domingo, 2 de julho de 2023

Armaduras ainda surpreendem

Armadura de cerimônia de Luis XIV
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







O uso de armadura em combate na Idade Média requeria raras condições de força e destreza – concluíram pesquisadores europeus e neozelandeses que analisaram com critérios modernos o uso delas.

A armadura medieval podia pesar 30 e até 50 kg.

Exames de esforço feitos em esteira mostraram que seu uso exigia mais que o dobro de energia empregado para a locomoção com roupas normais.

A conclusão, bastante obvia, tem agora uma medição científica.

Alberto Minetti, da Universidade de Milão, explicou que a respiração do combatente era exigida pela necessidade de mais energia e pelas restrições à expansão do tórax para respirar, impostas pelas placas de metal.

Nos testes, câmeras de alta velocidade ajudaram os cientistas a entender como os homens distribuíam a carga do peso da armadura entre seus membros durante a corrida.

Entretanto, era com esta sobrecarga que os heróis medievais desciam ao campo de batalha para defender a Igreja, a Cristandade, seus feudos e seus vassalos.

Graham Askem, da Universidade de Leeds, lembra que nem todos os guerreiros usavam armaduras completas.

Realmente muito custosas, as armaduras eram levadas por reis e grandes senhores, que dessa maneira patenteavam serem os chefes, atraindo sobre si flechas, dardos e ataques inimigos.

Armaduras no Musée des Armées, Paris
“O arqueiro inglês era levemente protegido e soldados menos nobres também deviam ter armaduras incompletas”, disse Askem ao iG.

O porte de armaduras explica a juventude dos exércitos medievais, disse Minetti.

“Certamente esses soldados estavam em forma. Caminhar pelos campos de batalha era pesado. Os músculos eram importantes, mas a capacidade aeróbica deles tinha que ser muito alta” – acrescentou.

Outra conclusão óbvia foi que o peso das armaduras influenciou no rumo das batalhas e da guerra, segundo a pesquisa divulgada na revista científica Proceedings of the Royal Society, citado pela BBC Brasil.

Elmo completo
No início da Idade Média, os cavaleiros cristãos não dominavam a técnica do aço e usavam cotas de malha e armas de ferro mais moles, pesadas, e que enferrujavam logo.

Por sua vez, os cavaleiros árabes, com couraças, escudos e cimitarras de aço, podiam usar cavalos mais leves e velozes, assumindo a iniciativa dos movimentos no campo de batalha.

Os católicos assimilaram a técnica do aço, notadamente em Toledo, Espanha. E a desenvolveram muito mais.

Porém, com o progresso geral da Cristandade, o próprio aço serviu para criar armas mais poderosas que vulneraram a resistência das armaduras.

Na batalha de Agincourt, citada pelo estudo e uma das principais vitórias da Inglaterra sobre a França, em 1415, durante a Guerra dos Cem Anos, a cavalaria francesa foi posta por terra pelos famosos arqueiros e besteiros ingleses.

No século XV, as armaduras eram construídas a partir de placas de aço interligadas, que cobriam o soldado da cabeça aos pés.

Armadura usada nos testes
Mas foram perdendo sua importância militar com o aparecimento de armas de fogo.

Se elas perderam utilidade, ganharam muito em beleza e simbolismo.

Até Luís XIV, no século XVII, mandou fazer sua armadura completa que pode ser vista no Museu dos Inválidos, em Paris.

Hoje o desenvolvimento de novas armas puxou a de novas formas de proteção, como os coletes à prova de bala ou as blindagens cerâmicas dos tanques modernos.

A modernidade foi capaz de dar surpreendentes passos práticos, mas não soube dar os correspondentes passos na linha da beleza para poder se comparar com as armas e armaduras medievais.

De fato, a nobreza e a beleza moral das almas que usavam as armaduras se refletiam nestas.

Na modernidade, o pragmatismo e a feiura que tomaram conta dos espíritos se refletem em muitos equipamentos de combate.





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domingo, 25 de junho de 2023

A Igreja medieval não inventou a perseguição aos hereges

São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.  Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.
Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Desde os primórdios do Cristianismo houve, da parte de potentados temporais, a aplicação de medidas punitivas contra hereges.(1)

Isso porque, quer no Império Romano cristão do Ocidente, quer no Bizantino, e sobretudo nas nações cristãs que foram compondo a Cristandade Medieval, a Religião Católica, sua moral, suas leis e doutrinas respondiam em muito larga medida pela urbanização e sustentação da ordem civil.(2)

Isto não era novidade. Era um conceito comum em toda a Antiguidade. E nas civilizações pagãs, inclusive as menos decadentes punham em prática esse critério com largas doses de abuso e crueldade.

