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domingo, 7 de abril de 2024

A paz medieval, o comércio, as grandes cidades
e o dirigismo hodierno

Iluminura, jogo de Xadrez
Iluminura apresenta medievais num jogo de Xadrez
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Pelo fim da Idade Média, a partir do século XII ou XIII, quando as guerras entre os feudos decaem, a Europa começa a conhecer uma relativa paz.

A ação dos cavaleiros andantes, no extermínio dos bandidos, acabou de desinfestar as estradas e o comércio começou a circular.

Ao mesmo tempo em que o comércio circula, as barreiras desses pequenos mundos se modificam.

E, concomitantemente, vão começando a formar-se aqui, lá e acolá, grandes cidades.

Vai surgindo nos vários reinos uma capital, o rei; e a figura do monarca se destaca.

Ele constitui uma corte, tudo caminha para a centralização.

E essa centralização vai do século XIII, numa marcha ascensional, até o século XVII e começo do XVIII, com Luís XIV na França.

E com reis que participaram um pouco do protótipo de Luís XIV, antes ou depois dele — como, por exemplo, o rei Felipe II, na Espanha, ou Pedro o grande e Catarina a grande, na Rússia etc. O que sucede então é que essa centralização transforma completamente o jogo das influências.

Luis XIV, rei centralizador afastou-se da harmonia social medieval, Hyacinthe Rigaud
Luiz XIV, rei centralizador afastou-se da harmonia social medieval.
Hyacinthe Rigaud (1659 - 1743). Museu do Louvre.
A corte de Luís XIV é paradigmática. Ela já não é a corte medieval.

O rei é o rei sol. Ele se considera o rei como se deve ser rei, o modelo perfeito e acabado do rei.

Uma nobreza, ao lado dele, que se considera e é tida por toda a Europa como modelo perfeito e acabado da aristocracia de salão.

Um conjunto de estadistas que a Europa reputa modelos perfeitos e acabados de estadistas do tempo.

Um conjunto de grandes damas que são o protótipo da elegância, da graça e da beleza feminina do século.

Até a cátedra sagrada entra nesse movimento, e aparece o grande orador sacro, como Bossuet.

E assim forma-se um centro, que é o centro modelar no qual se espelha toda a França, mas espelha-se também toda a Europa, em proporção maior ou menor.

Verifica-se então o fenômeno do afrancesamento da Europa.

Por toda parte vão ruindo as influências locais, os fatores característicos vão desaparecendo.

E aparece um centro dotado dos melhores técnicos, dos melhores especialistas em tudo, desde a arte de conversar até a arte de dirigir finanças, ou de dirigir exércitos, ou de ocupar a tribuna sagrada.

E este centro, imitado por todos, transforma a situação.

A vida, a propulsão social não vem mais da base para cima, mas vem do alto para baixo. É uma inversão da ordem medieval que pressagia maiores desastres.

A imposição de certos estilos e modos de ser de fora para dentro como sucede em shows atuais, vai transformando uma sociedade orgânica em massa

Napoleão, totalitarismo dirigista oposto à sociedade orgânica medieval
Napoleão Bonaparte encarnou o modelo de governante totalitário moderno
E essa orientação centralizadora, ao contrário do que parece, não cessa com a Revolução Francesa.

O Comité de Salut Publique teve uma influência centralizadora e uma soma de poderes muito maior que a de Luís XIV. Mas Napoleão teve uma soma de poderes maior que a do Comité de Salut Publique.

E em geral os historiadores e os juristas franceses estão de acordo em afirmar que um chefe de Estado francês de nossos dias tem, no fundo — é verdade que circunscrito pela lei — uma influência, uma capacidade de dirigir o corpo social muito maior que a de Luís XIV, no auge de sua glória.

Mudou o jogo de influências, passou-se da monarquia mais ou menos aristocrática para a democracia; nessa democracia, evidentemente, o rei passou a ser o povo.

E então, no mesmo centro dirigente, se passam as coisas de um modo um pouco diverso.

