domingo, 13 de novembro de 2022

Moeda medieval, a mais estável em séculos


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No dia de hoje os jornais anunciam que o real e o peso argentino se desvalorizam ou oscilam face ao dólar. Em décadas mudavam para cima ou para abaixo.

O euro se desvaloriza face à moeda americana, mas até pouco todos clamavam que o euro estava nas nuvens.

Nos EUA não para o berreiro contra o dólar que eles acham "débil", mas Washington gosta assim mesmo.

Na Europa o euro "forte" arrebenta a competitividade das empresas. Xinga-se o yuan chinês supervalorizada, esperneia-se contra o yen japonês.

A ciranda universal não sossega nem para cima nem para baixo, nem na estabilidade.

Amanhã mídia e especialistas falarão o contrário de hoje. E depois de amanhã o contrário do contrário, enquanto correm trilhões de um mercado a outro como fluxos de lava furiosa. Ninguém acha um investimento rentável sossegado.

Entretanto, houve ao menos uma moeda que varou os séculos nimbada de prestigio: o luis de ouro medieval!

São Luís IX, Rei da França, viveu no século XIII e alcançou tal prestígio, que até hoje se encontram com facilidade moedas de ouro cunhadas com sua efígie, sempre bem cotadas.

O povo as respeitava e guardava como se fossem medalhas religiosas, quase como relíquias! Por isso ainda há em abundância.

O reinado do soberano cruzado, contudo, teve lugar há 700 anos!




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domingo, 23 de outubro de 2022

Os filhos de São Bento

São Bento entrega a Regra a São Mauro, Glória da Idade Média
São Bento entrega a Regra a seus monges
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Os resultados da obra de São Bento foram imensos. Tanto em vida como depois de sua morte, multidões de filhos das mais nobres raças da Itália e a elite dos bárbaros convertidos acorrem a Monte Cassino.

Depois eles daí saem, e descem para se espalhar por todo o Ocidente: missionários e trabalhadores, que virão logo a ser os doutores e os pontífices, os artistas e os fundadores de instituições, os historiadores e os poetas da nova sociedade.

São Bento, Lisieux, Glória da Idade Média
São Bento, imagem em Lisieux
Eles vão propagar a paz e a Fé, a luz e a vida, a liberdade e a caridade, a ciência e a arte, a palavra de Deus e o gênio do homem, as Santas Escrituras e as obras de arte, no meio das províncias desesperadas do império destruído, e até o fundo daquelas regiões selvagens que, a grande custo, se conseguiram salvar da destruição dos bárbaros.

Menos de um século depois da morte de São Bento, tudo o que a barbárie havia conquistado sobre a civilização é reconquistado.

Além disso, esses filhos de São Bento se apressam a ir pregar o Evangelho até em rincões nos quais os primeiros discípulos de Cristo não puderam chegar.

Depois da Itália, Gália e Espanha retomadas do inimigo, a Grã-Bretanha, a Germânia e a Escandinávia vão ser uma a uma invadidas, conquistadas e incorporadas à Cristandade.

O Ocidente está salvo. Um novo império é fundado. Um novo mundo começa.

Vinde agora, ó bárbaros! A Igreja nada tem a vos temer.

Reinai onde quiserdes, a civilização não fugirá de vós. Antes, sois vós que defendereis a Igreja e refareis a civilização.

Vós vencestes tudo, conquistastes tudo, revirastes tudo.

Sereis por vossa vez vencidos, conquistados e transformados.

Já nasceram os homens que serão vossos mestres.

Eles tomarão vossos filhos, e até filhos de reis, para os juntar a seu exército.

Tomarão vossas filhas, vossas rainhas, vossas princesas, para as prender em seus monastérios.

Mosteiro de St-Benoît-sur-Loire onde repousam os restos do Patriarca da Cristandade.
Mosteiro de St-Benoît-sur-Loire
onde repousam os restos do Patriarca da Cristandade.
A obra não será curta nem fácil. Mas eles chegarão à meta.

Eles dominarão os povos novos, mostrando-lhes o ideal da santidade, da grandeza, da força moral.

Eles os farão instrumentos do bem e da verdade.

Ajudados por esses vencedores de Roma (os bárbaros), eles levarão o império e as leis de uma nova Roma muito além das fronteiras que o senado fixou ou que os Césares imaginaram.

Eles irão vencer e benzer, lá onde não penetraram nem as águias romanas nem mesmo os apóstolos.

