domingo, 18 de novembro de 2018

Distinções e atributos dos Lordes : títulos e coroas

Escudo do conde de Shrewsbury
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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O barão par da Inglaterra porta um diadema com seis pérolas.

A coroa começa no visconde. O visconde porta uma coroa com incontáveis pérolas; o conde, uma coroa de pérolas sobre pontas entremeadas com folhas de groselha, mais baixas; o marquês, pérolas e folhas de igual altura; o duque real, um círculo de cruzes e de flores de lis; o príncipe de Gales, uma coroa semelhante à do rei, mas não fechada.

O duque é ‘muito alto e muito poderoso príncipe’; o marquês e o conde, ‘muito nobre e poderoso senhor’; o visconde, ‘nobre e poderoso senhor’; o barão, ‘verdadeiramente senhor’.

O duque é ‘graça’; os outros pares são ‘senhoria’.

Os lordes são invioláveis.

Os pares são câmara e corte, ‘concilium et curia’, legislatura e justiça.

‘Most honourable’ é mais do que ‘right honourable’.

Os lordes pares são qualificados de ‘lordes de direito’; os lordes não pares são ‘lordes de cortesia’; não há, pois, lordes propriamente a não ser os pares.

Escudo de Beaufort
Escudo de Beaufort
O lorde nunca presta juramento ao rei ou à justiça. Sua palavra basta. Ele diz: ‘por minha honra’.

As comunas, convocadas à barreira dos lordes, apresentam-se humildemente, cabeça descoberta, diante dos pares cobertos.

As comunas enviam aos lordes os ‘bills’ (projetos de lei) por quarenta membros, que apresentam o ‘bill’ com três reverências profundas.

Os lordes enviam às comunas os ‘bills’ por meio de um simples funcionário.

Em caso de conflito, as duas câmaras conferenciam dentro da câmara pintada, os pares sentados e cobertos, as comunas em pé de cabeça descoberta.

Os barões têm o mesmo rango que os bispos.

Para ser barão par, é preciso ser vassalo do rei ‘per baroniam integram’, por baronia inteira.

A sede da baronia, ‘caput baroniae’, é um castelo hereditariamente regido como o é a própria Inglaterra; ou seja, não pode ser transferido às filhas a não ser por falta de descendentes varões, e nesse caso passa para a filha primogênita, ‘caeteris filiabus aliunde satisfactis’ (prover-se-á às outras filhas como se puder.).

Os barões têm a qualidade de ‘lord’, do saxão ‘laford’, do latim culto ‘dominus’ e do baixo latim ‘lordus’.

Os filhos primogênitos e segundos dos viscondes e barões são os primeiros escudeiros do reino.

Os filhos primogênitos dos pares têm a precedência sobre os cavaleiros da Jarreteira; os segundos, não.

O filho primogênito de um visconde vai detrás de todos os barões e na frente de todos os baronetes.

Toda filha de lorde é ‘lady’. As outras senhoritas inglesas são ‘miss’.

Todos os juízes são inferiores aos pares. O oficial de justiça tem um capuz de pele de cordeiro; o juiz tem um capuz de ‘menu vair’ (Pele de coloração cinza claro; algumas vezes branca com partes acinzentadas.), ‘de minuto vario’, numerosas pequenas peles brancas de toda sorte, fora o arminho. O arminho está reservado para os pares e o rei.

Escudo real inglês
Um lorde não pode ser preso. A não ser na Torre de Londres.

Um lorde chamado junto ao rei tem o direito de caçar um gamo ou dois no parque real.

O lorde mantém no seu castelo corte de barão.

É indigno de um lorde andar pelas ruas com um manto seguido de dois lacaios. Ele somente pode ser visto com um grande séqüito de gentilhomens domésticos.

Os pares dirigem-se ao parlamento em carruagens; os comuns, não. Alguns pares vão a Westminster em liteiras. A forma dessas liteiras e carruagens com brasões gravados e coroadas somente é permitida aos lordes e faz parte de sua dignidade.

Um lorde somente pode ser multado por lordes.

Um lorde pode ter em casa seis estrangeiros. Os outros ingleses só podem ter quatro.

Um lorde pode ter oito tonéis de vinho sem pagar impostos.

O lorde é o único isento de se apresentar ante o delegado de sua circunscrição.

O lorde não pode ser convocado para a milícia.