A heresia afigurava-se, pois, frequentes vezes, como uma séria ameaça à ordem civil estabelecida.

Tanto mais quanto quase todas as heresias, que assolaram a Igreja e a Cristandade naqueles séculos, revestiam-se de um caráter nitidamente anarquista e anti-social.(3)

Foi assim que a iniciativa da perseguição - com o fim de aplicação de penas temporais - aos hereges não partiu da Igreja, mas da sociedade civil.

Alguns dos últimos Imperadores romanos - antes da Idade Média, portanto - desterravam hereges, confiscavam-lhes os bens, mas, via de regra, só aplicavam a pena capital aos culpados de atos de violência contra os cristãos.(4)

A ameaça à ordem civil nas nações cristãs da Idade Média, representada pelas heresias, levou muitos monarcas a tomar a iniciativa de perseguir os hereges. Notadamente as heresias neomaniquéias que se desenvolveram no sul da França, nos séculos XII e XIII - os albigenses que assolaram progressivamente quase toda a Cristandade, puseram em contínuo sobressalto reis e imperadores.(5)

Vemos, pois, um Roberto o Piedoso, Rei da França, que, no século XI, solicita insistentemente ao Papa medidas punitivas contra os hereges.

Temos ainda, no século XII, Henrique, Arcebispo de Reims e irmão do Rei da França, Luiz VII, que, por instâncias deste último, se apressa a perseguir os hereges cátaros.

São os próprios hereges que apelam ao Papa e dão motivo a uma carta de Alexandre III ao Arcebispo de Reims, recomendando-lhe doçura e clemência para com aqueles.

Advogando, junto ao Papa, a causa da punição dos hereges pode ser citado o próprio Rei Luiz VII, encontrando ele, porém, resistências por parte de Alexandre III.(6)

São Domingos de Gusmão preside auto-de-fé da Inquisição.  Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
São Domingos de Gusmão preside auto-de-fé da Inquisição.
Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
Até mesmo monarcas temporariamente em oposição à Igreja - como Felipe Augusto, da França - ou francamente hostis e excomungados - como Henrique II, da Inglaterra, responsável pelo martírio de São Tomás Becket - se puseram a perseguir, julgar e punir hereges, com a finalidade de manter a ordem civil em seus respectivos Estados

Dentre os Imperadores alemães, o péssimo Frederico Barbarroxa - que alimentou motins, expulsou o Papa de Roma, zombou das excomunhões e suscitou antipapas - bem como seu neto, Frederico II de Hohenstaufen –– dificilmente igualável em ambição e maldade, ele mesmo excomungado –– foram dos mais aguerridos perseguidores dos hereges.(7)

Foi mesmo este último que, no século XIII, decretou pela primeira vez a morte dos hereges na fogueira.(8)

Compreende-se, pois, perfeitamente, a quantos abusos o exercício desta indispensável tarefa –– qual seja, a preservação da ordem pública –– se prestava quando executada unicamente pelas autoridades civis.(9)

Como poderiam estas últimas, sem a dignidade eclesiástica e os estudos necessários, emitir retamente juízos em matéria de fé e moral?

Em muitos casos, aqueles juízos ocultavam meras vinganças contra inimigos pessoais dos príncipes.

Foi justamente com o fim de coibir semelhantes abusos que a Santa Sé reivindicou para a Igreja a exclusividade do julgamento dos hereges. Nasceram assim os Tribunais da Inquisição.

Primeiramente, a Santa Sé recomendou aos bispos que, diretamente ou através de legados, se incumbissem de tal tarefa, colaborando desta forma com o poder temporal.

Posteriormente a própria Santa Sé assumiu a direção geral da Inquisição, através de legados especiais, inquisidores, por ela nomeados, revestidos de poderes especiais e devendo atuar em íntima colaboração com os ordinários e com as autoridades temporais.

Sucessivos regulamentos foram sendo elaborados por bispos e inquisidores, tendo por objetivo estabelecer procedimentos afins com a justiça e a caridade.

Foi o Papa Gregório IX que, através de uma bula de 20 de abril de 1233, estabeleceu os últimos delineamentos da Inquisição Medieval, confiando-a preferencialmente à Ordem de São Domingos. Posteriormente também à de São Francisco.

Consciente de que sua missão primordial é a salvação das almas, a Igreja, na direção da Inquisição, buscava antes de tudo o arrependimento e a conversão dos hereges.

