domingo, 24 de setembro de 2017

Os hospitais: frutos da caridade
desconhecidos antes da Idade Média

Hospital de Beaune, França
Hospital de Beaune, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




As ordens militares, fundadas durante as Cruzadas, criaram hospitais por toda a Europa.

A Ordem dos Cavaleiros de São João (ou Hospitalários, que deu origem à Ordem de Malta) criou um hospital em Jerusalém por volta de 1113.

João de Würzburg, sacerdote alemão, ficou pasmo com o que viu ali.

"A casa — escreveu ele — alimenta tantos indivíduos fora dela quanto dentro, e dá um tão grande número de esmolas aos pobres, seja os que chegam até a porta, seja os que ficam do lado de fora, que certamente o total das despesas não pode ser contado, nem sequer pelos administradores e dispensários da casa". (p. 178)

As citações deste post são do livro do prof. Thomas E. Woods, Jr. Ph. D., “How the Catholic Church built Western Civilization”, Regnery Publishing Inc., Washington D. C., 2005, 280 págs.

Esse livro foi publicado no Brasil com o título “Como a Igreja construiu a Civilização Ocidental”, editora Quadrante, SP, 2008, 222 págs.

Teodorico de Würzburg, outro peregrino alemão, maravilhou-se porque  

"indo através do palácio, nós não podemos de maneira alguma fazer uma ideia do número de pessoas que ali se recuperam. Nós vimos um milhar de leitos.

Hospital para peregrinos, León, Castela, Espanha
"Nenhum rei, ou nenhum tirano, seria suficientemente poderoso para manter diariamente o grande número de pessoas alimentadas nessa casa" (p. 178).

Raymond du Puy, prior dos Cavaleiros Hospitalários, incitou os monges-guerreiros a fazerem sacrifícios heroicos por "nossos senhores, os pobres".

"Quando os pobres chegam — diz o artigo 16 do decreto de du Puy — devem ser assim acolhidos: que recebam o Santo Sacramento, após terem primeiro confessado seus pecados ao sacerdote, e depois sejam levados à cama, como se fosse um Senhor". (p. 178-179)

O decreto de du Puy virou um marco no desenvolvimento dos hospitais .

O Hospital de Jerusalém inspirou uma rede de hospitais similares na Europa.

No século XII eles pareciam mais com hospitais modernos do que com os antigos hospícios.

O de São João de Jerusalém impressionava pelo profissionalismo, organização e disciplina. Cada dia o doente devia ser visitado duas vezes pelos médicos, ser lavado e tomar duas refeições.

Hospital para peregrinos, hoje Parador Nacional San Marcos, León, Espanha.
Os responsáveis não podiam comer antes que os pacientes. Uma equipe de mulheres cumpria outras tarefas e garantia vestimentas e roupa de cama limpas.

O protestante Henrique VIII fechou os mosteiros e confiscou suas propriedades, na Inglaterra, sob a falsa acusação de que eram fonte de escândalo e imoralidade.

Desapareceu então a caridade para com os necessitados.

A redistribuição das terras abaciais trouxe "a ruína para incontáveis milhares dos mais pobres dos camponeses; a quebra de pequenas comunidades, que eram o seu mundo, e a verdadeira miséria passou a ser seu futuro" (p. 182). O desespero popular atiçou os motins populares de 1536. (p. 181)

Idêntico ou pior mal fez a Revolução Francesa. Em 1789, o governo revolucionário confiscou as propriedades da Igreja. Em 1847, mais de meio século depois, a França tinha 47% a menos de hospitais do que no ano do confisco.


(Fonte: prof. Thomas E. Woods, Jr. Ph. D., “How the Catholic Church built Western Civilization”, Regnery Publishing Inc., Washington D. C., 2005, 280 págs. O livro foi publicado no Brasil: “Como a Igreja construiu a Civilização Ocidental”, editora Quadrante, SP, 2008, 222 págs.)



Vídeo A CARIDADE CATÓLICA. Aula 8ª do curso sobre 'A Igreja construtora da Civilização'pelo Prof. Thomas E. Woods

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AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 17 de setembro de 2017

Torneio para comemorar a reedificação do castelo de Windsor

Cavaleiros, Warwick
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Coisa curiosa, os medievais tinham uma vida quotidiana extraordinariamente entretida. Tal vez por isso mesmo, interessavam-se pouco por deixá-la descrita em pergaminhos. Quem iria a ler o que via com seus próprios olhos no dia-a-dia?