Escudo da familia De Mowbray, barões de Melton
Quando apraz a um lorde, ele recruta um regimento e o dá ao rei; assim fazem Suas Graças o duque de Athol, o duque de Hamilton e o duque de Northumberland.

O lorde somente depende dos lordes. Nos processos de interesse civil, ele pode pedir adiamento da sua causa, se não houver pelo menos um cavaleiro entre os juízes.

O lorde nomeia seus capelães.

Um barão nomeia três capelães; um visconde, quatro; um conde e um marquês, cinco; um duque, seis.

Um duque faz-se acompanhar por um pálio onde quer que o rei não esteja presente; um visconde tem um pálio na sua casa.

Um plebeu que bate num lorde terá o punho cortado.

O lorde é quase rei. O rei é quase divino.

A terra é uma ‘lordship’.

Os ingleses chamam a Deus de ‘milord’.

(Fonte: Victor Hugo, “L’homme qui rit”, Flammarion, Paris, 1982, pp. 58 a 61, Tomo I)



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domingo, 11 de novembro de 2018

Como era uma "Canção de Cruzada"?

Batalha das Navas de Tolosa, episódio eminente da Reconquista da Espanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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A Canção de Cruzada traduzida e reproduzida a continuação foi composta para encorajar os cristãos a participar na campanha contra a invasão islâmica da Espanha.

A cruzada resultante deu na grande vitória de Las Navas de Tolosa em 1212.

Foi composta após a derrota de Alarcos (19 de julho de 1195) e do avanço dos almohades de Abu Yusuf na península ibérica. O autor Gavaudan (1195-1215) foi um trovador-soldado das cortes de Tolosa e posteriormente em Castela.

Senhores, por causa dos nossos pecados cresce a força dos sarracenos; Saladino tomou Jerusalém (em 1187) e a cidade ainda não foi recuperada.

O rei de Marrocos fez-nos saber que combaterá contra todos os reis cristãos com seus pérfidos andaluzes e árabes, armados contra a fé de Cristo.

Ele convocou a todos os alcaides (governadores de fortalezas), almofades, mouros, godos e bereberés, e não queda homem forte nem débil que não tenha se reunido a todos eles.

Nunca uma chuva tão torrencial fez tanto dano como quando eles passam e se apossam dos prados. Eles devastam como ovelhas que não deixam nem broto nem raiz.

Seus escolhidos têm tanto orgulho que acham que submeterão o mundo todo. Marroquinos e almorávides instalam-se nos morros e nos vales.

Fanfarreiam entre eles: “¡Francos, afastai-vos! Nossas são a Provença e o Tolosanés e tudo que há até o Puy.”

Nunca se ouviu uma bazófia tão feroz nesses cães falsos, malditos sem fé.

Ouvi vós, imperador (Enrique IV, 1191-1197), rei da França (Felipe Augusto, 1180-1223), com vossos primos, o rei inglês (Ricardo Coração de Leão, 1189-1199), e o conde de Poitiers: socorrei ao rei da Espanha.

Navas de Tolosa. A épica e decisiva carga do rei de Navarra contra a tenda do chefe sarraceno.
Que nunca ninguém pôde ter ficado tão perto de melhor servir a Deus. Com Ele vencereis todos os cães que Maomé enganou e os renegados apóstatas.

Jesus Cristo que veio pregar para que nosso fim seja bom, Ele nos ensina que este é o reto caminho; pois, com a penitência será perdoado o pecado que vem de Adão (bula de Inocêncio III com indulgências de cruzada na campanha que culminou com a grande vitória cristã de Las Navas de Tolosa), e quer nos dar certeza e segurança de que, se cremos n’Ele, Eles nos exaltará por cima dos que estão mais elevados, e será nosso guia contra os felões vis e falsos.

Posto que possuímos a grande Fé, não deixemos nossas herdades a mercê de cães negros ultramarinos. Que cada uno reflita antes de sofrermos prejuízo.

Portugueses, galegos, castelhanos, navarros, aragoneses e da Cerdenha ficaram como barreira mas eles os tem repelido e humilhado.

Quando vejam os barões cruzados: alemães, franceses, de Cambray, ingleses, bretões, angevinos, bearneses e gascões, misturados com nós e os provençais todos numa só multidão, podereis estar certos que, com os hispanos quebraremos o ímpeto da invasão e cortar-lhe-emos a cabeça e as mãos até deixar mortos e aniquilados a todos. Depois, repartir-se-á entre nós todo o ouro.

