domingo, 6 de novembro de 2016

A Luz de Cristo e o charme da Idade Média

Jesus Cristo, San Paolo fuori le mura, Roma

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Na cerimônia da madrugada da Resurreição, no jardim tirava-se fogo do atrito da pedra e acendia-se o círio pascal.

Porque assim como Nosso Senhor Jesus Cristo deu vida a seu próprio cadáver, assim da fricção de matérias inertes como as pedras nasce uma chama viva para acender o círio pascal.

Então, na noite, no crepúsculo, nas trevas, é acesa uma luz: é Nosso Senhor Jesus Cristo que ressuscita!

Acende-se o círio pascal e o padre entra com uma vela acesa na igreja e canta três vezes Lumen Christi. As velas vão se acendendo e daí a pouco a igreja está toda iluminada pelo círio pascal.

Essa expressão Lumen Christi ficou-me como imensamente bonita e nobre, querendo dizer mil coisas.

O que é que vem a ser especificamente a Luz de Cristo, ou Lumen Christi?

A expressão Lumen Christi, tomada ao pé da letra, literalmente, é adequada. É uma certa luz que há em Nosso Senhor Jesus Cristo, e que é a luz de toda Sua pessoa.

Ostensório reservado para a adoração do Santíssimo Sacramento. Catedral de Sevilha, Espanha.
Ostensório reservado para a adoração do Santíssimo Sacramento.
Catedral de Sevilha, Espanha.
Portanto, é a luz de sua natureza divina que transparece através de sua natureza humana. Sua natureza humana tem uma luz própria por causa de sua suma perfeição e retidão.

Tudo quanto Ele disse e fez, pelo fato de ter sido dito e feito por Ele brilha sempre e de modo esplendoroso.

Por causa disso não se pode deixar de ler sem emoção o Evangelho. Tudo aquilo tem Lumen Christi.

A Igreja também, a seu modo, tem um reluzimento.

A Igreja é uma instituição sobrenatural composta por uma Hierarquia e por uma plebe fiel em que todos são homens.

O reluzimento d’Ela em seu ensino, governo, modo de ser, manifestações litúrgicas, etc., como vem de Nosso Senhor Jesus Cristo, também pode ser chamado Lumen Christi.

Por exemplo, não poderia haver coisa mais bonita do que o bispo que entrava na igreja para uma cerimônia solene.

Eu me lembro que me aconteceu até de carregar o pálio para o bispo nessas ocasiões.

Na igreja de Santa Cecília o bispo chegava de automóvel, em particular, atrás da sacristia. Ele entrava, paramentava-se na sacristia.

O pálio, carregado pelas pessoas mais notáveis da paróquia, esperava na saída da sacristia, na porta do fundo.

E o bispo ia a pé pela rua então com todos os sinos tocando, o órgão em todos os registros, o coro cantando, etc. De fora da igreja se ouvia a festa dentro da igreja.

O bispo entrava e o coro cantava alguma música, por exemplo Ex Sacerdos Magnus, e o bispo com mitra alta, com luvas bordadas de ouro, báculo e dando a bênção ao povo, solenemente.

E o povo se ajoelhando enquanto o bispo passava.

Isto, em certos momentos, irradiava para nossa alma uma impressão que eu chamaria Lumen Christi.

Ato de obediencia dos cardeais ao novo Papa
Os Cardeais prestam reconhecimento e reverência ao Papa que acaba de ser eleito.
Muito maior ainda era o Papa entrando na Basílica de São Pedro. Pio XII, por exemplo, eu vi isto, entrando na Basílica de São Pedro, ainda na Sedia Gestatória, com todo o cortejo.

Os prelados orientais com aquelas mitras. Eu me lembro de um prelado negro, com um véu cor de rosa, leve, bordado com umas pedrinhas, de cada lado uma cruz com pedrinhas verdes; quando o Papa passou perto dele e abençoou, ele tomou uma cruzinha e agradeceu a bênção do Papa fazendo o sinal da cruz.