Foi preciso que autores de séculos posteriores tentassem reconstituir aquela vida animadíssima da era medieval.

Entre esses, esteve o escritor francês Alexandre Dumas. Romancista de fértil imaginação, ele quis descrever uma justa medieval com fidelidade histórica de pormenores. Para isso foi tirar da celebre crônica de Jean Froissard os dados históricos, como ele mesmo deixa claro em várias partes de sua obra.

Eis o resultado:


Windsor
O Rei Eduardo III fez reedificar o Castelo de Windsor, fundado outrora pelo Rei Artur. Ele devia comemorar a reedificação com um torneio e festas.

Enviou em consequência arautos à Escócia, França e Alemanha para proclamar que, amigo ou inimigo, cada um, contanto que fosse cavaleiro, podia vir, pela honra, quebrar lanças na justa de armas de Windsor.

Semelhante convite, da parte de um tão grande Príncipe, como se compreende bem, comoveu toda a Cavalaria. Assim, da Escócia, da França e da Alemanha viam-se chegar, como representação de toda a nobreza do mundo, os mais bravos campeões daquela época.

Alguns já se tinham encontrado nos campos de batalha e sabiam o conceito que deviam formar uns dos outros; mas a maior parte não se conhecia senão pela reputação, e ansiava por se conhecer.

Justas era medieval, Kaltenberg
À medida que chegavam, iam se inscrever com os juízes do campo, ora com seu nome, ora sob o pseudônimo que queriam usar; e, no dia seguinte, recebiam de Eduardo III um presente proporcionado à sua nascença ou ao rango que pareciam ter.

De resto, o torneio devia durar três dias, tendo como 'defensores' (‘defensor’ era um dos anfitriões, que desafiava todos os que, em luta cortês ou luta real, quisessem terçar armas com ele), no primeiro dia o próprio Eduardo; no segundo, Gauthier de Mauny, que havia deixado a Bretanha para não perder uma tal festividade; e, no terceiro dia, Guillaume de Montaigu, a quem o Rei, de acordo com sua promessa, acabava de armar cavaleiro, e que devia quebrar lá sua primeira lança. Os três 'defensores' deviam aceitar o combate à lança, espada ou machado; só o punhal estava proibido.

Na véspera da festa de São Jorge (Padroeiro da Inglaterra e da Cavalaria), dia fixado para a abertura das comemorações, a cidade de Londres despertou com o ressoar das trombetas e dos clarins.

Cavaleiro medieval, torneio Warwick
Os cavaleiros, que haviam acorrido de diferentes partes do mundo para esta grande cidade, deviam dirigir-se às tendas que o Rei lhes havia feito preparar na planície de Windsor; porque não se podia pensar em hospedar no castelo uma tal multidão de pessoas.
Em conseqüência, desde as oito horas da manhã, todas as ruas que conduziam do Castelo de Londres, ou seja da Praça Santa Catarina à estrada, estavam ornadas com tapeçarias e juncadas de folhas.

De ambos lados, a uns cinco ou seis pés de distância em relação às casas, cordas encobertas por guirlandas de flores, formavam espécies de calçadas nas quais devia circular o povo, enquanto que a parte mais elevada do pavimento permaneceria livre e aberta para os cavaleiros.

Ademais, não havia árvore que não tivesse frutas frescas, não havia janela que não fosse ocupada por pirâmides de cabeças, nenhum terraço que não oferecesse sua seara de espectadores apertados como espigas e ondulantes como elas ao menor ruído que parecia anunciar a aproximação do cortejo.

Torneio Idade Media, KaltenbergAo meio-dia, vinte e quatro trombetas saíram tocando do castelo, no meio de aclamações da multidão, a quem anunciavam por fim o espetáculo tão impacientemente esperado por ela desde a manhã. As trombetas eram seguidas de sessenta corcéis equipados para a justa e montados por escudeiros de honra, portando gonfalões que mostravam os brasões de seus amos.