Gavaudan será profeta de que acontecerá o que eu tenho dito.

Morram os cães! E Deus será honrado e servido onde Bafoma era reverenciado.


Vídeo: Canção de Cruzada: por causa dos nossos pecados






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domingo, 4 de novembro de 2018

A Igreja medieval não inventou a perseguição aos hereges

São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.  Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
São Domingos de Gusmão queima livros com heresias cátaras.
Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Desde os primórdios do Cristianismo houve, da parte de potentados temporais, a aplicação de medidas punitivas contra hereges.(1)

Isso porque, quer no Império Romano cristão do Ocidente, quer no Bizantino, e sobretudo nas nações cristãs que foram compondo a Cristandade Medieval, a Religião Católica, sua moral, suas leis e doutrinas respondiam em muito larga medida pela urbanização e sustentação da ordem civil.(2)

Isto não era novidade. Era um conceito comum em toda a Antiguidade. E nas civilizações pagãs, inclusive as menos decadentes punham em prática esse critério com largas doses de abuso e crueldade.

A heresia afigurava-se, pois, frequentes vezes, como uma séria ameaça à ordem civil estabelecida.

Tanto mais quanto quase todas as heresias, que assolaram a Igreja e a Cristandade naqueles séculos, revestiam-se de um caráter nitidamente anarquista e anti-social.(3)

Foi assim que a iniciativa da perseguição - com o fim de aplicação de penas temporais - aos hereges não partiu da Igreja, mas da sociedade civil.

Alguns dos últimos Imperadores romanos - antes da Idade Média, portanto - desterravam hereges, confiscavam-lhes os bens, mas, via de regra, só aplicavam a pena capital aos culpados de atos de violência contra os cristãos.(4)

A ameaça à ordem civil nas nações cristãs da Idade Média, representada pelas heresias, levou muitos monarcas a tomar a iniciativa de perseguir os hereges. Notadamente as heresias neomaniquéias que se desenvolveram no sul da França, nos séculos XII e XIII - os albigenses que assolaram progressivamente quase toda a Cristandade, puseram em contínuo sobressalto reis e imperadores.(5)

Vemos, pois, um Roberto o Piedoso, Rei da França, que, no século XI, solicita insistentemente ao Papa medidas punitivas contra os hereges.

Temos ainda, no século XII, Henrique, Arcebispo de Reims e irmão do Rei da França, Luiz VII, que, por instâncias deste último, se apressa a perseguir os hereges cátaros.

São os próprios hereges que apelam ao Papa e dão motivo a uma carta de Alexandre III ao Arcebispo de Reims, recomendando-lhe doçura e clemência para com aqueles.

Advogando, junto ao Papa, a causa da punição dos hereges pode ser citado o próprio Rei Luiz VII, encontrando ele, porém, resistências por parte de Alexandre III.(6)

São Domingos de Gusmão preside auto-de-fé da Inquisição.  Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
São Domingos de Gusmão preside auto-de-fé da Inquisição.
Pedro Berruguete (1450 - 1504), Museu do Prado, Madri.
Até mesmo monarcas temporariamente em oposição à Igreja - como Felipe Augusto, da França - ou francamente hostis e excomungados - como Henrique II, da Inglaterra, responsável pelo martírio de São Tomás Becket - se puseram a perseguir, julgar e punir hereges, com a finalidade de manter a ordem civil em seus respectivos Estados

Dentre os Imperadores alemães, o péssimo Frederico Barbarroxa - que alimentou motins, expulsou o Papa de Roma, zombou das excomunhões e suscitou antipapas - bem como seu neto, Frederico II de Hohenstaufen –– dificilmente igualável em ambição e maldade, ele mesmo excomungado –– foram dos mais aguerridos perseguidores dos hereges.(7)

Foi mesmo este último que, no século XIII, decretou pela primeira vez a morte dos hereges na fogueira.(8)

Compreende-se, pois, perfeitamente, a quantos abusos o exercício desta indispensável tarefa –– qual seja, a preservação da ordem pública –– se prestava quando executada unicamente pelas autoridades civis.(9)

Como poderiam estas últimas, sem a dignidade eclesiástica e os estudos necessários, emitir retamente juízos em matéria de fé e moral?