Ou pelo a cessação de seu proselitismo subversivo, tendo em vista preservar os fiéis dos males da heresia. Nessas condições, nunca o réu era entregue ao poder civil - "braço secular", segundo a expressão corrente - para a execução da pena. A Igreja, maternalmente, os tomava sob sua proteção.

Auto-de-Fé na Plaza Mayor, Madri. Francisco Ricci (1608 - 1685). Museu del Prado, Madri.
Auto-de-Fé na Plaza Mayor, Madri. Francisco Ricci (1608 - 1685). Museu del Prado, Madri.
Apenas os hereges "contumazes" e nocivos à ordem pública eram entregues ao "braço secular". O Estado então executava a sentença, quase sempre de morte na fogueira.

Como se vê, a aplicação da pena capital aos hereges "contumazes" sempre esteve a cargo do poder civil, e disso nunca se ocupou a Igreja.

Histórica e cronologicamente distinta da Inquisição Medieval foi a chamada Inquisição espanhola.

Nesta última, e já nos Tempos Modernos, Frei Tomás de Torquemada atuou como inquisidor para os reinos de Castela e Leão em fins do século XV, sendo nomeado para tal função em fevereiro de 14821.(10)

Ora, a historiografia costuma apresentar como principais marcos históricos, indicativos do fim da era medieval e início da época moderna, a. tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453, ou a invenção da imprensa por Guttenberg em 1445

Um exemplo pouco conhecido: o Tribunal da Inquisição foi o único na História em que à virtude da Justiça veio aliar-se a da misericórdia.

NOTAS
1. Cfr. Jean Guiraud. Inquisition Médievale, Bernard Grasset, Paris. 1923, pp 70 e ss., William Thomas Walsh Personajes de la Inquisición, Espasa Calpe S/A, Madrid, 1948, p.50.
2. Cfr. Lea, A Hislory of lhe bU/uisilioll ill lhe Middle Ages. I. p. 106, aplld. W. T. Walsh, op. cit., p.54-55.
3. Cfr. jean Guiraud, 01'. cit, pr. 72 c S5. 4 crI'. W. T. Walsh. op. cit., p. 50.
5. Cfr. Pe. Rohrbacher. Histoire Universelle de l'Église Calholique. Gaume Frères, Libraries. Paris. 1844. tomo XI, pp. 413-114.
6. Cfr. Jean Guiraud. op. cit., pp. 74-76.
7. Cfr. W. T. Walsh. op. cit, pr. 62-65.
8. Cfr. Bernardino Loca S.J . Manual de Historia Eclesiástica. Editorial Labor, Barcelona, 1942, pp. 418-419; Emanuel Barbier, Histoire Populaire de l'Église. Pe. Lethielleux, Paris, 1922.2ª parte, tomo II,. p. 92.
9. Cfr.. Jean Guiraud. op. cit., pp. 76 e ss.
10. Cfr. W. T. Walsh, op. cit., p. 184.


Original publicado em CATOLICISMO, novembro 1993
.


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domingo, 4 de junho de 2023

Idade Média: era de grandes descobertas geográficas

Lenda irlandesa conta que São Brendano
e seus monges chegaram a América.
Colombo queria encontrar a "terra de São Brendano".
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No domínio da exploração e dos conhecimentos geográficos, a atividade não foi menor.

É um erro, mais do que uma injustiça, fazer remontar apenas ao Renascimento a época das grandes viagens.

A descoberta da América fez esquecer que a curiosidade dos geógrafos e exploradores da Idade Média em relação ao Oriente não havia sido menor do que a dos seus sucessores em relação ao Ocidente.

Desde os primórdios do século XII, Benjamim de Toledo tinha ido até à Índia. Cerca de cem anos mais tarde, Odéric de Pordenone atingia o Tibete.

As viagens de Marco Polo, bem como outras menos conhecidas — as de Jean du Plan-Carpin, Guillaume de Rubruquis, André de Longjumeau, Jean de Béthencourt — bastam para dar ideia da atividade desenvolvida nessa época para a descoberta da Terra.

A Ásia e a África eram então infinitamente mais bem conhecidas do que o foram a seguir.

São Luís estabeleceu relações com o khan (imperador) dos mongóis e também com o Velho da Montanha, o terrível senhor da seita dos assassinos.

A viagem de Marco Polo (1254 – 1324) ficou célebre.
Desde 1329 era estabelecido em Colombo, no sul da Índia, um bispado que recebeu por titular o dominicano Jourdain Cathala de Séverac.

As cruzadas haviam sido, para o mundo ocidental, ocasião de estabelecer e manter contato com o Oriente Próximo.

Mas, na realidade as relações nunca haviam cessado completamente, alimentadas como eram pelos peregrinos e pelos mercadores.