Depois dos escudeiros vinham o Rei e a Rainha, ornados com suas vestes reais, tendo na cabeça a coroa e o cetro à mão e entre ambos, sobre um belo corcel cujas crinas douradas pendiam até o chão, o jovem Príncipe de Gales, o futuro herói de Crécy e Poitiers, que iria fazer no torneio seu aprendizado de guerra.

Detrás deles cavalgavam, “pêle-mêle”, duzentos ou trezentos cavaleiros cobertos de armas brilhantes, com escudos desenhados com brasões ou divisas, de viseira erguida ou abaixada, caso quisessem ser reconhecidos ou guardar o incógnito.

Enfim, o desfile terminava com uma multidão incontável de pajens e lacaios, uns sustentando no punho falcões encapuzados, os outros conduzindo cães que no pescoço portavam bandeirolas com as armas de seus donos.

Esta magnífica assembléia atravessou toda a cidade ao passo e em boa ordem, para chegar ao Castelo de Windsor, situado a vinte milhas de Londres. Apesar desta distancia, uma parte da população a acompanhou, correndo através dos campos, enquanto o cortejo seguia a estrada.

Combatente medieval, Kaltenberg
O Rei havia previsto esta concorrência e, fora do espaço das tendas reservadas para os cavaleiros, havia feito construir uma espécie de acampamento onde podiam bem se alojar dez mil pessoas. Cada um estava pois seguro de achar um alojamento segundo sua condição: os senhores no castelo, os cavaleiros nas tendas, o povo ao relento.<

Chegou-se a Windsor com noite fechada, mas o castelo estava tão bem iluminado que parecia um solar de fadas.

De seu lado, as tendas estavam dispostas como as casas de uma rua; somente entre elas ardiam tochas colossais que difundiam uma luminosidade comparável à do dia, enquanto nas cozinhas, dispostas de trecho em trecho, via-se um sem número de assadores e de serventes ocupados em detalhes que não eram desprovidos de encantos para paladares que tinham cavalgado desde o meio-dia.

Cada um procedeu à sua instalação, depois ao jantar. Até duas horas da madrugada a noite foi cheia de tumulto e de exclamações alegres.

Por volta daquela hora, o barulho diminuiu gradualmente nas tendas e no acampamento, enquanto as janelas do castelo apagavam-se umas após as outras.

E tudo entrou no repouso e na escuridão. Mas esta trégua nas alegrias não foi de longa duração.

Ao despontar do dia, cada um foi acordando e preparando o espírito; primeiro o povo, que não só devia ser o menos bem localizado, mas ainda receava não ter suficiente lugar.

Sem tomar tempo para desjejuar, cada um foi levando nos bolsos a provisão da jornada. Toda esta multidão escoou então pelas porteiras e espalhou-se como uma torrente no espaço raso que se lhe havia destinado entre a liça e as arquibancadas. Seus temores eram fundados.

Apenas a metade das pessoas que vieram de Londres puderam encontrar lugar; mas nem por isso renunciaram ao espetáculo. Tão logo se certificaram de que não havia mais meio de penetrar no cercado, e que as barreiras continham tudo que elas podiam contar, disseminaram-se pela campina, procurando todos os pontos elevados de onde era possível dominar o espetáculo.

Anacronismo creativo, Rep. Checa
Às onze horas as trombetas anunciaram que a Rainha saía do castelo. Dizemos a Rainha somente, porque como Eduardo era o 'defensor' dessa jornada, ele já estava na sua tenda.

Madame Philippe (a Rainha) tinha à direita Gauthier de Mauny e à esquerda Guillaume de Montaigu, que deveriam ser os heróis dos dias seguintes. A Condessa de Salisbury vinha logo atrás, conduzida pelo Duque de Lancaster e pelo Príncipe Jean de Hainaut.

A nobre sociedade tomou lugar nas galerias que para esse efeito estavam preparadas e que em um instante tornaram-se semelhantes a um tapete de veludo maravilhosamente bordado com pérolas e diamantes.

Justa medieval, WarwickA liça era um grande retângulo, cercado por paliçadas; nos dois extremos abriam-se as porteiras que deviam dar passagem, uma aos campeães, a outra aos 'defensores'.

