicitações da vida moderna.

“Elas oferecem uma ilusão de liberdade e uma ideia aliás muito pálida da felicidade.

“Só a fé em nosso Salvador pode encher a alma humana, porque ela comunica uma esperança imensa”, completa frei Geoffroy.


(Fonte: “No segredo de uma abadia milenar”, Ghislain de Montalembert, “Le Figaro Magazine”, 20 de dezembro de 2019, págs. 50-61)




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domingo, 8 de março de 2020

Cluny deu ao mundo uma civilização superior

Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: O eco da glória de Cluny superou o milênio




Por causa dos monges de Cluny, os filhos da França, em terra da França, elaboraram o ideal de uma civilização superior, continuou o acadêmico René Bazin.

Cluny foi uma grande escola de arte e de artistas. Certamente essa não foi a finalidade primeira da Ordem que visava fazer santos.

Mas como a perfeição ordena cultivar todo movimento nobre, São Bento, escrevendo sua Regra já o tinha previsto.

Capitel de uma das colunas do deambulatório de Cluny.
Capitel de uma das colunas do deambulatório de Cluny.
Desde o século VI houve artistas entre seus filhos espirituais e ateliês de arte nos mosteiros da Ordem.

Enquanto uns salmodiavam e meditavam, e outros desmatavam os bosques, outros eram calígrafos e pintavam iluminuras, enquanto mais outros entalhavam estátuas, faziam mosaicos, trabalhavam o ouro e a prata para os vasos sagrados ou compunham músicas.

Várias de suas obras mestras sobreviveram às revoluções e se conservam em bibliotecas e museus. Os nomes dos autores estavam destinados a desaparecer desde o início.

Esses artistas não pediam salário nem glória. E assim estão entre os maiores mestres da mais completa e eloquente das artes: a arquitetura.

Eles construíram milhares de igrejas, claustros e salas capitulares; criaram um estilo reconhecido até em Terra Santa.

Quando com frequência na França, na Espanha, na Inglaterra, ou na Itália se pergunta quem fez tal monumento famoso, a resposta é: Cluny.

O autor ficou ignorado, ele encaminhou toda a honra para a fonte famosa: Cluny.

As imagens e descrições antigas nos falam bem da maravilha da arquitetura da abadia.

Janelas mostram o alto nível a que se elevou a cidade circundante de Cluny.
Janelas mostram o alto nível a que se elevou a cidade circundante de Cluny.
Era um reino ordenado de uma dimensão que supera nossas imaginações. Imensa cidade monástica que em 1245 podia acolher simultaneamente ao Papa Inocêncio IV com sua corte de doze cardeais e ao rei São Luis, a mãe do rei, sua irmã, seu irmão e o imperador de Constantinopla além de outros príncipes menos importantes.

E as crônicas acrescentam: “Malgrado esse número incontável, os monges jamais tiveram problemas em seu refeitório, no seu capítulo, na sua cozinha, em seu celeiro e em nenhuma outra atividade conventual”.

A cada ano, Cluny atendia as necessidades de 17.000 diárias de romeiros pobres, ou simples viajantes, aos quis fornecia uma libra de pão, carne, peixe e uma moeda de prata.

Cada grão de trigo para fazer a hóstia do Santíssimo Sacramento era escolhido um a um, era moído com uma mó recoberta de pano branco, enquanto os monges cantavam salmos e o forno era aquecido com madeiras de lei.

Relicário de Cluny
Relicário de Cluny
Mas veio a decadência.

A santidade que triunfara sobre a barbárie, vícios e violências, que derrotou a mata, os pântanos e os animais selvagens, se debilitou.

Resistiu menos tempo às insidias da riqueza. De suas grandes entradas a parte maior ia para as esmolas.

Mas Cluny tentava a rapacidade do fisco.

O poder real lhe tirou a nomeação dos abades e ela ficou uma comenda que o poder temporal dava a seus apaniguados.

O poder civil lhe usurpou as liberdades enquanto a realeza ela própria sucumbia à Revolução.

A Revolução Francesa só fez com dar o tiro de graça a uma morte que vinha se alastrando. Em 1789, Cluny havia atingido o auge da decadência.

Só ficava intacto o prédio material e obras de caridade na cidade. Até que foi dinamitado.

A sanha revolucionária saqueou tudo. Na França coberta de ruínas não havia outras que fossem tão espantosas e irreparáveis.

Pergunta-se como foi possível que as cidades vizinhas que lhe deviam a existência e a prosperidade permitiram morrer uma tal riqueza.

Parte gótica de Cluny III, reconstituição virtual.
Parte gótica de Cluny III, reconstituição virtual.
É verdade que os cidadãos de Cluny repeliram pela força o primeiro bando de incendiários, dos quais apressaram trezentos e enforcaram alguns em 1789.

Mas, até no Consulado napoleônico, eles se contentaram com assinar inúteis petições para salvar a abadia.

Por ordem de Napoleão, a imagem do Paraíso foi dinamitada e suas pedras, vendidas como vil material de construção, serviram até de pavimento de uma estrada para invadir a Itália.

Pouco sobrou da imagem da Jerusalém que desce dos Céus no encerramento do Apocalipse.

Menos uma coisa: o desejo espalhado de que essa maravilha não pode ter morrido e que um dia voltará com um esplendor que não conseguimos hoje sequer imaginar.





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