domingo, 21 de junho de 2015

Função social da caçada na Idade Média

Très Riches Heures du Duc de Berry, mês de agosto
Très Riches Heures du Duc de Berry, mês de agosto



O castelo tem muralhas, ameias e torres.

Na torre de menagem, a mais alta delas e de onde mais longe se vê o inimigo que se acerca, está a flâmula com o brasão de armas da família.

Um valo de água circunda o castelo para maior garantia. Há portas levadiças suspensas por correntes e correias muito fortes para o inimigo não entrar.

Logo ao pé do castelo começa a agricultura. Os camponeses estão plantando trigo, a vinha, e muitas outras coisas.

De repente se ouve um ladrar de cachorro e um toque de clarim. Os camponeses se olham entre si e sabem que um verdadeiro espetáculo vai aparecer.

Era um dos espetáculos, mas também uma das necessidades, da sociedade católica daquele tempo.

Baixa lentamente a ponte, e sai de dentro do castelo uma cavalgada.

São vinte cavalos, às vezes mais, lindamente ajaezados, cobertos com panos muito bordados, ostentando o brasão da família.



Tschachtlan Chronik. Berna, Suíça.
Tschachtlan Chronik. Berna, Suíça.
Sobre cada um desses cavalos vai montada uma pessoa da família.

No melhor dos cavalos vai o castelão.

Ao lado dele cavalga sentada à la amazona, sua mulher, e não sentada à la homem como hoje se faz.

É a dama do castelo. Atrás deles vai a alegre cavalgada dos jovens.

Os instrumentos tocam músicas de caça bonitas e as patas dos cavalos fazem o barulho característico sobre o madeirame da torre levadiça.

É a família que está passando para caçada.

A caçada era uma diversão de um gênero especial. Porque só se caçavam animais daninhos para a agricultura ou perigosos para o homem.

Ou, os animais que alimentam o homem, e prolongam portanto a vida humana.

Tudo gira em torno do homem, seja ele o nobre ou o plebeu que trabalha o campo. Todos se beneficiam.

Livro da Caça, matilha de javalis perigosos. Gaston Phebus
Pelos toques percebe-se ao longe se foi pego ou não foi pego um javali que mete medo a todos.

O javali perigoso para a castelã quando ela vai à cidadezinha para dar esmolas, para visitar, para conversar.

Como também é perigoso para a camponesa quando ela vai à paróquia para rezar ou em alguma pequena loja fazer uma compra.

A caçada ao javali visa o bem comum.

Livro da Caça, Caçada do cervo, Gaston Phebus
Há na caçada, portanto, uma colaboração social que para um tipo frívolo parece uma mera diversão.

Há a caça muito mais dramática ao cervo.

Animal tão bonito, tão delicado, com um olhar tão doce, tão inofensivo, tão rápido, mas que não sendo perigoso para o homem, é lhe delicioso.

E assim como um homem tem o direito de colher uma flor quando ela está em sua plena expansão para levá-la à capela de sua casa ou a um vaso de sua residência, assim ele também tem o direito de matar um cervo para comê-lo.

Feita a caçada, em geral o que se matou é muito mais abundante do que as necessidades do castelo.

Então se organiza uma distribuição gratuita a todo vilarejo daquilo que foi caçado.

Livro da Caça, a refeição geral final, Gaston Phebus
Livro da Caça, a refeição geral final, Gaston Phebus
É a hora da culinária, dos cozinheiros e das cozinheiras, e é hora dos que comem. A caçada está paga.

Os medievais não tinham televisão, mas viver com os olhos postos na feeria da vida do castelo, contarem uns para os outros as últimas novidades do castelo, da filha do castelão que está noiva do filho do castelão tal outro, e que o casamento quando será?, etc.

Tudo isto constituía o conjunto de novidades de que vivia a pequena população do castelo.



AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

Um comentário:

Maria das Graças disse...

Interessante!
Tudo muito orgânico!

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