No extremo oriental, sobre uma plataforma bastante elevada para que dominasse a liça, havia-se montado a tenda de Eduardo, que era toda de veludo vermelho bordado de ouro. Em cima dela flutuava o pavilhão real, cujos quartéis primeiro e terceiro tinham os leopardos da Inglaterra e no segundo e quarto as flores de lys da França.

Por fim, de ambos lados da porta estavam suspensos o escudo da paz e a ‘targa de guerra’ (targa: parte da armadura usada sobre o peito. Nas liças foi convencionado que o cavaleiro que tocasse a targa de guerra do ‘defensor’ o desafiava para um combate real; enquanto que se tocasse o escudo, o desafiava para um combate de cortesia) do 'defensor'; e dependendo de se os campeães faziam tocar por seus escudeiros ou tocavam eles mesmos um ou outra, solicitavam com isso a simples justa ou desejavam o combate de morte.

* * *

Os marechais haviam longamente insistido para que sob nenhum pretexto os campeões pudessem usar outras armas que não as chamadas armas corteses. Visto que o Rei deveria ser um dos 'defensores', era de se temer que algum ódio pessoal ou alguma traição se esgueirasse na liça.

Torneio medieval, WarwickEduardo havia então respondido que ele não era um cavaleiro de parada, mas um homem de guerra e que se ele tinha um inimigo, sentir-se-ia muito à vontade em lhe oferecer esta ocasião de chegar até ele.

As condições haviam sido portanto mantidas sem restrições e os espectadores, por momentos inquietos por seus prazeres, sentiram-se assegurados, porque ainda que raramente essas justas derivassem para um verdadeiro combate, a possibilidade de que isto acontecesse dava um novo interesse a cada passo.

Assim, quando a festa transformava-se em luta sangrenta, os espectadores, sem o confessar, não podiam impedir-se de testemunhar, por meio de seus aplausos mais ardentes e repetidos, a predileção que tinham por um espetáculo onde os atores desempenhavam um papel sempre perigoso e algumas vezes até mortal.

Quanto às outras condições do combate, elas não se afastavam em nada do regulamento ordinário.

Lide medieval, KaltenbergQuando um cavaleiro era desmontado e jogado à terra, se ele não se podia levantar sem a ajuda de seus escudeiros, era declarado vencido; o mesmo acontecia quando, no combate à espada ou machado, um dos campeões recuava diante do outro a ponto que a garupa de seu cavalo tocasse a barreira.

Enfim, se o combate fosse com tal acirramento que ameaçasse tornar-se mortal, os marechais de campo podiam cruzar suas lanças entre os dois campeões e assim pôr-lhe término com sua própria autoridade.

* * *

Um arauto avançou na liça e leu em alta voz as condições da justa. Tão logo terminou a leitura, um grupo de músicos postados perto da tenda de Eduardo fez, em sinal de desafio, retinir o ar com o som das trombetas e dos clarins; em seguida, um outro grupo de músicos respondeu-lhe do extremo oposto.

Anacronismo creativo, cavaleiro medieval, LoireAs porteiras se abriram e um cavaleiro totalmente armado apareceu na liça.

Mas, ainda que tivesse a viseira abaixada, pelo brasão que era de ouro com listras prata e azul, foi logo reconhecido como o Conde de Derby, filho do Conde de Lancaster, do Pescoço Torto.

Ele avançou, fazendo graciosamente caracolar seu cavalo até o meio da liça; chegado lá, virou-se para a Rainha, a quem saudou inclinando o ferro de sua lança até a terra, no meio das aclamações da multidão.

Enquanto isso, seu escudeiro atravessava a arena e, subindo na plataforma, foi golpear com uma vara o escudo de paz de Eduardo.

O Rei saiu em seguida, todo armado, menos a targa, que fez afixar do pescoço por seus lacaios, saltou agilmente sobre o cavalo que se lhe tinha pronto e entrou na liça com tanta graça e segurança que as aclamações redobraram.

Ele estava coberto de uma armadura veneziana, toda incrustada de lâminas e fios de ouro formando desenhos curiosos nos quais se reconhecia o gosto oriental e, sobre seu escudo, em vez das armas reais, levava uma estrela velada por uma nuvem, com esta divisa: “Présente, mais cachée”.