Eles serão os benfeitores de todas as nações modernas.

Serão vistos, ao lado dos tronos de Carlos Magno, de Alfredo, de Othon o grande, criarem com eles a realeza cristã e uma sociedade nova.

Enfim, eles subirão com São Gregório Magno e São Gregório VII até a Sé Apostólica, de onde presidirão, durante séculos de luta e de virtude, os destinos da Europa Católica e da Igreja.


(Fonte: Montalembert, “Les moines d’Occident” - 1878, t. II, p. 74)



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domingo, 16 de outubro de 2022

Abadias beneditinas: modelos de governo monárquico-aristocráticos-democráticos

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Continuação do post anterior: Desenvolvimento medieval guiado pela sabedoria monacal



Foi na sala do capítulo, durante as reuniões quotidianas, que nasceram alguns modelos de participação política e de organização do poder ainda em vigor.

O capítulo monástico foi, sem dúvida, o primeiro lugar do Ocidente em que regularmente, diariamente, se verificou a relação dos membros com a Regra, se controlou a respectiva aplicação, se inculcou o seu conteúdo, se reforçou a coesão do grupo.

Porque a vida dos religiosos decorre num regime de direito. 

Léo Moulin provou, em numerosos estudos, de que forma o estudo das regras e das constituições dos estabelecimentos religiosos é fundamental para a ciência política contemporânea, sublinhando alguns aspectos:

– o caráter misto do governo dos religiosos (monarquia, oligarquia e democracia); isto pelo papel respectivamente confiado ao abade, aos decanos do mosteiro e a toda a comunidade;

– a natureza e a originalidade da sua assembleia legislativa;

– a primazia do poder executivo, primazia essa temperada pela necessidade de esse poder executivo se inclinar perante votos colegiais;

– as origens religiosas das técnicas eleitorais modernas;

– o sistema, complexo e sofisticado, que presidia à eleição do abade (com a participação da “sanior et major pars”), etc.

Lembremos apenas isto: Cister funda a sua Assembleia Supranacional em 1115, habilitando-a a legislar, a modificar ou abrogar as leis, a interpretá-las.






Só o capítulo geral da Ordem, o Parliamentum, pode conceder dispensas e absolvições; esse capítulo elege o superior geral e os seus assistentes; pode destituí-los.

A Assembleia é a fonte de todos os poderes, a Summa Potestas. Isto, repito, em 1115, um século antes da Magna Carta e do seu embrião de regime parlamentar.

Realizações materiais eram consequência da vida religiosa.
Monges rezam em enterro, Huntington Catalog Images, f 192
Comparadas com esta forma elaborada de governo, com estas assembleias regulares submetidas a um código eleitoral e deliberativo extraordinariamente minucioso, as instituições municipais e reais do princípio do século XII parecem bastante toscas.

Tudo o que temos vindo a dizer foi lapidarmente resumido por Taine:

“Pelo seu trabalho inteligente, voluntário, executado em consciência e conduzido a pensar no futuro, o monge produz mais do que o leigo. Pelo seu regime, sóbrio, concentrado, econômico, o monge consome menos do que o leigo. É por isso que, aí onde o leigo tinha falhado, ele prospera.”





(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)


FIM

domingo, 9 de outubro de 2022

Desenvolvimento medieval guiado pela sabedoria monacal

Beneditinos na França
Beneditinos na França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: Requintes temporais frutos abençoados dos monges que renunciaram ao mundo



“Desbravadores, construtores, arquitectos, jardineiros, hortelãos, piscicultores, silvicultores, agricultores, criadores de coelhos, criadores de imensos rebanhos de carneiros (os cistercienses – não nos esqueçamos de que os cistercienses ingleses foram os primeiros a desenvolver as quintas destinadas à criação do carneiro e as redes de exportação da lã para o Continente), patrões de explorações agrícolas modelo, únicos mestres (eficazes) da assistência técnica, e isso durante séculos, os monges são por todo o lado, e senão na origem de tudo, pelo menos obreiros ativos do que será, um dia, a Europa.”
Antes de mais, como realizadores de modelos urbanos. “Vivemos como se fosse numa cidade”, exclama um deles num sermão do Advento.

É verdade, a abadia dos séculos XI e XII vai ser, como a cidade ocidental, um espaço totalmente novo, criado por homens cujo projeto é viverem nela uma vida de grupo mas também uma vida individual, diferente da vida que se faz cá fora, na sociedade com a qual romperam.





