domingo, 21 de abril de 2019

O incêndio de Notre Dame de Paris e o futuro da Cristandade:
ocaso ou restauração?

Notre Dame de Paris antes do incêndio de 15 de abril 2019
Notre Dame de Paris antes do incêndio de 15 de abril 2019
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No best-seller Ugly as Sin — Feias como o pecado — Michael S. Rose, jovem arquiteto americano, doutor em Belas Artes pela Brown University (EUA) apresentou a catedral Notre Dame de Paris como a jóia-da-coroa da Cidade Luz, o verdadeiro epicentro, a alma da capital francesa.

Solene e maternal, ela irradia sua influência a partir da Île de la Cité, como uma grande dama a partir do palácio, no centro do seu feudo.

Ela é a representação do Cristianismo na sua totalidade: desde o império universal de Nosso Senhor Jesus Cristo até os sofrimentos dos precitos no inferno.

Nela, o peregrino percebe a luta entre o bem e o mal, entre o sagrado e o profano, entre o eterno e o passageiro.



Notre Dame, insiste Michel Rose, é arte no sentido mais nobre do termo, é arquitetura da mais alta classe, um “lugar sagrado” que espelha as realidades eternas.

Ela é, antes de tudo, a casa onde Deus habita na Terra. Assim a Idade Média via Deus.

Compreende-se à luz destas considerações, e de muitas mais que podem se fazer e foram feitas, o impacto mundial que provocou o incêndio do telhado de Notre Dame e da queda simbólica de sua agulha em chamas.

Incêndios dessa magnitude e simbolismo aconteceram na história medieval.

Lembremos daquele que devorou a catedral de Chartres (a sétima) anterior à atual, em 1194. A causa foi um raio que atingiu o telhado. A catedral ardeu durante três dias.

Não havia ainda tecnologia para apagá-lo. Mas havia Fé!

Detalhe de: Incêndio da catedral de Chartres. No século XII. François Alexandre Pernot (1793-1865). Musée des Beaux-Arts de Chartres
Detalhe de: Incêndio da catedral de Chartres. No século XII.
François Alexandre Pernot (1793-1865).
Musée des Beaux-Arts de Chartres
A grande preocupação do povo foi com a sorte de uma relíquia: o véu de Nossa Senhora que se venera ainda hoje na nova catedral maior e mais imponente erigida sobre os restos da antiga incendiada.

Acreditou-se que a relíquia fora tragada pelas chamas.

Mas eis que três dias depois, os populares tomados de entusiasmo indescritível viram sair das cinzas fumegantes uma procissão de cônegos da catedral carregando em andor a preciosíssima relíquia.

Percebendo a gravidade do desastre, os bons e velhos sacerdotes acorreram para salvá-la. E ficaram presos entre as labaredas!

Então desceram pelas ruínas das seis antigas igrejas sobre que repousava a velha catedral em fogo e ficaram aguardando na incerteza e na escuridão algum momento para sair.

Vendo o heroísmo, o entusiasmo foi tão grande que a construção da nova -- e oitava! -- catedral começou logo.

Ela foi completada num tempo recorde com o trabalho manual voluntário de todas as classes sociais, dois reis incluídos.

Confira: O entusiasmo religioso na construção da catedral de Chartres

Também a abadia do Monte Saint-Michel foi consumida em circunstâncias análogas.

E voltou a ser reconstruída, até mais de uma vez.

A catedral de Chartres hoje
A catedral de Chartres hoje

Poderíamos ainda citar inúmeros outros exemplos em que a Providência fez da catástrofe um fator de reafervoramento colossal.

Não houve só fatores materiais no calvário dos grandes monumentos medievais.

Houve também o fogo ateado pelo ódio revolucionário. Fogo, aliás, infernal.

Ainda mais uma vez, uma das vítimas foi a catedral consagrada a Nossa Senhora em Paris.

A Comuna de Paris, primeiro governo comunista que conseguiu se estabelecer - ainda que efemeramente - num país ou grande cidade mandou queimar igrejas, palácios da monarquia e da nobreza, e quantos prédios significassem a glória da Civilização Cristã.

Os communards, nome dos revoltosos comunistas que tinham entre seus chefes a Karl Marx, invadiram a catedral, a depredaram, empilharam móveis, altares, obras de arte e quanto puderam encontrar, instalaram pipas cheias de combustíveis embaixo e atearam o fogo que deveria consumir tudo.

E fugiram para não sucumbir sob o desabamento que viria fatalmente.

Mas, os populares parisienses acorreram, formaram correntes humanas que puxavam água do Sena com baldes e recipientes caseiros e evitaram a perda da catedral.

Santinho evoca a fabulosa ofensa ao Sagrado Coração de Jesus
feita pelos 'communards', comunistas de 1871,
E o pranto de Nossa Senhora, que em La Salette
falou que Paris desapareceria incendiada. Cfr.:
A destruição de grandes cidades pecadoras como Paris
Porém, a influência das tóxicas ideologias democráticas igualitárias da Revolução Francesa havia apagado o entusiasmo religioso típico da era medieval.

Notre Dame ficou em pé mas em estado deplorável.

Porém, no fundo das almas, o remorso pelo abandono do imenso símbolo medieval, levou governos sucessivos a encomendar uma restauração que não acabava nunca e se fazia com uma precariedade e imprevidência, se não é má vontade, que acabou tendo parte no desastre recente.

Entretanto, de cá e lá brotou como um brado de consciências tal vez não puras, mas que ante o calvário da catedral-mãe manifestaram seu inconformidade.

Em questão de horas, as promessas para pagar a restauração superavam o bilhão de euros, se não é mais.

No fundo de cada homem, até dos que estão no topo da modernidade e do anti-medievalismo, dorme um medieval.

E essa verdade que tantas vezes constatamos nos comentários a este blog, tomou contornos muito definidos no momento atual.

É essa realidade tal vez o maior motor daquilo que explica o nome do nosso blog: A GLORIA DA IDADE MÉDIA.


Vídeo: Como foi construída a catedral de Notre Dame







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3 comentários:

Joaquim Filipe disse...

Há uns postais que mosytram como era colorida a fachada da Catedral. Não terão uns que possam colocar no blog para mostrar que, afinal, a Idade Média era época de Cor e Vida?

GianBattista disse...

Caro Joaquim Filipe:
Postamos as fotos que tinhamos. Esperamos que atendam em algo os seus desejos. VEJA NESTE LINK

José Moreira disse...

Gostei muito do seu comentário, mas o que se passa nas sociedades ocidentais e ricas, em especial as europias, no que à religião diz respeito, é muito grave. A indiferença, a pouca ou nenhuma fé dos europeus, a não mudar, irá contribuir para a ruína de toda uma civilização alicerçada nos valores cristãos. Cabe a cada um de nós, cada qual à sua maneira - e os seus artigos são muito importantes para pôr o dedo na ferida e abalar as consciências - dar testemunho e contribuir para que o sagrado não seja varrido das consciências.
Cumprimentos,

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