Cavaleiro medieval derrubado, KaltenbergEntão entregou-se-lhe a lança que ele pegou e pôs em riste. Logo os juízes do campo, vendo que os campeões estavam prontos, bradaram em alta voz: “Deixai ir!”

No mesmo instante, os adversários, esporeando seus cavalos, precipitaram-se um contra o outro, e encontraram-se no meio da liça. Os dois haviam dirigido a ponta de sua lança para a viseira do elmo, os dois atingiram o alvo.

Mas a extremidade arredondada da lança não tendo podido penetrar no aço, ambos passaram além, sem dano. Retornaram por conseguinte cada um a sou ponto, e ao sinal dado, lançaram-se de novo um contra o outro.

Desta vez ambos golpearam-se de cheio em suas targas, ou seja, bem no meio do peito. Eram demasiado bons cavaleiros para serem desmontados; entretanto um dos pés do Conde de Derby saiu do estribo e a lança escapou-lhe das mãos.

Quanto a Eduardo, permaneceu firme em sua sela, mas, pela violência do golpe, sua lança partiu-se em três pedaços, dois dos quais voaram pelo ar e o terceiro ficou-lhe na mão. Um escudeiro do Conde de Derby recolheu sua lança e lha apresentou, enquanto traziam uma nova para Eduardo. Assim que os dois campeões se rearmaram, retornaram ao campo e voltaram à carga pela terceira vez .

Choque na lide epoca medieval, KaltenbergDesta vez, o Conde de Derby apontou ainda sua lança contra a targa de seu adversário, enquanto Eduardo, voltando a seu primeiro objetivo, havia, como no início, tomado o elmo do Conde como ponto de mira.

Ambos, nesta circunstância, deram uma nova prova de sua destreza e força, porque pela violência do golpe que recebeu seu dono, o cavalo de Eduardo parou em seco e dobrou os joelhos traseiros, enquanto que a lança do Rei atingiu tão exatamente o meio do elmo que, rompendo as amarras que o seguravam ao pescoço, arrancou o capacete do Conde de Derby.

Os dois pelejaram como bravos e destros cavaleiros, mas quer fosse por fadiga quer por cortesia, o Conde não quis continuar a luta e, inclinando-se diante do Rei, reconheceu-se vencido e retirou-se no meio dos aplausos que ele partilhou com seu vencedor.

Cavaleiros entram na lide, KaltenbergEduardo entrou na sua tenda, e as trombetas retiniram de novo em sinal de desafio; o som teve como na primeira vez um eco na extremidade oposta; depois, assim que se extinguiu, viu-se entrar um segundo cavaleiro, a quem se reconheceu como Príncipe, pela coroa que encimava seu elmo. Com efeito, este novo campeão era o Conde Guillaume de Hainaut, cunhado do Rei.

Este passe, foi, como o outro, uma luta de honra e de cortesia mais do que uma verdadeira justa; de resto, talvez ele tenha-se tornado mais atraente aos olhos dos campeões experimentados, que eram não só os atores mas também os espectadores destas cenas, porque cada um fez maravilhas de destreza.

Porém, havia no fundo dos golpes desferidos uma intenção demasiado visível da parte dos adversários de entregar-se a um jogo e não a um combate, para que a impressão produzida não fosse a que se sentiria em nossos dias vendo representar uma comédia perfeitamente tramada quando se teria ido para ver uma tragédia bem dramática. Resultou daí que, por maior que fosse o prazer que desfrutara com este espetáculo, a multidão que o aplaudia, era visível, quando terminou, que ela esperava a seguir alguma coisa de mais sério.

Torneio periodo medieval, KaltenbergDepois de ter quebrado cada um três lanças, o Conde Guillaume saiu da liça, declarando-se vencido como o fizera o Conde de Derby, enquanto Eduardo, descontente com essas vitórias fáceis, retirava-se à sua tenda, começando a lamentar-se de não se ter misturado sob um nome desconhecido entre a multidão dos campeões, antes que designar-se como um dos “defensores”, como o fizera.

Acabava ele de entrar, quando a música fez retinir sons provocadores aos quais pensou-se de inicio que ninguém responderia, pois alguns minutos de silêncio se lhes seguiram. Cada um já se inquietava por esta interrupção, quando de repente ouviu-se soar uma só trombeta. Tocava uma melodia francesa, o que indicava que um cavaleiro dessa nação apresentava-se para combater.