Em muitos casos, aqueles juízos ocultavam meras vinganças contra inimigos pessoais dos príncipes.

Foi justamente com o fim de coibir semelhantes abusos que a Santa Sé reivindicou para a Igreja a exclusividade do julgamento dos hereges. Nasceram assim os Tribunais da Inquisição.

Primeiramente, a Santa Sé recomendou aos bispos que, diretamente ou através de legados, se incumbissem de tal tarefa, colaborando desta forma com o poder temporal.

Posteriormente a própria Santa Sé assumiu a direção geral da Inquisição, através de legados especiais, inquisidores, por ela nomeados, revestidos de poderes especiais e devendo atuar em íntima colaboração com os ordinários e com as autoridades temporais.

Sucessivos regulamentos foram sendo elaborados por bispos e inquisidores, tendo por objetivo estabelecer procedimentos afins com a justiça e a caridade.

Foi o Papa Gregório IX que, através de uma bula de 20 de abril de 1233, estabeleceu os últimos delineamentos da Inquisição Medieval, confiando-a preferencialmente à Ordem de São Domingos. Posteriormente também à de São Francisco.

Consciente de que sua missão primordial é a salvação das almas, a Igreja, na direção da Inquisição, buscava antes de tudo o arrependimento e a conversão dos hereges.

Ou pelo a cessação de seu proselitismo subversivo, tendo em vista preservar os fiéis dos males da heresia. Nessas condições, nunca o réu era entregue ao poder civil - "braço secular", segundo a expressão corrente - para a execução da pena. A Igreja, maternalmente, os tomava sob sua proteção.

Auto-de-Fé na Plaza Mayor, Madri. Francisco Ricci (1608 - 1685). Museu del Prado, Madri.
Auto-de-Fé na Plaza Mayor, Madri. Francisco Ricci (1608 - 1685). Museu del Prado, Madri.
Apenas os hereges "contumazes" e nocivos à ordem pública eram entregues ao "braço secular". O Estado então executava a sentença, quase sempre de morte na fogueira.

Como se vê, a aplicação da pena capital aos hereges "contumazes" sempre esteve a cargo do poder civil, e disso nunca se ocupou a Igreja.

Histórica e cronologicamente distinta da Inquisição Medieval foi a chamada Inquisição espanhola.

Nesta última, e já nos Tempos Modernos, Frei Tomás de Torquemada atuou como inquisidor para os reinos de Castela e Leão em fins do século XV, sendo nomeado para tal função em fevereiro de 14821.(10)

Ora, a historiografia costuma apresentar como principais marcos históricos, indicativos do fim da era medieval e início da época moderna, a. tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453, ou a invenção da imprensa por Guttenberg em 1445

Um exemplo pouco conhecido: o Tribunal da Inquisição foi o único na História em que à virtude da Justiça veio aliar-se a da misericórdia.

NOTAS
1. Cfr. Jean Guiraud. Inquisition Médievale, Bernard Grasset, Paris. 1923, pp 70 e ss., William Thomas Walsh Personajes de la Inquisición, Espasa Calpe S/A, Madrid, 1948, p.50.
2. Cfr. Lea, A Hislory of lhe bU/uisilioll ill lhe Middle Ages. I. p. 106, aplld. W. T. Walsh, op. cit., p.54-55.
3. Cfr. jean Guiraud, 01'. cit, pr. 72 c S5. 4 crI'. W. T. Walsh. op. cit., p. 50.
5. Cfr. Pe. Rohrbacher. Histoire Universelle de l'Église Calholique. Gaume Frères, Libraries. Paris. 1844. tomo XI, pp. 413-114.
6. Cfr. Jean Guiraud. op. cit., pp. 74-76.
7. Cfr. W. T. Walsh. op. cit, pr. 62-65.
8. Cfr. Bernardino Loca S.J . Manual de Historia Eclesiástica. Editorial Labor, Barcelona, 1942, pp. 418-419; Emanuel Barbier, Histoire Populaire de l'Église. Pe. Lethielleux, Paris, 1922.2ª parte, tomo II,. p. 92.
9. Cfr.. Jean Guiraud. op. cit., pp. 76 e ss.
10. Cfr. W. T. Walsh, op. cit., p. 184.


Original publicado em CATOLICISMO, novembro 1993
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