Tal como a cidade (e antes dela), a abadia é centrada: com numerosas vias de circulação, o seu espaço central vazio, correspondente à praça, é o local por excelência das trocas e da distribuição de funções, animadoras do conjunto, sistemática e racionalmente separadas e diferenciadas. À imagem da cidade, a abadia é uma entidade cercada através de um muro ritmado por portas.

Monges beneditinos trabalham os campos no sul da França
Monges beneditinos trabalham os campos no sul da França
Sem o terem procurado conscientemente, aí os temos pioneiros do desbravamento e arroteamento de terras, da drenagem de pântanos, da construção de barragens e diques; e percursores na utilização das novas energias (a madeira e a água), de que o Ocidente tinha tanta necessidade, estando como estava em plena expansão demográfica e urbana.

Era preciso conhecer melhor os monges “engenheiros hidráulicos”, nota D'Haenens.

Há realizações monumentais célebres: o plano de 1167, no Saltério do Trinity College, em Cambridge, com a rede de canalizações de água em Canterbury; o “hino à água” de um monge de Claraval no século XIII; a rede de esgotos de Villers-la-Ville; o aqueduto suspenso de Obazine (final do século XII); a água corrente em todas as celas, desde o século XII, na Grande Chartreuse.

Os monges lavavam as mãos antes das refeições, e todas as sextas-feiras o abade ou o prior lavavam os pés aos outros monges, como Cristo fizera aos apóstolos antes da última ceia.

Monjas beneditinas em região de desmatamento continuam a tradição inicida na Idade Média.  Foto da primeira metade do século XX, em Montana, EUA
Monjas beneditinas em região de desmatamento
continuam a tradição iniciada na Idade Média.
Foto da primeira metade do século XX, em Montana, EUA
Por isso, habitualmente a canalização servia em primeiro lugar a enfermaria, depois a fonte do claustro e só depois a cozinha.

Sabe-se também que os cistercienses estiveram entre os primeiros a utilizar o martelo hidráulico.

Em Pontigny, a queda de água da levada que os monges fizeram no século XII desenvolvia tão grande força motriz que, ainda em 1800, alimentava três rodas hidráulicas.

Mas as realizações hidráulicas dos monges brancos são mais e mais variadas: construção de aquedutos, diques e barragens (mesmo em rios de média dimensão); cisternas eficazes a aproveitar águas infiltradas e a prevenir inundações; escolhas certeiras de localização de cenóbios, ocupando o único ponto com água num cenário de aridez; evacuação de água do interior de minas, etc.

'Contra a sua vontade', os cistercienses experimentaram novas técnicas de exploração. Isso pela própria força das coisas, porque colocavam, nas suas realizações temporais, a seriedade, a inteligência, a paixão que animavam as suas práticas de interiorização espiritual.

Por isso foram responsáveis por tecnologias agronómicas e industriais revolucionárias. Voltemos a Duby:

“Monges e conversos, rendeiros do senhor Deus, melhoraram as raças animais – e um testemunho disso é o progressivo aumento dos pergaminhos que eles fabricavam com a pele de animais jovens – conseguiram reconstituir a fertilidade das suas terras por meios menos toscos.

Richard, abade de Wallingford em trabalhos de trigonometria, History of the abbots of St Albans, século XIV, British Library
Richard, abade de Wallingford em trabalhos de trigonometria.
History of the abbots of St Albans, século XIV, British Library
“Foram os campeões do adubo, das rotações fecundadoras; foram os campeões do trabalho da terra. Avisados acerca das melhores maneiras de atrelar os bois, aplicando ao solo dos campos, para melhor o revolver, o ferro...no século XIII, a Ordem de Cister colocou-se na vanguarda do desenvolvimento da metalurgia, [solicitando aos príncipes a doação das ferrarias mais ricas, domesticando a força das águas correntes para melhor bater o metal]. Cister, que erigiu as suas forjas com tanta majestade como os seus santuários.”

Desta forma, a cidade monástica prolongou-se para fora da muralha em propriedades e explorações. Projecções essas que foram racionalmente acompanhadas e pensadas nos campos da contabilidade, dos cartulários, dos censuais.

Por isso deram lugar a grandes aperfeiçoamentos de modelos de gestão e traduziram-se em práticas avançadas de arquivística, de gestão contabilística, de recenseamento fundiário e de cadastro de terras.



(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)



Continua no próximo post: Abadias beneditinas: modelos de governo monárquico-aristocráticos-democráticos



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