Todos os olhares logo voltaram-se para a barreira que se abriu, dando passagem a um cavaleiro de mediana estatura, mas parecendo, pelo modo com que portava sua lança e manobrava o cavalo, ser tão vigoroso quanto hábil.

Cada um fixou os olhos sobre seu escudo para ver se apresentava alguma divisa pela qual pudesse ser reconhecido; o escudo trazia suas armas, que eram três águias de ouro com as bocas abertas e o vôo preparado, distribuídas em dois e uma, com uma flor de lys da França costurada no ápice.

Cavaleiro medieval, CambraiO Conde de Salisbury o reconheceu como sendo o jovem cavaleiro que, no dia seguinte do embate de Buironfosse, havia atravessado, sob as ordens do Rei da França, Philippe de Valois, o pântano que separava os dois exércitos e estivera, sem encontrar oposição, reconhecendo o bosque que cobria a encosta da montanha no cimo da qual, ele cravara sua lança.

Na sua partida, Philippe o armara cavaleiro com suas próprias mãos, e, quando retornou, contente com a coragem que dera prova, o havia autorizado a acrescentar a seu brasão uma flor de lys: isto em termos heráldicos denominava-se costurar no ápice.

O jovem cavaleiro, ao entrar na liça, despertara um movimento de curiosidade tanto mais vivo quanto ele se apresentava com armas de guerra.

Avançou com a cortesia que, desde essa época, fazia distinguir a nobreza da França. Detendo-se primeiro diante da Rainha, a quem saudou ao mesmo tempo com a lança e a cabeça, abaixando a ponta da lança até a terra e inclinando a cabeça até o pescoço de seu cavalo; depois, fazendo-o empinar, forçou-o a girar sobre si mesmo.

Então, sem pressa nem vagar, ele próprio avançou, para tributar sem dúvida uma maior honra a seu adversário, rumo à tenda onde estava retirado Eduardo e, com o ferro de sua lança, tocou audazmente a targa de guerra.

Logo desceu à liça, fazendo a sua montaria executar os exercícios mais difíceis de equitação.

De seu lado, o Rei saiu de sua tenda, e fez trazer um outro cavalo coberto de armadura completa.

Justa medieval, CambraiMas, por mais seguro que ele pudesse estar de seus escudeiros, examinou com uma atenção toda especial o modo pelo qual estava equipado o corcel; tirando a seguir sua espada, certificou-se de que a lâmina era tão boa quanto a empunhadura era bela; depois, fazendo prender do pescoço uma outra targa, subiu em sua montaria tão agilmente como o podia fazer um homem coberto de ferro.

A atenção dos espectadores era grande, pois, ainda que Messire Eustache de Ribeaumont tivesse colocado no seu desafio toda a cortesia possível, não era menos evidente que desta vez era uma verdadeira justa, e ainda que não fosse animada por nenhum ódio pessoal, a rivalidade das duas nações devia lhe dar um caráter de gravidade que não podiam ter os embates que a precederam.

Assim, Eduardo foi tomar seu lugar na liça no meio do mais profundo silencio.

Messire Eustache, vendo-o chegar, pôs sua lança em riste; Eduardo fez o mesmo; os juízes do campo bradaram com voz forte: “Deixai ir'', e os dois campões lançaram-se um contra o outro.

O cavaleiro tinha dirigido sua lança contra a viseira e o Rei a sua contra a targa, e os dois apontaram tão precisamente que o elmo de Eduardo lhe foi arrancado da cabeça, enquanto sua lança golpeara com tal força o cavaleiro que ela se quebrou a um pé do ferro, mais ou menos, e um pedaço ficou enfiado na armadura.

Por um instante pensou-se que Messire Eustache estava ferido; mas o ferro, atravessando a armadura tinha se detido na cota de malha; de sorte que, vendo pelo murmúrio que se elevara qual era o temor dos espectadores, ele próprio arrancou o ferro e saudou uma segunda vez a Rainha, como sinal de que não tinha nenhum mal.

