domingo, 12 de novembro de 2017

Ordenadas pela lógica floresceram ciências como a mecânica, as matemáticas, a física e a astronomia

Estudo de D. Grosseteste sobre a refração da luz, século XIII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A primeira metade do século XIV viu o trabalho científico de grandes pensadores. Inspirado em Duns Scot, William de Occam entendia que a filosofia só deveria tratar de temas sobre os quais ela pudesse obter um conhecimento real.

Seus estudos em lógica levaram-no a defender o princípio hoje chamado de Navalha de Occam: se há várias explicações igualmente válidas para um fato, então devemos escolher a mais simples. Isso deveria levar a um declínio em debates infrutíferos e mover a filosofia natural em direção ao que hoje é considerado Ciência.

Nessa altura, acadêmicos como Jean Buridan e Nicole d'Oresme começaram a questionar aspectos da mecânica aristotélica.

Em particular, Buridan desenvolveu a teoria do ímpeto, que explicava o movimento de projéteis e foi o primeiro passo em direção ao moderno conceito de inércia. Buridan antecipou Isaac Newton quando escreveu:

...depois de deixar o braço do arremessador, o projétil seria movido por um ímpeto dado a ele pelo arremessador e continuaria a ser movido enquanto esse ímpeto permanecesse mais forte que a resistência. Esse movimento seria de duração infinita caso não fosse diminuído e corrompido por uma força contrária resistindo a ele, ou por algo inclinando o objeto para um movimento contrário.

Nessa mesma época, os denominados Calculatores de Merton College, de Oxford, elaboraram o Teorema da velocidade média.

Expositio in Aristotelis por Johannes Buridan
Usando uma linguagem simplificada, este teorema estabelece que um corpo em movimento uniformemente acelerado percorre, num determinado intervalo de tempo, o mesmo espaço que seria percorrido por um corpo que se deslocasse com velocidade constante e igual à velocidade média do primeiro. Mais tarde, esse teorema seria a base da “Lei da queda de corpos”, de Galileu.

Hoje sabemos que as principais propriedades cinemáticas do movimento retilíneo uniformemente variado (MRUV), que ainda são atribuídas a Galileu pelos textos de física, foram descobertas e provadas por esses acadêmicos.

Nicole d'Oresme, por sua vez, demonstrou que as razões propostas pela física Aristotélica contra o movimento do planeta Terra não eram válidas e invocou o argumento da simplicidade (da navalha de Occam) em favor da teoria de que é a Terra que se move, e não os corpos celestiais.

No geral, o argumento de Oresme a favor do movimento terrestre é mais explícito e bem mais claro do que o que foi dado séculos depois por Copérnico. Entre outras proezas, Oresme foi o descobridor da mudança de direção da luz através da refração atmosférica; embora, até hoje, o crédito por esse feito tenha sido dado à Robert Hooke.

Em 1348, a Peste Negra levou este período de intenso desenvolvimento científico a um fim repentino. A praga matou um terço da população européia. Por quase um século, novos focos da praga e outros desastres causaram contínuo decréscimo populacional. As áreas urbanas, geralmente o motor das inovações intelectuais, foram especialmente afetadas.

Cristianismo e o estudo da natureza

O pensamento de Santo Agostinho foi basilar ao orientar a visão do homem medieval sobre a relação entre a fé cristã e o estudo da natureza.

Ele reconhecia a importância do conhecimento, mas entendia que a fé em Cristo vinha restaurar a condição decaída da razão humana, sendo, portanto, mais importante.

Livre de la Chasse, BNF, Paris
Agostinho afirmava que a interpretação das escrituras deveria ser feita de acordo com os conhecimentos disponíveis, em cada época, sobre o mundo natural.

Escritos como sua interpretação “alegórica” do livro bíblico do gênesis vão influenciar fortemente a Igreja medieval, que terá uma visão mais interpretativa e menos literal dos textos sagrados.

Durante os tempos confusos da dissolução do Império Romano do Ocidente e dos primeiros séculos da Idade Média muito da cultura clássica se perdeu, mas o declínio cultural teria sido bem mais intenso não fosse pelo monasticismo, mais especificamente pela ação dos monges copistas.

É bem verdade que os textos em grego já não estavam mais acessíveis pelo esquecimento do idioma e que os escritos que passavam pelo trabalhoso processo de cópia manual eram selecionados de acordo com a importância dada a eles pelos religiosos.

A Igreja também esteve a cargo da estrutura educacional, ou, pelo menos, supervisionando a mesma. Quando Carlos Magno chamou o monge Alcuíno para elaborar uma reforma na educação européia, a Igreja ficou responsável tanto pelas escolas monacais quanto pelas escolas catedrais.

A maioria das universidades nos séculos XII e XIII surgiram precisamente de escolas ligadas às catedrais e funcionavam sob a proteção de jurisdição eclesiástica.

Com relação à investigação da natureza, que renasceu na Idade Média Clássica, já foi mencionada a importância das ordens religiosas mendicantes.
Alcuino, abade de York

Embora Bernardo de Claraval e alguns outros religiosos tenham chegado a desencorajar o estudo das ciências por entenderem que muitos buscavam esses conhecimentos por vaidade, seus pontos de vista jamais foram adotados.

A Inquisição estava presente, mas a Igreja concedia aos professores muita elasticidade em suas doutrinas e, em muitos casos, estimulou as investigações científicas.

Nas universidades, o campo da filosofia natural dispunha de grande liberdade intelectual, desde que restringisse suas especulações ao mundo natural.

Embora se esperassem retaliações e castigos caso os filósofos naturais passassem desse limite, os procedimentos disciplinares da Igreja eram voltados principalmente aos teólogos, que trabalhavam numa área bem mais perigosa.

Em geral, havia suporte religioso para a ciência natural e o reconhecimento de que esta era um importante fator no aprendizado.




AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

Um comentário:

Luis Dufaur disse...

Recebemos este e-mail que acreditamos ser de utilidade para todos os leitores deste blog, pois põe alguns conformes importantes:

Caro Luís, gostei de vossa iniciativa em criar um blog que mostra toda a glória da Idade Média, seu blog dignifica aquele período, os seus povos e todo o legado cultural medieval que possibilitou este mundo tecnológico e científico que a gente tem hoje, o vosso blog é mais uma heróica hoste contra toda a palhaçada pseudo-intelectual que a esquerda vem fazendo em nosso país, a começar por nossas universidades.

Ademais, não concordo muito quando você diz que no imperio romano a ciência não avançou muito: e quanto a Vitruvius Pollio, que é considerado o grande pai da Arquitetura? e quanto a Sêneca e a Cícero, que a própria Igreja Católica denominou acertadamente de "o pagão justo"?

Tudo bem que os antigos romanos não desenvolveram muito as ciências exatas, eles ficaram muito atrás dos gregos, mas eles produziram muitas coisas.

Cícero chegou a ser considerado um prenúncio da cristandade por um padre, pois algumas de suas mensagens em muito se assemelha às de Jesus!

E quanto ao Direito Romano?

Nem vou citar nomes como Virgílio e Ovídio, pois estes já fazem parte da área de artes.

TUDO DE BOM E, MAIS UMA VEZ, PARABÉNS PELO BLOG!

FANTASMA DO CAVALEIRO MEDIEVAL DE SANCTUS ANTONIUS LISBONENSIS

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