Em direção à África, as explorações estenderam-se até à Abissínia e às margens do Níger, que foi alcançado no princípio do século XV por Anselmo Ysalguier, um burguês de Toulouse.

Seria certo que a América não foi visitada já desde essa época, se não mesmo “descoberta”?

É um fato certo que os vikings tinham atravessado o Atlântico Norte e estabelecido relações regulares com a Groenlândia.

Capela medieval na Groenlândia (reconstrução histórica)
Aí se estabeleceram islandeses, aí se instituiu um bispado, e em 1327 os groenlandeses respondiam ao apelo do papa João XXII à cruzada, enviando-lhe como participação nas despesas um carregamento de peles de focas e de dentes de morsas.

Não é impossível que a partir dessa época tenham explorado uma parte do Canadá e remontado o rio São Lourenço.

Ali, Jacques Cartier haveria de descobrir com estupor, alguns séculos mais tarde, que os índios faziam o sinal da cruz e declaravam que o tinham aprendido dos seus antepassados.

Nada disto é tão espantoso, se considerarmos que por intermédio dos árabes a Idade Média se encontrava em relações pelo menos indiretas com a Índia e a China, e se beneficiava igualmente dos seus conhecimentos astronômicos e geográficos.

Um planisfério datado de 1413, traçado por Mecia de Viladestet e conservado na Biblioteca Nacional da França, dá a nomenclatura e a situação exata das estradas e dos oásis saarianos, em toda a extensão do deserto e até Tombuctu.

Nesse imenso espaço, que até meados do século XIX iria permanecer em branco nos nossos mapas, um viajante da Idade Média podia preparar com precisão o seu itinerário e saber quais iriam ser as etapas do seu percurso do Atlas ao Níger.

Contato e comércio com culturas e regiões longínquas
Outras tantas causas atuaram diretamente sobre as relações da Europa com o Oriente, e por ricochete sobre as ciências geográficas: os desastres da Guerra dos Cem Anos, o cisma do Oriente, e mais tarde a ruptura com o Islã e as invasões turcas.

É preciso acrescentar que, ao contrário do que se crê, os sábios do Renascimento manifestam um espírito retrógrado em relação aos seus antecessores, ao transferirem a base dos seus estudos para as obras da Antiguidade.

A este respeito, ver o artigo muito pertinente e muito documentado de R.P. Lecler, La Géographie des humanistes, no primeiro número da revista Construire (1940).

Aristóteles e Ptolomeu tinham sido largamente ultrapassados neste domínio, e privar-se das lições da experiência para regressar às suas teorias era privar-se de todo um conjunto de aquisições pouco a pouco reconquistadas pela época moderna, prestando justiça, ainda neste ponto, à ciência medieval.


(autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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domingo, 28 de maio de 2023

O mundo moderno redescobre a paz na Idade Média

Casamento de Carlos IV e Maria de Luxemburgo. Grandes Chroniques de France. BNF.
Casamento de Carlos IV e Maria de Luxemburgo.
Grandes Chroniques de France. BNF.
Luis Dufaur
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Quase todos nós aprendemos na escola que a Idade Média foi uma época de mil anos de trevas e de fanatismo religioso, sem nada digno de ser mencionado nos séculos seguintes.

E não nos damos ao trabalho de estudar as obras, as instituições, a arquitetura, a vida de família e, sobretudo, a profunda religiosidade, que a tornaram insuperável.

Segundo o prestigioso jornal “Economist”, isso começa a mudar:

“Desde os ataques de 11 de setembro, a direita norte-americana desenvolveu um fascínio pela Idade Média e pela Renascença em particular, com a ideia do Ocidente como uma civilização que estava se defendendo de um desafio do Oriente.

“Essa tendência tem sido estimulada pela descoberta do movimento de suas contrapartes europeias que usavam imagens medievais e de cruzados desde o século XIX.”

Para o jornal, alguns exemplos disso são o frequente aparecimento e as ilustrações de cruzados revestidos de capacete e que bradam o grito de guerra Deus vult!

Diz ainda:

“Os jornais e sites contrários ao islamismo se nomeiam segundo o rei franco Charles Martel, que lutou contra exércitos muçulmanos no século VIII, ou a derrota otomana (levemente pós-medieval) em Viena”,

enquanto “milhões de outros [...] são atraídos pela era medieval, de que são testemunhos a popularidade de reconstituições renascentistas ou as fantasias medievais de inspiração, como Game of Thrones”.

Cortejo histórico em Pisa, Itália.
Cortejo histórico em Pisa, Itália.
A esse respeito, o também muito conceituado site do “National Catholic Register” publica uma entrevista com o especialista da Idade Média, Andrew Willard Jones.