O Rei retomou um outro elmo e outra lança e cada um tendo feito um giro e retornado a seu lugar, os marechais deram novamente o sinal. Desta vez, os campeões escolheram um alvo semelhante e golpearam-se em pleno peito.

Choque entre cavaleiros medievais, WarwickO golpe foi tão violento que os dois cavalos levantaram as patas dianteiras mas seus donos permaneceram nas selas, semelhantes a pilares de bronze; quanto às duas lanças, romperam-se como vidro e os estilhaços saltaram até às arquibancadas onde estava o povo.

Os escudeiros aproximaram-se então com novas lanças; cada um armou-se da sua e, ganhando seu lugar, aprestou-se para uma terceira justa.

Por rápido que fosse o sinal, ele ainda se tinha feito esperar para o gosto de ambos adversários; pois, tão logo que foi dado, os cavalos se lançaram como se partilhassem os sentimentos de seus donos.

Esta vez, Messire Eustache conservou o mesmo alvo; mas Eduardo, tendo mudado o seu, sua lança atingiu tão exatamente a viseira que arrebatou o elmo do cavaleiro, enquanto a lança deste golpeava em pleno peito com uma tal rijeza que o cavalo do Rei sentou e, neste movimento, o cinto tendo-se rompido, a sela deslizou ao longo do dorso, de sorte que Eduardo se achou de pé, mas em terra.

Cavaleiro, Hedingham CastleSeu adversário saltou em seguida à terra, e encontrou Eduardo já desembaraçado de seus estribos. Tirou incontinenti sua espada, cobrindo a cabeça com seu escudo.

Mas Eduardo lhe fez sinal de que não continuaria o combate enquanto ele não tivesse recolocado um outro elmo. Messire Eustache obedeceu e o Rei, vendo-lhe a cabeça coberta, tirou por sua vez a espada.

Mas, antes de deixá-los recomeçar o combate, dois escudeiros conduziram os cavalos cada um por uma porteira, enquanto dois lacaios recolhiam as lanças que os combatentes deixaram cair. A liça assim desobstruiria, escudeiros e lacaios se retiraram, e os juízes do campo deram o sinal.

Eduardo era um dos mais vigorosos homens de armas de seu Reino; assim, Messire Eustache compreendeu nos primeiros golpes que ele tinha necessidade de utilizar toda sua força e destreza.

Mas ele mesmo, como se pode ver, e como afirmam as crônicas do tempo, era um dos mais valentes cavaleiros de sua época; de sorte que não se surpreendeu nem da violência nem da rapidez do ataque, e respondeu golpe por golpe com um vigor e um sangue frio que provaram a Eduardo aquilo que ele já sabia sem dúvidas que se encontrava em face de um adversário digno dele.

De resto, os espectadores nada haviam perdido por esperar, e o que se passava diante deles esta vez era bem um verdadeiro combate.

As duas espadas, nas quais se refletia o sol, pareciam dois gládios de fogo, e os golpes eram aparados e dados com uma tal rapidez, que não se percebia se eles haviam tocado o escudo, o elmo ou a couraça a não ser vendo jorrar as faíscas que deles saiam.

Elmo, KaltenbergOs dois campeões atacavam sobretudo o elmo; e sob as tentativas redobradas que haviam recebido, o de messire Eustache viu cair seu panache de plumas e o de Eduardo perdeu sua coroa de pedrarias.

Por fim a espada dele abateu-se com uma tal força que, qualquer que fosse a têmpera do elmo de seu adversário, lhe teria sem dúvida fendido a cabeça se messire Eustache não a tivesse aparado com seu escudo.

A lâmina terrível cortou o escudo pela metade, como se fosse de couro, tão bem que tendo sido partida uma das agarradoiras pelo choque, messire Eustache jogou para longe de si a outra metade, que se tornara mais um embaraço que uma defesa e, tomando sua espada com as duas mãos, desferiu por sua vez um tão rude golpe sobre a cimeira do Rei que a lâmina voou em pedaços e que só a empunhadura lhe restou na mão.

O jovem cavaleiro deu então um passo atrás para pedir outra arma a seu escudeiro; mas Eduardo, levantando vivamente a viseira de seu elmo deu por sua vez um passo em frente e, tomando sua espada pela ponta apresentou a guarda a seu adversário.