Em outros termos, há um conjunto de técnicos, há um conjunto de especialistas que disputam entre si a escolha da solução a ser dada aos problemas.

Eles são apoiados por sistemas de propaganda, têm a seu serviço a imprensa, o rádio, a televisão, o cinema, enfim, todos os meios comuns de propaganda. E, com isso, influenciam o eleitorado.

Manifestação socialista em Sydney: massa sem vida própria, dirigida pela propaganda
O totalitarismo das massas teleguiadas por líderes populistas ou socialistas
dominou e escureceu o horizonte do século XX
O eleitorado-rei decide a favor de uns ou a favor de outros, mas o impulso principal continua a vir da capital, de técnicos que afluíram para a capital, que se dissociaram dos respectivos centros de vida, que vivem da vida artificial da capital, que a partir da capital comandam a propaganda e obtêm, através das eleições, o mando necessário para realizar aquilo que desejam.

De maneira que, em última análise, a capital, com os seus valores cívicos, dirige de fora para dentro a sociedade; e os elementos regionais e locais vão cada vez mais perdendo a sua influência, perdendo a sua capacidade de movimentação.

O resultado dessa nova situação é a depauperação do homem contemporâneo. Cada um de nós tem a sensação de viver como um grão de areia isolado dentro da multidão.

Nós de tal maneira nos habituamos aos meios de propaganda — de tal maneira nos acostumamos a estímulos de fora de nosso espírito, de nossa mente, que nos oferecem material para pensarmos, para refletirmos etc. — que já se chegou à seguinte situação (para mim, a última palavra nessa matéria!): torcedores, em estádio de futebol, assistem à partida com o rádio ao ouvido, porque sem o auxílio de alguém que lhes diga o que está acontecendo (e que eles também estão vendo) não conseguem tomar uma atitude individual e própria em face do fato que se apresentou".

Imperador, Cardeal, nobres e populares discutem sobre a cidade: povo hierárquico vivendo na harmonía
Um imperador e um cardeal rodeados de populares
conversam sobre a cidade.
O Papa Pio XII estabeleceu magistralmente a diferença entre povo e massa na famosa radiomensagem de Natal de 1944:
"O povo vive e move-se por vida própria; a massa é em si mesma inerte e não pode mover-se senão por um elemento extrínseco.

"O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais — na sua própria posição e do modo que lhe é próprio — é uma pessoa cônscia das suas próprias responsabilidades e das suas próprias convicções.

"A massa, pelo contrário, espera o impulso que lhe vem de fora, fácil joguete nas mãos de quem quer que lhe explore os instintos e as impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela bandeira".

(Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 239).


(Autor: Plínio Corrêa de Oliveira, "Catolicismo", maio de 2002)



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domingo, 17 de março de 2024

Bulício na rua, aconchego no lar:
agradáveis contrastes da vida medieval

Mercado medieval, séculos XII-XIII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Uma coisa magnífica na Idade Média é o contraste entre, de um lado, os remansos e de outro lado a atividade, a luta e até a aventura.

Nunca houve tanta atividade, tanta luta, tanta aventura como quando houve remanso.

As ruas das cidades da Idade Média viviam repletas, borbulhando de atividade.

Todos os andares térreos com comércios, anúncios, gente gritando para vender mercadorias, falando alto, brigaria.

As ruas eram movimentadíssimas.

Mas nas casas que bordejavam as ruas, de um lado e de outro, logo na primeira sala se estava psicologicamente a mil léguas da rua.

Não eram como as casas de hoje que têm um janelão que dá para a rua e a pessoa no quarto de dormir se sente na rua.

Mas eram aquelas casas de paredes grossas ‒ parede grossa tem um efeito psicológico tremendo ‒ com umas janelas com onde o peitoril é larguíssimo, com banquinho de um lado e de outro para colocar almofada.

Móveis medievais, Museu de Arte decorativa, Paris
Móveis medievais, Museu de Arte decorativa, Paris
Podemos imaginar uma família sentada de um e outro lado da janela para aproveitar a luz que entra, e lendo um livrão.