Ele é professor de história da Igreja, teologia e doutrina social na Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio. Em seu novo livro Diante da Igreja e do Estado: um estudo da ordem social no reino sacramental de São Luís IX, traz considerações acerca de verdades esquecidas e frequentemente negadas sobre a Idade Média, a qual foi chamada de “A doce primavera da Fé” por Montalembert.

Respondendo a uma pergunta sobre o que o levou a escrever seu livro, ele explica:

“Eu estava estudando o papado do século XIII. E fui inspirado pelo que estava lendo.

“Era todo um mundo que não havia sido ainda investigado [...]. Somos abençoados na história medieval.

“Eles [os medievais] tinham se avantajado nas operações de escrita de cartas.

“Havia cartas e manuscritos papais. [...] É um tesouro de registros da Corte, de registros monárquicos e de crônicas”.

Por isso, Jones afirma:

“A Idade Média tem um papel na história do mundo moderno. Nós tendemos a vê-la como um mundo obscuro, de dogma e opressão, pelo que só agora entendemos o que significa liberdade.”

O escritor faz então esta afirmação tantas vezes já repetida:

Castelo Sforza, Milão.
Castelo Sforza, Milão.
“A visão da Idade Média como um período sombrio vem de um ceticismo moderno muito anticatólico.”

Para evitar equívocos, ele esclarece:

“Eu não romantizo excessivamente a Idade Média como uma utopia.”

Mas vê a era medieval como a de uma civilização sacramental e cristianizada. Pelo que afirma:

“Nós somos tendentes a imaginar o catolicismo como vida privada. O catolicismo pede uma civilização da caridade. A Idade Média pode nos ajudar a ver isso de novo.”

Hoje em dia se fala muito em igualdade. É um dogma do mundo moderno. Jones explica:

“A modernidade tem uma noção específica de igualdade. Ela vê a desigualdade [entre as pessoas] como fonte inerente de conflito e competição.

“No cristianismo, as desigualdades levam à paz. Nós vemos diferenças na família: elas se manifestam na busca do bem comum”.

E ainda:

“Eu usei o exemplo de um pai e um filho, dizendo que eles alcançam o bem comum através de diferentes papéis.”

Quer dizer, as diferenças entre ambos os fazem se complementar e completar-se, o que é muito diferente do jargão esquerdista.

Palácio do Tau, onde os futuros reis da França se preparavam para sagração, Reims
Palácio do Tau, onde os futuros reis da França se preparavam para sagração, Reims
Jones afirma:

“No mundo moderno, se entende por paz fazer compromissos, enquanto na Idade Média a paz se obtinha pelo modo de lidar com as diferenças de maneira adequada e caridosa.

“Enquanto os modernos veem [as desigualdades como] uma violação dos direitos, na Idade Média elas consistiam em se restabelecer as diferenças de modo pacífico.

“O mundo moderno é cético. Os medievais não tinham cinismo em relação à doação mútua.

“Por exemplo, há [hoje em dia] conflitos entre pai e filhos, porque não são propriamente diferentes. A mesmice é uma fonte de conflito.

“Somente essa ideia seria proveitosa para a nossa sociedade meditar, quando considerarmos como a cultura popular se tornou infantilizada”.

O autor trata também em seu livro do tão difamado tema da Inquisição, abordando o tema da Inquisição Francesa do século XIII. Jones afirma:

“Há uma visão polêmica e anticatólica da Inquisição. Naquela época havia muito pouco interesse em saber o que as pessoas conservavam em suas mentes.

“O problema era se [na manifestação das ideias] havia rejeição da ordem social e se a heresia se tornava pública.

Pierrefonds sala da Caçada.
Pierrefonds sala da Caçada.
“Uma investigação poderia começar, não havia interesse em pegar ou enganar as pessoas.

“Na maioria das vezes, a penalidade era a correção.

“Temos nossa própria versão da Inquisição e da heresia com os mobs do Twitter”.

E conclui:

“Precisamos ampliar nossa imaginação. A tentativa moderna de um mundo sem Deus vai falhar. Haverá uma concepção cristã de ordem social, mas não o mesmo que a Idade Média [...].

“Meu livro visa afastar os leitores do mundo ao seu redor, e a procurar vê-lo a partir de um ponto de vista mais elevado [como foi o mundo medieval].

“Isso nos salva do desespero. As coisas mudam. A esperança é uma virtude. O bom e o verdadeiro vencerão”.

(Autor: Plinio Maria Solimeo, Blog da Família)




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