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| "La foire du Lendit", anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França, na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264. |
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Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de política internacional, sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs |
A cena representa uma feira medieval numa pequena cidade.
No centro destaca-se o bispo acompanhado do clero abençoando as atividades. O bispo está paramentado levando a mitra e o báculo dourado símbolos de seu alto múnus.
A Igreja zelava para que as transações comerciais acontecessem na boa ordem.
Mas não ficava intervindo a toda hora e propósito nessas atividades, como faz o Estado moderno com regulamentos e impostos.
A Igreja fazia algo mais importante.
Ela formava com seus ensinamentos a consciência dos fiéis para que elas fossem retas e soubessem praticar as virtudes.
Entre as virtudes estava a da justiça que é indispensável para se definir os preços e formas de pagamento justas, afastando abusos e disputas.
A Igreja ensinava com clareza os Mandamentos “Não roubarás” (7º) e “Não cobiçarás o bem alheio” (10º).
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| "La foire du Lendit", detalhe, anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França, na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264. |
Porém, como malandros sempre houve e haverá, a Igreja desempenhava outras funções subsidiárias que até nos fazem sorrir, mas que são indispensáveis.
Ainda hoje ‒ quem puder pode constatar ‒ entrando na belíssima catedral de Pisa, logo à direita, perto da pia de água benta, encontra-se um formidável pé de mármore branco incrustado na parede, entre outros mármores também de grande qualidade e beleza.
O que faz esse pezão numa catedral tão requintadamente artística?
Pois acontecia que a feira medieval da cidade reunia-se na praça em frente da catedral. E a medida do comércio era o pé, como hoje é o metro.
Não é de espantar que pudessem surgir disputas sobre se a medida usada por este ou aquele cliente ou vendedor fosse a correta.
Então, os interessados podiam entrar na catedral e conferir suas réguas com o pé de mármore e ver se estavam certas.
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| "La foire du Lendit", detalhe, anônimo, s.XIV, 'Pontifical de Sens', na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264. |
Mais dois parecem estar combinando um preço.
Pacotes de produtos estão amarrados aguardando negociação.
Um pastor levou suas ovelhas, sem dúvida para serem vendidas, pois a economia medieval era fundamentalmente uma economia direta produtor-consumidor sem atravessadores.
Esta organização reduzia muito o preço final dos produtos e garantia ao produtor uma entrada mais justa e proporcionada.
Para o consumidor também era uma garantia de autenticidade: produtos que saiam da terra, ou das mãos dos artesões e artistas.
Na feira ao lado, sem dúvida a barraca mais concorrida é a dos comes e bebes.
Vários feirantes e/ou clientes estão sentados na mesa falando com muito entretenimento.
O garçom aparece levando umas taças enormes, sinal de que ali se bebe e come em abundância.
Nas portas das barraquinhas há umas insígnias penduradas. Elas indicam a especialidade do comerciante.
Numa vemos a figura de um ganso sinal que ali se encontram aves.
Numa outra um círculo feito com martelos. Parece ser a barraca de um ferreiro. Pelo menos o fato do jovem a cavalo ir em direção a ela sugere que ali se consertam ferraduras.
Todos manifestam enorme distensão, não há tensão nem agitação. Há atividade calma e produtiva.
Mas ninguém está vagabundeando, não há malandro à espreita de roubar ou falsificar alguma coisa.
As ruelas estão limpas. As pessoas também muito asseadas, bem vestidas, com roupas originais de cores alegres e variegadas. Todos eles são populares do campo ou comerciantes da cidade.
Assim os medievais viviam este momento tão corriqueiro e marcante da vida quotidiana que é uma feira e assim o deixaram registrado para a posteridade.
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