‒ Messire, disse-lhe com aquela graça que ele sabia tão bem tomar nessas ocasiões, vos agradaria aceitar esta? Tenho, como Forragus, sete espadas a meu serviço e todas são de uma têmpera maravilhosa.

Seria deplorável que um braço tão hábil e vigoroso como o vosso não tivesse uma arma da qual se pudesse valer; tomai-a, pois, messire, e nós recomeçaremos o combate com mais eqüidade.

‒ Aceito, Monseigneur, respondeu Eustache de Ribeaumont, erguendo por sua vez a viseira de seu elmo, mas a Deus não compraza que eu ensaie o gume de uma tão bela arma contra aquele que m’a deu. Eu me reconheço, portanto, vencido, Sire, tanto por vossa coragem como por vossa cortesia, e esta espada me é tão preciosa que faço aqui o juramento sobre ela, e por ela, de jamais, nem em torneio nem em batalha, entregá-la a outro senão a vós.

O rei venceu a justa de aço, e Eustache de Ribeumont a justa da cortesia.

(Fonte : Alexandre Dumas, « La Comtesse de Salisbury », Calmann-Lévy, Editeur, Paris, 1878, T.I, pp.247 a 261)



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domingo, 10 de setembro de 2017

A Cristandade medieval instaurou a paz de Cristo na Europa

A sagração dos reis da França: um dos pontos altos da suavização dos costumes na Idade Média
A sagração dos reis da França:
um dos pontos altos da suavização dos costumes na Idade Média
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O sistema feudal maneja toda uma sucessão de arbitragens naturais: o vassalo pode sempre recorrer de um senhor ao suserano deste último; o rei, à medida que a sua autoridade se estende, exerce cada vez mais o seu papel de mediador; o Papa, enfim, continua o árbitro supremo.

Basta, frequentemente, a reputação de justiça ou de santidade de um grande personagem para que se recorra, assim, a ele.

A Idade Média não contestou o problema da guerra em geral, mas, por uma série de soluções práticas e de medidas aplicadas no conjunto da Cristandade, restringiu sucessivamente o domínio da guerra, as crueldades da guerra, as durações da guerra. É assim, com leis precisas, que se edificou a Cristandade pacífica.

A primeira destas medidas foi a Paz de Deus, instaurada desde o fim o século X: é também a primeira distinção que foi feita, na história do mundo, entre o fraco e o forte é feita proibição de maltratar as mulheres, as crianças, os camponeses e os clérigos; as casas dos agricultores são declaradas invioláveis como as igrejas.

A grande glória da Idade Média é ter empreendido a educação do soldado, é ter feito do soldado da velha guarda um cavaleiro.

Aquele que se batia por amor dos grandes golpes, da violência e da pilhagem tornou-se o defensor do fraco; transformou a sua brutalidade em força útil, o seu gosto pelo risco em coragem consciente, a sua turbulência em atividade fecunda.

A cavalaria é a instituição medieval da qual com maior gosto se guardou a recordação.

Cavalaria, ideal da Idade MediaO cavaleiro deve ser piedoso, dedicado à Igreja, respeitador das suas leis: a sua iniciação começa com uma noite inteira passada em orações diante do altar sobre o qual está deposta a espada que ele cingirá.

A cavalaria foi o grande entusiasmo da Idade Média; o sentido da palavra: cavalheiresco, que ela nos legou, traduz muito fielmente o conjunto de qualidades que suscitavam a sua admiração.

Basta percorrer a sua literatura, contemplar as obras de arte que dela nos restam, para ver por todo o lado, nos romances, nos poemas, nos quadros, nas esculturas, surgir este cavaleiro do qual se representa

Quando uma máquina de guerra é demasiado mortífera, o papado proíbe o seu emprego; o uso da pólvora de canhão, cujos efeitos e composição se conhecem desde o século XIII, só começa a propagar-se no dia em que a sua autoridade já não é suficientemente forte e em que já se começam a esboroar os princípios da Cristandade.

Escreve Orderic Vital, “por temor de Deus, por cavalaria, procurava-se aprisionar de preferência a matar. Guerreiros cristãos não têm sede de espalhar sangue”.


(Fonte: Régine Pernoud, “Luz sobre a Idade Média”, 1996, Publicações Europa-América.)




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