Depois vinham os gerais das ordens religiosas e povo apontava: “lá vai o Geral dos jesuítas”. O coro cantando.

Já antes de entrar o Papa, quando ele saia dos apartamentos dele, começavam a tocar as 200 ou 300 cornetas de prata de Michelangelo.

O Papa entrava na Sedia Gestatória e a Basílica inteira se levantava de entusiasmo. Era uma coisa do outro mundo de entusiasmo!

E a gente olhava assim para a Basílica, e lá de dentro, escrito em mosaico: “Tu est Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam, et portae inferi non praevaletunt”. (“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”)

Papa Pio XII na Sedia gestatoria, Praça de São Pedro
O Papa Pio XII na Sedia Gestatória
Era uma espécie de confirmação histórica e verdadeira de que a promessa se cumpriu. Muita gente pensava em São Pedro crucificado sarcasticamente de cabeça para baixo e nos ossos dele ingloriamente sepultados ali embaixo.

Os que enterraram São Pedro acharam que as portas de inferno tinham prevalecido.

Em cima, na nave da imensa basílica, ao cabo de 20 séculos, quando a vida terrena de Nosso Senhor já está longe, tudo quanto é da vida terrena d’Ele envelheceu e virou poeira, aquela vitória estupenda!

E em todas as línguas todo mundo cantando: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

Aquilo dava uma impressão de força sacral, nobre, que descia do Céu, que não era uma força da natureza, mas uma força da ordem, uma força esplendorosa da virtude, do bem, uma coisa sacrossanta.

Isto era, num alto grau de intensidade, o Lumen Christi.

A Luz de Cristo brilha até nas mais longínquas obras da Igreja. Capela de Nossa Senhora da Conceição, engenho Bento Velho, Vitória de Santo Antão, Pernambuco
A Luz de Cristo brilha até nas mais longínquas obras da Igreja.
Capela de Nossa Senhora da Conceição, engenho Bento Velho,
Vitória de Santo Antão, Pernambuco
Quando era menino, o interior do Brasil era menos habitado, a gente viajava de trem e passava por longas vastidões, com vilarejos pequenininhos, de vez em quando alguma cidade, etc.

Naquela natureza quase inculta, de repente no alto da montanha, uma igrejinha com uma cruz.

A presença daquela igrejinha conferia à harmonia daquela natureza abandonada, uma nota e uma presença suave, sobrenatural, digna, delicada, amena, convidando ao recolhimento no meio daquelas vastidões quase não habitadas.

Era quase um ósculo e uma bênção de Deus àquela natureza virginal, que ainda não tinha sido maculada pela presença do pecado dos homens.

Uma verdadeira maravilha!

Era uma coisa pequena, mas no meu modo de sentir, era uma outra afirmação do Lumen Christi, da luz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim como há um Lumen Christi que se manifesta na Igreja, a Cristandade também tem o seu lumen próprio.

Nas origens da Europa católica a Luz de Cristo atingiu uma plenitude
Nas origens da Europa católica a Luz de Cristo atingiu uma plenitude
Este lumen da Igreja e do espírito religioso e ortodoxo dos católicos, enquanto refletindo na ordem temporal constitui a Cristandade.

Este lumen também pode ser chamado, com a devida analogia, de Lumen Christi.

Europa é a parte mais culturalizada e mais carregada de tradições do mundo.

Nela, essa Luz de Cristo brilhou como em nenhum outro lugar do mundo.

E ela atingiu uma como que plenitude, durante a Era Medieval.

A Civilização Cristã traz consigo a plenitude histórica do Lumen Christi.

Por assim dizer, o solo europeu ficou ensopado das bênçãos do precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, seleção de anotações em datas diversas, sem revisão do autor).



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2 comentários:

Anônimo disse...

Magnifico!!! Como é bela e nobre a Sacrossancta Mãe Igreja Católica de N.S jesus Cristo.

Os diamantes negros disse...

Num mundo em que as trevas avançam, é uma dádiva este texto do Lumen Christi. Que Nosso Senhor tenha misericórdia de nós.

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