E um jarrozinho de flor ainda no peitoril da janela.

Porta de casa medieval. Museu de Arte decorativa, Paris
Umas tulipas, uma coisa qualquer iluminada pela luz que entra, e a rua psicologicamente a léguas.

Os vidros das janelas eram tipo fundo de garrafa, de maneira que o ambiente da casa já ressumia intimidade a poucos centímetros da rua onde está havendo toda aquela barulheira.

Depois, noites calmas e muito recolhidas.

Os bandidos prestavam este serviço: todo mundo tinha medo de sair por falta de iluminação e por causa deles.

Então, fora ruge o perigo, mas dentro, as casas têm portas com dobradiças de metal e trancas aferrolhadas.

De maneira que a pessoa ouve lá fora os bandidos e o guarda que vai correndo atrás deles, se sentido inteiramente seguro em casa.

Dentro, cada um se sente aconchegado, com um carapução e bebendo um chá de losna, com pantufas, junto á lareira que está acesa, enquanto um qualquer vai lendo a história dos antepassados, mesmo nas famílias plebeias. Ou lendo o Evangelho e a vida dos Santos.

Tem-se aquela sensação de tranquilidade...

Quarto de dormir da Idade Média, Museu de Arte Decorativa, Paris.
No silêncio da noite, o guarda passa cantando canções religiosas para avisar todo mundo que ele está por perto...

Eu aprendi em menino uma canção em alemão que dizia:

“Ouvi, senhor, e permiti que Vos cante que nosso relógio deu doze horas. Meia noite. Doze apóstolos no mundo. Ó homem quanta vigilância isto representa para teu coração”.

Tudo isto, ouvido no isolamento da casa onde mora muita gente, e gente intimamente imbricada pela solidariedade familiar, dá uma atmosfera de aconchego, de calor, de placidez, que é propriamente o remanso dentro da vida familiar.

É um remanso gerado pela reta vida estática, e não é uma paradera de morte.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 29/4/67. Sem revisão do autor.)


Vídeo: dormitório medieval com peças de época





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domingo, 3 de setembro de 2023

Moradia com espírito elevado, oposto ao prosaísmo

Kaysersberg, Alsacia, França
Kaysersberg, Alsacia, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Denomino “europeização” a compreensão do que a Europa tem de bonito e a adoção do estado de espírito do europeu.

Não seria uma pura valorização do que há na Europa, mas a aquisição de um modo de ser inspirado no europeu.

Os europeus procuram organizar a vida de modo belo, com valores positivos.

Em suas casas, por exemplo: se há uma janela disponível, eles colocam um vaso com gerânios; se há um jardinzinho, plantam flores com desenhos lindos.

Óbidos, Portugal
Óbidos, Portugal
Tendo um belo panorama, aparecem artistas para ver, pintar, fotografar; comentam o panorama e extasiam-se com ele; expõem quadros com as pinturas.

Tudo aquilo vai entrando na cultura do povo.

Os brasileiros modernos, entretanto, ao contrário dessa impostação de alma, geralmente não incorporam as coisas com aquele estado de espírito medieval, mesmo tendo nós panoramas realmente bonitos.

Se adquirissem esse estado espírito, ficariam com apetência desse tipo de prazer intelectual.

Annecy, França
Annecy, França
Bem diferente da apetência pela politicagem, pela sensualidade, pela torcida desenfreada no esporte…

São defeitos contra os quais se deve remar.

Há nisso um sentido religioso?

Há, evidentemente, pois as coisas magníficas da natureza nos foram dadas pela Providência para nos elevarmos a Deus.

São imagens da sublimidade d’Ele.

É evidente que a posição de fechamento, de não se ter a alma aberta em relação ao sublime, leva as pessoas para o que é prosaico.

Portanto, representa um fechamento para a imagem que Deus colocou nas coisas criadas por Ele.

Tal fechamento para os aspectos sublimes das coisas representa, substancialmente, algo de antirreligioso.


Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 31 de outubro de 1966. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.


Vídeos: a moradia em cidades medievais europeias










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